Capítulo 45 – Polaroid e a Mestra Fada.
O salão ficou agitado de repente. Fui ver o que era e dei de cara com o rei ferino, Olga-san e as meninas na entrada.
Olga-san tava num vestido de festa brilhante, típico de Belfast. Já Yumina e as outras tavam com roupas tipo sari indiano: Elsie de vermelho, Lindsey de azul, Yae de roxo e Yumina de rosa. Cada uma com uma cor diferente, mas todas tavam lindas. Kohaku tava do lado delas, como sempre.
— Touya-dono, até que caiu bem em você. Dá pra passar por nobre de Mismede fácil — disse o rei ferino, com um sorrisinho malicioso.
— Será? — respondi, meio sem graça.
Esse tipo de roupa ainda me deixa constrangido. Olhei pro lado e vi Lyon-san hipnotizado pela Olga-san no vestido. Hmm, ele tá perdido. E o enfeite de cabelo com flores de Élius brilhava nos cabelos dela. Boa, Lyon-san, tem futuro aí!
— Ficou ótimo em você, Touya-san. Tá lindo — elogiou Yumina.
— É, tá show — disse Elsie.
— Tem um charme diferente do normal — murmurou Lindsey.
— Tá bonito, de gozaru, Touya-dono — completou Yae.
Todo mundo me elogiando… Fiquei sem graça.
— Vocês também tão incríveis. Posso tirar uma foto? — perguntei, pegando o smartphone e abrindo a câmera.
Apontei e cliquei. O flash iluminou tudo. A gente não se mexeu, mas o pessoal do salão levou um susto, e os soldados de Mismede nas paredes levaram a mão às espadas. Droga, o flash foi má ideia.
— Que diabo foi isso? — perguntou o rei ferino, olhando pro meu celular.
Melhor explicar logo.
— Desculpa, é outra magia sem atributo minha. Ela captura e salva a imagem da cena — falei.
— ? Não entendi direito… — respondeu ele, confuso.
Mostrei a foto que tirei: as quatro meninas aparecendo na tela.
— Nossa! Uma magia que desenha num instante? Ouvi que tem alguém no Império Regulus que faz algo parecido. Dá pra tirar isso daqui? — perguntou ele, impressionado.
Tem alguém com magia parecida no império? Queria conhecer. Pelo menos não precisei explicar os detalhes da câmera.
— Dá, se tiver papel ou algo pra transferir — respondi.
O rei mandou trazer papel, e usei [Desenho] pra transferir a imagem enquanto olhava a foto. Em segundos, uma versão sépia das meninas apareceu no papel, tipo uma foto antiga em tons de marrom.
— Caramba! Isso é incrível! Touya-dono, faz uma minha também? — pediu ele, animado.
— Claro — concordei.
Como ele tava na minha frente, usei [Desenho] direto no visual. Fiz uma “foto” dele posando, e o rei adorou. Mas aí virou bagunça. Comecei com a família do Olba-san, e depois todo mundo quis uma. Virei uma Polaroid humana. Cada transferência leva uns dez segundos, então não era o problema, mas o povo ficava horas decidindo pose. Cansativo pra caramba.
No meio da confusão, Lyon-san pediu uma foto dele com Olga-san. Claro que fiz. Virou mais máquina de purikura que Polaroid.
Depois de atender os mais importantes, saí do salão pra respirar. Sentei num sofá no corredor, num canto tranquilo. Bem melhor que o barulho lá dentro.
Fiquei olhando pro nada no corredor, quando algo estranho passou mais adiante.
— Hã? — deixei escapar.
Era… um urso. Não um ferino urso — tinha vários na festa —, mas um ursinho de pelúcia, uns 50 cm de altura, andando de um jeito fofo pelo corredor. Mano, tô cansado demais? Ursinho de pelúcia andando sozinho?
O urso parou de repente e virou pra mim. Droga, olhos nos olhos.
Ele ficou me encarando… e eu encarando de volta. Silêncio total.
De repente, o urso fez sinal com a patinha, tipo “vem cá”. Sério que quer que eu siga?
Pensei um pouco, mas resolvi ir. Se rolar algo ruim, uso [Acelerador] e fujo correndo.
Segui o ursinho até um quarto afastado do salão. Ele pulou pra alcançar a maçaneta, abriu a porta e fez sinal pra eu entrar. Tá, vou.
O quarto era meio escuro, iluminado só pela lua na janela. Era espaçoso, com móveis completos.
— Que hóspede estranho você trouxe, Paula — disse uma voz de repente.
Levei um susto e olhei ao redor. Na janela, num sofá vermelho, tava sentada uma garota.
Ela parecia da idade da Yumina ou da Alma. Cabelo branco preso em dois rabos de cavalo, olhos dourados, vestido preto com babados, sapatos pretos e um headband preto — puro estilo gótico-lolita. Normalmente, eu notaria a roupa primeiro, mas fiquei vidrado no que tava atrás dela: asas finas e translúcidas, brilhando na luz da lua. Não eram asas de pássaro, mas de borboleta. Uma fada!?

— E você, quem é? — perguntou ela.
— Ah, eu sou Touya. Mochizuki Touya. Touya é o nome — respondi.
— Nasceu em Eashen? — perguntou ela.
Essa frase de novo… Só dá pra responder que é “parecido”.
— Entendi. Você é o famoso matador de dragões da festa de hoje, né? — disse ela.
— Matador de dragões… Bom, mais ou menos. E você? — perguntei.
— Ops, desculpa. Me apresentando atrasada. Sou Leen, chefe do clã das fadas. E essa aqui é a Paula — respondeu ela, apontando pro ursinho.
Chefe das fadas!? Essa menina!? Fiquei sem palavras, e Leen riu, achando graça.
— Apesar da aparência, sou bem mais velha que você. As fadas vivem muito — explicou ela.
— Mais velha quanto…? — perguntei, curioso.
Ela pensou um pouco.
— Hmm… Mais de 600 com certeza.
— Seiscentos!? — exclamei.
— Vamos dizer 612 pra simplificar — respondeu ela, como se fosse nada.
Mano, mais de 600 anos… Heteromundo é louco mesmo. Faz sentido ela ser chefe do clã.
— As fadas crescem devagar? — perguntei.
— Não. A gente para de crescer numa certa idade. Normalmente, fica com aparência de uns 18 a 20 e poucos anos humanos. No meu caso, parou mais cedo — respondeu ela, fazendo bico, meio insatisfeita com o corpo.
Paula fez carinho na cabeça dela, como pra consolar.
— E essa Paula… é uma besta invocada? — perguntei.
— Não, é um ursinho de pelúcia de verdade. Ela se mexe por causa da minha magia sem atributo [Programa] — explicou Leen.
— Programa? — repeti.
Tipo programação de computador? O urso é um robô?
— [Programa] é uma magia que dá comandos simples pra coisas inanimadas. Tipo… — disse ela, trazendo uma cadeira do canto do quarto.
Ela concentrou magia, e um círculo mágico apareceu embaixo da cadeira.
— Programa início
/ Mover: dois metros pra frente
/ Condição: quando alguém sentar
/ Programa fim — conjurou ela.
O círculo sumiu. Quando ela sentou, a cadeira andou devagar dois metros e parou.
— Esqueci de definir velocidade. Mas é assim: dá pra programar comandos mágicos — explicou.
Entendi. Não é exatamente programação, mas automatiza objetos. Isso é útil pra caramba!
— Dá pra fazer a Paula voar com um comando de “voe”? — perguntei.
— Não, é fraco pra isso. Só movimentos simples. Mas dá pra fazer um modelo de pássaro bater asas e voar — respondeu ela.
Tem limites, mas ainda assim é foda.
— Deixa eu tentar — pedi.
— Hã? — exclamou ela, surpresa.
Concentrei magia na cadeira. O círculo apareceu.
— Programa início
/ Mover: cinco metros pra trás na velocidade de uma pessoa andando
/ Condição: quando alguém sentar
/ Programa fim — conjurei.
Sentei na cadeira, e ela andou cinco metros pra trás, um pouco mais rápido que antes. Funcionou!
— O que… você acabou de fazer? — perguntou Leen, piscando rápido.
— [Programa]? — respondi.
— Por que tá em dúvida…? Você também usa [Programa]? — perguntou ela, desconfiada.
— É, parece que sim — confirmei.
Ela me encarou em silêncio… igual a Paula antes. O pet imita o dono mesmo?
Ela suspirou, cruzou os braços e pensou um pouco.
— Tenho um monte de perguntas, mas deixa pra lá por agora. Programei a Paula pra trazer humanos interessantes, e ela trouxe uma joia rara. Desde a Charlotte, não via alguém assim — disse ela.
— Charlotte? — perguntei, reconhecendo o nome.
— Uma das minhas discípulas. Acho que tá trabalhando como maga da corte em Belfast agora — respondeu ela.
Era mesmo a Charlotte! Pera…
— Aquela mestra demoníaca que faz a pessoa usar magia até desmaiar, recupera a mana à força e repete até desmaiar de novo!? — exclamei.
— Grr! — rosnou ela, me fuzilando com os olhos.
Desculpa, desculpa! Não fui eu que disse isso! Juro!
— Bom, deixa a Charlotte pra bater depois. Touya, seu talento mágico é incrível. Que atributos você usa além do sem atributo? — perguntou ela.
— Todos — respondi.
— …Não vou me surpreender mais — disse ela, suspirando.
Ela pensou um pouco, bateu palmas na frente do rosto e olhou pra mim com os olhos dourados.
— Decidi. Você vai ser meu discípulo — declarou.
— Hã? — deixei escapar.
A garota gótico-lolita com rabos de cavalo duplos balançou as asas de borboleta e deu um sorrisinho.