Capítulo 61 – O Mar e as Férias
De lá pra cá, passaram-se três dias.
Houve uma confusãozinha ou outra, mas as terras dos Takeda, de algum jeito, recuperaram a calma, e um novo senhor foi definido. Pelo visto, um dos Quatro Reis Celestiais de Takeda, o Kōsaka-san, que nos pediu o resgate, vinha escondendo do Kansuke o filho herdeiro do senhor Shingen.
O Kansuke parecia saber que o Shingen tinha um filho, mas, como manipulava o próprio senhor, talvez não tenha dado muita importância a isso.
Que este caso todo foi obra do Kansuke não há dúvida, mas fica a dúvida se aquele Kansuke que enfrentamos agia por vontade própria. Será que é viagem demais imaginar que, mesmo com a mente tomada por aquele Artefato, ele, inconscientemente, evitava pôr a mão no filho do falecido senhor…?
Seja como for, esse filho, o Takeda Katsuyori, tornou-se o senhor, e os Reis Celestiais ficaram como seus assessores.
Por via das dúvidas, avisei pra não arrumarem briga com os Oda. Bom, como não é certo que este mundo e o meu sincronizem em tudo e por tudo, talvez seja só preocupação à toa. Mas, daqui a alguns anos, receber a notícia da queda dos Takeda — disso eu queria me poupar.
Enfim, como o conflito entre Tokugawa e Takeda chegou, por ora, a um desfecho, decidimos seguir pro nosso destino original: as "Ruínas de Niruya".
As "Ruínas de Niruya" ficam na ponta das terras dos Shimazu, no extremo sul de Ishen, pelo visto. Por sorte, o velho Baba esteve por lá quando era jovem, então deixei que eu recolhesse a memória dele. Pra ser franco, ficar de mãos dadas e testa colada com um velho casca-grossa daqueles — que castigo é esse, pensei.
— Então, pai, mãe, e também irmão e Ayane. Estamos de partida.
— Ah, cuidem-se.
— Touya-san, cuide bem da minha filha, por favor.
Na hora das despedidas, partindo da casa da Yae, em Oedo, rumo às ruínas, a Nanae-san me fez uma reverência bem funda. Sem saber como responder, acabei me curvando do mesmo jeito. Ao lado dela, o Jūtarō-san e a Ayane-san nos olhavam sorrindo.
— Da próxima vez, eu volto pra passar um tempo com calma. Nessa hora, eu os convido pra nossa casa em Belfast.
— Vou aguardar ansioso.
Troco um aperto de mão com o Jūtarō-san e abro a [Gate] pras ruínas.
Acenando pra família da Yae, atravesso a porta de luz e — lá era uma praia de areia.
Um mar que se estendia sem fim e uma areia branca. Ao longe, só dava pra ver um costão de rochas e um pequeno bosque; fora isso, nada. Conferindo o mapa, pelo visto isto aqui é totalmente uma ilhota isolada. Bom, "isolada", mas, nadando uns 200 metros, dá pra chegar ao continente.
O mar verde-esmeralda brilha ao sol, lançando uma luz cintilante e ofuscante. Areia branquinha… é, lembro que ela é branca porque tem bastante coral e concha triturados em pedacinhos.
— Uáááh, que lindo!
A Yumina, caminhando pela areia branca, está de olhos grudados no mar que se abre à frente. O Kohaku, a seus pés, anda meio a contragosto, enquanto, ao lado dele, sai correndo toda animada uma ursinha de pelúcia. Como será que funciona mesmo o [Program] daquela criatura?
A dona dela, com uma sombrinha preta tirada não sei de onde, caminha pela areia com elegância.
— Faz um tempão que eu não via o mar!
— É mesmo, maninha.
As gêmeas também caminham pela areia recebendo a brisa do mar.
A Yae ia seguir atrás, mas no meio do caminho tirou as sandálias zōri e os tabi e ficou descalça. Devia estar incomodada com a areia entrando.
— Quente! Ai! Aiaiai!
Claro que tá quente. Com esse sol. Embora ainda falte muito pro meio-dia, num céu de um azul de cortar, o sol brilha escaldante. Sob ele, a areia deve estar virando um inferno em brasa.
Como quem dança uma dança esquisita, erguendo um pé de cada vez pra fugir do calor, a Yae sai correndo rumo ao mar.
Um perfeito balneário tropical, vá lá, mas onde diabos estão essas tais ruínas, eu não faço a menor ideia.
Pensando bem, o Jūbei-san falou em "fundo do mar". Não me diga que são ruínas submarinas de verdade?
Tento buscar "ruínas" no mapa. E deu resultado. Hã, sério?… É no fundo do mar mesmo.
Parece estar a uns 100 metros mar adentro daqui, mas não dá pra ver nada… Será que só dá pra ver mergulhando?
— Leen. Não tem alguma magia pra agir dentro d'água?
— Magia pra atravessar por cima da água tem. Acho que já ouvi falar de uma magia de nulo pra respirar debaixo d'água, mas, como não me interessava, não decorei.
É justamente a parte mais importante…
Por ora, será que mergulho no mar pra conferir as ruínas? Se houvesse roupa de banho, eu trocava, mas neste mundo não existe uma coisa dessas. Mergulhar só de cueca é meio vergonhoso.
Quando ando até a beira d'água, as quatro — Elsie, Lindsey, Yae e Yumina — já estavam descalças, brincando com as ondas que vinham e voltavam. Erguendo respingos, pareciam se divertir à beça.
— Que delícia, geladinho! Se tivesse maiô, dava pra nadar.
— …Pera aí. Existe? Maiô?
Diante do que a Elsie soltou, quase travei na hora. Eu jurava que neste mundo não tinha uma coisa dessas.
— …? Indo numa loja, vende, eu acho. Ultimamente, dependendo da região, lançam vários tipos de maiô, pelo que ouço.
A Lindsey responde à minha dúvida. Sei… então tem, normalmente, maiô.
— Então, já que a gente veio ao mar, não dá pra não aproveitar a ocasião, né.
Quando o assunto é roupa, só tem um lugar — e assim nós nos teletransportamos pra loja do Zanack-san, em Reflet.
Depois de um reencontro rápido, exponho a ideia, e justo agora, na época em que começa a esquentar, a procura por maiô aumenta, e ele tinha recebido um lote grande. Que timing perfeito.
Como não tem mar por perto, fiquei na dúvida se haveria procura por maiô e perguntei; ele disse que tem quem use no rio, e quem use no lago a meio dia de viagem. E que tem rico com piscina própria.
Como a escolha de maiô das mulheres ia demorar, avisei que voltaria pra buscá-las depois e voltei pra casa por ora. A ideia é todo mundo se divertir, e deixar alguém de fora é uma judiação.
— O mar?
— Uáu, que delícia!
— Mana Cecile, o que é "mar"?
Quando puxo o assunto com as maids lá de casa, vêm três reações diferentes. Bom, como ninguém parece contra participar, jogo a Lapis-san, a Cecile-san e a Rene pela [Gate] dentro da loja do Zanack-san.
Em seguida, arrasto a Claire-san da cozinha e o Fullio-san do jardim e jogo os dois lá também.
A guarda da casa, claro, não dá pra largar, então o Tom-san e o Huck-san não dá pra levar. Depois compenso com algo.
Como o Lime-san diz que não nada, levo ele assim mesmo e me teletransporto, desta vez, pra casa ducal dos Ortlinde. Se depois ele descobrir que não foi convidado, enche o saco.
— O mar de Ishen! Boa! Vamos!
— Pai! Quem foi convidada fui eu!
Sério, será que este país não tem o que fazer? Por que logo o duque é quem mais quer ir pro mar…? Ao lado dele, todo animado, a esposa, a Ellen-san, sorri toda contente.
Por ora, na hora de mandar pra loja do Zanack-san, pela [Gate], esses três e o mordomo da casa ducal, o Leim-san, o duque solta uma bomba.
"Vamos convidar meus irmãos também", ele diz.
— Ora, ora, o mar de Ishen. O Al até que é atencioso, hein.
— Faz tempo que eu não tomo uma brisa do mar.
— Os afazeres de governo não estão atolados, não?
Pergunto, por garantia, ao Rei e à Rainha Yuel, ambos empolgadíssimos.
— Hoje a agenda da tarde abriu um buraco enorme. Eu estava pensando em chamar o Al pra jogar uma partida de shogi, faz tempo. Então não tem problema.
Não sei se o timing é bom ou ruim. Por ora, como daquele jeito chamariam atenção demais, peço pros dois trocarem pra roupas discretas. Se o Zanack-san vir aquela figura toda de coroa, ele cai pra trás.
Nesse meio-tempo, vou até o General Leon pra arrumar alguém pra guardar o Rei, e o próprio general diz que vai. Hã, sério?
— Se eu não acompanhar as férias de Sua Majestade, qual é a graça?! E, de quebra, eu me divirto também!
Dizendo isso, me dá uns tapões nas costas, "pá, pá", aos berros. Tô dizendo que dói!
Aliás, convidei a Charlotte-san também, mas, no instante em que soube que a Leen ia, ela recusou. Não vai com a cara dela assim tanto?…
Levando o Rei e companhia já trocados em roupas discretas (que, ainda assim, pareciam caras), volto de [Gate] pra loja do Zanack-san. Uou, já é um bocado de gente.
Ué? Por que a Mika-san, da "Lua de Prata", e a Ael-san, da "Parent", também estão aqui?
— Quanto tempo! Tudo bem?
— A Elsie-chan me convidou. Falou pra vir junto, que íamos ao mar.
A Elsie que convidou, então. Bom, tudo bem. Vou teletransportando pra praia quem já comprou o maiô. Como já tava um saco, deixei a [Gate] fixa.
Na areia, com ferro e panos tirados do [Storage], uso [Modeling] e faço umas tendas simples de armação de cano de ferro pra trocar de roupa. A das mulheres pode ser grande; a dos homens, pequena, vá lá. Logo a Elsie e companhia entram pra trocar de maiô, e eu fui enxotado num "xô, xô". Não me trata feito cachorro.
Faço também alguns guarda-sóis e cadeiras de praia pra relaxar, e um toldão bem grande. Se alguém pegar uma insolação, é encrenca. De quebra, com borracha, faço também umas bolas de praia e boias.
Quem terminou de comprar o maiô vai chegando à praia, um atrás do outro. Mas que monte de gente…
Deixa ver… eu, Elsie, Lindsey, Yae, Yumina, Leen, Lapis-san, Cecile-san, Rene, Claire-san, Fullio-san, Lime-san, o duque, Ellen-san, Sue, Leim-san, o Rei, a Rainha Yuel, o General Leon, mais a Mika-san e a Ael-san. (E outras duas criaturinhas.) …………Vinte e uma pessoas, é? E quase um terço sendo da realeza. Que a turma masculina seja só um terço também é meio esquisito.
Bom, como todos compraram o maiô e atravessaram pra cá, vou fechar a [Gate]… ei, eu não comprei o meu, droga…
Escolho uma sunga de tamanho único qualquer. Cor: preto. Isto aqui não é náilon nem poliéster, é? É parecido, mas… Tem boa elasticidade, e parece ter um tratamento impermeável. Pergunto ao Zanack-san, e o material é feito de um fio tirado do casulo de um inseto que vive na beira d'água, uma tal de "aqua butterfly", pelo visto. Usam também em guarda-chuvas de luxo.
Por ora, agradeço ao Zanack-san, religo a [Gate] pra sala da minha casa em Belfast e a fixo. Pra evitar aperto na hora do banheiro e tal. Comida também… é, vou fazer um churrasco. Depois providencio uma chapa e brasa. Carne e legumes devem ter bastante no armazém. Aí também vou querer bebida, né. Com magia, faço uns recipientes de gelo e ponho suco de fruta e tal pra gelar. E o resto… Opa?
…Tenho a impressão de que, faz um tempo, só eu é que estou trabalhando aqui; será impressão minha? Não é impressão, não — só eu que estou trabalhando.
Maldição, eu também tenho que brincar com vontade!
Ué? Aliás, qual era mesmo o objetivo original disto tudo?