Capítulo 51 – Magia de Armazenamento e Roubo
— [Storage]: In.
Abro a magia de nulo que aprendi. Um círculo mágico surge no chão, e a cadeira que estava em cima afunda num instante e some. É, armazenar deu certo.
— [Storage]: Out.
Desta vez imagino a cadeira e ativo a magia. O círculo aparece e a cadeira salta do chão.
— Opa.
Apoio a cadeira, que saltou e ia cair. Nessa parte, dosar a força é difícil.
A [Storage] é uma magia de armazenamento que guarda objetos. Bichos vivos não dá pra guardar, mas planta dá. A capacidade é proporcional à energia mágica e, no meu caso, dá pra guardar uma casa inteira, ou até mais.
Enquanto está guardado, o tempo parece congelado: guardo uma sopa quente e, tirando no dia seguinte, não esfria, pelo visto. Prático.
O mais chato de viajar era carregar a bagagem. O espelho que levei a Mismede, o chifre de dragão… eram um estorvo danado de carregar.
Na hora da bicicleta também, comprar e carregar o material deu trabalho.
Pra isso, esta magia. Adeus, incômodo. Carregar coisa, manda ver. Combinando com a [Gate], sem brincadeira, dá pra viver de transportadora.
Bom, hoje vou às compras. Com esta magia, por mais que eu compre, não atrapalha.
Pego a carteira e, de bom humor, saio do quarto e desço pro térreo. Na sala, num canto do sofá, o Kohaku dormia esticado, gostosão. Está ficando cada vez mais gato.
Atravesso o terraço e saio no jardim. Num canto, o casal Fullio-san e Claire-san conferia a horta.
— E aí, está crescendo direitinho?
— Ah, patrão.
— Sim, vai bem. Por ora plantamos pepino e tomate; logo dá pra colher.
O Fullio-san conta, feliz. Que bom, vou comer salada de verdura recém-colhida. Aí dá vontade de ter fruta também. Será que planto castanheira, caquizeiro? Ué, castanha é fruta…? É fruta.
— Patrão, tem algum pedido pro almoço de hoje?
A Claire-san pergunta o cardápio. Em geral deixo a cargo dela, mas a comida da Claire-san é toda gostosa.
— Deixa eu ver, hoje está quente, algo refrescante… queria um hiyashi chūka……
— "Hiyashi chūka"? Nunca ouvi esse prato. De novo comida da sua terra, patrão?!
Os olhos da Claire-san brilham, animada. Tudo que eu peço pra comer é prato que ela não conhece, e toda vez passo a receita pra ela fazer. Por essa comida exótica, a Claire-san fica sempre curiosíssima.
— É um prato de macarrão; por cima, um caldo frio meio azedinho, com legumes, carne, ovo. Te passo a receita detalhada, pra você fazer.
— Sim. Mal posso esperar.
Bom, mas aqui é outro mundo. Nem sempre tem o mesmo ingrediente. Ainda assim, fazer algo gostoso é o talento da Claire-san.
Busco a receita de hiyashi chūka, transcrevo com [Drawing] e dou à Claire-san. O almoço promete.
Bom, vamos sair.
Pela [Gate], vou ao distrito sul do anel externo da Capital. É a zona comercial, lojas enfileiradas. Mais pro lado oeste tem lojas tipo a "Berkut", de armaduras de luxo; mais pro leste, um bairro boêmio com botecos baratos e teatro.
O distrito oeste, onde fica a nossa casa, é o bairro residencial dos ricos; ao contrário, o leste é bairro de gente comum.
Mas, comparado ao oeste, o leste é mais perigoso, com lugares tipo favela. Boato é que gente que perdeu o emprego e crianças órfãs se juntam em bandos pra furtar. Quanto maior a cidade, mais lado sombrio, é.
Saindo de um beco do distrito sul, chego à movimentada rua principal. Primeiro, ir à guilda e sacar um pouco de dinheiro.
Na rua, mercadores viajantes e artistas de rua. Ôo, tem um fazendo malabarismo com facas. Quando criança, a vovó me ensinou bola de pano, mas eu nunca consegui.
Pensando nisso, de olho no malabarista, tom, esbarro em alguém. Um garoto. Boné rente aos olhos, jaqueta e calça surradas.
— Opa, foi mal. Eu não estava olhando pra frente.
— Olha por onde anda, moço. Cuidado.
Dizendo isso, o garoto some logo na multidão. Deve ser mais novo que a Sue, e já é um pivete arruaceiro… queria ver a cara dos pais.
Chego à guilda, movimentada como sempre. Aventureiros encarando o mural. Passo direto e, na recepção, peço pra sacar o dinheiro depositado.
— Então, me apresente o cartão da guilda, por favor.
Já vai… ué?
Bolso interno, peito, cintura, traseiro… ué? Ué-ué?
Cadê a carteira. Ué? Eu trouxe direitinho ao sair do quarto, né? Caiu? Não… ah!
Fui passado pra trás. Foi o garoto de agora há pouco. Bateram minha carteira com maestria. Tch.
Não tem muita coisa dentro… mas o cartão da guilda eu preciso de volta.
Saio depressa da guilda, tiro o smartphone (ainda bem que este não bateram) e busco "minha carteira". Hit. Ufa, ainda está neste distrito.
? Que é? Corre numa velocidade absurda, a carteira se movendo. E, num beco sem saída, o movimento para. Vai pegar só o conteúdo num lugar ermo e jogar a carteira fora, talvez. Bom, se for isso, é só buscar "meu cartão da guilda".
Por ora, corro pro beco do ponto de busca. Chegando, dois sujeitos de cara feia chutavam, várias vezes, um garoto encolhido no chão.
— De novo trabalhando na nossa área, seu pivete! Por sua causa a ronda apertou!
— Fazer o que quer atrapalha a gente. Está preparado, né.
Um saca uma faca e prende o braço do garoto. Vendo aquilo, o rosto do garoto se tinge de pavor.
— Para! Para! Eu peço desculpa! Peço desculpa!
O garoto implora em lágrimas, mas os dois só riem, debochados, e não soltam.
— Tarde demais. Por consideração de colega de ofício, fecho os olhos com um dedo só. Nunca mais trabalhe na nossa área. Da próxima a gente te mata, viu?
— Não… nãão!!
— Dá pra parar por aí?
Os dois capangas me fuzilam com o olhar. O garoto preso também me fita, em prantos, de olhos arregalados.
— Quem é você? Não se mete, ou eu te mato.
— Vendo dois homens surrando uma criança em bando, claro que eu me meto. Pela conversa, vocês também são batedores de carteira, né?
— E daí?!
— Nada. Só que aí some a minha hesitação de atirar.
E, sacando da cintura a Remington New Model Army, tom, tom, atiro nos dois capangas sem dó.
— Guh?!
— Gahá?!
Levando as balas de borracha com [Paralyze], os dois desabam. Guardo a arma no coldre e corro até o garoto.
— Você está bem?
De rosto desfeito em lágrimas, o garoto assente com um aceno. Pelo corpo todo, hematomas e marcas de ferimento.
— Luz, venha; cura serena: [Cure Heal].
Quando lanço magia de cura, num instante os pequenos ferimentos e hematomas somem. O garoto, de olhos espantados, via a mudança no próprio corpo.
Conferido isso, com um aço em formato de cubo que eu tinha, faço um fio com [Modeling] e amarro os dois capangas. Bom, com o [Paralyze] eles ficam meia jornada parados, mas, por garantia. Depois aviso a guarda.
— Dá pra me devolver a minha carteira?
— Ah……
Dito isso, o garoto, remexendo no peito, tira a minha carteira e, com a mão trêmula, entrega. Confiro: não falta nada.
— Recuperei a carteira, então desta vez não te denuncio à guarda. Tchau.
— A-ã!
O garoto me chama quando eu ia sair. Que foi?
— Obrigado por me ajudar……
— Se você acha isso, para de bater carteira. Da próxima talvez te peg…
Rrrooonc……
…uem, eu ia dizer, mas um ronco absurdo de barriga soou. Um silêncio.
— …Você está com fome?
— Faz três dias que não como……
E baixa a cabeça, abatido. Aah… fazer o quê.
"Não é da minha conta, foda-se" — pelo visto eu não tenho cabeça fria o bastante pra largar isso.
— Vem. Vou te comprar comida.
— É sério?!
Dito assim, soa até como sequestrador. Sem saber do que eu sentia, o garoto vem correndo. E, na corrida, o boné desliza, e de dentro escorre uma mecha de cabelo.
Percebendo, o garoto tira o boné da cabeça e, num instante, o "garoto" vira "garota". Hã?
Cabelo louro-claro até pouco abaixo dos ombros. A imagem de agora há pouco muda por completo.
— Hã… é menina?!
— …É, e daí?
Com olhos de "que pergunta", as duas pupilas verdes me fitam. Foi assim o meu encontro com a batedora de carteiras, a Rene.