Capítulo 426 – O Crime e o Castigo, e a Gratidão
Se possível, gostaria de deixar isso de lado, mas não dá pra ser assim.
Desço a escada que leva ao subsolo, no alojamento da ordem de cavaleiros. Essa instalação não existia inicialmente, foi adicionada depois. Descendo a escada em espiral até o fim, no corredor à frente tem uma porta espessa, e, na sala pequena ao lado, dois cavaleiros de plantão.
Um deles está de frente pra mesa preenchendo algum documento, e o outro faz flexão atrás dele.
Achei que já tinha visto esse rosto em algum lugar, e é um dos quatro semi-humanos que vi no exame de admissão de sobrevivência.
Quem preenche documento é o rapaz cão-lobo, e quem faz flexão é a mulher da raça leão. Se não me engano, se chamam Dingo e Ashley.
— Q, isso é Sua Majestade!
— Eh, Majestade!?
— Ah, deixem, deixem. Continuem assim mesmo.
O rapaz de cabeça de cachorro se levanta, e a mulher beastfolk com orelhas de leão, surpresa, cai no chão fazendo flexão.
Impedindo os dois de fazer saudação, aponto pra porta da masmorra ao lado.
— Tudo bem eu entrar?
— Sim! A chave tá aqui!
O Dingo entrega a chave grande pendurada na parede. Agradeço aos dois, usando a chave pra abrir a porta espessa de ferro.
Passando a porta, é a masmorra. À esquerda e direita do corredor, se abrem espaços tipo nicho em arco, e, na frente de cada um, tem grades de ferro resistentes instaladas, claro. Nas grades, está aplicada magia de gravação, com barreira equivalente ao meu [Prison].
Numa dessas masmorras internas, "ela" estava deitada.
Dentro da cela, tem tatame colocado sobre cama de pedra, e, em cima, futon estendido. Numa espécie de prateleira embutida na parede ao lado da cama, tem copo com Pedra da Luz Mágica no lugar de vela, brilhando dentro da água colocada. E, ao lado, óculos dobrados.
No fundo, tem chuveiro e banheiro separados por cortina. Masmorra luxuosa, hein. Mas, por isso mesmo, escapar é quase impossível. Com barreira de defesa mágica instalada por toda parte, mesmo cortando a grade, mesmo escavando a parede de pedra, não tem como fugir.
E, num canto do quarto, tinha um golem roxo preso num pilar de gelo. Meu [Caixão Eterno] não derrete a não ser que eu mesmo desative.
— Ei, tá dormindo?
— N~… não tô dormindo, não… espera, essa voz! Touya-yan!?
Chutando o cobertor de repente, a Runa levanta o corpo. Cabelo desgrenhado, mas parece com boa cor de pele.
— Bem disposta pra quem ficou trancada dias, hein.
— Buu. Me trancar num lugar desses, o Touya-yan é malvado, viu!
— Fala de "lugar desses", mas te ofereço três refeições direitinho, e não tem toda masmorra com chuveiro decente e banheiro, viu?
Banheiro tipo pote deve ser desagradável mesmo. Comparado a isso, deve tá curtindo vida luxuosa de masmorra até. Só que sem liberdade, claro.
Bom, tanto faz. Vamos direto ao ponto.
— Certo, você tem invasão do castelo real e tentativa de assassinato contra a família real, né…
— Invadi mesmo, mas família real… ah, quer dizer que tentei matar o Touya-yan?
Colocando os óculos que estavam na prateleira, a Runa fica com cara de "hã".
— Não só eu, a irmã Moroha e a irmã Karina também. Como sendo tipo meus parentes, tão registradas como família real, e…
— Aquilo! Aquelas irmãs absurdamente fortes são irmãs do Touya-yan!?
A Runa salta, "gashan!", segurando a grade, se aproximando de mim, e recuo um passo instintivamente.
— I, irmã de verdade, uma delas. A outra é irmã prima.
— Que incrível, hein! Não conseguia acertar nenhum ataque, e até a Viola foi derrotada num piscar de olhos! Aquelas irmãs devem conseguir me matar fácil!
Com olhos brilhando, a Runa entrelaça os dedos, contorcendo o corpo. Respiração ofegante. Pervertida? Ah, é pervertida mesmo.
— …Queria perguntar isso desde antes, você quer morrer?
— É~. Se der pra morrer, quero mesmo, sabe. Não sei bem por quê. Antigamente não queria morrer nem um pouco, estranho, né. Eu, ouvi da Nia-chin antes, quanto mais uso o poder da Viola, mais vou me quebrando. Aí, ela disse que a Viola vai acabar me matando algum dia.
Essa aí… entendia que a própria mente tava sendo corroída?
E, mesmo entendendo isso, fez toda aquela loucura, esperando ser morta pela Viola algum dia, mesmo tendo a mente corroída pela maldição dela?
— Aliás, a culpa é toda do Touya-yan. Achei que o Touya-yan conseguiria me matar, mas se revelou um frouxo total. Seu covardinho.
— Para com calúnia sem fundamento, por favor.
— Sabe, na hora de morrer, dá muito medo, né. No meu caso, isso aconteceu várias e várias vezes. Toda vez, várias coisas escapam da minha cabeça, e, sem perceber, o prazer superou o medo. Cortando e sendo cortada, esfaqueando e sendo esfaqueada de volta. A dor é gostosa, sabe. Faz eu pensar "ah, eu tô viva".
Só conseguindo sentir que tá viva através de se machucar. E, toda vez, a mente vai desmoronando, se aproximando da morte. Completamente sem salvação. O Kuromu Ranshesu, que gerou o "Coroa", deu poder incomparável ao golem, usando "custo" pago pelo mestre.
Isso, em certo sentido, é contrato com o demônio. Pra obter poder, algo precioso é tirado. No caso da Runa, isso talvez se chame custo da própria vida, mas, mesmo o corpo continuando vivo, se a mente morrer, não faz sentido nenhum.
E ainda por cima, é habilidade automática. Mesmo que a Runa não queira usar o poder do "Coroa", se a Runa se machuca e o corpo é danificado, a habilidade de "Coroa" da Viola a regenera, tirando o custo sem misericórdia. O mestre não tem nem direito de escolher usar ou não. É quase golpe.
— Por isso, se o Touya-yan me matar, ficaria feliz. Ah, mas mas, quero brigar com aquelas irmãs de novo também? Hmm, difícil de decidir.
— Eu passo. Por ora, não tenho intenção de te matar.
Ouvi da Bastet e o pessoal, mas parece que ela protegeu a Árvore Sagrada de qualquer jeito. Mesmo assim, não dá pra fingir que o crime não aconteceu. Precisa receber punição adequada.
— Eh? Depois de chegar até aqui? Isso é coisa de virgem,
— Cala a boca um pouco.
Essa aí não tem noção de delicadeza nenhuma!
Na verdade, já ouvi da engenheira Elka alguns métodos pra lidar com esse "custo" dela… precisamente falando, o sistema de "custo" dos "Coroa".
Normalmente, seria destruição do golem, mas a Viola tem "Super Regeneração". Isso fica difícil. Se usar meu poder divino, talvez não seja impossível, mas…
— Você, se eu falar que vou fazer a Viola desaparecer completamente, aceita? Assim você não fica mais anormal.
— A Viola? …Hmm, isso não, um pouco. A Viola não é criança má, sabe. É gentil comigo. Quando tô com fome, traz comida de algum lugar, e, quando tô com sono, me carrega nas costas e tal. A Viola também não deveria ter nascido desse jeito. Quem é ruim é justamente quem criou a Viola desse jeito.
Fica tranquila. Esse aí, no mundo de cinco mil anos atrás, pelo descontrole do "Coroa" branco, Albus, perdeu como "custo" toda a memória construída ao longo de longos anos. Meio que penso: será que já recebeu punição afinal?
Se destruir a Viola não pode, então outro jeito. Uso [Teletransporte] com poder divino, teletransportando pra dentro da masmorra. Normalmente, essa barreira de defesa também bloqueia magia de teletransporte, mas comigo não funciona. Virei fora de padrão de vários jeitos mesmo. Bom, isso já era antes.
— Ué!?
Ignorando a Runa surpresa com meu aparecimento repentino dentro da cela, me aproximo do pilar de gelo prendendo a Viola no canto.
Quando libero pela metade o [Caixão Eterno], o gelo derrete rapidamente, revelando a Viola exposta só do ombro pra cima.
— «Gi»
A Viola tenta escapar de dentro do gelo, mas, sem poder mover braço nem perna, não tem jeito.
— Viola. Vou pegar o "Coroa" de você. Não leva a mal, tá? O poder de você parece gerar infelicidade, então.
Segurando a cabeça da Viola, analiso com [Analyze]. Não sei o mecanismo detalhado, mas o fluxo de poder eu consigo perceber. Também a rota de mana conectada à Runa. Esse poder pode se chamar quase a própria Viola, então não dá pra apagar. Sendo assim,
— [Cracking]
Magia de modificação sem-atributo [Cracking]. Originalmente, é magia que modifica o efeito do artefato.
Mesmo dizendo isso, não dá pra transformar cetro que dispara bola de fogo pra disparar raio, por exemplo. Mas, tornar bola de fogo "menor", ou "não sair", isso é fácil de fazer.
Só interferi na habilidade de "Coroa" da Viola, congelando essa habilidade, montando um sistema um pouco diferente.
— Com isso, a Viola já não é mais "Coroa". É só um golem de alta performance normal.
— Mentira…
— Não é mentira, não. Toma, tenta furar com isso.
Tiro do [Storage] uma agulha, entregando à Runa. Segurando a agulha com mão trêmula, a Runa tira os óculos calmamente, direcionando a ponta da agulha ao próprio olho━━.
— Daah!? Perigoso!? Onde você tá tentando furar, sua idiota!
— Eh? No olho?
— No dedo!
Assustador. Com medo, pego a agulha de volta, e furo levemente a ponta do dedo branco dela mesmo. Imediatamente, aparece bolinha vermelha de sangue na ponta do dedo da Runa. Mesmo limpando com o dedo, se apertar, o sangue sai de novo. O ferimento não cura.
— Não cura… sério?
— Pede "cura" pra Viola. Assim cura.
— Eh? É, hã, Viola, dá pra curar isso?
— «Gi»
Da Viola, através da rota de mana, mana flui até a Runa. A habilidade de "Coroa", "Super Regeneração", não funciona mais, mas a habilidade de golem original de golem de máquina antiga funciona. Ou seja, a "Regeneração" comum, com o rank rebaixado.
O ferimento pequeno furado pela agulha cura facilmente.
— Isso, o que significa…?
— Significa que a Viola virou golem comum que consegue curar seu ferimento. Ferimento fatal, claro, não consegue curar.
Se for ferimento simples, deve conseguir curar, mas ferimento que causaria morte instantânea não deve conseguir curar. Se abrisse um buraco no abdômen, agora sim a Runa morreria.
— E você também vai receber punição. [Trevas, aprisione, dê o castigo a este ser, Maldição de Culpa]
Pra Runa também, não dá pra isentar de culpa. Lancei nela agora essa "maldição" pra dar punição.
— Com isso, você já não vai mais conseguir sentir prazer através da dor.
— Eh!?
— Em vez disso… "Runa, obrigado por proteger a Árvore Sagrada dos mutantes".
— Q, fuwa!? O que!? O que foi isso agora!? Deu um arrepio!
A Runa treme, "bururu", todo o corpo, rosto corando, se abraçando. Umm… isso também talvez seja bem desagradável…
— Você agora consegue sentir prazer através de palavra ou sentimento de gratidão dos outros. Esse é seu castigo.
Em certo sentido, dá pra dizer que voltou ao normal, e em certo sentido, dá pra dizer que ficou anormal. Prazer obtido é diferente pra cada pessoa, e existe coisa que outra pessoa jamais consegue medir de fato.
O que sente alegria, o que sente prazer, varia de pessoa pra pessoa, mas essa é "maldição" que força isso a virar "gratidão dos outros".
Quando alguém agradece, normalmente é algo que deixa feliz. Satisfazendo o desejo de reconhecimento, dá pra sentir que é necessário pros outros, que a própria existência é reconhecida.
Esse tipo de alegria, a Runa vai passar a obter como prazer.
— Ei, ei, Touya-yan! De novo! Fala "obrigado" mais uma vez!
— Tá. "Obrigado".
— ……………Eh?
— Gratidão sem sentimento não funciona, não.
— Eeeh…
Deixando a Runa franzindo a sobrancelha, libero a restrição da Viola.
— Não sei o que fazer pra ser agradecida pelas pessoas. Quem eu mato?
— Por que foi pra esse lado! Ajuda pessoa em dificuldade normalmente, dá uma mãozinha, isso é o normal!
Ei, ei. Se for pra esse tipo de direção estranha, vira problema. Se ela virar assassina, matando gente pra ser agradecida pelo cliente, não teria sentido nenhum.
Melhor colocar maldição adicional também pra ela não conseguir matar mais ninguém. Pra autodefesa, isso não se aplica, mas.
Essa aí não tem experiência de ser agradecida pelas pessoas, então nem coisa simples ela consegue imaginar. Preciso fazer ela entender rápido de alguma forma.
Levo a Runa e a Viola comigo, teletransportando com [Gate] pra escola em Brunhild.
As crianças no pátio da escola percebem a nossa presença.
— Ah, é Majestade!
— É verdade, é Majestade!
"Waaai!", todos correm em nossa direção. As crianças ficam curiosíssimas com o golem roxo nunca visto antes.
— To, Touya-yan!? Onde é aqui!?
— É a escola recém-construída do nosso país. Se não me engano, hoje é o dia de fazer o jardim de flores.
Do prédio escolar ao fundo, aparece a mãe da Sakura, diretora daqui, a Fiana-san, e o escolta dela, o Cait Sith Nyantarō.
— Nyanya? É o rei nya.
— Ara, Majestade? O que houve?
Os dois se aproximam rapidamente. Nas mãos, seguravam algo tipo luva de trabalho e pá pequena. Parece que vão fazer o jardim de flores agora.
— Trouxe uma ajudante. Junto com o golem escolta dela também.
— Ara ara, que gentileza. Muito obrigada.
— Hau!?
Diante da fala de gratidão despreocupada da Fiana-san, a Runa treme, "bururi", se agarrando em mim.
— Aconteceu algo?
— Ah, não, nada. Essa aqui se chama Runa. É tímida, sabe. Não precisa se preocupar.
— Entendi. Então, hoje conto com você, Runa-san.
— T, tá, tá bem.
A Runa responde com respiração ofegante. Será que tá tudo bem mesmo. Ainda deve não estar acostumada com o corpo, reagindo de forma sensível demais talvez.
— Onee-chan, a pá é por aqui. Vamos fazer junto~
— Vamos~
— Eh? Não, espe…!
Puxada pela mão pelas garotinhas, a Runa é levada pra lá. Atrás dela, a Viola vai correndo, apressada.
Com magia de terra, jardim de flores ficaria pronto em segundos, mas, segundo a Fiana-san, "todo mundo se esforçando junto pra fazer algo" também é parte importante da educação, então melhor não estragar isso.
Certo, então também vou ajudar.
Algumas horas depois, num canto da escola, ficou pronto um jardim de flores cercado de tijolos. Sendo feito pelas crianças, tem certa irregularidade inevitável, mas ficou bem satisfatório.
— Finalmente ficou pronto, hein.
— «Gi»
No início, a Runa e o pessoal, cheios de confusão, ajudavam só seguindo instrução, mas, sem perceber, acabaram se dedicando junto com as crianças esforçadas. Parece até ter leve sorriso no rosto.
Pra essa Runa, uma garotinha com o rosto sujo de terra se aproxima.
— Onee-chan, obrigada!
— Fohho!?
Diante da garotinha dizendo exatamente a palavra que instruí, a Runa reage, "bikun".
— D, de novo, fala mais uma vez?
— Onee-chan, obrigada!
— Q, hyau…!
— Onee-chan, tá bem…?
Diante da Runa se contorcendo em agonia, abraçando o corpo, a garotinha inclina a cabeça.
— Viola-chan também, obrigada.
— «Gi»
Deixando a garotinha, que agradece até à Viola, atrás, cambaleante, andando com pernas curvadas, a Runa se agarra em mim.
— Touya-yan, isso é perigoso… intenso demais. Coceguinha percorrendo o corpo todo. Melhor que arrancar olho de tio, melhor que ser perfurada por lança no peito. Que incrível, tô quase vazando.
— Consegue sentir que "tá viva"?
— Muito. Nunca senti isso antes. Vicia. Que absurdo. Isso é absurdo.
Bom, é castigo e "maldição", afinal. E, mesmo dizendo "absurdo", tá totalmente sorrindo, hein. Respiração ofegante, olhos atrás dos óculos quase virando branco, e babando também, sorriso levemente perturbador.
Como esperado, a onda de prazer é forte demais, hein. Justamente quando penso isso, a Fiana-san se aproxima trazendo as crianças.
— Certo, pessoal. Vamos mandar palavra de gratidão a Sua Majestade e à Runa-san, que ajudaram hoje.
— Ah, não, Fiana-san, agora…!
— «« Majestade, Runa onee-chan, muito obrigada por hoje! »»
As crianças cantam em coro palavra de gratidão. É palavra sincera, pura, que talvez só criança consiga ter… e ainda por cima, de várias pessoas ao mesmo tempo.
— Q, fu, hyoi, tô, indo… uhi…!
Soltando voz sem forma, a Runa desaba ali mesmo.
Correndo até ela, seguro com força o braço dela, que se agarra em mim, e, olhando pra cima, o rosto dela mostrava expressão de prazer indescritível, tipo entre rir e chorar.
— Touya-yan… já, chega. Vou vazar. Vou vazar mesmo. Não tem como aguentar isso, é impossível. Cabeça, ficando, branca…uhie…!
Tremendo o corpo, "bikunbikun", a Runa murmura em voz baixa. Perigoso. O olho tá vidrado. Isso já tá no limite mesmo. Talvez o oponente fosse pura demais. Devia ter escolhido oponente mais leve pra começar.
— Você, tá bem?
— Tá bem. Deve tá só cansada. Ho, hoje por aqui, desculpa! Até mais, gente!
Falando isso à Fiana-san, acenando, teletransporto com a Runa e a Viola de volta à masmorra original com [Teletransporte].
— Viola, deixo o resto com você!
— «Gi!?»
Deixando o golem roxo com o resto, saio apressado da masmorra. Atrás de mim, senti tipo som de água jorrando, mas deve ser impressão minha. É impressão minha, com certeza.
Por ora, a Runa já recebeu o castigo, então deve tá tudo bem soltá-la.
…Espero que esteja tudo bem mesmo.