Capítulo 46 – Fabricação de Arma de Fogo e uma Nova Arma
Ontem, a chefe do povo das fadas, a Leen, me disse "seja meu discípulo", mas eu recusei com toda a cortesia. Quem, por gosto, ia querer aprender com uma mestra carrasca? Eu não tenho fetiche estranho. Embora ela tenha ficado emburrada o tempo todo.
A festa terminou sem percalços, voltamos pro quarto que nos deram e dormimos na cama macia. Fazia tempo que eu não dormia numa cama decente, custei a pegar no sono, mas em algum momento dormi, e amanheceu.
Bom, hoje tem uma coisa que eu quero testar. Visito alguns sites no smartphone e vou transcrevendo com [Drawing] tudo o que parece servir ao objetivo. É, mais ou menos juntei tudo.
Depois de comer o café da manhã leve trazido ao quarto, com o maço de papéis transcritos e o Kohaku, fui até o chanceler, o Graz-san.
Aviso que quero sair e pego emprestada a medalha de passe livre pelo portão do castelo. Na hora ele me pediu uma transcrição com [Drawing]. Pelo visto o Graz-san também queria.
Depois fui até o Lion-san e entreguei o jogo de shogi. De quebra, peço que ele divulgue ao Olba-san que a cidade de Reflet está tentando se promover pelo shogi.
— Ora, vai sair?
Quando, resolvidos os afazeres no castelo, ia ao portão pra ir à cidade, esbarro na Yumina e na Lindsey. As duas, terminado o café, iam dar uma volta matinal pelo pátio.
— Vou comprar umas coisas na cidade. Vêm junto?
— Claro.
— …Eu também.
Pensei em chamar a Elsie e a Yae, mas, pela Lindsey, as duas hoje têm treino conjunto com os comandantes de guerreiros de Mismede, naquela arena. …Não me diga que até o Rei Ferino vai participar.
Nós três e um bichinho saímos pelo portão e fomos à cidade.
Bom, deixa eu ver, ué?
— …Onde vendem metal?
— Metal?
— É, ferro, cobre, latão, esse tipo de coisa. Se vendessem em lingote, ótimo.
— Não sei o que é lingote, mas, numa ferraria, talvez te cedam.
Sei. Tiro o smartphone e busco ferraria. Tem algumas. Vou à mais próxima.
Seguindo reto pela rua leste, na esquina de um cruzamento estava a ferraria. Cáin, cáin, o som de martelo vinha do fundo da loja.
— Ei, bem-vindo. Afiar? Reforjar?
Um atendente do povo cornudo, na frente da loja, me aborda. Negocio e, como ele cede de bom grado, compro ferro, latão e chumbo, em placas do tamanho de uns dois livros de bolso. Na loja de ferramentas em frente, compro também madeirinha e uma placa de borracha de solado de sapato.
— Bom, agora a pólvora……
Por garantia, busco "pólvora" e dá hit fácil. Loja de itens mágicos… Bom, dá pra chamar de item mágico.
Enfim, lá compro três frascos médios de pólvora. Pronto, acho que juntei o material.
— …Vai fazer alguma coisa?
A Lindsey, vendo as compras, pergunta intrigada.
— Vou tentar fazer uma arma.
— Arma?
Levando as duas, de cabeça inclinada, entro num beco e, pela [Gate], volto um instante ao quarto no castelo. Pego o chifre de dragão de um metro que estava lá e, de novo pela [Gate], saio na mata perto de onde a gente passou ao vir pra capital de Mismede.
Aqui não tem ninguém à vista, está tranquilo.
Ponho o maço de papéis num toco que havia ali e, pra o vento não levar, ponho os lingotes por cima.
— Beleza, então este chifre de dragão… ah.
Vacilei. Assim não dá pra usar. Tenho que cortar em pedaços pequenos. Algo pra cortar… ah, com ferramenta comum não corta isto.
— Lindsey, desculpa, dá pra cortar nesse tamanho com magia?
— Pode.
Indico o trecho, da ponta do chifre até aqui.
— Água, venha; lâmina límpida e cortante: [Aqua Cutter].
Tsup, com um som, o chifre de dragão é cortado. Ainda bem que a Lindsey está aqui. Pego a ponta cortada e, na mão, é bem mais leve do que parece. Tão leve me dá insegurança quanto à resistência, mas dizem que é muito mais duro que ferro. Incrível.
Opa, não é hora de me admirar. Vamos começar.
Encarando o maço de papéis transcritos, vou memorizando peça por peça. Bom, se sair torto, depois ajusto aos poucos.
Beleza, vamos.
— [Modeling].
Vou deformando devagar o chifre. Cano, tambor, cão, gatilho… faço as peças e, ao mesmo tempo, com a madeira, o cabo, e monto tudo junto.
Dez minutos depois, na minha mão havia um revólver de tambor, de brilho negro.
Me baseei numa arma chamada Remington New Model Army, mas acho que ficou um pouco mais curto. Bom, não muda muito, deixa pra lá.
Como eu queria tiro rápido, troquei a ação simples por ação dupla, mexi no tambor e tal, então por dentro é outra coisa. O design era bonito, só me baseei nele.
Seguro a arma e confiro o tato. É, não está mal. Acho que ficou meio leve. Leve não é defeito, eu acho.
— Bom, agora as balas.
Com os lingotes e a pólvora, faço uns tipos de bala, 50 de cada. Por ora, deve bastar.
Ponho seis balas no tambor… e, antes disso.
— [Enchant]: [Apport].
Imbuo na arma a magia [Apport]. E mais:
— Iniciar programa / Condição de ativação: o portador dizer "Reload" / Conteúdo: ejetar as cápsulas vazias em alta velocidade e, via [Apport], puxar balas num raio de 1 metro para recarregar o tambor vazio / Encerrar programa.
Pronto, assim está bom. Carregar bala a bala dá trabalho. "Faz uma automática então", dirão, mas isso é gosto. Revólver é muito mais maneiro.
Recarrego e, apontando pra uma árvore à frente, puxo o gatilho.
Gáon! Com um estrondo, a bala dispara. Ôo, o impacto é maior do que eu pensava. A Lindsey e a Yumina, ao lado, tapam os ouvidos. A bala… errou, pelo visto.
Atiro mais duas, três, mas sinto que a precisão não está boa. Não voa reto… ah.
Saquei, não fiz o raiamento. Os sulcos em espiral dentro do cano. Pelo efeito giroscópico, dá rotação à bala e ela voa reto.
Ativo o [Modeling] e faço o raiamento. Aí testo de novo, e desta vez voa mais reto que antes.
Quando gasto todas as balas, confiro o recarregamento.
— Reload.
Junto com a minha palavra, as cápsulas vazias são ejetadas, pá-pá-pá, e caem no chão. E as seis balas que estavam no toco somem e são recarregadas no tambor. Puxo o gatilho. A bala dispara de novo. É, sem problema.
— Ficou pronta?
— É, mais ou menos. Isto se chama "arma de fogo". É uma arma de ataque a distância. Dá pra usar com uma mão, mais forte que arco e flecha.
— …Que incrível. É um canhão miniaturizado……
A Lindsey, fitando a arma na minha mão, murmura baixinho. Há canhão tosco neste mundo, pelo visto, mas, na real, basta um mago que use [Explosion] e resolve, então não usam muito.
— A arma em si está pronta, mas ainda tem coisa pra testar.
Dizendo isso, tiro todas as balas do tambor e pego uma só.
— [Enchant]: [Explosion].
Imbuo na bala a magia de explosão.
— Iniciar programa / Condição de ativação: quando o projétil disparado pelo cano atingir o alvo / Conteúdo: ativar [Explosion] com a bala no centro / Encerrar programa.
Ponho a bala enfeitiçada no tambor e atiro contra a árvore que já tinha ficado cheia de furos no teste.
Dogóon! Com um estrondo, a árvore atingida se espatifa em mil pedaços. A [Explosion] ativou.
— O quê……!
— Hawawa…
A Lindsey e a Yumina caem sentadas. Boa, com isto dá pra usar magia de ataque sem recitar. Imbuir [Enchant] e [Program] em cada bala dá trabalho, mas dá pra fazer em lote, não é tão pesado.
Imbuindo [Paralyze] numa bala de borracha, dá pra neutralizar o oponente sem matar. Não há arma mais prática. (Se o alvo tiver amuleto mágico, o [Paralyze] não pega, mas.)
Poder usar magia ignorando o atributo também é uma força. A Yumina, sem atributo de fogo, pode usar [Explosion].
— Touya-san, essa arma você não me dá também?
— …Eu também quero.
— Hã?
Diante do pedido da Yumina e da Lindsey, fico "hmm", pensando. Que as duas, de retaguarda, queiram uma arma dessas eu entendo, mas será que não é perigoso demais. Será que estou protegendo demais.
A Yumina já anda com arco e coisas perigosas, e a Lindsey corta asa de dragão; a esta altura, tanto faz. Bom, por ora, dou a elas balas de borracha com [Paralyze].
— Então, por ora, escolham daqui o design que vocês gostarem.
Com o [Drawing], faço surgir várias armas que busquei na imagem. As duas olham fixo e, logo, a Yumina escolhe uma Colt M1860 Army, e a Lindsey, uma S&W M36 de cano curto, "snubnose".
A da Lindsey vá lá, mas a da Yumina achei meio grande pra mão dela; bom, é só o design, o tamanho a gente ajeita. Por dentro é quase igual à minha. Calibre e tal.
Estou fazendo bem por cima… Só pra atirar bala, até espingarda de bolinha servia… não, isto é capricho. Eu queria atirar de revólver.
Faço as armas das duas com mais chifre de dragão cortado e entrego. Por garantia, com o [Program] deixo que só o dono consiga puxar o gatilho.
Faço uns cem cartuchos de borracha sem enfeitiço, dou metade pra cada, e logo as duas começam a atirar, conferindo o tato.
Como é de chifre de dragão, é mais leve que arma comum, e até menina maneja fácil.
Bom, daqui é que começa, na verdade. A arma é só a base pra criar a minha arma principal.
— [Modeling].
Deformo o chifre de dragão cortado e faço de novo o formato de arma. Mas, diferente das anteriores, esta tem um formato singular.
Uma lâmina saindo da parte de baixo do cano e da frente do guarda-mato. O cabo desenha uma curva suave, e o conjunto tem uma forma quase retilínea. No todo, mais que arma, parece uma adaga. Fusão de arma e faca. Faca, mas com uns 30 centímetros de lâmina, bem grossa. E há razão pra ser grossa.
— Iniciar programa / Condição de ativação: o portador dizer "Modo Lâmina" ou "Modo Arma" / Conteúdo: via [Modeling], transformação rápida da lâmina, de adaga para espada longa e de espada longa para adaga / Encerrar programa.
E, como nas outras, "programo" a função de recarga. Recarrego, aponto e puxo o gatilho. Junto com o estampido, a bala destrói fácil um galho. Boa, a função de arma está ok.
— Modo Lâmina.
Reagindo à minha palavra, num instante a faca de 30 centímetros vira uma espada de 80. A lâmina grossa fica fina, a cerca de dois terços, e por isso se alonga.
Em formato de espada longa, brando no ar. Não sinto peso.
— Modo Arma.
A lâmina volta ao estado curto e grosso. Boa, a função de transformação também está ok.
— Que incrível, vira espada e arma?
— Diferente da Elsie e da Yae, de frente pura, e de vocês, de retaguarda pura, eu prefiro poder fazer os dois.
À pergunta da Yumina, conto o que eu vinha pensando. E, na luta com o Rei Ferino, achei que devia prever o que fazer quando não dá pra usar magia. A resposta é esta arma.
— …E o nome dessa arma?
— Deixa eu ver, vou chamar de "Brunhild"… algo assim.
À pergunta da Lindsey, respondo com um sorriso amarelo. Em vez de nome de arma lendária, tipo "Excalibur" ou "Balmung", peguei o nome da arma mais forte de um videogame retrô de que eu gostava. Era divertido, aquele jogo.
Fitando a arma nova que acabei de obter, a Brunhild, no mundo de fantasia com que eu sonhava criança, agora brandindo uma espada, senti, mais uma vez, o quanto a minha vida virou uma reviravolta atrás da outra.