Capítulo 405 – Os Espíritos de Fogo e Gelo, e o Amor Divino
No oeste do continente dos dois mundos, ou seja, continente que era mundo sombrio, tem dois países com problema.
O País do Fogo, Daubān, e o País do Gelo, Zādonia.
País de relação tipo cão e gato, cada um chamando o outro de ladrão.
Perguntando aos reis do continente oeste, quem briga parece ser principalmente gente de cima, nobre e rei, mas o povo, arrastado nisso, deve sofrer incômodo, hein.
Cada um insiste que o outro roubou a oferenda destinada ao deus reverenciado por eles. Por causa disso, receberam maldição divina, virando terra escaldante e terra de frio extremo.
Na minha opinião, isso não é deus. Provavelmente deve ser espírito. Talvez tenha acontecido algo há algumas centenas de anos, penso.
— Então, vim aqui pra ouvir a história.
— Falando assim, hein…
— Que confuso, hein.
No mundo espiritual, aonde vim via [Teletransporte Interdimensional]. Neste mundo onde flutua neblina cor branco-leitosa brilhante, estou frente a frente com o espírito de fogo e o espírito de gelo.
Na mesa entre os dois e eu, tem prato empilhado com biscoitos que trouxe de presente.
O espírito de fogo é espírito logo abaixo do grande espírito, o espírito do fogo. Igual à mana-chefe, o espírito do fogo, é garota de cabelo curto vermelho, estilo moleque, transbordando vivacidade. De algum jeito, parece com o espírito do fogo. Se dissesse que é irmã caçula dela, eu acreditaria.
O espírito de gelo também é espírito logo abaixo do grande espírito, mesmo nível que o espírito de fogo. Parece ser tipo irmã mais velha do espírito da neve, que era mãe da Imperatriz de Ishen, a Shirahime.
Garota de cabelo comprido azul-gelo, tipo corte princesa, dando impressão fria por não mostrar muito sentimento no rosto. Será por ser espírito de gelo? Frio.
— A gente ressuscitou uma vez há cerca de quinhentos anos, sabe. Por isso, não lembra bem dessa parte. Sinto que talvez a gente tenha ficado com raiva, mas também sinto que não…
— Eu também. Se meus servos estão instalados naquela terra, deve ter acontecido algo, mas os detalhes…
Nem elas mesmas sabem, sério. Espírito é existência imortal. Repete morte e ressurreição em ciclo de alguns milhares de anos. Toda vez, é resetado, renascendo com memória e aparência diferentes. Dizem até que às vezes vira homem, às vezes vira mulher, mudando até o sexo aparente.
Mesmo que sejam elas que lançaram a maldição no País do Fogo Daubān e no País do Gelo Zādonia (se é que é maldição mesmo), isso deixa o motivo ainda mais obscuro.
— Não entendo bem, mas, se for o caso, quer que a gente retire nossos servos daquela terra?
— Hmm, isso também é opção, mas… por ora, tá bom assim. Parece que não seria solução de raiz mesmo.
Não é que estão brigando só por causa de calor ou frio mesmo. E acho que mudança climática brusca também traz efeito negativo pro corpo humano.
Mas talvez seja opção desfazer a maldição (mesmo não sendo maldição) devagar. Se o clima ficar ameno, talvez parem a briga… não posso esperar muito, mas.
— Vocês duas não são de relação ruim entre si, né?
— Não somos. Outro dia mesmo brincamos junto. Né?
— Sim. Só que se combina ou não combina muda a cada ressurreição, então não posso garantir sobre vidas passadas…
Faz sentido. Antes de ressuscitar, era outra pessoa mesmo. Talvez tivessem relação ruim.
— Mas, perguntando pra espíritos que conhecem vidas passadas, dizem que não era tão ruim assim, sabe? Parece que não eram tão amigas quanto agora, mas.
— É mesmo. Eu também ouvi da minha irmã da água.
Hum, causa desconhecida, é. …Certo, vou desistir.
Não é que quero fazer o Daubān e o Zādonia se reconciliarem agora mesmo! De propósito. Não preciso me meter à força nisso.
Se descobrisse a causa e desse pra resolver rápido, tudo bem também, mas, se não der, é isso mesmo.
— Desculpa tomar seu tempo. Aqui, esse pacote de biscoitos. Compartilha com todo mundo.
Entrego o presente e deixo o mundo espiritual. No fim, qual será a causa, hein.
Sinto que talvez fosse melhor sequestrar os dois reis, prender os dois sozinhos em algum lugar tipo "esquece o passado e faz as pazes!". Tipo ilha deserta. Se passarem por situação de vida ou morte juntos, será que não ficam amigos?
— Ah, tanto faz. Nem daria pra fazer isso, francamente.
Auto-comentário debochando de mim mesmo, volto pra Babylon.
No "Jardim", justamente todo mundo estava tomando chá.
— «Bem-vindo de volta ao "Jardim", mestre. Vou trazer o chá imediatamente.»
— Ah, obrigado.
A Shesuka, de vestido de empregada que estava servindo, teletransporta em direção ao gazebo onde todos estão… o tipo mirante estilo ocidental. Deve ter ido pro castelo buscar xícara e chá.
Sento na mesa redonda, no espaço vazio entre a Yumina e a Yae.
— Aonde você foi, Touya-san?
— Ah, fui rapidinho pro mundo espiritual. Fui ouvir dos espíritos de fogo e gelo, mas não veio informação útil.
— Ah, é sobre aquele país incômodo brigando por causa de calor e frio, né?
Não é bem que estão brigando por causa de calor e frio, mas. Incômodo, com certeza é.
— O que vocês tavam falando?
— Sobre várias coisas recentes, sabe. Aliás, ei, Darling. Queria perguntar uma coisa.
— Hn? O que foi?
A Rin pousa a xícara, direcionando o olhar na minha direção. Todos também prestam atenção fixa em mim, "jitt". O que foi, o que foi?
— Você, quando ficou noivo da gente, falou que casamento seria depois dos 18, né?
— É, uhum, falei.
— Recentemente, minha irmã Karen ensinou. O mundo de onde você veio, e este nosso mundo. "O número de dias do ano é diferente" — será que isso é verdade?
A Rin me observa com olhar meio zombeteiro. Diante disso, mesmo sorrindo, não consigo parar o suor escorrendo feito cascata.
— Você. Segundo o calendário do seu mundo original, já não fez 18 anos?
Fui descoberto. Fui descoberto de vez. Fonte de informação deve ser a irmã Karen.
Na verdade, é isso mesmo. No início, eu mesmo não tinha percebido, mas o ano deste mundo é mais longo que o nosso ano, mais que os 365 dias. Cerca de quatro meses a mais. Ou seja, o ano tem 16 meses.
Quando apareceu "mês 13" no smartphone, duvidei dos meus olhos. Sem querer, cheguei a confirmar com a Kōsaka-san.
Como sempre conferia a data pelo smartphone, não tinha percebido até então. Aqui, até a estação do ano é bagunçada mesmo.
Depois de descobrir isso, passei a me ajustar ao calendário daqui, então, sem dúvida, "neste mundo" eu tenho 17 anos.
No mundo original… na verdade, já fiz 18. Sim.
— Não, não é que eu quisesse esconder, sabe. Já que decidi virar gente daqui, achei que fazia sentido aplicar o calendário daqui mesmo. Porque, sabe? Se calcular pelo calendário da Terra, acredite se quiser, a Yumina ficaria mais velha que eu, viu? A Yumina de 14 anos viraria 18 anos e 8 meses no calendário da Terra. E a Rin, então,
— Cala a boca, Darling.
— Sim…
Sorriso de anjo e olhar quase capaz de matar disparados pela Rin. Pressão de quem é muito mais velha… é absurda demais.
A Rinze, corando, abre a boca.
— E, então, isso significa que já dá pra casar com o Touya-san?
— Isso depende do Darling, mas… na situação atual, deve ser difícil mesmo, né. Tem a questão do deus maligno, e mais outras coisas.
— Outras coisas?
A Yae inclina a cabeça diante da resposta da Rin.
— É… se, se tiver filho, precisaria sair da linha de frente, né…
Não, não, não, Rin-san, isso é adiantar demais. Não tem garantia nenhuma de acontecer.
Corada de vermelho, a Rin, e, como se fosse contagioso, o rosto de todos na mesa também fica vermelho. Eu também não sou exceção.
Vendo até a Sū corando, bebendo suco, sinto emoção estranha, tipo "ela cresceu, hein"…
— B, bom, deixa isso de lado. Foi errado ficar quieto, mas, de fato, enquanto o problema do deus maligno não se resolver, não dá pra casar com segurança. Por isso, pretendo resolver isso antes de tudo, custe o que custar.
— Dá pra vencer?
— Se resolver o Veneno Divino-Demoníaco, sim. Mesmo tendo incorporado deus, o outro lado é deus NEET da categoria mais baixa, ainda abaixo do mais baixo. E eu sou servo do deus supremo, viu? E ainda por cima, mesmo estando humanizado, tenho o apoio de sete deuses. Se não conseguir vencer isso, sou incompetente extremo mesmo.
Quero acreditar que não chego a esse ponto. Uhum. Afinal, isso é tipo teste do Deus do Mundo. Pra eu virar administrador deste mundo.
Fico pensando de repente se aquele tal Yura não sabe de nada.
Deve ser que ele nem sabe que o deus que incorporou pela própria trama maligna é deus da categoria mais baixa, ainda abaixo do mais baixo, NEET. Aquele deus NEET, que só tinha orgulho, provavelmente nunca falaria nem sob tortura "eu sou subordinado dos subordinados dos deuses!".
Será que não tá se passando por tipo "eu sou o Deus do Mundo"… deve estar mesmo, hein. Bom, tanto faz.
— Ah, aliás, parece que a Rū despertou a [Característica de Servo].
— Eh, sério?
Diante da fala repentina da Eruze, direciono o olhar pra Rū.
— Ah, sim. Mas não é algo voltado pra combate…
A Rū dá risada amarela.
[Característica de Servo] é a benção divina que desperta em quem virou servo dos deuses. No caso da Rū e do pessoal, é especial: existe possibilidade de terem virado servo de oito deuses — eu, irmã Karen, irmã Moroha, tio Kōsuke, irmão Sōsuke, irmã Karina, Sekka, tio Buryu.
Não é todos os oito. Por exemplo, a Sakura tem alta possibilidade de ter virado servo do irmão Sōsuke… deus da música, além de mim. Faz sentido, sempre cantam juntos na cidade.
Da mesma forma, a Yae e a Hiruda provavelmente são servas também da irmã Moroha, deusa espadachim; a Eruze, do tio Buryu, deus marcial.
Claro, principal, é eu mesmo.
[Característica de Servo] é benção divina. Esse poder também é poder que pertence ao domínio divino.
A Yumina desenvolveu leve "premonição do futuro", a Sakura desenvolveu "hiperaudição". E, a Rū?
— É, sinto que meu paladar ficou estranhamente aguçado. Tipo, consigo identificar componente… tipo qual ingrediente foi usado e quanto, vagamente, mas…
Aah, foi por aí, hein.
A Rū sempre cozinha com a chef Kurea-san. A habilidade dela já é praticamente nível profissional. Mesmo nunca tendo segurado faca antes de me conhecer. Igual à "hiperaudição" da Sakura, será que a [Característica de Servo] eleva a aptidão natural da pessoa?
— O sentido da Rū-san é incrível, viu. Ela percebe até um grão de sal colocado num copo d'água.
— Isso é incrível mesmo… mas, sendo tão aguçado assim, se comer algo ruim, não deve ser super pesado?
— Não, se não prestar atenção, não ativa. Digamos que tem interruptor…
— Entendo. Eu também. Se não prestar atenção, não ouço som desnecessário.
Diante da fala da Rū, a Sakura assente. Dá pra alternar. Bom, se ficasse ativo o tempo todo, seria pesado mesmo. Igual meu "Olho Divino" também.
— Que inveja, hein. Ei, Touya, dá logo [Característica de Servo] pra mim também.
— Não, não funciona assim, não.
Respondo com risada amarela diante da fala da Sū. [Característica de Servo] tem diferença individual, não tem regra tipo "fazendo isso, desperta". Entendo o sentimento, mas isso não dá pra controlar.
A Rinze também abre a boca timidamente.
— A, aquilo… não é que falta "amor divino", né?
— N, não é isso!? É só diferença individual de aptidão mesmo, não é isso, viu!
Não duvida do amor. Isso é importante.
— Talvez característica de sentido desperte mais fácil que característica física.
— De fato. Talvez seja como a Hiruda diz. A Yumina, a Sakura, a Rū são relacionadas a visão, audição, paladar.
— A "premonição do futuro" ser visão é duvidoso, hein.
— Não deixa de ser "ver", né? Sinto que a Hiruda, a Yae, a Eruze e o pessoal devem desenvolver característica física.
Tipo aumentar capacidade física. Ou melhor, isso já não aconteceu?
Originalmente, mesmo a Sū, que menos tem capacidade de combate, se move em nível equivalente aos nossos cavaleiros. Sem nem treinar, já é assim. Dá pra imaginar quão fora do padrão são a Yae, a Hiruda, a Eruze e o pessoal. "Amor divino" é isso mesmo.
Ah? Agora que percebo, se a gente tiver filho, isso não vai ser absurdo demais…? Meio-deus, e ainda por cima filho amado por vários deuses como a irmã Karen… deve ser bem difícil de educar…
Quase tudo filha, mas. Espero que cresçam gentis…
— Característica física, que tipo seria, afinal?
— Não seria algo tipo [Boost] da Eruze-san?
— Eeh~. Eu já tenho isso, queria algo diferente.
Enquanto o trio provável de desenvolver característica física conversa assim, se essas três receberem isso, vira tipo demônio com bastão de ferro, tigre com asa, Benkei com naginata, hein…
— Física, tipo, não é que vai crescer asa, né?
— Não cresce, não. Até em mim, foi só o cabelo que cresceu mais. Não tem mudança desse tipo.
Rio negando a fala da Rinze. De fato, crescer asa branca pura, com aparência bem de "anjo", talvez até combinasse mais com servo dos deuses.
— Que chato, hein. Achei que ia crescer mais de altura, ou o peito ia ficar maior, ou virar "nice body" igual à irmã Karen.
Não, não, não. Se a Sū virasse assim, isso já seria transformação. Não é característica nem nada.
Mas será que a Sū e o pessoal já se preocupam com isso, hein… tamanho de peito e tal. Não, com doze anos, não é estranho mesmo.
A Sū toca no próprio inchaço modesto, "petapeta".
— Será que não cresce até o tamanho da Floura, hein.
— Não, aquilo é fora do padrão. Não dá pra comparar.
A Eruze faz o comentário crítico.
Gerente do "Torreão da Alquimia", Floura. Aquilo, mesmo sendo generoso, passa de 100. Talvez até chegue a 120. E ainda mantém aquela forma abundante como se desafiasse a gravidade. Estilo também bom, não é "grande" por estar gorda.
Sendo originalmente ser vivo artificial tipo homúnculo, acho que não adianta competir nessa parte.
De algum jeito, a Yumina, a Rū, a Rinze, a Eruze ficam meio deprimidas.
A Sakura não parece se importar muito, e a Rin, mais que folga de idade mais velha, parece ter desistido. A Yae comprime com faixa, mas tem bastante, e a Hiruda é bem comum.
— A Floura-san será que não usa remédio pra crescer, hein…
— Não, o "estimulante de aumento de busto" tá guardado com a Parushe do "Armazém", então a dela deve ser natural, ne…
Diante da murmura da Rinze, sem querer respondo assim, mas, vendo os olhos arregalados das quatro erguendo o rosto num piscar, "ba!", percebo que a boca escapou totalmente.
— Ei, Touya, como assim?
— Você disse "estimulante de aumento de busto", foi?
— Ficar no "Armazém" significa que existe mesmo, né?
— Touya-san? Touya-san? Touya-san?
— Não, é, espera, isso tem um motivo profundo, viu!
Sendo pressionado com olhos arregalados sem piscar, é assustador demais!
Bom, "motivo profundo" nada, já é suspeito só por ser produção caseira daquela Doutora! Se virasse mais de 300 centímetros, seria assustador demais! Com certeza tem algum defeito!
— Eruze-san e Rū-san, vão até o "Laboratório" pegar a Doutora. Precisamos conseguir informação detalhada. Eu e a Rinze-san vamos até o "Armazém" garantir o item físico.
— Combinado!
— Entendido!
Seguindo a instrução da Yumina, a Eruze e a Rū correm em direção ao "Laboratório". Ação rápida demais!
— Então, nós também
— Sim
Em seguida, a Rinze e a Yumina também correm em direção ao "Armazém". Espe, tá usando [Accel] do anel!?
— Parece interessante, hein. Eu também!
— Hn. Eu também vou.
A Sū e a Sakura também saem correndo em direção ao "Armazém".
— Um pouco de interesse tenho também, hein. Vou lá também.
— Então nós também vamos, viu.
— É verdade.
Até a Rin, a Yae, a Hiruda se levantam da mesa.
— A boca escapou, hein…
Como disseram que iam levar a Doutora, acho que os efeitos colaterais do remédio devem ficar comprovados, mas… fico até em dúvida se eu, que não duvido nem um pouco que existe efeito colateral, sou normal mesmo.
Depois disso, todo mundo parece ter recebido explicação detalhada sobre o "estimulante de aumento de busto" da Doutora.
Parece que é algo com o mesmo efeito de magia de transformação corporal, ou seja, algo que auxilia a habilidade de transformação por mana. Parece que se usa passando direto no peito.
Infelizmente não vi, mas, sem dúvida, aumentou.
Mas, pra manter, precisa de bastante mana própria da pessoa, e, com o tempo, conforme a mana é consumida, encolhe de volta ao tamanho original, feito balão murchando. Foi surpresa não ter efeito colateral. Repito, foi surpresa.
Parece que o efeito não durou nem trinta minutos… felizmente, parece que não caiu nem nada, ainda bem. Fico aliviado que voltou ao normal com naturalidade.
Como não dá pra suprir com minha magia de transferência [Transfer] a mana própria da pessoa, realmente não tem jeito mesmo.
Será que não teve jeito mesmo a Eruze e a Rinze, que ainda não despertaram [Característica de Servo], desejarem "aumento de mana"?
Mas, mesmo aumentando, o consumo de mana pra manter continua igual, então, no fim, acaba desaparecendo mesmo. É praticamente igual a tentar disparar [Fireball] eternamente.
Sonho humano, escrito, vira efêmero. Depois, só resta o vazio…
Depois disso, a Doutora falou "também tem versão masculina", mas, pra que homem aumentar o peito, francamente. Eh? Não é essa a questão? Fala coisa que eu não entendo, não.