Capítulo 406 – O Unicórnio, e o Chifre Sagrado
— Cauda de Fênix, lágrima de Holy Dragon, pele desprendida de serpente branca sagrada, chifre de unicórnio…
— Isso. Vamos misturar esses no adubo. Igual o outro lado foi habituando o Veneno Divino-Demoníaco aos poucos, deste lado também vou fazer essa muda… a "Árvore Sagrada", absorver algo com poder de purificação, elevando seu poder.
Na direção do olhar do tio Kōsuke, tem uma muda que crescia cerca de vinte centímetros do chão.
— Ou seja, vamos absorver o poder dos chamados seres sagrados. Nós, deuses, temos poder forte demais, e acabaríamos reforçando o efeito do Veneno Divino-Demoníaco, e nem o Kohaku e o pessoal, sendo bestas divinas, servem.
— Que balanço difícil, hein.
Se der poder divino demais, essa árvore também vira serva dos deuses. Aí, ao invés de purificar, acabaria recebendo forte a toxidade do Veneno Divino-Demoníaco, e secaria facilmente.
Entendo que esses são materiais com efeito de purificação. Fênix é existência que regenera, e unicórnio tem poder de cura. Vamos absorver o poder desses pra fortalecer a "Árvore Sagrada", é isso.
Mas o que complica um pouco é que esses são bestas sagradas.
Não são monstros. Ou seja, não causam mal aos humanos. Têm alta inteligência, conseguem se comunicar com humanos.
Bom, resumindo, não dá pra derrotar e obter o material assim. Precisa negociar e pedir pra cederem.
— Acho que dá pra resolver Holy Dragon, serpente branca sagrada e Fênix. Holy Dragon é subordinado do Ruri, e a serpente branca sagrada e a Fênix, acho que o Coral, o Kokuyō e o Kōgyoku conseguem resolver conversando. O problema é o unicórnio.
— Hum. E o Kohaku-kun? Mesmo sendo besta sagrada, continua sendo espécie fera, né. Não dá jeito?
— Isso é que a compatibilidade dele é péssima mesmo… quase certeza que vira briga. O Kohaku disse "esse tipo aí, é só caçar sem dó!"
— Ah, isso não pode. Se matar, o rancor e a mágoa do unicórnio corrompem o chifre, e o poder de purificação, que tanto custou, fica contaminado. Isso não teria sentido nenhum.
Unicórnio vive numa floresta especial dentro da Grande Floresta. Lugar isolado do mundo externo, onde não permite entrada de ninguém. Bom, eu consigo entrar, mas.
Afinal, tenho relação amistosa com a tribo Rauri, "tribo do rei-árvore", que governa a Grande Floresta.
Só que o problema é que unicórnio não se aproxima de homem. Não, precisamente falando, só deixa se aproximar de virgem pura. Ou seja, mesmo mulher, se não for virgem, parece que não consegue tocar.
Parece que têm temperamento bem feroz e agressivo, atacando sem dó homem e não-virgem, e, se capturado, chegam ao ponto de apodrecer o próprio chifre e tirar a própria vida. Odeiam a esse nível…
De qualquer forma, criatura incômoda.
— Bom, de qualquer forma, vou tentar reunir de algum jeito.
— Sim. Conto com você. Só com isso completo, a "Árvore Sagrada" que purifica o Veneno Divino-Demoníaco deve ficar pronta.
Certo. Mas vou precisar de colaboradores, hein…
Espero que ninguém recue.
— Unicórnio, hein…
— Resumindo, é cavalo tarado que curte mulher, né? Deixa comigo.
A Eruze solta comentário bem ácido. O valor da besta sagrada já caindo direto.
Sem poder derrotar e obter, só resta negociar e conseguir por concessão. Se direciona hostilidade contra homem e não-virgem, só resta deixar essa função com as donzelas puras.
…Só pra constar, não fiz aquela confirmação péssima de "vocês são virgens, né?" com todo mundo, viu.
Com pensamento de que, quanto mais mulher, mais o unicórnio pode ceder o chifre de bom grado, levo todas as noivas e chegamos em bando na Grande Floresta.
Com a Pamu, chefe da tribo Rauri, "tribo do rei-árvore" que governa a Grande Floresta, já consegui permissão pra entrar na floresta do unicórnio direitinho.
— Dá pra conversar com o unicórnio?
— Segundo o Kohaku, parece que sim. Sendo besta sagrada, tem bastante inteligência, dá pra falar até língua humana, e parece que dá pra se comunicar sem problema.
Respondo à dúvida da Hiruda. Bom, nesse caso, o problema é que a inteligência é alta demais, gerando apego estranho.
— Eu já conversei com unicórnio algumas vezes… mas é bem teimoso, viu? A atitude muda 180 graus dependendo de quem é. Com donzela pura, trata igual cavaleiro, mas com outra mulher, xinga sem parar, é normal.
Fico enjoado com a informação da Rin. Se, com mulher não-pura, já é assim, homem então, nem imagino o que vão falar.
— Como será que ele identifica isso, hein?
— Sei lá… cheiro?
— Que sensação ruim, hein…
Diante da conversa da Rinze e da Sakura, a Rū faz cara de nojo.
Cheiro, ou melhor, será tipo feromônio. Identifica farejando algo desse tipo… de qualquer forma, é meio pervertido.
— Oh? Touya, uma nascente. Bonito.
Avançando pela floresta, chegamos a um lugar aberto com grande nascente. Água transparente e límpida ondulando naquela paisagem nos dá sensação fantástica, quase igual ao "Cenote", nascente misteriosa da Península de Yucatán.
— Touya-san, aquilo… olha.
— É um unicórnio…
Onde a Yumina aponta, um unicórnio bebia água da nascente.
Aparência de cavalo branco. Mas, da testa, se estende chifre longo em espiral. Preciso obter isso de qualquer jeito.
— Melhor eu não me aproximar mais.
— É. Já tá em alerta. Não é tão idiota assim de não saber sua força, então não deve te atacar diretamente, mas.
Como a Rin diz, o unicórnio para de beber água, direcionando o olhar na nossa direção. Que olhar ruim! Sensação de estar sendo encarado por delinquente ou algo assim.
— «Tch»
Estalou a língua!? Ei, ele acabou de estalar a língua, né!? Unicórnio estala língua!?
— Sinto que a imagem é bem diferente do que eu esperava, hein…
— É. De algum jeito, sinto que tá meio destroçado…?
A Yae e a Hiruda se entreolham, franzindo a sobrancelha.
— Unicórnio também deve ter os bons e os ruins, né. E aí, quem vai?
— Parece meio difícil de lidar, hein… que tal a Rū-dono?
— Eh? Eu?
— Não é boa ideia? Sendo princesa, talvez combine.
Empurrada pela Eruze e pela Yae, primeiro a Rū vai.
Devagar, a Rū se aproxima do unicórnio parado na margem da nascente.
O unicórnio, sem desviar o olhar da Rū que chega diante dele, continua encarando fixamente. Feito delinquente marcando com olhar.
— B, boa tarde. Sou Rūshia. Gostaria de conversar um pouco…
Diante da Rū que fala com sorriso, o unicórnio se move desviando pro lado.
…Eh?
Quando a Rū vai pra frente do unicórnio, de novo ele volta pra posição original. Quando a Rū persegue, de novo desvia pro lado. Dá pra ver claramente que está evitando a Rū.
— Aquilo…!
— «Não chega.»
O unicórnio fala pela primeira vez. Diante disso, todos nós congelamos. Dizem que unicórnio gosta de donzela pura, se apegando a ela. Ser rejeitada por essa existência significa…
— C, contrário disso, viu!
Gritando alto, a Rū corre de volta na nossa direção. Rosto desesperado demais. Nos olhos, leve lágrima.
— E, eu sou pura! Nunca faria esse tipo de coisa com ninguém além do Touya-sama! Por favor, acreditem em mim!
— T, tô sabendo. Uhum. Se acalma, tá?
Além de mim, ou melhor, mesmo comigo, ainda não fizemos nada, mas. Como a Rū tá com cara desesperada demais, meio que recuo um passo.
— …O que significa isso?
Enquanto consolo a Rū, a Yumina, ao lado, torce a cabeça.
— Yumina-san! Até a Yumina-san duvida da minha castidade!?
— Ah, não é isso. Mesmo sendo donzela, o unicórnio evitou… isso é estranho, né?
De fato. Claro, eu também, mesmo com a Rū se agarrando em mim com olhos marejados, não duvido nem um pouco da castidade dela. Então, quem tá estranho é aquele unicórnio.
— Será que não é do tipo dele? Então, ao contrário… é, a Yae, vai lá tentar.
— Rin-dono… esse jeito de falar tá me incomodando, viu…
Encarando a Rin um pouco, a Yae vai andando até o unicórnio.
Mas, de novo, o unicórnio desvia da Yae, esquivando da mão que tentava tocá-lo.
Ficando irritada, a Yae tenta agarrar o unicórnio, e de novo vem palavra inacreditável.
— «Não toca. Vai pegar cheiro de homem.»
— C, contrário disso, viu!
A Yae, igual à Rū, chora vindo correndo na minha direção. Feito tackle, também se agarra em mim, igual à Rū.
— Eu, nunca com outro homem! Nunca mesmo!
— Ah, tô sabendo. Cheiro de homem deve ser o meu mesmo, provavelmente.
Parece que aquele unicórnio tem obsessão por limpeza absurda. Parece que não tolera nem sombra leve de homem.
Mesmo assim, de qualquer forma, precisamos que pelo menos ouça a conversa.
— Agora, eu vou.
— A Sakura? Vai ficar tudo bem?
— Tudo bem. Não importa o que falar, tô tranquila. Só vou passar o recado.
A Sakura se aproxima do unicórnio cantando baixinho. O unicórnio também, talvez interessado na canção da Sakura, não mostra sinal de fuga. Também porque a Sakura para a uma distância maior que a Rū e a Yae.
Terminando de cantar, a Sakura diz o recado direto.
— A gente quer seu chifre. Cede pra gente.
— «Ke. Achei que talvez fosse alguém um pouco melhor, mas é só interesse em dinheiro, hein. É pra dar de presente pra aquele homem?»
O chifre de unicórnio, moído em pó e bebido, dizem que cura qualquer doença ou ferimento na hora. Por isso, desde antigamente, é negociado por preço alto. Faz sentido pensar que é por interesse em dinheiro.
Mas, aos poucos, começo a ficar com raiva daquele unicórnio. Escutando calado, falando o que quer da Sakura. Quem ele pensa que é?
— …Melhor já matar logo esse cavalo teimoso? Se cortar o pescoço rápido o suficiente pra não sentir rancor nem mágoa, não fica contaminado, não é?
A Yae murmura baixinho, como se falasse pelo meu sentimento.
Não, espera. Vamos guardar isso como último recurso. Matar seria muito arriscado mesmo.
— Direto ao ponto: como a gente tá pedindo pro unicórnio "por favor, cede o chifre", fica complicado.
— Então, o que fazemos?
— Fazer no formato de "por favor, aceite o chifre".
Já chega de ser submisso com aquele unicórnio. Resumindo, basta fazer ele quebrar o chifre de bom grado, né? Então, tem vários jeitos.
Kukuku… seu unicórnio podre, vou te mostrar o paraíso.
— Como sempre, faz cara de maldade, hein…
— Não é que teve alguma ideia terrível? Igual sempre, né?
A Yae e a Eruze falam algo, mas ignoro.
Chamando a Sakura de volta, dessa vez sou eu que vou pra frente do unicórnio.
O olhar do unicórnio sobe mais um nível do olhar de delinquente marcando. Olhar que quase transborda ódio me atravessa.
— Parece odiar homem intensamente, hein.
— «Ah? Não fala comigo, seu idiota. Eu odeio mais que tudo cara tipo você, que forma harém. Marca cheiro dizendo "é minha mulher" e não faz nada. Que folga, desgraçado! Vá pro inferno!»
Por um instante, fico inseguro se tudo bem usar o chifre desse aí na "Árvore Sagrada". Não caiu no lado sombrio, não?
Bom, tanto faz. De qualquer forma, vamos executar a operação.
— [Prison]
Expando [Prison] com raio de cerca de dois metros ao redor do unicórnio. Assim, já não tem como fugir.
— «Q…!»
— «O que você tá fazendo, desgraçado! Solta! Se não soltar, apodreço esse chifre! Tudo bem assim!? Hã!?»
— Calma, calma. Agora mesmo vou chamar sua garota favorita, sabe.
— «O quê?»
— [Em nome do rei dos espíritos. Venham, espíritos]. Invocar!
Dentro do [Prison], surgem três garotas lindas. Idade parecia entre início da adolescência, garotas-espírito de beleza rara. As três, beldades incomparáveis.
— «Uho!?»
O unicórnio solta voz de alegria. Esse cavalo tarado. Aproveita bem esse breve paraíso.
— Ainda vou chamar mais. Toma.
Diferente dos dois primeiros, outra garota linda de tipo diferente aparece dentro do [Prison], uma atrás da outra. Uma garota enrola o braço no pescoço do unicórnio, forçando-o a sentar, e as outras garotas que vão surgindo o cercam, prendendo-o.
— «Uhyohyohyohyo! Não sinto cheiro de homem! Sem dúvida, donzelas de primeira classe! Isso é incrível demais!»
Cada vez mais garotas-espírito surgem dentro do [Prison], e o unicórnio fica espremido. Mas o próprio interessado sorri feliz, radiante.
Agora é a chance, penso, e proponho a negociação.
— Que tal? Se me der o chifre, deixo você brincar com essas espíritos aí dentro por um dia inteiro, o que acha?
— «Um dia? Han, três dias. Faz três dias. Senão, não quero.»
— Tch, ganancioso, esse aí. Tá, combinado, três dias. Em troca, primeiro me dá o chifre. Fica tranquilo. Cumpro a promessa.
Dou permissão só pro chifre do unicórnio atravessar o [Prison], e corto com a Brunhild o chifre estendido pra fora. Chifre entregue por vontade própria. Não deve estar contaminado. Devia ter feito assim desde o início.
— «Cumpre a promessa, hein. Nada de essas garotas sumirem no meio, viu.»
— Cumpro a promessa, sim. Desculpa, mas, pessoal, aguentem brincar com esse aí por três dias. Ah, já podem voltar à forma original.
— «««« Ussu! »»»»
— «Eh?»
Diante da voz grave repentina saindo das garotas lindas, o unicórnio deixa escapar voz idiota.
As donzelas que estavam se enrolando no unicórnio, uma atrás da outra, mudam de forma pra homem musculoso ou senhor de corpo malhado. Cercado de estética física tipo fisiculturista, o unicórnio, escorrendo ranho, abre a boca bem grande.
— «Q, q, que negócio é essssssseeeee────────!?»
"Que negócio é esse", pergunta, mas, velho musculoso, são servos transbordando estética física corporal do espírito de pedra. Espírito de minério rústico. Que masculinos.
Óbvio que não tem cheiro de homem. Porque espírito não tem cheiro nenhum. E, quando eu, sendo rei dos espíritos, invoco pra terra, também consigo mudar a aparência da forma que eu quiser.
— Ah, vou também mandar junto bebida, comida e petisco. Se relaciona intensamente com esse aí, hein.
Teletransporto barril de bebida e comida pro dentro do [Prison]. Preciso tornar divertido esse paraíso musculoso de três dias, né. "Uoooooo! É festa!", os espíritos ficavam animados. O unicórnio soltava lágrima, ranho e baba. Nojento.
— «E, espera! Já chega da promessa! Me tira daqui! Hiiiiiii, o músculo! O suor━━!»
— Hahaha. Não precisa se conter, não. Aproveita ao máximo essa felicidade só de homens. Eu passo, obrigado.
— «Espera! Musculoso, musculoso demaiiis! Ahiiiiii! Não toca, não aperta━━!»
— Bem feito.
Deixo o lugar sem olhar pra trás. A Yumina e o pessoal me observavam com expressão indescritível, mas, assim mesmo, consegui o chifre, tudo resolvido.
Depois disso, ouvi da Pamu, chefe da Grande Floresta, que apareceu um unicórnio de temperamento diferente, que não deixa nenhuma mulher se aproximar, só grudando em homem musculoso.
Ele deve ter encontrado a própria felicidade.
Claro, óbvio que fingi não saber de nada.