Capítulo 437 – A Audiência, e a Possessão
— A identificação?
— Estava com ele. Consultamos Zenoas, confirmando pela foto, e é a mesma medalha de embaixador de Nokia entregue lá. Pelo menos a medalha em si parece autêntica.
Enquanto ando apressado pelo corredor, confirmo com a Rein-san. Se não for caso de matar e roubar, então o mensageiro de Nokia é autêntico mesmo, hein.
— Igual à medalha que o embaixador Yanche trouxe?
— Parece exatamente igual. Ou melhor, não seria estranho existir duas, mas…
Deve fazer diplomacia com vários países ao mesmo tempo às vezes. No caso de Nokia, quase só tem relação com Zenoas, mas.
Mesmo assim, se o embaixador Yanche for falso e esse aqui for verdadeiro, como conseguiu descobrir que estávamos aqui? Sem conhecimento de terreno, e sendo país fechado. Será algum tipo de magia de busca tipo [Search]?
— Bom, indo lá encontrar, deve esclarecer.
Ao entrar na sala de audiência, cinco pessoas estão de joelho, cabeça abaixada. Um é homem de meia-idade levemente gordo, e os outros quatro, mais jovens, vestindo armadura de couro de aparência resistente. Esses quatro devem ser escolta.
— Majestade. É o embaixador do Reino de Nokia, Doraifu Chaoma-dono.
O Kōsaka-san tenta apresentar o segundo embaixador, mas interrompo com a mão.
— Pode pular cumprimentos. Então, embaixador Doraifu. Ouvi que quer que eu entregue a princesa Pafia e o embaixador Yanche, o que isso significa?
— …Sim. Essa pessoa se dizer princesa é mentira descarada. A Princesa Pafia, três meses atrás, durante passeio a cavalo, caiu por acidente num rio no fundo de um penhasco, perdendo a vida.
Hmm. Exatamente como relatou a Tsubaki-san. Erguendo o rosto, o embaixador Doraifu era homem de olhar ruim, olho de três brancos, bigode fino. Corpo levemente gordo, com sorriso na boca, mas, embaixo dos olhos que não sorriem, tem olheira.
Nos dedos, anéis, e no braço, pulseiras balançam, "jarajara". Será algum tipo de amuleto?
— O embaixador Yanche tinha a mesma medalha de embaixador de Nokia que você, mas…
— …O Faro Yanche é, de fato, diplomata a serviço do Reino de Nokia. A medalha em si é autêntica. Mas ele, no caminho de volta de Zenoas, por algum motivo, passou a agir junto com o grupo da falsa princesa, indo até Brunhild…
— E você veio atrás disso?
— Sim.
Hmm. Então o diplomata em Zenoas é o embaixador Yanche mesmo. E ele veio pra cá, é isso. Mas como conseguiu encontrar o embaixador Yanche e o grupo tão bem?
— Como conseguiram informação sobre a falsa princesa?
— …Não é algo que se possa falar em voz alta, mas nosso país, desde a queda do odiado Eurono, pra fazer diplomacia com países além de Zenoas, estava coletando informação em países estrangeiros.
— Espiões, então.
— …Nada tão grandioso assim. Por acaso, essa pessoa descobriu o grupo do Yanche indo em direção a Brunhild. Recebendo notícia inacreditável, viemos imediatamente pra cá.
O Reino de Nokia é, digamos, povo empurrado pras montanhas profundas. Mais que ter se fechado voluntariamente, é país que foi forçado a se fechar pela própria geografia. Com o desaparecimento do odiado Eurono, que atrapalhava isso, se agora conseguem ir livremente a outros países, faz sentido começarem a buscar diplomacia mesmo.
— Mas vocês afirmam que é falsa princesa, mas não temos como julgar isso. O único capaz de julgar seria Zenoas, o único país com quem seu país tem relação, mas, se o embaixador de Nokia que visitava lá era justamente o senhor Yanche, não teria como pensar que o outro lado é autêntico? Não tem algum tipo de decreto real do rei de Nokia?
— …Sua Majestade o Rei não está em boa condição de saúde, e os assuntos de governo são conduzidos pela Primeira Princesa Refia-sama. Mas a Refia-sama não sabe do caso da falsa princesa. Estamos agindo por ordem do Ministro Militar, Kanaza Nōtorisu-sama.
Não em boa condição de saúde, hein. Faz sentido não dizer diretamente que o rei de Nokia está morrendo.
Mesmo assim, será que tá certo nem o rei nem a princesa herdeira, em posição logo abaixo, saberem disso?
— …A Refia-sama amava muito a irmã Pafia-sama, então é consideração do Ministro Militar, temendo que ela sofresse ao saber disso. O Ministro Kanaza-sama é noivo da Princesa Refia.
Hmm. A irmã amada morreu há três meses, e o pai está em leito de morte. Justo num estado mental já abalado, se souber que uma falsa princesa está interferindo em outro país, o desgaste emocional pode piorar ainda mais e não se sabe o que aconteceria com a primeira princesa também. Entendo, mas… tem algo nesse homem que me incomoda.
O olhar do embaixador Doraifu parece meio fora de foco, tipo olhando pra cá sem realmente olhar. E a reação dele às minhas palavras também parece meio lenta.
— De qualquer forma, isso não dá pra julgar nada. Tanto você quanto o senhor Yanche têm medalha de embaixador do Reino de Nokia. Só temos isso pra julgar.
Se os dois são diplomatas legítimos do mesmo país, além disso já é problema do próprio país deles. Não é algo em que devamos interferir.
Não é algo em que devamos interferir, mas… esse homem, Doraifu, me dá arrepio de algum jeito. Não, sei que não devo julgar assim por gosto ou desgosto, mas.
— …Originalmente, não é assunto que diga respeito ao seu país. Poderia entregar o grupo da falsa princesa?
— Bom, não tenho motivo pra recusar, mas────
— Não, recuso.
— Eh?
Diante da voz repentina, viro pra trás, e, sem perceber, a Yumina estava ao lado do trono. Não tem ninguém mais, o que aconteceu?
— Ouvi toda a história de Sua Alteza Pafia. Volte pra Nokia e diga ao Ministro Militar Kanaza: se pretende fugir, é melhor fazer isso logo. Não, talvez já tenha sido comunicado, no entanto.
Encarando diretamente o embaixador Doraifu, a Yumina fala com voz severa. É raro ela direcionar tanta raiva assim. O que ela ouviu da princesa Pafia? Um pouco assustador.
— Touya-san.
— Ha, sim!?
— Olhe pra aquele homem com [Olho Divino].
— Eh? Com [Olho Divino]?
Como pedido, invoco Ki Divino nos dois olhos, capturando o embaixador Doraifu. Eee…
O que é isso!? Dentro do corpo do Doraifu, dá pra ver algo tipo gás. Gás, ou melhor, fumaça. Circula por todo o corpo, cada canto.
— O que você viu?
— Algo tipo névoa gasosa dentro do corpo. O que é isso?
— Esse homem está possuído por algo assim. Provavelmente algo do tipo espírito maligno. Meu olho mágico também captura múltiplas presenças.
Diante da fala da Yumina, o embaixador Doraifu se levanta sem pressa. O olhar fora de foco encara vazio no espaço.
— «Gu, ga, obōa, maldito… Pafia… se tivesse morrido naquela hora, teria sido melhor…»
Voz diferente veio do embaixador Doraifu. Não, é tipo voz sintetizada do Doraifu com voz de outro alguém.
— Quer dizer que o embaixador Doraifu está sendo manipulado?
— Provavelmente, sim. No meu olho mágico, um lado sinto sensação completamente turva, mas o outro não tem isso. Esse deve ser a qualidade original desta pessoa, acho.
Ou seja, o Doraifu que falava até agora não é a pessoa original mesmo.
Mas espírito maligno, hein. Criatura que possui pessoa é relativamente comum. Mas, na maioria dos casos, age de forma violenta, ou toma ação sem sentido. Olhando o Doraifu até agora, respondia direitinho. "Racional demais" pra ser criatura maligna. Se for isso…
— Criatura invocada, então.
— «Meu, nome, é, ipuchimasu. Servo, do grande, Kanaza-sama… vou dar, morte, à Pafia»
Ipuchimasu? Hee, fala então. Conseguir invocar criatura invocada capaz de conversar é sinal de invocador bem habilidoso.
Normalmente, pra manter criatura invocada manifestada continuamente, precisa de mana do invocador. Esse aí corta esse custo de mana necessário possuindo o Doraifu. Ou seja, parasitando, digamos, mas agir como se fosse a própria pessoa hospedeira será que também significa que compartilha memória e afins?
— Por ora, entendi que não é normal.
Os quatro cavaleiros de Nokia ao redor do Doraifu se levantam. Já tomamos as armas deles, então estão desarmados, mas, com [Olho Divino], até dentro deles tem algo tipo espírito maligno infiltrado.
A Rein-san e o pessoal na sala de audiência, reagindo ao clima de inquietação que começa a pairar, colocam a mão na espada na cintura.
Por ora, melhor arrancar aquele tipo de espírito maligno.
— [Que a luz venha, o banimento do brilho, Banish]!
— Eh?
A magia que eu ia usar, a Rinze, entrando de repente, dispara em direção ao Doraifu e o pessoal.
— «Gu, ga, ugyua, aaaaaa!?»
Soltando grito agonizante de dor, do Doraifu e dos cavaleiros, algo tipo fumaça turva é expelido. Uwaa… virou tipo ectoplasma.
Os cinco que expeliram caem no local, se contorcendo.
Se fosse morto-vivo, daria pra aniquilar, mas, sendo criatura invocada, aparentemente, não.
— «Maldiiiito…! Malditomalditomalditomaldiiito!»
Cinco espíritos malignos… isso será tipo espectro? Achando isso, se fundem num só. Parece que, se dividindo, conseguia manipular várias pessoas.
Dentro da fumaça turva, dá pra ver dois olhos suspeitos brilhando dourado. O olhar odioso do espectro se direciona a nós.
— [Boost]!
De trás da irmã gêmea, a Eruze salta, chutando o chão, pulando alto em direção ao espectro. Nas duas mãos, equipa manoplas blindadas de material cristal.
— «Idiotaaa! Acha que soco funciona contra espectroooo! Vou possuir vocêêêê!»
— Idiota é você mesma.
A manopla da Eruze emite brilho dourado. Aquela manopla é configurada pra receber, por vontade da Eruze, mana dos seis atributos embutidos. Foi eu quem encantou recentemente, a pedido dela. Por isso, mesmo contra espectro, dá pra causar dano.
— Estilo Deus da Guerra, Punho Fulgurante de Luz Suprema!
— «Gu, gyaoaaaaaaaaaaa!?»
O centro do corpo do espectro é perfurado pelo punho de luz disparado pela Eruze. Instantaneamente, o corpo espiritual se despedaça, se dissipando sem deixar vestígio.
— «Kana, za… senhor, per, doe…»
Deve ter enviado telepatia ao mestre. Antes de desaparecer, ouço a voz do espectro.
O tal Ministro Militar Kanaza em Nokia deve ter captado essa situação também. Criatura invocada e contratante conseguem se comunicar por telepatia, afinal.
Mas… levaram tudo de melhor, hein.
— Touya-san, por favor, use [Recovery] naquelas pessoas.
— Eh? Ah, sim, sim.
Sentado meio bobo no trono até a Yumina falar, levanto apressado. Pelo menos isso preciso fazer.
Uso [Recovery], [Refresh], [Cura de Área] nos cinco caídos. Com isso, logo devem acordar.
— Doraifu-dono…!
Guiado pela vice-comandante Nikora-san, o embaixador Yanche aparece na sala de audiência.
Em seguida, junto com a Yae, a Rū e o pessoal, chegam a princesa Pafia e a dama de companhia, Rishia-san.
Os três vindos do Reino de Nokia espiam o rosto dos conterrâneos caídos.
— Tudo bem. Esses cinco só desmaiaram. Pareciam estar sendo manipulados por criatura espiritual maligna, mas o corpo não deve ter anomalia nenhuma.
— Como esperado, estavam sendo manipulados… aquele Kanaza… imperdoável…!
Rangendo os dentes, "giri", a princesa Pafia mostra expressão de raiva. Não, será princesa mesmo? Primeiro, confirmar isso.
— O embaixador Doraifu… não, precisamente, o espectro que o possuía dizia que você era falsa, mas, e essa parte, como fica? Pela informação que obtive também, consta que a princesa Pafia morreu por acidente há três meses.
— Isso é mentira. Eu sou, sem sombra de dúvida, a Segunda Princesa do Reino de Nokia, Pafia Rada Nokia. Essa morte foi forjada pelo Ministro Militar Kanaza, usando corpo de sósia meu.
Encarando diretamente pra cá, "kii", o olhar dela não parecia ter nenhuma nuvem. Bom, é difícil mesmo acreditar facilmente na fala de alguém tipo aquele que possui e manipula outras pessoas.
— Então, será que aquele tal Kanaza também está por trás do acidente de cavalo?
— Sim. Ele tentou me matar por ser obstáculo, e casar com minha irmã pra tomar Nokia. Como descobri esse plano dele, minha vida passou a ser alvo, e não consegui mais voltar pra Nokia. Foi nessa época que encontrei o Yanche em Zenoas.
O olhar da princesa Pafia se direciona ao embaixador Yanche. O embaixador Yanche mostra sorriso sem confiança, contraído.
— E, eu, tava voltando de Zenoas pra Nokia, então praticamente não sabia dos detalhes da situação, só acabei seguindo a Princesa Pafia… eu, e, eu também sempre achei aquele Ministro Militar suspeito, sim, senhor.
Parece que esse tal Kanaza subiu de posição rapidamente nos últimos anos, ganhando destaque de forma acelerada. Mas essa ascensão anormal demais, e o comportamento estranho das pessoas ao redor de Kanaza, geraram suspeita em alguns.
— Esse Doraifu também era um deles. Homem antes gentil e sociável, que virou devoto de Kanaza de repente um dia. Passou a agir dentro da corte de forma favorável a Kanaza. Essa mudança extrema chegou a gerar boato de que algo o possuía…
Como diz o boato, estava realmente possuído mesmo. Se conseguisse agir tão normal assim, chegando a esse ponto, é difícil de perceber mesmo.
— A Princesa Pafia estava buscando aliado pra derrotar o Ministro Militar. Foi por isso que veio até o Touya-san.
— Se fosse isso, bastava pedir normalmente, né…
Sem precisar fazer aquela venda estranha de décima esposa. Diante de mim franzindo o rosto com a fala da Yumina, a princesa Pafia se curva apressada.
— De, desculpa…! A, a, aquele, ouvi dizer que Vossa Excelência era homem incomparavelmente apaixonado por mulheres, gentil demais com as noivas, então pensei que, se eu conseguisse virar uma delas, com certeza…
— De novo isso!?
Por que essa história fica se espalhando desse jeito!? Será que tem alguém com rancor de mim espalhando fofoca sem fundamento por aí!? Isso já é nível de dano reputacional, viu!
— Touya-san, conversamos entre nós agora há pouco, e decidimos que queremos emprestar força à Princesa Pafia. Se Touya-san permitir, gostaríamos de ir só nós até o Reino de Nokia.
— Eh? Só vocês?
O que isso significa?