Capítulo 52 – Nova Empregada e o Pingente
Quando limpo o rosto sujo dela, a Rene tinha um rostinho bem bonito.
— Ô, ô, moço. O que você vai me dar de comer?
O jeito de falar, porém, era zero.
Por ora, achando que comida pesada de uma vez o estômago fraco de fome não aguentaria, comprei numa barraca perto da guilda uma sopa de frutos do mar, pedi num copo e entreguei.
Meio receosa, a Rene recebe e começa a beber aos goles. Pelo visto não gosta de coisa muito quente. Pôr algo no estômago de supetão também não é bom, então caiu bem.
— Espera aqui um pouco.
Deixo a Rene ali e entro na guilda. Apresento o cartão recuperado da carteira e saco algum dinheiro. Tinha mesmo bem pouco. De volta, saio andando com a Rene. Pensei em entrar em algum lugar, mas, com a aparência dela, podia ser barrada.
No fim, comprei uns espetinhos noutra barraca e fomos comer num banco da praça.
— Não precisa se afobar, come com calma.
— Nh.
Devia estar com muita fome; mastiga os espetinhos com gula e engole. Briga boa com a Yae……
— Onde você mora, Rene?
— Não tem certo. Às vezes durmo no parque, às vezes no beco. Antes eu ficava numa pousada com o pai, mas……
— E o seu pai?
— Há um ano foi exterminar fera e não voltou. O pai era aventureiro……
Sei… Foi morto por uma fera. Em pedido de extermínio, o aventureiro às vezes é que tomba. Quando vai sozinho, muitas vezes vira "desaparecido", ouvi dizer.
— E a sua mãe? Não tem parente?
— A mãe morreu logo que me teve. Parente eu não conheço. O pai falava pouco.
Terminando os espetinhos, limpando a mão suja na calça, a Rene conta.
Então o pai sumiu e ela ficou sozinha. E ainda sobreviveu um ano assim.
— Depois que o pai sumiu, uma vó viajante que fiquei amiga na cidade me ensinou a bater carteira. Eu sabia que era errado, mas a fome era demais……
Ensinou bem, essa vó. Mas, graças a isso, dá pra dizer que a Rene sobreviveu.
Hmm, esta menina… o que fazer. Sem pai, sem parente. Levar a um orfanato — mas ela já é criminosa… Pelo que conta, só rouba em último caso, mas, por ser criança, será que relevam…
Por aqui tem bastante criança assim, pelo visto. Sem roubar, é morrer na sarjeta. Elas também lutam pra sobreviver. Isso eu entendo. Mas isso não faz roubar virar certo…
Empregar em algum lugar… ninguém vai. Largando assim, ela volta a bater carteira. E uma hora pode ser presa…
…Vão me chamar de mole, mas fazer o quê. Que me chamem. Se dá pra ajudar, eu quero ajudar, é fato.
— …Rene, você topa trabalhar na minha casa?
— Hã?
— Não precisa se preocupar com onde morar nem com comida. Só que você trabalha direito. E recebe um salário à altura. Que tal?
— Hã? Hã? Você vai me deixar trabalhar? Sério?
De rosto espantado, a Rene me fita. Confusa com o que eu soltei do nada, mas com um brilho de esperança nos olhos.
— Mas a condição é: nunca mais usar a técnica de bater carteira. Se quebrar, não dá pra você trabalhar pra mim. Consegue cumprir?
— U-uhum! Nunca mais uso! Prometo!
Afago de leve a cabeça da Rene, que assente com ímpeto. Pretendo confirmar o caráter dela com o olho mágico da Yumina, mas acho que você é boa menina, Rene.
Beleza, decidido isso, vamos pra casa.
Eu podia voltar pela [Gate], mas, pra ela aprender o caminho, decido ir a pé.
— Ué, não é por aqui?
— Minha casa é por aqui. No distrito oeste.
— Distrito oeste?!
A Rene, que apontava pro distrito leste, vira espantada. Tanto espanto assim?
Levando a Rene, atravesso o distrito sul e entro no oeste. Pelo bairro residencial que se abre, subo a ladeira suave rumo ao alto. Se não fosse essa ladeira, era mais fácil.
— Por acaso… moço Touya, você é nobre?
— Nobre não. Quase fui, mas.
Talvez insegura com o lugar fora do mundo dela, a Rene pergunta. Nobre moraria no anel interno, não no externo, mas nem sempre. Nobres de baixa posição ou falidos se mudam pra cá. Comerciante meio rico também mora aqui.
No alto da ladeira, surge a nossa casa de telhado vermelho. Ao olhar pra cima, de cara atônita, a Rene me fita.
— A-aqui é a casa do moço Touya?!
— É. Ah, Tom-san, bom trabalho.
— Ora, o patrão chegar pelo portão é coisa rara.
Rindo, o guarda Tom-san solta isso. Bom, como eu sempre uso a [Gate], é de se esperar.
Entro pela portinha ao lado do portão. Pelo caminho do jardim, abro a porta da entrada, e a Lapis-san e a Cecile-san justamente limpavam o saguão.
— Ora, patrão? Bem-vindo. Chegar pela entrada é raro, hein?
— Bem-vindo~. Oraa? E essa criança~?
Fitando a Rene de cima a baixo, a Cecile-san. Com vergonha de ser olhada, a Rene se esconde atrás de mim.
— Esta é a Rene. A partir de hoje vai trabalhar aqui, contem com ela. Vai, Rene, cumprimenta direito.
— Uá… Rene, prazer. Conto com vocês……
Ué, ficou que nem gato amarelo. Está nervosa? Bom, trazida assim de repente pra cá, é de se esperar.
— Cadê o Lime-san?
— Foi levar chá pra Yumina-sama na sala.
Levo a Rene pra sala. Sento ela numa cadeira e explico ao Lime-san a situação.
A Yumina ouve calada e fica fitando a Rene. Deve estar usando o olho mágico. Logo abre um sorrisinho. Viu, no fundo não é má menina.
Confirmado de canto de olho, o Lime-san abre a boca.
— Sei. Entendi a situação. Mas, trabalhar com ideia pela metade só atrapalha. Rene, é?
— U-uhum.
— Você quer mesmo trabalhar aqui? Errar, dar trabalho a nós, empregados — isso em si não tem problema. Promete aprender com isso e não fugir?
Com um olhar penetrante, o Lime-san pergunta à Rene. Achei meio duro com uma criança de menos de 10 anos, mas não era clima de me meter, então fiquei calado.
— …Uhum. Eu quero trabalhar aqui. Quero ficar com o moço Touya.
Encarando firme os olhos do Lime-san, a Rene respondeu com firmeza. Olhando aquilo, o nosso mordomo afrouxa a expressão e se levanta, sorrindo.
— Cecile, leve a Rene ao banho. Lave de cima a baixo.
— Si~m. Vem, Rene~. Vamos tomar banho~.
— Hã? Hã?
Puxada pela Cecile-san, a Rene é levada ao banheiro.
— Lapis, compre umas roupas que sirvam nela. Ah, e encomende um uniforme de maid sob medida.
— Sim. Patrão, vou pegar a bicicleta emprestada.
A Lapis-san sai depressa. Aliás, ela e a Cecile-san dominaram a bicicleta em poucas horas. São da Espion, afinal.
— Quando sair do banho, que ela use minhas roupas por ora. Não vão servir, mas é só até a Lapis-san voltar.
A Yumina diz isso e se levanta. Vai levar roupa pro vestiário. Quando ela sai, me recosto na cadeira e fico pensando. Logo o Lime-san chega e põe um chá na mesa à frente.
— Será que era melhor ter deixado num orfanato? Será que me meti onde não devia……
— Isso é a Rene quem decide. Por ora, basta o senhor acolher o fato de ter tirado uma menina da miséria.
É, tem razão. Vou parar de remoer. Fiz porque quis. Só isso. Ex-cuidador do rei, afinal. Tem lábia.
Ainda assim, o que a Rene fez é crime. Tem que ser expiado direitinho. Vou conversar isso. Com o rei.
…Ué?
Tonton-tonton, som de alguém correndo pelo corredor. Bam! A porta abre e a Rene irrompe, enrolada numa toalha de banho. Nos braços, o nosso filhote de tigre branco.
— Mo-moço Touya! Um tigre! Tem um filhote de tigre!
De cara emburrada, o Kohaku se vira pra cá. É, entendo o lado dele.
— Senhor… quem é esta menina?
— ?! O tigre falooou?!
Aff, que barulho. Aliás, vista uma roupa. Que falta de modos. A casa está cada vez mais animada… ué?
No pescoço da Rene tem algo pendurado. Um pingente?
— Rene, esse pingente?
— Este? É lembrança da mãe, que o pai me deu. Só isso eu sempre guardei.
— Dá pra eu ver um pouco?
A Rene me entrega o pingente. E é levada de novo ao banheiro pela Cecile-san de mangas arregaçadas. Que agito.
Olho o pingente na mão. Isto é ouro, né… Deve valer um bom dinheiro. Desenho de asas abertas, com uma joia grande de triângulo invertido encravada no centro. Esmeralda… não, é pedra mágica, pedra mágica de vento.
Atrás… um brasão?
— Lime-san… este brasão, sabe de onde é?
— Um grifo e um escudo, com duas espadas e louros… Não me lembro de ter visto……
— Se isto é herança de família, será que a Rene é de boa origem?
— Isso não dá pra dizer. Pode ser que o pai dela, ou o pai do pai, tenha conseguido por acaso.
Sei, pode ser que um achado tenha passado de geração em geração. Mas, achando uma coisa cara assim, a pessoa entrega ou vende, eu acho. Com o pai da Rene morto, não dá pra saber a verdade…
— Pelo menos, brasão de nobre de Belfast assim não existe. Brasão de grifo é comum no Império, mas……
Império. O Império de Regulus, a leste. O que não se dá bem com Belfast… O pai da Rene talvez fosse um nobre falido do Império.
De um jeito ou de outro, melhor não alardear. Quando eu conhecer alguém do Império, pergunto com jeito.