Capítulo 466 – O Suspeito, e o Tipo Humanoide
— Opa. Com licença um pouquinho.
Reagindo ao smartphone vibrando dentro do bolso, saio do círculo de conversa animada.
Num canto com pouca gente, tiro o smartphone, confirmando a mensagem recebida. Nn? Da Shizuku? Que mensagem manda durante o baile de máscaras… opa, mu?
Vendo o título da mensagem enviada pela membro do nosso serviço de inteligência, uma das três kunoichi sob comando da Tsubaki-san, Kirigakure Shizuku, franzo a testa.
Na mensagem com título "Suspeito encontrado.", tinha uma foto anexada. Mostra mulher vestindo vestido rosa claro, com máscara dominó vermelha. À primeira vista, mulher comum sem nada de especial, mas… o que teria de suspeito?
— O que foi? Cara estranha.
Enquanto observo fixamente a foto, a Eruze fala comigo. …Cara estranha, não é bem assim. É seu marido, viu?
— Ah, não. É que chegou essa mensagem.
Não é nada pra esconder, então mostro pra Eruze também. Talvez, do ponto de vista feminino, perceba algo suspeito.
— …O peito é grande, hein. Suspeito. Será silicone?
— Não, acho que não é esse tipo de suspeita, não.
A Eruze encara a foto com olhar estranho. De fato, acho grande, mas duvido que enviaram por esse motivo. Não deve ser isso, né? Aliás, a Shizuku também, igual à Eruze, é bem discreta nesse quesito…
— Ai ai ai!
— …Agora pensou algo desrespeitoso, né?
Não belisca meu braço! Dói bastante, viu! Francamente, minhas esposas têm intuição afiada demais nesse tipo de coisa, complicado!
Não tem jeito. Não posso fazer ligação no meio da festa, então melhor ir perguntar pessoalmente.
Por sorte, minha roupa também é de festa, sem muita diferença dos participantes. Com máscara, misturado aos de baixo, ninguém vai reconhecer.
— Então, vou lá um pouco.
— Espe, espera aí! Eu também quero sair um pouco!
Eee… quer sair, diz. Bom, entendo cansar em festa sem costume, mas. Isso também, de certo modo, é trabalho, sabe?
Diante da minha hesitação, a Eruze junta as duas mãos, olhando de baixo pra cima, pedindo.
— Pode, né? Só um pouquinho. Né?
— …Se for só um pouquinho.
— Consegui!
Droga. Com esposa fofa pedindo assim, como recusar. Sinto que a Eruze tá ficando cada vez mais esperta nesse tipo de coisa…
Não tem jeito. Desculpa aos outros, mas vamos sair só um pouquinho.
Pensando isso, quando começo a me mover, "sususususu", vinda de algum lugar, a Sakura se aproxima.
— Injusto só vocês dois fugindo. Eu também vou.
— Você tava escutando, hein…
— Fufun. Meu ouvido é ouvido do inferno. Presente do rei.
A Sakura mostra cara orgulhosa pra mim. …Fofa. Não, bom, de fato, a característica de linhagem "[Superaudição]" da Sakura deve ter nascido por ela virar minha súdita mesmo, mas.
— E ainda, o Rei Demônio fica grudando de vez em quando, incômodo. Quero fugir um pouco.
— Aa… de fato, tava interrompendo de forma bem antinatural a conversa da Sakura. Dizendo tipo "Zenoas também tem interesse nesse assunto".
Faz sentido, pro Rei Demônio, sendo chance rara de conversar abertamente com a Sakura de forma oficial. Entendo o sentimento.
— Rei, vamos logo? Antes que o Rei Demônio nos encontre.
— Tá, tá.
Espero que o Rei Demônio não guarde rancor. Já é tarde demais, mas.
Movendo-me com [Teletransporte] com as duas até o quarto de espera do primeiro andar, coloco máscara neles que tirei. Comigo tá tudo bem, mas o vestido da Eruze e o cabelo da Sakura chamam um pouco de atenção, então disfarço com [Miragem] pra algo discreto.
— Deixa eu ver, a Shizuku tá…
Pesquisando no smartphone, a Shizuku parece estar num canto do jardim. Com máscara, a olho nu não daria pra saber quem é, mas assim dá pra saber na hora.
Saindo do quarto de espera, atravessamos o corredor, saindo pro salão de dança. Passando de relance pelos cavalheiros e damas mascarados dançando, seguimos em direção ao jardim.
No caminho, a Eruze quase é abordada por participante homem, e, por reflexo, segura meu braço, começando a andar.
— A, achando que ficar assim é melhor pros dois, né? Fu, somos casados, afinal, não é estranho, né!
A Eruze, levemente vermelha, fala rápido demais. Não, sendo festa onde participam solteiros, acho que quem tá ao redor não sabe se somos casados, mas, pro meu gosto, fico feliz, então tá tudo ok.
— Eu também.
A Sakura também se agarra do outro lado. Nesse estado, num lugar tipo encontro arranjado, chama muita atenção, hein…
Ao sair no jardim, os participantes pareciam se divertir animados em alguns grupos. Opa, até há pouco a Princesa Ririeru tava ali, mas agora não tá mais. Será que foi pra algum lugar? Espero que não seja pego pelo Imperador de Rīfurīsu escrevendo rascunho no smartphone.
— Opa, aquela é a Shizuku, hein.
— Aquela pessoa? Com o efeito da máscara, não dá pra saber, hein…
De fato. A garota de pé perto da fonte do jardim, mesmo mascarada, não tem vestígio nenhum da Shizuku. Bom, é só a sensação criada mesmo.
O efeito de perturbação de reconhecimento tá funcionando perfeitamente, hein. Por precaução, confirmando com "Olho Divino", vejo, embaixo da máscara, o rosto conhecido da Shizuku. Certo, sem dúvida.
— Shizuku
— Eh? Por que sabe meu nome… ah, Majestade…!
Diante da Shizuku se preparando pra defesa, deslizo rápido a máscara, mostrando meu rosto real. Essa máscara não sai facilmente pra outra pessoa, mas a própria pessoa consegue tirar normalmente.
— Vi a mensagem e vim. Ah, esses aqui são a Eruze e a Sakura, então tudo bem.
— Ah, entendi. Desculpa pelo trabalho que dei.
— Tudo bem. Justamente tava com vontade de sair. Então, onde tá esse suspeito?
— Ali.
No alvo do olhar da Shizuku, dentro de grupo de cinco pessoas, estava essa pessoa. Igual à foto, vestido rosa claro, cabelo loiro preso em coque. Idade parece um pouco acima da nossa, uns vinte anos. No pescoço, colar de pérola, na orelha, brinco de safira. Nem chamativa nem discreta, parece mulher completamente comum… bom, pelo menos entendi que o peito não é tamanho comum.
— Eu não consigo perceber o que tem de suspeito nela…
— Não percebe? Eu, quando me infiltro em outros países, ou quando obtenho informação na cidade, costumo me disfarçar bastante, sabe…
Ah, é mesmo, na hora da entrevista, ela disse que era boa em técnica de disfarce. Já vi uma vez, foi impressionante. Fico admirado de como consegue virar outra pessoa assim sem nem usar magia.
— Quando me disfarço, não só a roupa, ajusto gesto e forma de falar de acordo com a pessoa que to imitando. Às vezes, pequeno detalhe revela tudo. Por isso, virou hábito observar bem as pessoas… mas aquela mulher, tem algo estranho.
Diante da fala da Shizuku, olho de novo pra mulher, mas não vejo nada estranho em particular. …Opa? Mas, algo… o que é essa sensação. De alguma forma, sinto algo antinatural…
— …Bonita demais, hein.
— Eh? Mesmo com máscara, dá pra perceber isso?
— Não é isso. Não é o rosto, é o movimento bonito demais. Sem oscilação, digamos… o movimento não tem hesitação nenhuma. Parece que repete movimento predefinido.
Diante da fala da Eruze, observo com cuidado mais uma vez. …Aah, entendi mais ou menos. O jeito de rir e o gesto ao falar são completamente idênticos. Mas pode ser só hábito mesmo, né.
— …Rei. Aquela pessoa, estranha.
— A Sakura também percebeu algo?
Que isso, hein, só eu não percebo, perco um pouco de confiança… sempre me chamam de "lerdo", mas não achava que fosse tanto assim.
— Aquela pessoa, coração não bate. Não escuto batimento cardíaco.
— Eeh!?
Coração não bater, como assim? Não pode ser zumbi!?
…Não, pra zumbi, o movimento é bom demais. Se fosse zumbi, não conseguiria falar tão animada e clara assim. Como assim, afinal.
Coração não bater, ou não ter coração, mas se mover como se tivesse vida…
Nesse momento, surge uma hipótese na minha mente. …Não pode ser, mas…
Espio embaixo da máscara da mulher com "Olho Divino". Ali tinha rosto bonito bem definido. Mesmo em julgamento geral, categoria de beldade.
Continuo penetrando a visão ainda mais fundo, até o fundo da pele. Normalmente, entraria visão tipo modelo de corpo humano, algo que não quereria ver muito, mas, se for como imagino────.
— …Como imaginei.
— Como imaginou? O que você viu?
A Eruze pergunta olhando meus olhos, que devem estar mudando pra dourado.
— Aquela mulher não é humana. É golem.
— «« Golem!? »»
Isso mesmo. Provavelmente, aquilo, sem dúvida, é o golem chamado [Tipo Humanoide].
Golem se divide em vários tipos por categoria.
Primeiro, [Tipo Autônomo]. Golem que consegue agir por conta própria. A maioria é desse tipo. Tem várias variações, tipo humano, tipo animal, tipo pequeno. Série "Coroa" e o Fenrir da técnica Eruka são desse tipo.
Precisa de contratante próprio, e o desempenho melhora conforme afinidade com quem usa. Tem tipo que consegue conversar tipo o Fenrir, mas é bem raro.
Depois, [Tipo Montável]. Quem usa monta e opera diretamente. Também tem tipo semi-autônomo com ego próprio. Tem tipo tanque, tipo trailer, tipo multi-pernas, e, no País Mágico de Aizengarudo, dizem que até tem boato de nave de guerra aérea gigante. O Kanibasu que o comerciante Sancho do Reino Santo de Arento tem é desse tipo.
Esse tipo não precisa de contrato, mas parece precisar de chave de ativação. A maioria é feita em fábrica. Encontrado em escavação de ruína é raro, dizem.
[Tipo Operado]. Quase igual ao [Tipo Montável], mas não monta dentro, o contratante opera tipo controle remoto ou por voz. O corpo do golem não tem vontade própria, incapaz de julgamento próprio, então é tipo onde a diferença de habilidade aparece claramente. Máquina de guerra construída com vários golems é desse tipo.
[Tipo Armamento]. Golem que quem usa veste ou transforma em arma. Tem função de transformação, alguns já têm formato tipo arma desde o início, transformando em armadura a partir disso, ou, a partir de golem comum, se desmonta, o contratante veste virando tipo traje motorizado. Talvez se possa dizer derivação do tipo autônomo. Ah, é mesmo, em Aizengarudo, lutei (?) contra usuário de golem chamado cavaleiro blindado.
E [Tipo Humanoide]. Dizem que originalmente foi criado parecido com humano pra fins médicos de cuidado, curando o coração das pessoas, mas a verdade não é certa. A Rubī, a Safa, a Emera que tenho, da série "Estrela", também são desse tipo, mas fazem só ação parecida com humano, e a aparência não chega tão perto de humano assim.
Mas o sósia usado pelo Rei Mágico de Aizengarudo, ou a Erufurau-san que fica com o Norun, dono do "Coroa" negro Nowāru, são idênticos a humano, impossível de distinguir num relance. Tipo bem raro, dizem que quase nunca se encontra. O golem ali também deve ser desse tipo raro.
Mas por que esse golem tipo humanoide tá nesse baile?
— O que fazemos, rei?
— O que fazer, complicado assim…
— Nas condições de participação, não tinha "golem não pode participar".
Não, de fato, não tinha, mas. Duvido que veio buscar parceiro de vida.
Ainda não fez nada, mas não é coisa pra deixar sem cuidado por isso.
— De qualquer forma, melhor avisar Sua Majestade o Imperador de Rīfurīsu, que é o anfitrião…
Antes disso.
Copio o rosto visto embaixo da máscara pelo "Olho Divino" em papel com [Drawing]. Mostrando isso, deve dar pra identificar quem é e de onde.
Deixando a Eruze, a Sakura, e a Shizuku vigiando, teletransporto [Teletransporte] até o segundo andar onde está Sua Majestade o Imperador.
— Sem dúvida. Essa é a senhorita Imeruda daqui. Ela ser golem tipo humanoide, como assim… Duque, isso é verdade mesmo?
O antigo príncipe herdeiro do Império de Garudio, agora Barão de Rēve, o jovem Rukureshion, pergunta olhando o retrato copiado no papel.
— Infelizmente. …Sua Majestade o Imperador de Garudio sabia disso?
Direciono a pergunta ao jovem imperador ao lado do Rukureshion, Ransuretto Rigu Garudio.
— …Não, não sei. Não faço ideia do que tá acontecendo.
Sua Majestade o Imperador de Garudio balança a cabeça horizontalmente. De relance, direciono o olhar ao Papa Ramishu, que está num canto do campo de visão, e ele sorri levemente, assentindo. Deve ter visto com "Olho Mágico da Verdade". Parece que Sua Majestade o Imperador não está mentindo.
Se for isso, seria ação individual da própria família da senhorita Imeruda… Imeruda Toraiosu, a família Conde Toraiosu?
— As possibilidades consideráveis são três, né. Primeira: a senhorita Imeruda era golem tipo humanoide desde o início. Nesse caso, a pessoa humana chamada Imeruda nunca existiu. Segunda: em algum momento, a verdadeira senhorita Imeruda e o golem tipo humanoide foram trocados. Isso parece a possibilidade mais provável. Não sei se o motivo da troca é pra se infiltrar nessa festa, ou pra se infiltrar na família Toraiosu. Terceira: foi só erro de visão do querido…
— Não, não. A Sakura também disse que não escutava batimento cardíaco.
— Sei disso. Só falando das possibilidades.
Diante da minha réplica à hipótese da Rin, ela sorri com sorriso amargo.
— Eu encontrei a senhorita Imeruda quando ela era criança, então acho que a primeira possibilidade também não se aplica. Golem não cresce, afinal. Pelo menos, a pessoa humana chamada Imeruda existe sim.
Sua Majestade o Imperador de Garudio também é originalmente de nobreza alta. Deve ter tido relação razoável com a família Conde Toraiosu.
Se for isso, seria troca mesmo. Será que a família Conde Toraiosu está envolvida, ou é manobra de terceiro completamente sem relação…
— Por ora, vamos capturar essa senhorita Imeruda. Como Império de Garudio, não podemos deixar passar.
— Umu. Como Rīfurīsu, também concordo com isso, mas, se a captura ficar chamativa demais… dependendo, pode virar grande alvoroço.
— Mas também não podemos deixar sem fazer nada. Tipo humanoide não tem habilidade de golem, e força também é fraca, mas, mesmo assim, consegue causar dano a pessoa. Se for tarde demais…
Sua Majestade o Imperador de Garudio e Sua Majestade o Imperador de Rīfurīsu conversam com cara séria.
Entendo o sentimento do Imperador. Não quer estragar essa ocasião festiva com incidente sem graça. A própria filha dele também está participando, afinal.
No salão, não dá pra trazer arma, e, olhando agora há pouco, não parecia ter arma embutida tipo o sósia do Rei Mágico. Mas, se quiser mesmo, consegue matar uma pessoa. Bom, isso vale pra todos os participantes, mas.
— Querido, um pouco.
— Nn? O que foi?
A Rin, chamando com gesto, sussurra proposta. Entendi. Se for isso, dá pra capturar sem chamar muita atenção.
— Certo, então vou lá um pouco.
— Fufu. Boa sorte.
Enviado pela Rin, volto de novo com [Teletransporte] até onde a Eruze e o pessoal estão.
— Deu certo, hein.
A Eruze sorri vendo a senhorita Imeruda (golem parecido com ela) carregada nas minhas costas.
O plano criado pela Rin era simples: primeiro, a Sakura e a Eruze entram no círculo delas, chamando atenção. Depois, eu, invisível com [Invisible], toco na nuca dela por trás, e, com [Cracking], fecho o circuito nervoso que se estende do Cristal-Q, cérebro do golem.
Quando o comando do Cristal-Q para, o golem para de se mover. A senhorita Imeruda, desabando ali mesmo, "kuta", é rapidamente amparada pela Eruze, e, fingindo ser desmaio, ela e a Sakura tentam levar ao consultório médico, momento em que eu apareço propositalmente óbvio: "Isso é grave! Eu levo!", carregando a senhorita Imeruda nas costas, escapando dali. Missão completa.
Mas, sendo golem, é bem leve, hein. Tipo humanoide sofisticado é feito tão fiel assim mesmo? E ainda, as duas coisas que tocam nas minhas costas, tão macias, incrível… feito de que material, isso.
— …Rei, tá pensando coisa safada?
— O quê!? N, não é isso, não! Numa hora dessas!
— É mesmo, hein~, numa hora dessas, com duas esposas do lado, não deve estar comparando nada, né~.
— Claro que nãooo!
Os olhos da Eruze estão assustadores. Não é isso, é curiosidade pura mesmo.
Suando estranho, abro [Gate] num lugar sem gente, e nós três teletransportamos até o consultório médico.