Capítulo 54 – Phrase e Rumo a Ishen
— Na véspera de vocês voltarem, chegou um mensageiro de uma cidade no oeste de Mismede, chamada Lares. Que, dias antes, começara um fenômeno estranho.
— Fenômeno estranho?
Sentada numa cadeira da sala, a Leen pega a xícara de chá e bebe. À frente, eu e a Yumina; aos lados, a Lindsey e a Yae. A Paula estava sentadinha ao lado da Leen.
— Quem descobriu foram as crianças da vila de Lares. Acharam, num ponto vazio do bosque, uma pequena fissura pairando no ar. Não dá pra tocar, mas, sem dúvida, existe ali — uma fissura esquisita.
Fissura no espaço…? Que é isso. Alguma magia?
— Logo as crianças notaram que a fissura ia crescendo dia após dia. Avisaram os adultos às pressas, e o ancião da vila mandou um emissário à capital.
A Leen devolve a xícara ao pires. Esse emissário chegou na véspera de a gente voltar a Belfast, é.
— Interessada, fui à vila com um pelotão do corpo de guerreiros. Mas o que vi foi uma vila à beira do extermínio. O monstro de cristal matava os aldeões, num festival de devastação. O pelotão comigo lutou também, mas não teve a menor chance. Espada não pegava, magia era absorvida, e, por mais que quebrasse, se regenerava… um pesadelo. Metade dos guerreiros ficou inválida, a vila foi totalmente arrasada.
— É igual ao que a gente enfrentou… E aí, deu pra derrotar?
— De algum jeito. Descobri que magia que causa dano físico funciona, e joguei na cabeça dele uma pedra de várias toneladas com magia de terra. A cabeça se espatifou e não se regenerou mais.
Provavelmente a esfera vermelha que tinha na cabeça… ela foi destruída, e por isso ele parou. É mesmo o mesmo monstro que enfrentamos.
— Querendo investigar esse monstro, ia pedir ajuda à Charlotte, e ela me conta que em Belfast houve algo parecido. E que quem derrotou foi você. Me espantei.
A Leen me lança um olhar direto, com um sorriso meio sacana. Que é isso, esse estado de sapo encarado por cobra. Começou a sair um suor frio.
— Soube, viu? Você usa todas as magias de nulo, é? Com razão usa o [Program] também.
— Ah… como dizer, eu agradeceria se não espalhasse.
A Charlotte-san abriu o bico. Não, talvez tenham feito ela abrir. Pressionada pela mestra carrasca…
— Pelo que disse um aldeão sobrevivente, a fissura que se abria no espaço foi destruída, e de dentro dela saiu o monstro de cristal.
De um espaço destruído…? Não foi ressuscitado de ruínas antigas, como no nosso caso?
A Leen tira do bolso um papel e o abre na mesa. O que estava desenhado não era o monstro de cristal que a gente derrotou, mas um de outra forma.
O que a gente enfrentou tinha cabeça de amêndoa com seis pernas finas e compridas, formato de grilo. Mas o do papel da Leen tinha a mesma cabeça de amêndoa, sem pernas, e um corpo longo.
Se o que a gente enfrentou é um grilo, este é uma cobra. Uma cobra de cristal, de corpo como uma katana dobrada em ângulos.
— A forma é diferente. O nosso tinha formato de grilo. Atacava esticando as pernas.
— O nosso esticava o rabo pra espetar e ceifar. Como uma lâmina afiada.
A forma difere. Mas dá pra ter certeza de que são a mesma coisa. Como borboleta e louva-a-deus: totalmente diferentes, mas, na categoria "inseto", iguais. Provavelmente estes, nessa categoria, são da mesma espécie.
— …Antigamente, quando eu ainda era pequena, ouvi uma história do ancião do clã. De que um demônio chamado "Phrase", surgido não se sabe de onde, quase destruiu este mundo… Um demônio de corpo semitransparente, imortal, que não morria. No fim, ele sumiu como surgiu, e o mundo voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido…
— E essa tal "Phrase" seria o monstro de cristal?
— Isso eu não sei. O ancião já morreu, e ele mesmo dizia que era conto de fada que ouviu criança. E o povo das fadas só passou a conviver com outros povos há uns cem e poucos anos.
Se aquele monstro for a "Phrase", de onde veio? Como uma besta de invocação, alguém o comanda? Por que ataca pessoas? Por mais que eu pense, não há resposta.
É uma ameaça, mas não é invencível. Se aparecer de novo, é só derrotar. E, se houver um mentor por trás, é arrancá-lo das sombras e derrotar.
— Bom, não adianta a gente só remoer. É um tipo que eu preferia nunca mais ver, mas, se aparecer de novo, é bater.
— Pois é. Aliás, eu vou ficar neste país como embaixadora de Mismede, no lugar da Olga.
Hã? É mesmo? Charlotte-san, coitada……
— Daqui pra frente venho visitar sempre, conto com você. E, Touya, você usa a [Gate], né?
Ah, essa não. Descobriu. Eu até bolei uma encenação pra manter a [Gate] em segredo, e agora isto pode pôr Mismede de pé atrás, com desconfiança.
Como quem lê o meu pensamento, a Leen abre um sorrisinho.
— Não precisa dessa cara, fica tranquilo. Não vou contar ao Rei Ferino nem aos outros chefes. Eu sou boa com os de casa, viu?
— De casa?
— Você vai entrar como meu discípulo, né?
Com um sorrisinho, a Leen me olha. Hmpf. Se isto não é chantagem, é o quê. Enquanto eu hesito em responder, a Leen cai na risada.
— Hihi, brincadeira. Forçar quem não quer não é o meu estilo.
Mentira. Metade era sério. Enquanto eu fuzilo a Leen, a porta da sala abre e, com uma bandeja de bule e doces, entram a Cecile-san e a Rene.
— Trou-xe mais chá pra vocês.
A Rene, dura de nervosismo, tece as palavras. Com movimentos travados, põe o prato de doces no centro da mesa e enche as xícaras vazias. Atrás, a Cecile-san acompanha, sorrindo.
— Com licençia.
Tropeçou. Com uma reverência, as duas saem. Razoável, vá lá. Pra primeira vez, ela foi bem.
— Você emprega gente bem pequena, hein. Não parece muito acostumada a atender, é novata?
— Contratei faz pouco. Se houver algum deslize, eu agradeço se relevar.
Dizendo isso, bebo o chá servido. Hm, meio quente, e o gosto está forte. Nessa parte não dá pra esperar o nível da Lapis-san e da Cecile-san. Mas nada de mais.
— Aliás, voltando ao assunto de antes. Você usa a [Gate], né?
— Uso. O ponto fraco é que só pula pra onde já estive.
— Conhece a magia de nulo [Recall]? Lê a mente do outro e recolhe a memória dela. Combinando, dá pra pular, pela memória lida do outro, pra aquele lugar.
Existia uma magia dessas… Mas como ela sabe tanto. O povo das fadas quase sempre nasce com magia de nulo, então deve ser natural.
— Com essa magia e a [Gate], tem um lugar pra onde quero que você me leve. Num sítio antigo de lá, há algo que eu quero pegar.
— Não entendi bem… pra onde quer que eu te leve?
— Lá no extremo Oriente, no fim do leste. Ao País Sagrado de Ishen.
— Ishen?
Sem querer volto o olhar pra Yae. Olhada, a Yae também se espanta.
O país muito parecido com o Japão do meu mundo, Ishen. Um país que me intriga desde que cheguei a este mundo. Dá pra ir lá.
— Esta menina aqui nasceu em Ishen, né? Lendo a memória dela, a [Gate] leva a gente a Ishen.
— P-pera aí! Ler a memória, a deste servo?!
— Fica tranquila. O [Recall] só recolhe a memória que o doador autoriza, então não dá pra ler nem o que você não quer mostrar.
A Yae fica com cara difícil, em dúvida. Bom, todo mundo tem coisa que não quer que saibam. Mesmo ouvindo "fica tranquila", deve ficar insegura. No lugar dela, eu ficava igual.
— A magia de nulo [Recall] toca o outro, alcança a mente e recolhe a memória pra dentro de si. Pro toque, nada como um beijo.
— Quêêê?! — os quatro.
— Brincadeira.
Às palavras da Leen, todos amolecem. Para de sorrir assim, sua gothloli sádica! Está brincando com a gente, esta aí!
— Pronto, pronto, vocês dois venham aqui, fiquem de frente. E deem as mãos.
Puxado pela Leen, fico de frente pra Yae. E as nossas mãos são seguradas juntas. U, macias… Ela vive segurando katana e tal, e ainda assim são tão macias. Essa não, comecei a ficar nervoso!
— Ah……
— Hau…!
Ergo o olhar e encontro o da Yae. Ela me fita, vermelha que nem pimentão. Não faz essa cara! Aí eu fico com mais vergonha ainda!
— Pronto, os dois, fechem os olhos. A Yae imagina na cabeça uma paisagem de Ishen. De preferência um lugar bem nítido. Se for vago, a [Gate] pode abrir num lugar parecido. Aí o Touya encosta a testa na da Yae e ativa o [Recall].
Como a Leen manda, concentro a energia mágica e encosto a minha testa na da Yae. Um cheiro bom me chega e quase quebra a concentração, mas, de algum jeito, me seguro e ativo a magia.
— [Recall].
Algo flui, vago, pra dentro da minha cabeça. Uma árvore grande… uma canforeira? Na base dela, algo… um torii, é. Vejo um pequeno oratório. Dos lados, parecem komainu. Um oratório pequeno no meio do bosque. Esta é a memória de Ishen que estava na Yae.
— Vi.
Abro os olhos e encaro a Yae à frente. Que sensação estranha, compartilhar a memória do outro. Até dá a impressão de que eu mesmo já estive ali várias vezes.
— Nhnh!
— Opa!
Ao pigarro forçado da Yumina, caio em mim e solto as mãos da Yae. Pela vergonha de ficar de mãos dadas, encarando, os dois viramos o rosto sem querer.
— Já que viu Ishen, queria que abrisse a [Gate]. Pode ser?
Tch, já disse pra parar com esse sorrisinho!
Imagino de novo o lugar de Ishen que me veio à mente e abro a [Gate].
Atravessando o portal de luz, lá era um bosque, com uma grande canforeira e, embaixo, um torii e um oratório guardados por komainu. A mesma paisagem que vi na memória da Yae.
— Não há dúvida. Aqui é a minha terra natal, Ishen. Nos arredores de Oedo, onde fica a minha casa, no meio do bosque guardião.
A Yae, que atravessou a [Gate] do mesmo jeito, olha ao redor e afirma.
O fim do leste, o país do extremo Oriente, o País Sagrado de Ishen. Pusemos os pés lá.