Capítulo 436 – A Força da Princesa, e o Segundo Embaixador
— Ai ai…
Dormi numa posição estranha, caído sobre a mesa de mahjong, então cada junta do corpo dói. Recupero o corpo com [Refresh] e [Recovery].
— E aí, como foi ontem?
No corredor da manhã cedo, o Kōgyoku voa até meu ombro, batendo asas, "basabasa", pousando. Ao Kōgyoku (precisamente, à coruja subordinada do Kōgyoku), pedi pra vigiar o grupo da princesa Pafia a noite toda.
— «Nenhum movimento estranho em especial. Não saíram do quarto nem um passo, e não há vestígio de uso de magia.»
— Será que fiquei preocupado à toa.
Diante do relatório do Kōgyoku, sinto certa decepção sem sentido, mas, pensando bem, era óbvio desde o início que princesa de um país fazer visita noturna era coisa impensável mesmo.
— Hoje é o encontro com todo mundo, hein… espero que não vire nada estranho.
Dando suspiro grande, ando pelo corredor da manhã.
— Virou algo estranho…
Observando as duas garotas paradas na área de treino da ordem de cavaleiros, murmuro sem direcionar a ninguém em especial.
Os dois equipam espada de madeira e escudo. Uma é, claro, a princesa Pafia. E a outra é a Hiruda, uma das minhas noivas.
Como espectadores, todas as noivas, o embaixador de Nokia Yanche-shi, e a Rishia-joshi, dama de companhia da princesa, dizem. E ainda tem as espectadoras curiosas, a irmã Moroha e a irmã Karina.
No centro da área de treino, a Hiruda e a princesa Pafia se encaram.
— Tem certeza mesmo?
— Sim. Não tem problema. Por favor, não se contenha, venha com tudo. Eu também vou dar o melhor.
Diante da voz da Hiruda, a princesa Pafia responde com sorriso ousado. Parece ter bastante confiança.
Por que chegou a essa situação, foi porque a princesa Pafia propôs à Yumina e o pessoal que, primeiro, gostaria que conhecessem a própria força.
Confiança impressionante, mas… vai quebrar, viu.
Direciono à Hiruda, que está de frente pra princesa Pafia, olhar dizendo "não exagera". Ela também assente levemente, respondendo "entendi"… acho.
— Então, em posição. Começar!
A irmã Moroha, que se ofereceu como árbitra, abaixa a mão erguida acima da cabeça.
No instante seguinte, a espada da Hiruda, avançando de um salto, lança longe a espada da princesa Pafia com movimento de baixo pra cima.
— O quê!?
Diante da princesa Pafia surpresa, a espada de madeira da Hiruda encosta exatamente no pescoço dela.
Ei, meu contato visual não passou nada! Deve ter passado tipo "vai com tudo" ou "não pega leve"!
— Vencedora, Hiruda.
Curto, a irmã Moroha decide o resultado. Com atraso, a espada de madeira lançada longe cai fazendo som, "kararan". Até onde foi lançada, afinal.
Espio discretamente de lado, e o embaixador Yanche e a Rishia-joshi ficam sem palavras. Bom, faz sentido mesmo.
Em termos de tempo, foi menos de um segundo. Devem nem ter entendido o que aconteceu. Duvido que conseguiram acompanhar aquele movimento com os olhos.
— Es, espera um pouco, por favor! Agora, minha mão escorregou…! Po, poderia fazer de novo, por favor!
Insistindo com pressa, a princesa Pafia.
— Ela tá pedindo. O que acha, Hiruda?
— Por mim, tudo bem.
A Hiruda responde voltando ao ponto de início da luta. Quando a irmã Moroha ergue a mão de novo, as duas, encaradas, reajustam espada e escudo. No rosto da princesa Pafia, já não tem mais o sorriso confiante de antes, mostrando expressão tensa, endurecida.
— Começar!
Junto com a irmã Moroha abaixando o braço, a princesa Pafia posiciona o escudo firme à frente. Mas, dessa vez, a Hiruda não avança de salto como antes.
Se vigiando mutuamente, os dois se movem devagar em círculo horário. A Hiruda, com postura natural, ponta da espada apontada pro oponente, gradualmente encurta a distância.
Já que atacou antes, será que agora vai se dedicar à defesa? A expressão da Hiruda não muda, mas na expressão da princesa Pafia dá pra ver ansiedade clara. Deve estar prestes a…ah.
— Yaa!
Talvez por impaciência, a princesa Pafia estende a espada. A Hiruda desvia isso com facilidade usando o escudo.
— Ku!
A princesa Pafia dispara segundo e terceiro golpe de espada. Hmm, é razoavelmente forte como diz, mas não é nível pra lutar contra a Hiruda. Talvez a Yae de quando a conheci pudesse perder pra ela.
Recebendo o golpe de espada com escudo, desviando com a espada, com movimento mínimo, a Hiruda confunde o oponente. Só a princesa Pafia se move intensamente, e, naturalmente, isso resulta em esgotar a energia.
Calculando esse timing, a Hiruda de novo lança longe a espada do oponente.
E, igual antes, direciona a ponta da espada ao pescoço dela.
— …Continua?
— …Não, foi minha derrota.
Diante da fala calma da Hiruda, a princesa Pafia, embora frustrada, admite a própria derrota. Queria dizer que ela lutou bem, mas, achando que poderia soar irônico, melhor ficar quieto.
— Hiruda-sama é forte mesmo. É a primeira vez que encontro espadachim desse nível.
— Não, comparada à irmã Moroha, sou tipo leão comparado a rato. Sempre tem alguém mais forte.
Diante da fala da Hiruda, o olhar surpreso dela se move pra irmã Moroha.
— Rato é exagero de humildade demais, Hiruda. Sem dúvida você já ficou forte tipo gatinho.
— Gatinho, é?
A Hiruda ri baixinho, sem jeito. Não, comparado a deusa espadachim, gatinho já é impressionante pra caramba. De algum jeito, comparado com as irmãs, o padrão fica estranho.
— E aí, o que fazemos? Depois da espada era magia, né…
— Sim. Vou fazer. Fiquei atrás na espada, mas em magia não vai ser assim. Deixe-me mostrar minha capacidade.
— Que espírito bom.
A irmã Moroha elogia a princesa Pafia. Garota que muda de foco rápido. Ou será que tem confiança extrema em magia?
A Hiruda recolhe a espada e escudo da princesa Pafia, voltando pra cá.
— Bom trabalho. Como foi?
— Espada de estilo nunca visto, foi interessante. De fato, forte é forte, mas ainda falta um passo, digamos.
A Eruze e a Yae carregam pra área de treino um grande boneco de madeira com rodas, alvo da magia.
Aquilo, sendo madeira, usa árvore resistente e difícil de queimar do Reino de Misumido. Não sei que tipo de magia pretende usar, mas não deve quebrar tão facilmente. Ah, se for magia de corte tipo [Cortador Aquático], pode se despedaçar, no entanto.
— Então começa. Pode quebrar aquilo sem problema.
— Sim.
A irmã Moroha se afasta da princesa Pafia. Direcionando a mão em direção ao boneco, a mana da princesa Pafia se concentra nas duas palmas, formando redemoinho.
Tamanho e qualidade da mana, razoavelmente boa. Se fosse personagem de jogo, seria tipo espadachim-mago. A princesa Pafia gera na mão direita esfera de luz crepitante, "bachibachi", e, na mão esquerda, vento em redemoinho. Eh!?
Com mão tremendo, devagar, ela sobrepõe as duas no centro, disparando como se estivesse repelindo.
— [Venha, tempestade cortante, tufão de choque elétrico, Tempestade de Plasma]!
Centrado no boneco de madeira, tornado se forma, e inúmeros choques elétricos perfuram o boneco.
Isso me surpreendeu. Poder não é tão grande assim, mas isso não é magia composta? Na era da civilização de magia antiga, era usada normalmente, mas, gradualmente, magia foi rebaixada de nível pra ser usável por mais pessoas, e, como resultado, essa magia antiga caiu em desuso.
O boneco de madeira esfarrapado desaba, "gurari". Com o impacto de cair no chão, o boneco se despedaça.
— O que acham!
A princesa Pafia se vira com cara orgulhosa, mas, vendo nossa reação meio fraca, franze a sobrancelha. Não, estamos surpresos sim, viu. Mas, sem querer, a reação vira tipo "hoo" ou "hee".
— [Tempestade de Plasma]. Magia composta de luz e vento, né. Sinto que o vento tá um pouco forte demais.
— É verdade, né. Por causa disso, o poder do atributo luz tá sendo anulado. Só corrigindo isso, acho que dá pra gerar o dobro de poder destrutivo.
Diante das observações da Rin e da Rinze sobre a magia agora, ao contrário, é a princesa Pafia quem fica surpresa. Deve estar espantada por ter sido descoberto com tanta facilidade.
A Rin e a Rinze começam jankenpon em silêncio, e, perdendo, a Rinze dá suspiro pequeno, indo em direção à área de treino.
Com a princesa Pafia recuando pra trás, a Yae e a Eruze trazem o segundo boneco de madeira.
Igual à princesa Pafia, a Rinze gera partícula de gelo numa mão e esfera de luz na outra, sobrepondo rapidamente. O movimento fluido dela nem se compara ao movimento desajeitado da princesa Pafia visto há pouco.
— [Venha, luz gélida, brilho das sete cores, Arco-íris de Prisma]
Da Rinze, é disparado algo tipo laser emitindo brilho de sete cores.
Num instante, a parte superior do corpo do boneco de madeira desaparece. O laser, com força restante, atinge a barreira de proteção instalada na área de treino, se dispersando e desaparecendo. As partículas de gelo espalhadas refletem a luz, brilhando, formando arco-íris.
— O quê!?
— Ooh, que lindo!
Diante da princesa Pafia surpresa e da Sū animada vendo o arco-íris, os dois contrastam tanto que quase rio.
— Onde aprendeu magia composta?
— Eh? Ah, foi de um livro de magia antiga encontrado numa masmorra em Nokia…
— Entendi… fiquei um pouco interessada em Nokia.
Diante da fala da princesa Pafia, a Rinze assente levemente. Na era da civilização de magia antiga, magos famosos costumavam construir a própria fortaleza pra proteger registros de pesquisa, resultados, ou obras de roubo. Tinham castelo, torre e afins, mas, entre esses, o mais simples era masmorra, dizem. Só precisa cavar buraco e endurecer com magia de terra.
No caso da Doutora Babylon, ela construiu ilha flutuante no céu, Babylon, mas não seria estranho ter um ou dois livros de magia numa masmorra parecida.
A Yumina fala com a princesa Pafia, que voltou até nós.
— Entendi bem sua capacidade. Tem mais algumas coisas que gostaria de perguntar, então que tal um chá no terraço?
Diante do convite da Yumina, sem nem mais forças pra responder, a princesa Pafia assente devagar, "kokuri".
Quando tento seguir todo mundo que começa a andar em fileira, sou impedido pela Rin.
— Daqui em diante, quero conversar entre garotas, então se retire, querido. A Rishia-joshi pode ficar, mas o embaixador Yanche, poderia também se retirar, por favor?
O embaixador mostra expressão levemente insatisfeita, mas, acalmado de algum jeito pela Rishia-joshi, o grupo feminino se afasta de nós.
Voltando ao castelo e me despedindo do embaixador Yanche, de trás de uma coluna, sem som nenhum, a Tsubaki-san aparece.
— Descobriu algo?
— Sim. Segundo informação dos meus subordinados que foram pra Nokia, atualmente o rei de Nokia, Ruumu Rado Nokia, está em leito de morte.
— Leito de morte, quer dizer… doença?
— Isso não conseguimos confirmar. Mas está em estado crítico. O rei tem duas filhas, a primogênita Refia e a segunda filha Pafia, e, se o rei falecer, o rumor é que a primogênita Refia deve assumir o trono.
Hmm, se não tem filho homem, faz sentido mesmo, digamos.
— Não, além disso, segundo nossa investigação, em Nokia, a Segunda Princesa Pafia faleceu há três meses.
— Eh!?
Faleceu? Quer dizer que morreu? Então quem é aquela princesa Pafia!?
— …Quer dizer que é impostora?
— Talvez tenha aproveitado o isolamento do país pra se passar pela princesa e se aproximar de Vossa Excelência… mas, mesmo assim, sinto que é descuidado demais. Há três meses, durante um passeio a cavalo, a Princesa Pafia caiu junto com o cavalo num rio no fundo de um penhasco, e, alguns dias depois, foi encontrada como corpo.
Se o corpo foi recuperado, então deve ser impostora mesmo… será que ela nem sabia que a princesa tinha morrido, usando o nome dela?
Incoerente, difícil de entender.
Se eu aceitasse aquela princesa como décima esposa. Naturalmente, iria até Nokia pra cumprimentar, né? Aí, "quem é essa aí", e a identidade dela seria descoberta facilmente. Que sentido teria isso?
Ou será que "cumprimento fica pra depois", prolongando isso, e, nesse meio tempo, criar fato consumado comigo… será isso? Assustador.
— Ainda é só o primeiro relatório, então, daqui pra frente…
— Vossa Excelência!
Interrompendo a fala da Tsubaki-san, a comandante da ordem, Rein-san, corre pelo corredor balançando as orelhas de coelho.
Agora já é comandante, então precisava ter mais calma…
Ou melhor, liga, ué. Se é assunto tão urgente assim.
— Urgente, por favor venha à sala de audiência. Chegou um enviado do Reino de Nokia!
— Eh? O embaixador Yanche? Acabei de me despedir dele agora mesmo. Mas por que sala de audiência?
— Não, não é isso! Não é o embaixador Yanche, é outro embaixador que chegou! Vindo de Nokia!
…Eh? O que isso significa?
— Pedem a entrega imediata da pessoa insolente que usa indevidamente o nome da Segunda Princesa Pafia!
Opa, então é impostora mesmo? Sem entender nada direito, por ora, vamos até a sala de audiência.