Capítulo 56 – Máscara de Oni e Cura em Massa
O que se via do desfiladeiro, depois de atravessar a [Gate], era a silhueta de um forte sob ataque, soltando fumaça preta.
Uso a magia de nulo [Long Sense] e mando a visão até o forte.
O forte, erguido no alto de um morro, ainda continha os inimigos a duras penas, mas chamas subiam de toda parte, e parecia no limite entre apagar o fogo e repelir o inimigo que avançava.
Flechas incendiárias cruzavam o ar sem parar, e, aproveitando as brechas, soldados inimigos se amontoavam tentando escalar as muralhas do forte.
Tiro o smartphone do bolso e busco por "irmão da Yae". Como já busquei uma vez, deve dar… achei. Dentro do forte, diante da muralha, movendo-se de um lado pro outro. Pelo visto, está a salvo.
— O seu irmão parece estar bem. O seu pai eu não sei…
— Ngh! Temos que ir pro forte, rápido…!
— Espera. Você acha mesmo que ia se atirar lá no meio e sair ilesa?
A Leen segura a Yae, que já ia disparar rumo ao forte. De fato, o forte estava cercado de soldados inimigos, e chegar perto não parecia fácil. Mas não é que não haja um jeito.
— Eu confirmo um quilômetro à frente com [Long Sense] e pulo de [Gate]. Repetindo isso, dá pra entrar até dentro do forte. Chamar atenção é ruim, então primeiro eu vou sozinho até lá e abro de novo uma [Gate] aqui; quero que vocês esperem.
— Saquei. Deve ser o jeito mais seguro.
A Leen leva a mão ao queixo, pensativa. Ué? Pensando bem…
— Ei, o povo das fadas não consegue voar com essas asas nas costas, não?
— Hã? Ah, que nada. Diferente do povo alado, as nossas atrofiaram. Dá pra bater as asas, mas no máximo flutuar um pouquinho. E cansa demais.
Que pena. Eu tinha pensado em pedir pra Leen me levar voando até em cima do forte. Bom, se me tomassem por figura suspeita e me mirassem com arco e flecha, não ia dar conta — então, de todo jeito, não rola.
No fim, só resta ir pelo método de antes mesmo.
— Kohaku. Cuida de todo mundo. Qualquer coisa, me avisa.
— Pois não.
— Quê?! Esse bicho fala?!
A Leen arregalou os olhos, espantada com o Kohaku, que me respondera. Ué? Eu não tinha contado? Será que foi ruim deixar escapar pra alguém ligado a Mismede. Bom, ela parece estar guardando segredo das minhas habilidades também, então acho que tá tudo bem.
Desdobro o [Long Sense] e observo um quilômetro à frente. Pra começar, aquela área ali deve dar. Abro uma [Gate] diante do forte, no meio de um bosque.
— Então, já volto.
Atravesso a [Gate] e me teletransporto pro meio do bosque. Gritos de guerra e berros, próprios de um campo de batalha, cruzavam o ar, e uma atmosfera fora do comum pairava em volta. Misturado ao cheiro de queimado, vinha também o cheiro de sangue.
Olho pro forte à frente e penso um pouco em como pular daqui. Acho que com mais umas duas teleportadas dá pra entrar no forte, mas, se possível, queria me infiltrar sem ser visto pelos inimigos.
Mando a visão de novo com [Long Sense]. Mas está tudo apinhado de inimigos, sem nenhum lugar pra onde teletransportar. Sem jeito — só resta ir pro ponto com menos inimigos possível, dominar a área e então emendar a [Gate].
Por um tempo, vou alternando o ponto de vista, procurando um lugar relativamente vazio de inimigos. Logo encontro um ponto perfeito, um pouco afastado do flanco do forte. Ali, se eu derrubar os dois arqueiros à frente, dá pra ganhar um tempo.
— Reload.
Na Remington New Model Army, no quadril direito, carrego balas de borracha imbuídas de [Paralyze]; na espada-arma Brunhild, atrás na cintura, balas de verdade. É precaução para o caso de o adversário ter um amuleto de resistência mágica.
— [Gate].
Saco a New Model Army e me teletransporto pras costas dos dois soldados, num ponto cego. Mirando dali mesmo, descarrego balas de paralisia em sequência nas costas dos dois. Eca, até eu me acho meio covarde…
Os dois soldados levaram os tiros nas costas e tombaram, mas, sem paralisar coisa nenhuma, se ergueram devagar e sacaram a katana da cintura. …Quê?! O que são esses caras?!
Não me espantei porque as balas de paralisia não fizeram efeito. Me espantei com a aparência grotesca deles.
Envoltos em armadura e elmo de estilo japonês, katana na mão — isso até passa. Mas a máscara que lhes cobria o rosto é que exalava aquele ar bizarro.
Uma máscara de oni. Um oni vermelho, de chifres erguidos e expressão de fúria. Nas armaduras japonesas existe o menpō, uma espécie de máscara que protege do queixo às bochechas — mas não era isso. Era de fato uma máscara de oni cobrindo o rosto inteiro.
E o que tornava aquilo ainda mais estranho era que a pele exposta — nas partes que a armadura não cobria, nas frestas das roupas rasgadas — era vermelha igual à máscara. Como se um oni vermelho de verdade estivesse usando uma máscara.
Diante da anormalidade deles, guardo na hora o revólver no coldre e, de trás da cintura, saco desta vez a Brunhild. Descarrego balas de verdade, em sequência, na perna de um deles à minha frente. Primeiro, imobilizar. Se der, não quero matar ninguém.
Mas, pouco se importando com os meus sentimentos, aquele que devia estar com a perna baleada ergueu a katana sem hesitar e partiu pra cima de mim. Essa não!
— [Slip]!
O coeficiente de atrito sob os pés dele zera, e o soldado, que vinha atacando, perde o equilíbrio e cai. Isso! [Slip] é imbatível!
Na brecha, piso com o pé esquerdo na mão que segura a katana pra imobilizá-la e, com o pé direito, chuto a cara dele com toda a força. A máscara se estilhaça em pedacinhos e, daí em diante, ele para de se mexer.
Esses caras… será que estão sendo controlados pela máscara?! Passo a Brunhild pra mão esquerda, saco de novo a New Model Army com a direita e disparo uma bala de borracha na máscara do outro soldado, que erguia a katana.
Com o impacto da bala, a máscara racha e se parte certinho ao meio. No instante em que os cacos caem no chão, o sujeito desaba de joelhos e tomba, sem forças.
— O que eram esses caras…?
Me aproximo do soldado caído. Ugh, que cheiro é esse… Peraí, isto… ele tá morto? Não me diga que estão usando aquela máscara pra controlar cadáveres e transformá-los em soldados? Dá pra fazer uma coisa dessas?!
Pensando bem, aquele em quem atirei na perna também quase não sangrou. Se ele já estivesse morto, com o coração parado, isso faz sentido.
— Controlar cadáveres… é aquilo que nos games chamam de necromante, é?
Não dá pra dizer que sejam soldados-zumbi. Talvez porque os movimentos fossem ágeis demais. Se forem caras desses atacando, a coisa fica feia. Melhor entrar logo no forte, avaliar a situação e então traçar um plano.
Estendo a visão pra dentro do forte com [Long Sense]. Ser tomado por inimigo e atacado é a última coisa que eu quero. Procurar o irmão da Yae e fazer ele me ouvir deve ser o mais seguro.
Deixa ver… ô, é este aqui? Cabelo preto, olhos pretos, uma cicatriz de katana na bochecha direita. Vestido numa armadura negra, com ar tranquilo, mas com um porte que não é de gente comum. Coberto de sangue dos inimigos de cima a baixo, bradava ordens.
— [Gate].
Aparecer de repente na frente dele podia assustá-lo e me render um golpe, então mantenho a [Gate] aberta e espero um pouco. Do lado de lá, deve estar surgindo uma porta de luz. Depois, atravesso a porta devagar e me teletransporto diante do irmão da Yae.
— Ngh! Quem é você?! Um agente dos Takeda?!
De katana em riste, o irmão da Yae me interpela. Os soldados em volta também apontaram as katanas pra mim, todos de uma vez.
— Calma. Não sou inimigo. O senhor é o irmão da Kokonoe Yae, o Kokonoe Jūtarō, não é?
— Jūtarō sou eu, sim… Mas como você conhece a Yae…?
Eu, que ergui as mãos pra mostrar que não tinha más intenções, soltei o nome da Yae, e o Jūtarō-san me lançou um olhar desconfiado.
— Sou um companheiro da Yae, conheci ela num país chamado Belfast. Soubemos que o senhor, irmão dela, estava em perigo, e por isso vim ajudar.
— Da Yae?!
— Sim. Ela também está aqui perto. Vou chamá-la agora com magia de teletransporte, tudo bem?
Num burburinho, os soldados em volta voltam o olhar pro Jūtarō-san. Pelas falas — "A Yae-dono?", "A Yae-dono, aqui?" —, dá pra desconfiar que talvez sejam alunos do dojô.
Logo o Jūtarō-san abaixa a katana e assente devagar.
— [Gate].
De uma nova porta de luz que abri, uma garota saiu disparada. Correu os olhos pelo lugar e, ao fixá-los no Jūtarō-san, correu até ele num átimo e se jogou em seu peito.
— Irmão!
— Yae…? É você mesmo, Yae?
— Sim!
Enquanto os irmãos saboreavam o reencontro ali ao lado, da [Gate] vão surgindo, em fila, a Elsie e as outras.
— E aquele pessoal?
— São os companheiros deste servo. Gente em quem dá pra confiar, todos eles.
Ouvir isso assim, na lata, dá uma certa vergonha.
— Mais importante, irmão, e o pai? Está bem?
— Ah, está bem, pode ficar tranquila. O pai agora está na guarda do Ieyasu-sama. Você o vê depois.
O irmão fala com carinho com a irmã preocupada com o pai. Dá um belo quadro, esse cara.
Mas a situação aqui é cruel. Olho em volta e há feridos encolhidos por toda parte, sem conseguir se mexer. Se eu não fizer algo, pode custar vidas.
Beleza, vou testar aquilo.
Tiro o smartphone e ligo. O [Multiple] já está imbuído no app de mapa, então falta só o [Program].
— Iniciar programa / Condição de ativação: tocar o alvo na tela / Captura de alvos: via [Multiple], todos os alvos do mesmo tipo / Encerrar programa.
Com isso, não preciso mais travar um por um. Tocando em um só, deve capturar todos.
Buscar por "feridos" capturaria até os feridos inimigos, então busco por "feridos do exército Tokugawa". Na tela, alfinetes marcando os alvos vão caindo um após o outro. Tem bastante, hein. Afasto o mapa na tela pra abranger o forte inteiro.
Toco num dos alvos pra travá-lo, e na tela os outros vão sendo travados em cadeia. Olho pro lado: sobre um soldado ferido, encolhido, pairava um pequeno círculo mágico. É o círculo do [Multiple]. Tudo pronto.
— Venha, luz, cura serena: [Cure Heal].
Do círculo mágico descem partículas suaves de luz. Logo elas envolvem os feridos, e os ferimentos dos alvos se fecham e se curam a olhos vistos.
Pouco depois, gritos de júbilo se erguem de todos os cantos do forte, e o soldado ferido que estava à minha frente também se levanta, intrigado, mexendo o corpo.
— Peraí… o que você fez? Que foi magia de cura eu entendi, mas não me diga que…
— Curei todos os feridos do forte. Ainda bem que deu certo.
Diante das minhas palavras, a Leen me lançou uma cara de exasperação. Bom, mais ou menos eu sei o que ela quer dizer.
— Os feridos… mas o que é isto…?
— É a magia de cura do Touya-dono.
Pro irmão, que olhava ao redor de olhos arregalados, a Yae diz isso e volta o olhar pra mim.
— Foi só o ferimento que fechou, nada além disso, então procure não forçá-los demais. O sangue que perderam não volta.
— A-ah, entendi. Vou passar isso adiante direitinho.
O Jūtarō-san me responde com jeito de quem ainda não se recuperou do susto. Por ora, os feridos estão resolvidos. Agora falta só dar um jeito nos inimigos que se amontoam no forte.
Bora caprichar no espetáculo!