Capítulo 58 – A Situação dos Takeda e a Infiltração
— Como assim…?!
O Jūbei-san fica sem palavras. Como dizia o boato, o exército Takeda já está, pelo visto, sob o domínio do estrategista das trevas, Yamamoto Kansuke.
— O Shingen-dono já morreu, e os Quatro Reis Celestiais de Takeda, fora o Kōsaka-dono, foram todos jogados na masmorra, ao que parece. Diz aqui: que detenhamos o Kansuke de algum jeito e salvemos os Takeda.
— O Kōsaka-sama finge obedecer ao Kansuke, mas pensa em retomar os Takeda.
A kunoichi que se apresentou como Tsubaki acrescenta. Pelo visto, o Kansuke escondeu a morte do Shingen e, manipulando o cadáver dele, pôs os Takeda na palma da mão. Os Reis Celestiais que perceberam isso foram presos, e só o Kōsaka — que (fez parecer que) aderiu às ideias do Kansuke — segue agindo como subordinado dele… é isso, então.
— Falando francamente, os Tokugawa não têm obrigação de fazer tanto pelos Takeda. Mas, do jeito que está, os Tokugawa acabarão arrasados pelos soldados mascarados que o Kansuke comanda. É um tanto vergonhoso admitir, mas tanto salvar os Tokugawa quanto salvar os Takeda — toda a decisão parece estar nas mãos dos visitantes vindos de Belfast.
Dizendo isso, o Ieyasu-san fixa o olhar em nós. Agora, definitivamente, vamos ter de nos infiltrar em Tsutsujigasaki e dar um jeito nesse tal de Yamamoto Kansuke.
— O que vamos fazer, Touya-san?
Mesmo sabendo a resposta, a Yumina pergunta com um jeitinho de quem pede ordens a mim. A tal "decisão" caiu no meu colo… Bom, tudo bem, vá lá.
— A gente vai, sim. Vou me infiltrar em Tsutsujigasaki. Quero ir pras Ruínas de Niruya com a consciência tranquila.
— Eu agradeço.
A kunoichi… a Tsubaki-san baixou a cabeça.
— Sendo assim, não dá pra se infiltrar com muita gente, então vamos nós três: eu, a Tsubaki-san e a Leen.
Com a Tsubaki-san, que conhece os Takeda por dentro, e a Leen, fada exímia em magia, acho que a gente dá conta. Ah, a Paula, desculpa, mas fica de babá da casa. Quando avisei isso, a ursinha de pelúcia bateu o pé e, num "grrr", exprimiu a raiva com o corpo inteiro. Impressionante, esse [Program].
— Beleza, então, sem demora…
— Espera, espera! A gente vai se infiltrar assim, em plena luz do dia? Não é melhor esperar a noite chegar?
Quando me levantei animado, a Elsie disse uma coisa cheia de razão. É verdade. À noite há menos olhares, e, no escuro, fica mais difícil de nos verem.
Decidimos, então, infiltrar à noite, e dar uma pausa por ora.
Bom, eu tinha um monte de coisa pra fazer: usei a [Gate] pra voltar uma vez à casa da Yae e avisar que o Jūbei-san e o Jūtarō-san estavam bem, fui à mansão de Belfast avisar o Lime-san que ia passar a noite fora, e por aí vai.
Também me pediram pra guardar com [Storage] mantimentos de Oedo — saquê, comida, flechas, óleo — e levar tudo pro forte. Bom, como não me cansa, tudo bem. E o Ieyasu-san pagou direitinho. Acabei ganhando um bom dinheiro. Será que eu monto mesmo uma transportadora?… Enquanto fazia essas coisas, num piscar de olhos a noite caiu.
— Então, Tsubaki-san, imagine um lugar de onde dê pra ver o solar de Tsutsujigasaki. De preferência, um lugar com o mínimo de gente possível.
— Pois não.
Seguro as duas mãos da Tsubaki-san, que está de olhos fechados. Com a Yae eu também fiquei meio nervoso, mas segurar a mão de uma mulher que mal conheço dá nervoso igual… Ou melhor, conhecer ou não conhecer não importa: segurar a mão de uma mulher, em si, já me deixa nervoso — e ainda por cima as garotas do meu grupo estão me olhando com um olhar afiado que dá medo!
Não sei bem por quê, mas vou acabar logo com isso. Tenho a sensação de que é melhor pra minha saúde.
— [Recall].
Concentro a energia mágica e encosto a testa. A Tsubaki-san é alta, quase da minha altura, então não precisei me abaixar como com a Yae. Vagamente, surge na minha mente um grande solar térreo cercado por vários fossos e, em volta dele, a cidade-castelo. Aquilo deve ser o quartel-general das terras dos Takeda, Tsutsujigasaki.
— [Gate].
Afasto-me da Tsubaki-san e crio, dentro da torre, uma porta de luz rumo a Tsutsujigasaki.
— Então, já vou. Kohaku, qualquer coisa, me avisa.
— Pois não.
Eu e o Kohaku conseguimos conversar por telepatia mesmo bem distantes. Assim, se acontecer algo aqui, ele consegue chegar correndo num átimo.
Na [Gate] aberta, primeiro a Leen, depois a Tsubaki-san e, por último, eu nos lançamos.
Ao atravessar a Gate, logo acima, num céu noturno sem lua, só as estrelas cintilavam. Em volta, um bosque denso e cerrado; ao longe, viam-se de leve as luzes de tochas. Aquilo provavelmente é o solar de Tsutsujigasaki.
— É ali que a gente vai se infiltrar…
Pra dar uma olhada na situação, desdobro o [Long Sense] e mando a visão. No interior cercado pelos fossos havia algumas pontes e, como era de esperar, o portão do castelo estava fechado.
Diante do portão, homens robustos armados de armadura e elmo, de lança em punho, postavam-se como guardas.
Avançando a visão portão adentro, muros brancos se estendiam como um labirinto, e ao lado deles havia um poço. Num descampado um pouco afastado dali, havia arbustos de jardim perfeitos pra se esconder. Beleza, primeiro me teletransporto pra cá.
— [Gate].
Logo invoco a porta de luz e tento atravessá-la. Mas acabei passando direto pela porta de luz, e só dei um passo pra frente, ali mesmo diante dela.
— Ué, ué?
Tento atravessar a porta de novo. Mas, mais uma vez, não teletransportei: simplesmente passei direto.
— O que tá acontecendo?
Sem entender, coço a cabeça. Até hoje, nunca aconteceu uma coisa dessas.
— É uma barreira de amuleto. Deve ser isso que está bloqueando o teletransporte da [Gate].
— Barreira?
A Leen me explica isso enquanto observa o meu apuro. Pensando bem, o Duque Ortlinde já tinha dito isso antes. Que dá pra impedir a invasão da [Gate] com uma barreira simples. Então era isto.
— Deve ser obra do Kansuke. Sozinha, eu consigo entrar me passando por mensageira do Kōsaka-sama, então vou lá destruir esse tal amuleto.
A Leen, de braços cruzados, deteve a Tsubaki-san, que ia sair andando rumo ao solar.
— Deixa pra lá. Se destruir a barreira, é bem provável que quem a montou perceba. Mesmo que não descubram quem foi, deixá-los em alerta não é boa estratégia.
— Então, o que fazemos?
A Tsubaki-san pergunta à Leen. Aqui, no fim, só resta aquilo mesmo.
— Leen. Vamos nos infiltrar com a magia de invisibilidade que some com as tuas asas. Eu e você ficamos invisíveis, seguimos a Tsubaki-san e passamos pelo portão. Assim dá certo, né?
— Não é "invisibilidade", é uma questão de visão… enfim, tanto faz. Então fica aí parado.
Conforme ela manda, fico em pé de frente pra Leen. Ela estende a mão pra mim e começa a tecer a energia mágica; aos nossos pés surge um círculo mágico.
— Luz, distorce-te; guia da refração: [Invisible].
Quando a Leen recita o encantamento, o círculo mágico aos nossos pés sobe e atravessa os nossos corpos. Ao passar pelo alto da cabeça, ele se apaga em silêncio.
— Sumiram…
A Tsubaki-san solta um grito de espanto. Ué, já sumimos? Mas eu vejo o meu braço, o meu corpo, e vejo a Leen também?
— Leen. Em nós, essa magia não faz efeito?
— Lógico que não. Se a gente não enxergasse o próprio corpo, ia ser um inconveniente sem fim, oras.
— Ah, mas dá pra ouvir a voz de vocês.
A Tsubaki-san murmura isso com uma voz meio aliviada. Pra ela, de fato, parece que nós estamos invisíveis.
A Leen abre um sorriso maroto e, num instante, contorna pras costas da Tsubaki-san e, do nada, agarra-lhe os seios com as duas mãos, apertando.
— Fuáááaaah?!
— Ei, Touyaaa, só porque tá invisível, o que você pensa que tá fazendo?
— T-Touya-san?!
— Não sou eu! É a Leen! Eu tô aqui na sua frente esse tempo todo!
Pra mostrar que estou ali, balanço as árvores em volta. Aliás, mesmo que a Tsubaki-san não enxergue, dá pra saber pelo tato de quem abraça por trás que não sou eu, né?!
— Não… ah, p-pera, não tão… aaahn!
— Hmmm, tem mais do que parece… É do tipo que a roupa disfarça? Isto aqui não é nada mau…
— Já chega disso!
— Ai!
Aplico um corte de mão bem firme na cabeça da Leen, que não parava de apalpar de jeito nenhum. O que essa criatura de 612 anos tá fazendo. Pensa na situação!
Ao lado da Leen, que se encolhe segurando a cabeça golpeada, a Tsubaki-san recua, o rosto vermelho de vergonha, as mãos sobre o peito. Viu. Acabou nascendo uma desconfiança aí, né.
Falo com a Tsubaki-san pra tranquilizá-la.
— Já passou, pode ficar tranquila. Eu bato nela pra fazer obedecer.
— No bumbum?
— Você, fica calada!
Diante da piada da Leen, a Tsubaki-san recua ainda mais. Dá pra se infiltrar com gente assim? Não é uma pontinha de insegurança, não — é uma insegurança gigantesca que começou a me bater.
— Sou mensageira do Kōsaka-sama. Peço passagem.
— Confere. Aguarde um instante.
Ao ver a credencial na mão da Tsubaki-san, os dois guardas abriram, devagar, o pesado portão. Não tem portinhola de serviço aqui, né.
Pela fresta do portão aberto, eu e a Leen, invisíveis, deslizamos pra dentro depressa. Logo atrás, a Tsubaki-san atravessa o portão, e ele se fecha de novo com um som pesado. Ufa. De algum jeito, infiltração bem-sucedida.
— Aliás, Leen. Essa magia de invisibilidade não é anulada por barreira nem nada?
— A barreira basicamente repele a energia mágica que tenta interferir nela; mas, como a magia [Invisible] interfere em nós mesmos, não tem problema. E, já que não interfere na barreira, dá até pra teletransportar de [Gate] de dentro dela.
Saquei. É porque a [Gate] interfere no destino. Nesse caso, primeiro, que tal eu usar a [Gate] pra resgatar os outros três dos Quatro Reis Celestiais de Takeda, presos na masmorra? Se eles puderem lutar, tê-los do nosso lado é um reforço e tanto. Quando proponho isso à Tsubaki-san, ela concorda na hora.
— A masmorra é por aqui.
Seguindo a Tsubaki-san, disparamos pela escuridão sem lua.