Capítulo 462 – A Consulta, e o Bar
— E aí, o que é essa conversa formal, afinal?
— Uhum, bom. Por ora, bem-vindo de volta. Bebe, bebe.
— …Comeu alguma coisa estranha?
Diferente do normal, o Ende sério me deixa desconfiado.
No bar ao lado da Guilda de Aventureiros, encontramos depois de tempo.
Nesses dias depois de voltar da lua de mel, fiquei bem ocupado com trabalho acumulado e afins. Justamente quando finalmente consegui tempo livre, veio chamado dele. Mesmo recém-casado, considera isso um pouco.
Bom, achando que amizade entre homens também é importante, aceitei, mas o Ende, que encontro depois de tempo, tá com comportamento estranho, e meu sensor de encrenca dispara forte.
— Como tá o casamento? Indo bem?
— …Sério mesmo comeu algo estranho?
Estranho esse cara se preocupar com família dos outros. Fico levemente preocupado. Será que apanhou demais do tio Buryu e ficou estranho?
Talvez minha cara estivesse bem estranha, o Ende, resmungando, "muu", começa a falar.
— Casamento, sabe, tem vários formatos em outros mundos também. Ritual pra decidir parceiro de vida, contrato só pra ter filho, regra religiosa, tem vários padrões, sabe.
— Haa…?
— Nós, "os que atravessam", pela característica da própria raça, poucos escolhem esse tipo de casamento. Se não for mesma raça, isso significa "fim" da jornada. Quem fica preso a um mundo só, sem mais atravessar, já não é mais "o que atravessa". Bom, sendo espécie de vida longa, se o parceiro for de vida curta, tem também quem "atravessa" de novo depois de acompanhar até o fim do parceiro,
— ? Afinal, o que quer dizer?
Muito rodeio. Fala direto o ponto.
O Ende, "aa…", desvia o olhar de mim, virando de uma vez a bebida com gelo colocada diante dele.
— Eu, também vou casar.
— Hee-……………! Ha!?
Diante da fala do Ende, quase deixo cair o copo que segurava. Casamento!? O Ende!? Ah, é mesmo, esse cara, no lançamento de buquê do nosso casamento, foi o primeiro a pegar mesmo… não pode ser, poder da irmã Karen?
— Espe, espe, espera aí. O parceiro é claro que é a Meru… né?
— Óbvio. Eu não fico dando em cima de um lado e outro igual o Touya.
Opa, fui debochado, francamente. Ou melhor, esse cara vai casar? Não consigo nem imaginar. Mas por que, afinal…
— A Meru, parece que ficou interessada vendo o casamento de vocês. Na cultura dos Phrase, não existe coisa chamada casamento, então…
— Peraí, aliás, como Phrase faz aquilo… reprodução?
As espécies dominantes têm, pelo menos, tipo masculino e feminino. Não acho que isso não tenha significado nenhum.
— Espécie superior, média, inferior não conseguem, mas espécie dominante consegue gerar filho normalmente entre macho e fêmea, sabe.
— Consegue gerar?
— Phrase consegue gerar filho até sozinho, sabe. Bom, mesmo dizendo "filho", não é forma pequena tipo criança humana, no entanto.
Perguntando em detalhe, primeiro, todo Phrase nasce em estado de núcleo. Repetindo evolução cristalina, cresce como um único ser vivo. Por isso, quando desperta o ego, já terminou o crescimento como indivíduo, parece não ter fase de infância pequena.
Phrase crescido, investindo toda a força vital, consegue gerar novo núcleo. Quanto mais força vital, mais núcleo gerado. Ou seja, se o pai sacrificar a própria vida ainda jovem, gera mais Phrase… será isso?
— Espécie dominante é levemente diferente, consegue gerar núcleo da próxima geração sozinho, sem precisar investir toda a força vital. Mas isso é, digamos, cópia degradada do pai, e as espécies dominantes não gostam muito disso.
— Ou seja, isso, mesmo assim, fazem filho entre dois mesmo, né? Umm, isso… o modo de fazer é igual ao humano?
Escolhendo palavras com cuidado sobre como perguntar isso ao Ende. Não, mas dá curiosidade, né…
— Bom, quase igual, digamos. Os dois que virariam pais fundem o núcleo que cada um gerou. No caso humano também é assim, né?
Fusão… não, bom, tecnicamente não errado… será? Humano também nasce herdando gene dos dois pais, afinal.
— Phrase não tem conceito de casamento. Quando quer fazer filho, basta receber o núcleo do parceiro que gosta, não moram junto nem ficam pra sempre grudados. De vez em quando tem indivíduo assim, mas é realmente raro. Na maioria dos casos, só conhecem um dos pais, não sabendo nada do outro é comum. Por isso, mesmo tendo irmãos, na maioria dos casos, seriam tipo meio-irmãos de pai ou mãe diferente, no sentido humano.
Que seco, hein… de fato, se a ecologia é assim, faz sentido ficar interessada nesse ato chamado casamento mesmo. Sobre comida também, a Meru e o pessoal já mostrou interesse forte.
— Você entende o significado de casar, né?
— Expliquei, sim. Que é pessoas com afeto mútuo criando filho junto, se apoiando, vivendo juntos.
Bom, precisamente falando, tem mais nuances além disso, mas, mais ou menos, tá certo… né? Sendo só uma visão de casamento, no entanto. Tem casamento político também, afinal.
— Ou melhor, entre a Meru e você, consegue ter filho…?
— A Meru, originalmente, atravessou mundos e continuou evoluindo pra viver no mesmo mundo que eu. O corpo dela já é Phrase, mas não é mais Phrase. Evoluiu e existe como nova espécie próxima de mim. Isso não é problema. Só que…
O Ende olha o vazio com olhos abatidos. O que foi, o que aconteceu. Tenho medo até de perguntar.
— Não é só a Meru… a Nei e a Rise também disseram que querem casar…
— Haaa!?
Que absurdo é esse! Ei, você, agora há pouco me debochou, né!? Você também é igual, oras! Seu haremeiro!
Quando eu ataco, o Ende, com cara de quem mordeu inseto amargo, balança a mão, "diferente, diferente".
— Não é comigo. É com a Meru, que digo. As duas querem casar com a Meru.
— ………O quê?
Sem perceber, sai palavra estranha. …Como assim?
— Quer dizer que não foi só a Meru que se interessou por casamento. E ainda, as duas que querem casar não sou eu, e sim a Meru.
Umm, opa? Achei que fosse harém do Ende, mas é harém da Meru? A senhorita Meru é bem popular, hein…
— E, mas as duas são corpo feminino, né…?
— E daí? Mesmo sendo corpo feminino, as espécies dominantes Phrase conseguem gerar filho. Bom, gênero sempre fica igual ao dos pais, e característica do pai fica difícil de herdar, então normalmente não fazem, no entanto.
Sério mesmo… nesse caso, não tem problema, então? Não, bom, mesmo sendo mesmo sexo, se amam mutuamente, acho que tudo bem casar. De fato, também tem esse tipo de gente neste mundo.
Este mundo permite poligamia masculina. E, ao mesmo tempo, se tiver poder financeiro suficiente pra sustentar o cônjuge, também é permitido poliandria. Ouço dizer que certa duquesa de algum país tem três maridos.
Infelizmente, ainda não ouvi exemplo de casamento com ambos gêneros, mas, procurando, deve ter, não?
— O que a Meru falou?
— Se eu não me importar, quer casar com as duas e viver feliz sempre juntas as quatro. Mas, se eu recusar mesmo, desiste.
A Meru tem intenção de aceitar, hein… esse padrão, como fica, hein? Pelo menos, acho que a Meru consegue ser feliz. No caso dela, talvez casamento seja só na categoria de "virar família".
Sem dúvida, o afeto dela se direciona ao Ende, mas… se for só continuar o estado atual, talvez nem precise casar mesmo.
— O Ende se incomoda de virar família com as duas?
— Uuun… não me incomoda, não. Viajei vários mundos junto com a Rise por muito tempo, e, convivendo com a Nei também, já me acostumei. Bom, ainda sinto ciúme forte da Meru até agora, mas…
O Ende responde com sorriso amargo. Faz sentido mesmo.
A Nei propor casamento deve ser por rivalidade contra o Ende, provavelmente. A Rise deve ter só aproveitado a onda.
— Ou seja, você também tem intenção de aceitar as duas?
— Uhum. Fico preocupado como vai ficar, mas, felizmente, tem bom exemplo por perto. Touya, cuida bem da Eruze, viu? Aquela criança não fala esse tipo de coisa por conta própria, mas dá pra perceber pela atitude dela facilmente, né?
Espera aí, por que tô sendo repreendido!? Você é irmão da Eruze!? Ah, não, de fato, é irmão de treino, mas!
— Antes do casamento, foi bastante coisa, viu. Virei saco de pancada da insatisfação dela contra você. Por que precisei ser eu apanhando no lugar do Touya?
— Isso, foi realmente muito mal.
Nunca imaginei que ele aliviasse esse tipo de estresse assim. De fato, a Eruze é tipo que aparece na cara, então achava que tava dando suporte bem, mas parece que não foi suficiente.
Ah, faz sentido, o Ende ocupa posição parecida com a Eruze. Como membro da família centrada em mim e na Meru.
— E então, agora vem o assunto. Pro casamento, disseram que querem fazer cerimônia parecida com a de vocês. Precisamente falando, pedindo pra servir comida parecida.
— Ah…
Entendi, é isso então.
Aprendendo a cultura chamada "comida", a Meru e o pessoal encontram grande alegria em comer. Faz sentido elas insistirem nisso no casamento.
Aquelas três comem bastante mesmo, afinal. Sinceramente, comem mais que a Yae. E são três. O peso financeiro do Ende deve ser considerável.
A Meru e o pessoal também parecem ajudar com bico de vários tipos, mas o Ende é aventureiro rank prata. O ganho dele deve ser bem melhor.
— Bom, não me importo de providenciar a comida, mas, na cerimônia, normalmente noivo e noiva não comem muito, né… será que o foco tá virando comer comida?
— Uhum… sinceramente, fico até desconfiado se elas propuseram casamento só pra comer a comida da recepção…
— Diferente. É conclusão bem pensada. É falta de educação com as duas, Endimyon. Claro, comigo também.
Diante da voz repentina, viro-me, e, atrás de nós, de pé com a mão na cintura, mostrando cara insatisfeita, estava a Meru. Desde quando…
Os dois olhos, mesma cor azul gelo bonita como sempre, agora encaram o Ende com brilho de irritação.
— M, Meru!? Por que tá aqui!?
— Vim buscar. A conversa já terminou?
— Umm, bom. Ah, o Touya falou que providencia a comida da cerimônia.
Quando o Ende responde gaguejando, a Meru, mudando completamente da expressão anterior, mostra sorriso tipo flor desabrochando.
— Que bom! Obrigada, Touya-san! Ah, pro prato de carne e sobremesa, por favor um pouco a mais, tá?
— Ah, sim. Vou avisar…
Tenho certeza absoluta de que "um pouco" não vai bastar. Comparado ao nosso casamento, deve ter menos convidados, mas, sabendo que essas noivas (?) vão comer, melhor preparar bastante quantidade. Talvez seja melhor pedir pra Rū pensar em prato que não suje o vestido de noiva…
— Então, vamos indo. Convite da cerimônia mando depois. Vamos, Endimyon.
— Ah, uhum. Desculpa, Touya. Correria. Convido de novo outra hora.
— Ah, ah. Entendi.
Feito puxado, o Ende é levado pela Meru… ou melhor, acompanha a Meru, saindo do bar. Diante da bebida e comida deixadas pelo Ende, dou um suspiro.
O Ende casar, hein… isso foi inesperado.
Não pode ser que a irmã Karen mesmo tenha usado poder de deusa do amor, será?
Deixa eu ver, conhecido meu que pegou buquê no nosso casamento eram… o Ende, o jovem rei de Parūfu, o Rantsu da ordem de cavaleiros, o Wiru que entrou na ordem de Belfast, e ainda o príncipe de calção estufado, Robēru, era isso?
Sei que ela usou o poder principalmente pra ir parar na mão de amor correspondido. O jovem rei e o Robēru já são noivos, então talvez seja só coincidência natural.
— Opa? Não é o Touya? Bebendo sozinho? Que solitário, hein.
— Olha aqui…
Diante da voz de trás familiar, viro-me, e, como esperado, estava de pé garota de cabelo vermelho, rabo de cavalo duplo, e golem pequeno vermelho acompanhando.
Líder do bando de justiceiros (em pausa temporária) "Gato Vermelho", Nia, e o golem dela, "Coroa" vermelho, Rūju.
Atrás dela, começam a entrar no bar em fileira, a vice-líder Esuto-san, os assessores Yuni e Yūri, e o pessoal veterano do "Gato Vermelho". Todos com roupa suja aqui e ali, com arranhão em vários lugares, mas expressão radiante.
— Mestre! Traz bebida de alto nível e prato de carne de dragão pra todo mundo! Hoje é festa!
— O que foi, o que foi, que sorte generosa. Teve algum tipo de renda extra?
Carne de dragão, sendo raridade, é negociada por preço bem alto. Naturalmente, prato feito com isso também é caro. Mas esse bar é loja direta da Guilda de Aventureiros ao lado, então dá pra comer bem mais barato que em outra loja.
Mas, mesmo barato, ainda deve ter valor considerável. Pedir isso pra quantidade de gente assim é bem luxuoso, hein.
— Achamos tesouro na Ilha de Masmorra, sabe. Dois baús ainda intocados. Dentro, tinha vários tipos de pedra mágica e joia, grande e pequena. Foi grande lucro, viu!
A Yuni, garota de rabo de cavalo, conta com cara satisfeita. Que incrível, hein.
O tesouro que existe na Ilha de Masmorra, na maioria dos casos, é legado do mago que construiu aquilo, mas também tem caso de pertences de aventureiros que entraram atrás disso, morreram derrotados.
Os monstros da masmorra levam os pertences dos aventureiros mortos, guardando dentro de baú. Dependendo do monstro, dividem meticulosamente entre coisa brilhante e não brilhante, ou por arma e armadura.
Por isso, às vezes, encontram coisa inesperada, tipo espada mágica antiga ou item encantado, mas pedra mágica e joia é grande sorte mesmo, hein.
— Parece que já dominou bem o negócio de aventureiro, hein.
— Que bobagem. Nosso negócio principal é bando de justiceiros. Isso é só trabalho fora. Se soubermos de comerciante desonesto, magistrado corrupto, ou nobre podre em algum lugar, roubamos tudo deles.
Dizendo isso, a Nia ri, "karakara". Uuun, como rei de um país, não sei como reagir a isso.
Em Brunhild, elas prometeram não fazer trabalho de bando de justiceiros, mas, se ouvirem sobre esse tipo de gente se abusando em outro país, com certeza vão sair correndo imediatamente.
Nisso, capturo no canto do olho nova silhueta de pessoa entrando no bar.
— Opa? Olha, a Nia-chin e o pessoal tão aqui. Ah, o Touya-yan também. O que, o que, é festa?
— «Gi»
Quem entra pela entrada do bar é garota de óculos, vestindo vestido de babados roxo. Ao lado dela, de pé, golem pequeno roxo, com aparência parecida com a do Rūju.
É a antes chamada de "Dama Louca da Frenesia", Runa Torieste, e o "Coroa" roxo, Fanatic Viola.
— Ro, roxa? O que veio fazer aqui. Volta, volta, xô, xô.
— Que crueldade. Hoje fiquei até tarde, então vim comer. Aqui é barato, e a bebida também é gostosa.
Vendo a Runa, a Nia franze o rosto, afastando com a mão tipo espantando cachorro. Diante disso, sem se importar nem um pouco, a Runa senta no lugar de frente pra mim, onde o Ende estava sentado. A Viola também senta na cadeira ao lado. …Ei, por que vem pra cá?
— Não entendo por que essa aí tá solta por aí. Ei, Touya, ainda não é tarde demais, joga essa aí na masmorra subterrânea agora mesmo.
— Runa recebeu castigo direitinho, viu. Bom, castigo, ou melhor, tipo prêmio, mas. Uhehehe.
— Que nojo.
Diante da Runa mostrando sorriso de prazer, como se lembrasse de algo, a Nia mostra rejeição sincera. Entendo esse sentimento.
— Runa achou vocação de vida em fazer criança sorrir, receber gratidão do fundo do coração. Já não consigo mais viver sem isso. Graças a isso, a folga semanal de uma vez fica difícil, difícil…
— Isso é mentira, com certeza…
A Nia direciona olhar realmente desconfiado à Runa, falando com olhos brilhantes. Não, isso é verdade mesmo, provavelmente.
Apliquei "maldição" pra ela sentir prazer intenso ao receber gratidão dos outros. Também bloqueei ela de fazer coisa tipo matar pessoa, então não consegue, e não é inofensiva… mas melhor que antes. A Viola também perdeu a habilidade de "Coroa".
— Touya-yan, tá bebendo sozinho? Opa, foi expulso do castelo? Contagem regressiva pro divórcio, será?
— Não é isso!
Cá estou, recém-casado, viu. Não fala coisa de mau agouro!
— Ahaa, deve ter feito algo pra irritar suas esposas, né. Tipo espiar troca de roupa de criada. Esse aí, uma vez antes,
— Ei, espera! Combinamos de não falar isso!
Apressado, impeço a Nia empolgada tentando contar. De fato, uma vez, teleportei [Teletransporte] durante sua troca de roupa, mas!
Se aquilo vazar pros veteranos ferozes do "Gato Vermelho" ao redor, com certeza vão pular em cima dizendo "o que você fez com nossa líder!".
Droga! Não aguento mais ficar aqui! Vou pra casa!
Peço a conta pro dono do bar.
Opa, caro…? Ah, Ende! Aquele desgraçado, foi embora sem pagar! Ku, fui enganado. Que dia, francamente.