Capítulo 471 – O Orgulho da Irmã, e os Deuses Casados
Manshinden.
Templo sagrado existente no Reino Divino, muito acima do céu, onde os deuses habitam.
Lugar onde todos os deuses se reúnem, conversam, relaxam… uma espécie de local de encontro, digamos.
Sendo recém-chegado inexperiente, mas, tecnicamente, sendo súdito do Deus do Mundo e possuindo qualificação de deus superior, também sou autorizado a entrar nesse Manshinden.
Bom, mesmo dizendo "deus superior" como categoria, por posição, sou o mais baixo entre todos ali. Sendo súdito do deus-pai (nesse caso, o Deus do Mundo), naturalmente virou assim, então sinto que é além do meu status mesmo.
Por isso, sinceramente, não me sinto muito confortável lá. Fico estranhamente tenso. Naturalmente, sendo lugar cheio de deuses e mais deuses…
Ao atravessar o portão do Manshinden, movo-me automaticamente pra lugar tipo pátio amplo. Dentro do Manshinden, vários lugares existem de forma independente, sem rota fixa pra chegar até lá.
Se estiver acostumado, dá pra se mover pro destino num instante, mas, sem acostumar, num piscar de olhos, fica perdido.
Esse lugar tipo estação central parece ser esse pátio, mas, daqui, como devo ir?
Enquanto fico perdido, das copas das árvores brilhantes, "patapata", voa um pardal, pousando no meu ombro. Opa, esse pardal é…
— Opa, novo deus. Tempo, hein, tudo bem?
— Ah, sim. Graças a isso. Umm, o senhor é o Deus do Voo… né?
— Isso mesmo.
À primeira vista, parece pardal, mas é deus de verdade mesmo. Já encontrei antes, quando vim ao Manshinden com a irmã Karen. Sendo "Deus do Voo", será que rege não só pássaro, mas tudo que voa em geral?
— Vindo aqui sozinho, tem assunto com alguém?
— Sim. Vim encontrar a irmã Karen… ah, a Deusa do Amor. Sabe onde ela está?
— Aa… deusa do amor, hein… entendi, aquilo, hein…
O Deus do Voo em forma de pardal, habilmente pressiona a cabeça com uma asa, balançando horizontalmente.
Eh. O que é essa reação preocupante, hein…
— Bom, tudo bem. Pelo menos posso te guiar. Por aqui.
Batendo as pequenas asas de novo, "patapata", o Deus do Voo levanta voo do meu ombro. Não entendo bem, mas, por ora, vou seguir. Não tenho outra pista mesmo.
Atravessando o arco feito de pedra branca pura instalado no pátio, num instante, a paisagem muda completamente. O pátio de antes desaparece em algum lugar, e chego a um lugar onde escada em espiral feita de vidro se estende pra cima.
Dentro do edifício de vidro cilíndrico, tem escada em espiral, e, do lado de fora dela, dentro de líquido azul brilhante, "kirakira", peixes coloridos nadam livremente. Eh, isso é fundo do mar, aqui?
— Por aqui. Não se perde, viu, se perder, sozinho, não consegue voltar mais.
O que é isso, assustador. Será que nem [Gate] nem [Transporte Interdimensional] conseguiriam sair daqui?
Apressado, sigo atrás do Deus do Voo, subindo a escada em espiral de vidro.
Olhando com cuidado, dentro do mar (?) também, tem algo tipo pessoa e algo tipo sereia. Aquilo também deve ser deus, ou súdito dele.
Não, será que até o peixe nadando por ali também é isso. Dizem que aqui só tem deus ou súdito de deus. …Melhor não fazer nada desnecessário.
Guiado pelo Deus do Voo, ao atravessar o arco no topo da escada em espiral, de novo chego a lugar diferente.
Dessa vez, espaço vagamente escuro, com muitas estrelas piscando no céu.
Embaixo dos pés, calçamento de pedra brilhando em arco-íris, se estende reto pra frente. Graças a isso, consigo não perder de vista o Deus do Voo voando à frente.
— Não enrola, por aqui. Ficar tempo demais aqui, os curiosos vão te cercar, viu.
— Curiosos de quê!?
Diante da fala do Deus do Voo, sentindo medo incompreensível, corro em disparada total através da escuridão. Da escuridão atrás, escuto som de língua estalando, "chi", mas finjo não ouvir. Também escuto som de algo sendo arrastado, "zurizuri", mas finjo não ouvir também!
Correndo quase pareado com o Deus do Voo no céu, atravessando a escuridão, chego de novo a outro lugar. Isso é labirinto, francamente…
Depois disso, atravessando vários lugares, cumprimentando os deuses que encontro, e fugindo dos deuses que parecem trabalhosos, finalmente chego ao lugar onde a irmã Karen deveria estar.
— Aqui é…
Árvores verdes densas, flores desabrochando em profusão de cores. Riacho bonito fluindo, vento fresco soprando. Além das árvores transbordando luz de espírito, tinha pavilhão branco puro com telhado de vidro em formato de meia-esfera — um gazebo. Jardim tipo jardim de rosas mesmo.
Enquanto perco palavras diante da magnificência desse jardim, o Deus do Voo voa, "patapata", em direção ao gazebo.
Seguindo atrás, atravessando o túnel de rosas, chego lá, e encontro, sentada numa cadeira da mesa dentro do gazebo, mulher desabada. Aquela é…!
— Irmã Karen!?
Apressado, ergo a irmã Karen desabada sem força na mesa. O rosto dela, "kuta", completamente sem força, pálido, olhos flutuando vazios no ar.
— Ku, [Que a luz venha, cura tranquila, Cura Heal]! …E, [Recovery]!
Sobreponho magia de recuperação e magia de recuperação de estado, mas a cor do rosto da irmã Karen não volta ao normal. Droga, magia não funciona em raça divina!?
Não, eu também sou raça divina, tecnicamente. Se funciona em mim, deveria funcionar na irmã Karen também. Não pode ser, veneno divino…!
— …T, finalmen… te… nn…
— Não fala! Espera! Vou chamar o Deus do Mundo agora…!
Segurando o smartphone tirado do bolso, grito pra irmã Karen que carrego.
— Comida… quero comer…
— …………………….
— …! Ai, ai!?
Quando solto as mãos que a seguravam, a irmã Karen bate a nuca no encosto da cadeira, gritando de dor.
Ei, espera, calma. "Comida", quer dizer que só tá com fome!?
— Será que dá pra explicar o que tá acontecendo, hein…?
— Já faz dias que não como nada! Já é o limite! Sendo deusa, mesmo sem comer, não morro, mas, pra mim, que já conheci o gosto delicioso da comida da terra, isso é sofrimento insuportável! Por isso, dá comida pra sua irmã, oras!
Ignorando a irmã falando bobagem, curvo-me profundamente diante do Deus do Voo pousado na mesa.
— Ah, Deus do Voo, obrigado pela ajuda. Eu vou indo.
— Não pode! Não pode ir embora! Não me abandona, aaaah!
— Aai, já entendi, solta minha roupa!
Livrando-me da irmã Karen chorando, agarrada no meu casaco, tiro do [Storage] alguns pratos feitos pela Rū por ora. Cheiro gostoso se espalha ao redor.
— Consegui! Delivery do Touya-kun, sucesso! Vou comeeer!
A irmã Karen, com expressão radiante, estende a mão pra colher colocada. Corvo que chorava agora já ri. De fato, choro falso mesmo, francamente.
— Você… deve tá sofrendo, hein…
Para. Não olha com esse olhar de pena. Incapaz de aguentar o olhar do Deus do Voo, olho pro céu visível através do vidro, dando suspiro.
— E aí? No fim, o que você tá fazendo aqui?
— Tô no meio do exame de ascensão divina.
— Ascensão…?
Eh? Não é promoção?
— Exame pra elevar a categoria divina. A categoria divina se divide em superior, médio, e inferior, mas hoje em dia é só divisão por função mesmo. Antigamente, dizem que tinha hierarquia rígida, mas ficou tipo "isso ainda faz sentido hoje em dia?". Agora, o superior recebe só um pouco de tratamento melhor, basicamente sem muita diferença… aliás, isso é indiferente, mas, gostoso, hein, isso! Não paro de bicar!
Batendo repetidamente no prato, "kakakakakaka!", explicando isso, o Deus do Voo comia a comida da Rū estalando o bico. A propósito, o que come é omelete de arroz. Como resultado, o Deus do Voo ficou coberto de ketchup. Igual pardal ensanguentado.
— Se passar nesse exame de ascensão, a categoria divina sobe?
— Provisoriamente. Mas, nesses últimos dezenas de milhares de anos, quase ninguém tenta fazer isso, sabia? Diferente de ascensão de deus subordinado, o tratamento não muda tanto assim, e o exame é trabalhoso na maioria dos casos.
Uuun… não entendo. Não, não é o exame de ascensão em si que não entendo, é por que a irmã Karen, preguiçosa, quis fazer coisa tão trabalhosa assim que não entendo.
Não entendendo, jogo a dúvida honestamente, e a irmã Karen para a mão de comer o omelete, começando a bater no prato com a colher, "katsukatsu". O quê? Essa expressão hesitante de falar.
— …Touya-kun, foi reconhecido como raça divina pelo Deus do Mundo, né?
— Uhum.
— Eventualmente, sendo encarregado da administração daquele mundo, quer dizer receber cargo de responsável por um mundo, e isso, sem dúvida, é trabalho de deus superior. Ou seja… continuando assim, o Touya-kun vai virar mais superior que a irmã!
— …Ha?
…Essa senhora irmã, o que tá falando, hein?
— Como irmã, não pode ficar abaixo do irmão caçula! Aqui, vou mostrar a capacidade da irmã, conseguindo categoria de deus superior igual ao Touya-kun, e… ai!?
Aplico um chope forte, "zubishi!", na cabeça da irmã Karen que começou discurso apaixonado.
— Sumida por dias, sem conseguir contato, fico preocupado, e é por esse motivo! Ridículo demais, nem tenho palavras! Nem tenho palavras!
— Por que duas vezes!?
De fato, sendo súdito do Deus do Mundo, minha categoria divina, sozinha, já é classe deus superior, mas, por posição, sou o mais baixo entre os deuses presentes agora. Segundo o Deus do Mundo, levaria uns dez mil anos pra ser reconhecido como deus superior de verdade. Ou seja, até lá, sou só "deus novo", inexperiente mesmo.
Se perguntar quem é superior entre mim e a irmã Karen, todos os deuses responderiam "a irmã Karen".
Olha só. Até o Deus do Voo observa com olhar atônito.
— Uu… a dignidade da irmã…
— Isso nunca existiu desde o início!
— Falou categórico assim!? Existe sim! Um pouquinho existe sim!
Francamente… não me faz preocupar desnecessariamente. Se for assim, deveria ter deixado quieto mesmo, como disse a irmã Moroha.
Categoria divina e posição divina são coisas diferentes, não dá pra comparar. Bom, parece que a responsabilidade aumenta conforme a categoria, no entanto.
Entendi o motivo. Certo, o que fazer com essa irmã idiota, agora. A Yumina e o pessoal também tão preocupadas, queria trazer de volta à força mesmo, mas…
— E aí, esse exame termina quando?
Enquanto pergunto suspirando, a irmã Karen contorce o rosto, mostrando expressão de sofrimento. …O que foi? Ou melhor, pra começo de conversa, que tipo de conteúdo é esse exame?
— Já quero terminar… quero terminar… mas, isso, só termina se os dois concordarem…
Murmurando isso, olhando pro vazio, a irmã Karen leva o omelete à boca tipo máquina. Os olhos perderam a luz, viu… o que aconteceu?
No lugar da irmã Karen, virada máquina de comer omelete, o Deus do Voo, coberto de ketchup, responde minha pergunta. Aai, já que tô incomodado, limpo com lenço.
— Exame de ascensão, na maioria das vezes, é caso onde mostra habilidade "consigo fazer isso" na própria área de especialidade. Elevar categoria divina é tipo provar o próprio upgrade de rank. E, no caso da deusa do amor…
— No caso da irmã Karen… quer dizer, assunto amoroso?
— Isso. Tem casal de deus em briga. Simplificando, é caso de intermediar essa briga, e, se resolver bem, passa, se falhar, reprova…
Entendi. Ajuda de reconciliação, então. De fato, isso testa a força como deusa do amor mesmo.
Enquanto me impressiono, do fundo do arbusto de rosas, chega voz de homem e mulher discutindo. Aos poucos, se aproximando de cá. Não pode ser, casal de deus em briga?
— ! Chegou…!
A irmã Karen deixa cair a colher, "karan", mostrando expressão cheia de sofrimento.
— Opa, e, então eu vou indo. Tchau, novo deus. Faz eu comer coisa gostosa de novo!
— Ah, Deus do Voo! Fugir é injusto, viu!?
Apressado, o Deus do Voo voa pra longe do gazebo, "patapata". Fugiu claramente, mas… o quê, esse casal de deus é tão perigoso assim!?
Enquanto sinto medo por dentro, do caminho de pedra no fundo do arbusto, aparece um casal.
— Ei, Deusa do Amor! Fala alguma coisa pra esse teimoso!
— Deusa do Amor! Fala algo pra esse homem leviano!
Gritando, "ban!", os dois deuses batem na mesa onde estava a irmã Karen. Assustador. Esse é o casal de deus mencionado.
O lado masculino tem pele bronzeada tipo cobre queimado de sol, corpo grande, musculoso, tipicamente atlético.
Olhos azuis tipo safira, cabelo loiro curto, vestindo traje azul estilo toga romana antiga, com sandálias douradas nos pés.
O lado feminino tem cabelo negro comprido, pele clara, tipo mais beldade. Rosto bem definido, olhos cor de avelã, veste algo parecido com quimono, tecido branco com faixa azul marinho, mas nos pés, botas de couro preto.
— Umm… p, por ora, calma, os dois. Primeiro, se acalmem e conversem…
— Já conversamos sem parar desde então, mas essa aqui não escuta nada! Não dá pra conversar!
— O que tá falando! Quem não escuta os outros é você mesmo! Nega tudo sem parar, feito criança birrenta!
— O que disse!?
— O quê!?
Diante dos dois continuando a discussão se encarando, fico esmagado, incapaz de dizer nada. Sinceramente, dá medo. Meu pai e minha mãe também brigavam, mas ou o pai cedia, ou a mãe pedia desculpa rápido, nunca durava tanto assim.
— Umm, irmã Karen, esses dois são…?
— Deus do Oceano e Deus da Montanha…
A irmã Karen aponta o deus e a deusa com cara exausta. Ahaa, deus do mar e deus da montanha, hein.
Achei que o deus do mar fosse mulher, mas era o contrário. Sempre falam "mãe oceano" e afins.
Mas Poseidon, famoso na mitologia grega, também é deus masculino, então não é tão estranho assim.
O deus da montanha também tem imagem masculina tipo "homem da montanha", mas também existe expressão "deusa-mãe da terra". Não precisa se importar tanto.
— O Deus do Oceano e a Deusa da Montanha são casados, hein… sinto que não combinam nada…
— Normalmente, é casal de deus que se dá bem. Mas, quando emperra uma vez, os dois são teimosos, então…
— «« Quem é teimoso é só esse aqui (essa aqui)!! »»
Gritado em estéreo. Isso realmente parece cansativo. Bom, senão, não seria exame mesmo, mas…
— Basicamente, você fica trancado na montanha melancólica, então seu pensamento fica antiquado. Melhor ser generoso feito o mar, tipo…!
— Ha! Não quero ouvir isso de homem que fica boiando pra lá e pra cá sem pensar em nada, feito água-viva. Homem chinfrim de verdade!
— O que disse!?
— O quê!?
Ei ei, isso é sem fim, francamente… se nenhum dos dois quiser ouvir o outro, nada se resolve mesmo…
— «« O que a Deusa do Amor acha!? »»
Girando o rosto encarado, "gurin", noventa graus, os dois direcionam o olhar pra irmã Karen. Sinto que vi aura tipo fogo queimando atrás. Isso é fúria divina, será?
Diante da pergunta jogada, a irmã Karen abre a boca com sorriso contraído.
— Ah, deixa eu ver… ah, Touya-kun! Sendo também casado, quero que dê conselho pros dois!
— Ha!?
Espe, por que joga pra mim!? Isso é exame da irmã Karen, viu!?
— Deusa do Amor, quem é esse?
— É meu irmão caçula na Terra. Olha, aquele novo deus que mencionei.
— Ah, o que virou súdito do Deus do Mundo? Casado, hein. Se for isso, é mais rápido.
Não, não, não, não! Espera um pouco! De fato, sou casado, mas, sinceramente falando, quase nunca tive briga de casal de verdade, viu!
Na maioria das vezes, eu que peço desculpa e acaba, e, se vem em número, não tem como ganhar mesmo…
— Você também, sendo homem, deve entender, né!? Esposa deveria agir por conta própria captando a intenção do marido, né!
— Ha!? "Aquilo, traz aqui. Aquilo mesmo, sabe", nem com telepatia daria pra entender isso, oras! Fala o nome direito!
— Captar isso é papel de esposa, oras!
— Eu não sou sua mãe, então impossível! Ei, esse aqui, depois que faço algo pra ele, nem uma palavra de agradecimento! O que acha disso!?
— Aa, é mesmo, hein. Um "obrigado" pelo menos seria bem-vindo mesmo, né…
Perguntado pela Deusa da Montanha, respondo levemente recuando. Será que eu dizia direito também…? Tentava dizer o máximo possível, mas talvez tenha negligenciado às vezes.
Diante de mim concordando, a Deusa da Montanha fica orgulhosa, "doya", e o Deus do Oceano estala a língua.
— É por você ficar reclamando insistentemente de coisa pequena assim que perco a vontade de falar! Trazendo à tona coisa de dezenas de milhares de anos atrás ainda… quantas vezes preciso pedir desculpa pra você ficar satisfeita!? Chega dessa!
— Aa, de fato. Ficar repetindo coisa que já terminou várias vezes, também… "o que fazer agora" não ajuda muito mesmo, é isso mesmo…
— Né!?
— Ei! De que lado você tá!?
Não, não sou de lado nenhum, sabe.
Os dois trocam faíscas diante de mim, continuando a discussão. Se pedirem opinião e eu responder puxando pra um lado, sou culpado pelo outro. Injusto.
Sorriso forçado e "calma, calma" repetido de mediação vão desgastando minha mente, "gorigori".
Ou melhor, por que tô passando por isso, afinal!?
Espiando de relance a irmã Karen, causadora disso tudo, ela, indiferente, comia tranquilamente o resto do omelete de arroz. Ei, oras! Isso é exame seu, viu!
Por cima do meu ombro sentindo leve assassinato, a Deusa da Montanha direciona o olhar ao omelete na mesa.
— …Deusa do Amor, o que tava comendo há pouco? Parece gostoso, né?
— Isso é aquilo? Comida da terra?
Os dois espiam o prato da irmã Karen com interesse.
Aah, é mesmo. Deus não morre mesmo sem comer, e, sendo que o Reino Divino tem "vinho divino", "mel divino", "fruta divina" e outros alimentos perfeitos, a comida do Reino Divino é completamente diferente da comida da terra? Deve ser raridade, hein.
— O Deus da Culinária tá trancado no próprio laboratório há dezenas de milhares de anos, sem sair, então faz tempo que não via comida da terra… ei, isso não tem mais, não?
— Tem, mas… ah, é mesmo, vamos comer! Com fome, fica irritado mesmo, né!
Diante da pergunta do Deus do Oceano, respondo isso propositalmente em voz alta, tirando do [Storage] vários pratos incluindo omelete e colocando na mesa. Por ora, vamos desviar a atenção do adversário da briga.
— Ooh…!
— Que gostoso…!
Do robusto ao leve, arrumo o máximo de variedade possível na mesa. Talvez chamando atenção, os dois param a discussão, sentando cada um na cadeira, estendendo a mão pra comida à frente.
…Fuu. Não resolve fundamentalmente, mas, se a comida parar essa discussão nem que seja temporariamente, é barato.
Mas, como fazer os dois reconciliarem, hein…
— Toma, querido. Ah~n.
— Nn! Gostoso! Recebendo de você, fica ainda mais gostoso!
— Ai, que vergonha…!
Diante da troca de palavras melosas se desenrolando à minha frente, tomo o café segurado na mão. Devia ser puro, mas sinto que tá doce…
— Isso também tá gostoso! Vegetal selvagem da montanha transbordando bênção da terra é o máximo! Sabor gentil como você me acalma…
— Ah, esse prato de frutos do mar também tá gostoso, viu? Sabor concentrado nutrido pelo mar. Sabor adulto e profundo, maravilhoso.
Suportando conversa melosa de dar vontade de cuspir todo o café na boca, engulo de qualquer jeito.
Amargor. Me dá mais amargor…
— Afinal, o que tá acontecendo, hein…?
Quando os dois começaram a comer, cada um comentava a própria opinião. No início, era só cada um falando por conta própria a opinião comum "gostoso", mas, aos poucos, começaram a recomendar mutuamente o que cada um comia. E, achando que começaram a conversar animados sobre a comida, num piscar de olhos, esse espaço melado se formou.
— Originalmente, é casal de deus que se dá bem, sabe. Achei que ia demorar, mas a briga de casal dessa vez foi curta. Como esperado, Deusa do Amor, hein.
— Eu não fiz nada, viu…
O Deus do Voo, voltando sem eu perceber, agora coberto de molho de tomate, responde minha dúvida. O quê? Gostou de comida à base de tomate?
A irmã Karen, com olhos cansados, bebe água de fruta com canudo. Deve estar sentindo vazio indescritível. Faz sentido mesmo. O problema que tanto sofria pra resolver se resolveu sozinho.
No fim, quer dizer que era melhor deixar quieto mesmo? "Briga de casal nem cachorro come" é ditado bem verdadeiro mesmo.
— Como esperado, você é o máximo!
— Ai, você também!
Vendo o drama melado à minha frente, sinto vazio igual, questionando o que era aquilo tudo até agora. Impressionante como conseguem disparar raio de amor tão intenso assim. Sinceramente, fico admirado. Deve ser difícil pras pessoas ao redor também…
Ao murmurar isso, a irmã Karen olha pra cá com cara atônita. Eh, o quê?
— Que tá falando. O Touya-kun e o pessoal também são assim, viu? …Não perceber isso é assustador.
O quê… você diz…?
Eh, somos assim, nós…? De fato, sinto que aumentei abraço e beijo tipo cumprimento, mas… será que era a ponto de não me importar com olhar dos outros…?
Deixa eu ver………… não faço isso, não. Uhum. Acho que pensava, "já que casamos, não tem problema mesmo".
— Bom, sendo recém-casados, acho que amor melado assim não tem jeito mesmo.
— É mesmo! Não tem jeito mesmo!
Recém-casado, amor melado não tem jeito! Não tem jeito mesmo!
Como se disfarçasse o rosto que, por algum motivo, esquentou, viro de uma vez o resto do café.