Capítulo 431 – A Cooperação, e o Rei Nu
Acordar ao sol da manhã e ver praia é o que traz o rei de Daubān de volta à realidade. Parece que aquela sequência de eventos não foi sonho mesmo.
Quando tenta se levantar, o corpo dolorido de correr o dia todo, sente estranheza na perna direita junto com som metálico, "jara".
— O que é isso…
Na perna direita, tem algema de pé colocada, com corrente curta de uns cinquenta centímetros se estendendo. E, na ponta dela, estava o rei de Zādonia dormindo na areia.
Puxando a perna direita, esticando a corrente, ela estava conectada à perna esquerda do rei de Zādonia.
— Nu…?
O rei de Zādonia, com a perna esquerda puxada, se levanta com olhos sonolentos, olha pra cima o rei de Daubān parado ao lado, franze o rosto, e então direciona o olhar pra própria algema de pé conectada à perna esquerda.
Sem pressa, o rei de Zādonia se levanta, direcionando expressão severa ao rei de Daubān.
— Você, o que pretende!
— Sei lá eu!
Segurando o colarinho um do outro, gritam. Claro, mesmo esses dois não acham que foi o outro que fez isso. Só queriam alguém pra descontar a irritação mesmo.
— Tá dizendo pra eu ficar vinte e quatro horas por dia com você!? Que nojo!
— Isso é fala minha! Se não quer, se afoga no mar e morre logo!
— Morre você!
Depois de discussão infantil, começam a se agarrar de novo. Quando o punho do rei de Daubān, que montou primeiro, atinge o rosto do rei de Zādonia, estranhamente, é o próprio rei de Daubān, que desferiu o soco, quem é lançado longe.
— Gube!?
Sem entender nada, atônito, o rei de Zādonia, vendo o rei de Daubān rolando aos seus pés, sentindo que era chance, chuta a barriga do oponente com a perna direita, sem corrente, como se fosse revanche.
— Guefu!?
No instante do chute, ao contrário, é o próprio rei de Zādonia quem cai segurando a barriga. Dor igual a de ter sido chutado por alguém o atinge.
— Guoooo…
Vendo o rei de Zādonia se encolher, o rei de Daubān chega a uma imaginação assustadora. Achando "não pode ser", chuta as costas do rei de Zādonia, ainda segurando a barriga, e uma dor de ter sido chutado nas próprias costas o percorre, caindo de cara pra frente.
— Ugigi…
Sem dúvida, ele tem certeza. Não sabe o motivo, mas o dano do rei de Zādonia está voltando pra ele.
O rei de Daubān impede com a mão o rei de Zādonia, que tentava atacar de novo o rei caído.
— Para! Se me atacar, volta pra você mesmo!
— Do que você tá falando, sem sentido, buge!?
No instante em que o chute disparado pelo rei de Zādonia explode no pescoço do rei de Daubān, é o próprio rei de Zādonia, que disparou o chute, quem cai de lado.
— Idiota. Avisei com gentileza, e mesmo assim.
— Guoooo… o que, como assim…!
— Não sei, mas deve ser obra daquele moleque, com certeza. Bater em você, a dor vem pra mim. Ao contrário, se você me bater, a dor vai pra você. Que magia estranha usaram nisso…!
O rei de Daubān bate na própria bochecha com a mão, tocando também. Tem sensação. O outro parece não sentir nada.
Será que, ao ultrapassar certo limite de dor, ela é enviada ao outro? Pensando isso, ele cerra o punho, socando a própria bochecha.
"Gan!", som que ressoa até no osso, e dor percorre. Olhando de relance pra frente, o rei de Zādonia gemia segurando a bochecha.
— Vo, vo, você! O que faz de repente!
— Se acalma. Não é só um pequeno experimento? Parece que a dor do soco vai mesmo pro outro lado… ai!?
Dor aguda percorre o braço direito do rei de Daubān. Olhando, o rei de Zādonia à frente estava beliscando o próprio braço direito com toda força.
— De fato, parece que a dor voa pro outro. Não, isso quer dizer que compartilhamos a sensação de dor, mesmo, bufu!?
Dor de impacto intenso na bochecha direita do rei de Zādonia. O rei de Daubān deu tapa na própria bochecha direita.
— O que você tá fazendo!?
— Cala a boca! Olha o que você fez!
— Foi você que fez primeiro!
Segurando o colarinho um do outro, tentando socar um ao outro, os dois param os punhos no último instante. Logo depois, pensando algo, os dois socam o próprio rosto com o próprio punho.
— «« Gahaa!? »»
Dor de ter batido em si mesmo, e dor voando do outro, dor duplicada os atinge.
Caindo de vez na areia, mas logo se levantam de novo, encarando um ao outro, socando de novo o próprio punho contra si mesmo.
— Seu desgraçado! Seu desgraçado!
— Seu idiota! Seu idiota!
Cena surreal de se machucarem sozinhos, iluminada pelo sol da manhã.
— …Touya-kun, será que a inteligência deles é pior que a de macaco?
— Espera um pouco. Isso foi inesperado até pra mim.
Diante da voz completamente atônita da Doutora, seguro a cabeça.
Como precisavam cooperar sim ou sim, os conectei com corrente, mas, se se machucarem um ao outro, ou pior, se matarem, perde o sentido.
Aí, lancei "maldição" de compartilhar dor. Machucar o outro volta pra si mesmo. Matar o outro pode até matar a si mesmo. Achando que assim eles agiriam com cautela, pensando bem.
Não esperava que atacassem a si mesmos junto.
— Aliás, por que esses dois estão batendo em si mesmos? Já que é assim, bater no outro dá no mesmo, né?
Como a Doutora diz, desse jeito, bater em si mesmo dói, e bater no outro a dor volta pra si mesmo. No fim, dá tudo no mesmo… ah, será que é porque, mesmo tentando atacar, pode ser desviado? Batendo em si mesmo, com certeza o dano vai pro outro.
Surpreendentemente, estão pensando… não, não parece que estejam pensando nada disso.
Observando na tela os homens de idade já avançada continuando a se socar, dou um suspiro.
— Haa, haa, haa…
— Zee, zee, zee…
Incapazes de suportar a dor pelo corpo todo, os dois, deitados em formato de estrela na areia, encaram com olhos turvos o sol escaldante.
Enquanto deitados, a dor foi desaparecendo. Na verdade, o Touya lançou discretamente magia de cura, mas os dois nunca vão saber disso.
Das barrigas dos dois, "gugugugu…", som alto ressoa. Já faz bastante tempo que não comem nada. Se não comerem algo logo, vão morrer de fome.
Os dois devagar se erguem, se levantando.
— Vou pegar peixe no mar ou algo assim…
— Vou procurar fruta na floresta ou algo assim…
Murmurando baixinho, um encarando o outro, viram o rosto, tipo "hunf".
E, de costas um pro outro, o rei de Daubān em direção ao mar, o rei de Zādonia em direção à floresta, tentam avançar, mas caem de cara no chão, "zubesha". A corrente da algema de pé faz barulho, "jarari".
— O que você tá fazendo─!
— Isso é fala minha─!
Batendo a cabeça um no outro, "gan!", gritam.
— Você, deve tá querendo mesmo me atrapalhar, hein…!
— Isso é fala minha! Pra começo de conversa, acha que é fácil pegar peixe no mar!?
— Hunf, por isso quem é de país de rio congelado o ano inteiro. Eu, desde pequeno, caço vários peixes com arpão no rio do oásis. Com minha habilidade, um ou dois peixes…
— Arpão? Então onde tá esse arpão?
Mugu, o rei de Daubān engasga com a resposta do rei de Zādonia. De qualquer ângulo que se olhe, não tem arpão nenhum caído por aqui.
— Sem arpão, sem vara, sem anzol, como pretende pegar peixe? Com a mão? Consegue pegar peixe nadando com a mão?
— Grr…!
De fato, nem o rei de Daubān nunca pegou peixe com a mão. Como diz o rei de Zādonia, sem ferramenta, deve ser impossível pegar peixe mesmo. O argumento do outro lado está certo.
O rei de Daubān torce o rosto com raiva. Vendo isso, o rei de Zādonia tenta dar o golpe final.
— Pra começo de conversa, depois de pegar o peixe, como vai comer? Vai morder cru assim mesmo? Acender fogo também não é fácil. Considerando o trabalho todo, achar fruta, ou erva selvagem crescendo naturalmente, é muito mais fácil. Por isso quem tem cabeça cozida de tanto calor o ano inteiro…
— Grrrrr…! Mas, mesmo entrando na floresta, não garante que vai achar algo comestível! Pra começo de conversa, você consegue distinguir o que é comestível do que não é!?
Ugu, dessa vez é o rei de Zādonia que engasga. Nascido em família real, ele nunca teve chance de aprender esse tipo de julgamento. Como sempre comeu comida já preparada por cozinheiro, tem muita coisa que nem sabe qual é a forma original do ingrediente. Fruta, ele sabe, mas.
Mas isso também é igual pro rei de Daubān. Na verdade, ele também quase não sabe. Reis inexperientes com o mundo, os dois.
— E ainda por cima fala de entrar na floresta assim. Se fizer errado, pode até comer erva venenosa, viu. Não me importo se você morrer, mas ser arrastado junto pela magia daquele moleque, não quero, não.
— Fruta e fruto ainda dá pra distinguir em certo grau! Só vamos saber indo lá ver! Ou vai preferir morrer de fome aqui mesmo!?
— O que, seu…!
Guuuuuuuu…
No ouvido do rei de Daubān, que tentava retrucar, chega som de barriga dos dois, dele e do outro.
Os dois calam, virando o rosto pro lado oposto um do outro, "hunf!", mas, alinhando o passo, entram juntos na floresta.
— Sem dúvida. Aquilo é fruto pashimo.
— De fato, é fruto pashimo mesmo. Já comi um produzido em Arento.
Os dois, andando pela floresta, finalmente encontram e olham pra cima aquilo. No galho grande da árvore, frutas vermelhas. Pashimo é fruta relativamente encontrada em qualquer lugar. Claro, em terra escaldante como Daubān e terra de frio extremo como Zādonia, não cresce, no entanto.
Aquele fruto pashimo estava maduro, com cor apetitosa. Mas, alto demais, a mão não alcança pra pegar.
— Joga pedra?
— Bobagem. Acha que dá pra acertar fruta pequena assim direito? Mesmo acertando, duvidoso se cai.
— Então…
Os dois olham pra árvore grossa que parece fácil de subir, e depois olham pra corrente conectando as pernas.
Normalmente, seria árvore que até criança conseguiria subir de algum jeito. Mas, os dois juntos ao mesmo tempo, a dificuldade sobe muito.
— Não tem jeito além de fazer.
— Umu.
Junto com som intenso de barriga se afirmando, "gyuguru…", os dois avançam em direção à árvore de pashimo. Sem perceber, essa é a primeira ação de cooperação entre os dois, mas eles mesmos não parecem notar.
Colocando o pé em reentrância firme do tronco, esticando a mão, sobem pela árvore. A corrente, por algum motivo, não tem peso sentido, então não atrapalha. Quanto ao "peso", pelo menos.
— Uo!?
— Guwa!?
O rei de Daubān escorrega o pé e cai da árvore. Naturalmente, conectado pela corrente, o rei de Zādonia também cai junto. Dano de queda dobrado, do próprio e do outro, atinge os dois.
— Cuidado! Olha direito onde pisa!
— Barulhento! Já sei disso!
Reclamando um do outro, mas logo se agarram de novo no tronco.
— Ali. Coloca o pé ali.
— Vira pra cá uma vez. Aí é perigoso.
Avisando um ao outro, sobem a árvore devagar. E finalmente chegam até o galho onde estão os frutos pashimo.
Com o peso dos dois, o galho se curva, fazendo som, "mishimishi". Dois adultos montados nele. Faz sentido mesmo.
— Ei, espera, vai com cuidado.
— Já sei disso. Para de falar tanto…
No momento em que o rei de Daubān estica a mão pro fruto pashimo, som de "bakiri", o galho quebra, e os dois caem junto com ele.
Se contorcendo de dor pela queda de uns dois andares de altura. Mas, diante dos dois, tinham quatro frutos pashimo junto com o galho quebrado.
Pegando um em cada mão, limpando a sujeira na roupa, mordem direto com casca. Depois de crocância, "shari", sabor doce e suculento se espalha na língua dos dois.
— Gostoso…
— Umu…
Depois disso, continuam comendo o fruto pashimo em silêncio, e num piscar de olhos os dois comem dois frutos pashimo cada.
Talvez por estarem com fome, sentiram gostoso demais.
Olhando pra cima, ainda tem vários daqueles frutos apetitosos.
— Não é suficiente.
— É verdade.
Os dois se levantam, direcionando o pé de volta pra árvore de pashimo.
— Isso sim é cooperação, hein.
— Se não fosse, não teria sentido ter replantado a árvore de pashimo bem ali de propósito. Depois preciso curar o galho também.
Observando na tela os dois lutando bravamente, a Doutora e eu suspiramos. Que longo até aqui, hein. Espero que consigam captar melhor a situação daqui em diante.
Coço a cabeça olhando "aquilo" na mesa do segundo laboratório do "Laboratório" de Babylon.
Na mesa, tem caixa pequena de uns trinta centímetros de comprimento e quarenta de largura, e, dentro, tem miniatura de ilha. Mais que miniatura, é diorama, na verdade.
Na verdade, isso é a ilha onde os dois estão. Combinando magia espaço-tempo e magia de barreira, criei mundo pseudo-artificial.
Tinha item mágico parecido no "Depósito", e também já fui trancado dentro dele junto com todo mundo. Aquela vez foi difícil…
Claro, já confirmei a segurança, e não coloquei nada perigoso.
Queria que se dessem bem sem ninguém atrapalhar, mas, e aí?
— E o lado dos príncipes, como tá?
— Sem problema. Avançando de forma constante. Desde o início, só o rei e parte da nobreza antiga desejavam guerra. O apoio do povo já pende pros príncipes.
Atualmente, com o rei desaparecido, tanto em Daubān quanto em Zādonia, o príncipe Akīmu e o príncipe Furosuto atuam respectivamente como regentes.
Até o povo, foi anunciado como doença, apesar de ser "desaparecido". Claro, contei a situação real aos dois príncipes. Como praticamente equivale a tomar o pai como refém, achei que iriam se opor, mas aceitaram surpreendentemente sem resistência.
O rei sagrado de Arento, presente na hora, disse que, mesmo sendo pai, descartar rei que não beneficia o povo é coisa comum, mas isso também é assustador.
No pior caso, talvez tenham julgado que, mesmo se acontecer algo com o rei, não tem problema… não, melhor pensar que confiaram em mim mesmo. Sim, é mais construtivo pensar assim.
Os dois príncipes imediatamente conduziram negociação de paz com o país vizinho, propondo trégua. Vozes de crítica surgiram da nobreza antiga que se preparava pra guerra, mas, como os príncipes tinham em mãos os pontos fracos dessa nobreza, eles precisaram calar rapidamente.
Parece que os príncipes investigavam isso individualmente havia bastante tempo, e a nobreza antiga estava fazendo desde desvio de verba de arma e equipamento até contrabando de comida através da guerra — quanto mais guerra, mais o próprio bolso deles enchia. Ou seja, revelou-se que nem mesmo a nobreza antiga lutava simplesmente por "odiar o país rival".
Então, quem brigava por esse motivo boba assim eram só os dois reis mesmo, é isso?
Rei nu é vazio, hein… eu também vou me cuidar.