Capítulo 63 – A Tartaruga Negra e o Loop Infinito
— Bom, e agora, o que a gente faz.
Como ontem todo mundo se empolgou demais, hoje preciso investigar as ruínas direito. Mas, dito isso, não faço a menor ideia de como.
— Se houvesse uma magia pra respirar dentro d'água… ou pra repelir a água…
— Cercar as ruínas com uma muralha alta e sugar toda a água… que tal?
A Elsie propõe isso, mas quanta água teria que sugar, hein.
— Ã… eu pensei numa coisinha, mas…
Timidamente, a Lindsey levanta a mão e fala. Ô, que raro. É a Lindsey falando, ela que quase não dá palpite. Com certeza teve uma boa ideia.
— O quê, o quê? Se tem uma boa ideia, manda.
— Não, não é bem uma ideia, mas… que tal o Touya-san mandar a visão com o [Long Sense]…?
— ………
…Tinha esse jeito. Tch, por que não me liguei. Sou um tapado de marca maior. Em silêncio, faço um joinha pra Lindsey e ativo o [Long Sense].
Mando a visão pra dentro do mar e avanço da entrada das ruínas pra dentro.
— E aí? Descobriu algo?
— …Tá escuro, não dá pra ver…
— Mas que coisa, hein!
Repreendido pela Elsie, na pressa mando um [Light]. Achei que a esfera de luz fosse apagar ao mergulhar no mar, mas não foi o caso. Bom, não é atributo fogo, né.
Logo a área em volta da visão que mandei começou a clarear. Movendo a visão junto com a esfera de luz, desço a escada.
Depois de descer um tempo, cheguei a um grande salão. No centro, uma plataforma com um círculo mágico desenhado, e, ao redor dela, seis pedestais enfileirados. Em cada pedestal havia uma pedra mágica cravada, brilhando nas cores dos seis atributos — fora o nulo: vermelho, azul, marrom, verde, amarelo e roxo.
Fora isso, não havia mais nada, nada de especial. Nem baú de tesouro, nem inscrição, nada do tipo. Só isso?
Trago a visão de volta e conto pra Leen o que vi. A chefe do povo das fadas ficou um tempo de braços cruzados, pensativa, mas logo abriu a boca.
— Isso provavelmente é um círculo de transporte.
— Círculo de transporte?
— Provavelmente, ativando os seis atributos, o círculo mágico central transporta pra algum lugar. Igual à sua [Gate].
Hmm. Ou seja, um dispositivo de transporte. Talvez, antigamente, o nível da água não chegasse até aqui e ele fosse muito usado. E, com o passar do tempo, submergiu e ninguém mais usou.
— Eu queria ativá-lo de algum jeito… Mas, sem um meio de chegar até lá, não tem o que fazer, né. No fim, só achando uma magia de nulo pra respirar debaixo d'água…
— Senhor.
Ignorando a Leen, que mergulhou ainda mais fundo nos pensamentos, o Kohaku, no colo da Yumina, me chamou.
— O que foi, Kohaku?
— Tenho em mente alguém que comanda toda e qualquer água e pode resolver o aperto do senhor e dos demais.
Longe da areia, num chão perto do costão de rochas, um grande círculo mágico foi desenhado pela magia da Leen.
— Normalmente, a magia de invocação não consegue chamar um alvo específico, viu?
— Misturo a minha força espiritual à energia mágica do senhor. Invocando nesse estado, eles certamente reagirão e atenderão ao chamado.
O Kohaku rebateu as palavras da Leen com naturalidade. Dá pra chamar desse jeito, então. Deve ser uma espécie de macete.
— Ainda assim, invocar o «Imperador Negro»… Já me espantei que esse bichinho fosse o «Imperador Branco», e agora mais um? É inacreditável.
— Ora, ora, com as coisas do Touya-dono, quem se importa é que perde.
A Yae acalma a Leen, que ainda resmunga, e a retira do círculo mágico.
— Acho que dá pra invocá-los, mas não sei que condições eles vão exigir pro pacto. Não são de temperamento violento, mas são um tanto peculiares…
— Ei, você vive dizendo "eles", mas não é um bicho só?
— Como hei de dizer… eles são dois e, juntos, formam o «Imperador Negro». Bom, invocando, o senhor entenderá.
Bom, faz sentido. Por ora, vamos tentar.
De pé diante do círculo mágico, vou concentrando energia mágica do atributo trevas. No centro do círculo, uma névoa negra começa a pairar e, aos poucos, vai ficando mais densa. Aí o Kohaku, ao meu lado, vai misturando a própria energia à névoa. Pra ser exato, a dele chamam de força espiritual, mas vou deixar os detalhes de lado.
— Tu que reges o inverno e a água, o norte e as altas montanhas: responde à minha voz. Atende ao meu chamado e manifesta a tua forma aqui.
Da névoa que tomava tudo, de repente, nasceu uma energia mágica colossal. Não, será que isto também se chama força espiritual. Sinto uma onda de energia (força espiritual?) crepitante, como a do Kohaku.
Quando a névoa se dissipa, ali estava uma tartaruga gigantesca. Quase quatro metros. Uma tartaruga terrestre, com quatro patas certinho. Mas, ainda que tartaruga, é mais uma tartaruga estilo monstro de filme. Parecida com aquele monstro de cinema que solta jato do casco e voa. Por sorte, esta não tinha presas.
E nesse monstro, ainda por cima, estava enrolada uma grande serpente negra. Esta também é grande. Tem o tamanho de uma anaconda? Escamas que brilham feito pérola negra e olhos dourados. Esses olhos se voltaram pra mim e pro Kohaku.
— Aaai? Mas é o Imperador Branco mesmo, oras. Quanto tempo, benzinho, tudo em cima?
— Quanto tempo, Imperador Negro.
— Aah, francamente, eu já disse que pode me chamar de "Gen-chan", seu mal-a-gra-di-nho.
Que figura leve. Que serpente é essa. Fala de um jeito super descontraído. Mas a voz é meio grossa. Tipo uma drag queen…
— E aquele moço aí, quem é, hein~?
— É o meu senhor, Mochizuki Touya-sama.
— Senhor, disseste?
Com um giro brusco dos olhos, a tartaruga olhou pra cá. Lança um olhar de quem avalia o preço. Pela aparência, eu imaginava a voz de um tiozão ou de um velho casca-grossa, mas, surpresa das surpresas, a voz que ouvi era ainda mais feminina que a da serpente. Embora com uma impressão um tanto ríspida.
— Um humano destes como senhor… como decaíste, Imperador Branco.
— Dize o que quiseres. Em breve, ele será senhor de vós também.
— Que despautério!
De cara serena, o Kohaku ignora a provocação da tartaruga. A tartaruga me olha com olhos de raiva; a serpente, com olhos de curiosidade. Que saco, hein.
— Pois bem, Touya, ou lá como te chamas. Vou pôr à prova se mereces firmar um pacto conosco.
— Tudo bem, mas o que vamos fazer?
— Luta conosco. Se conseguires continuar de pé, com o corpo inteiro, até o pôr do sol, reconhecemos a tua força e firmamos o pacto. Mas, se saíres do círculo mágico, se desfaleceres, ou se ficares incapaz de nos atacar, não há pacto.
Não disse "se me derrotar, você vence", né. Será que acham impossível perder? Pelo que o Kohaku contou, são exímios em defesa, então devem ter toda essa confiança.
— Basta eu ficar de pé até o pôr do sol, né?
— Isso. Podes fugir o quanto quiseres. Se é que consegues continuar fugindo até o pôr do sol.
A tartaruga responde com um risinho de deboche. Ô, isso me irritou um pouquinho.
O círculo mágico tem uns 20 metros de diâmetro. Espaço pra ficar fugindo, até que dá. Agora é mais ou menos antes do meio-dia, então até o pôr do sol são umas seis, sete horas? Ficar fugindo também tem um limite.
Bom, é justamente nisso que eles apostam. Mas, infelizmente pra eles, não vai ser assim.
— Beleza. Então vamos lá.
— T-Touya-san, vai dar tudo certo?
A Yumina, preocupada, talvez, ergue pra mim um olhar inseguro. Que meiga. Pra tranquilizá-la, afago aquela cabecinha dourada. Não há com o que se preocupar.
— Relaxa. Bom, vai dar tudo certo.
Deixando isso no ar, entro no círculo mágico. A tartaruga ainda ria de deboche, mas, bom, fica à vontade.
— Olha, ele tá surpreendentemente calmo, viu~.
— Essa coragem, ao menos, eu até elogio. Pois então, lá vamos nós!
Como que anunciando o início da batalha, a tartaruga solta um rugido: "Goáááaaarr!". Esse bicho é um kaiju mesmo.
Bom, em luta, quem dá primeiro leva.
— [Slip].
— Fguá?! — os dois.
"Tummm!", e, com um estrondo que abala o chão, a serpente e a tartaruga tombam. Com aquele corpão, deve doer um bocado.
Enquanto o efeito do [Slip] dura, tiro uma bala da pochete na cintura e começo a lançar magia nela.
— [Enchant]: [Slip].
Em seguida, ativo outra magia e vou armando o truque na bala.
— Iniciar programa / Condição de ativação: ao se esgotar o efeito do [Slip] / Magia a ativar: [Slip] / Condição de parada: ordem de cancelamento do conjurador / Encerrar programa.
Pronto. Com isto, "a trama está tecida com primor; resta só apreciar o arremate", como diria.
— Argh!
No chão sob as patas da tartaruga, que tentava se levantar, disparo a bala que preparei.
— Ugué?! — os dois.
"Tzumm!", e, de novo com um estrondo, a tartaruga tomba. Toda vez que ela tenta se levantar, o barulhão ecoa e o chão em volta treme sem parar.
— Você… é um demônio?
A Leen me lança um olhar de reprovação, exasperada. A seus pés, o Kohaku rolava no chão de tanto rir. Pelo visto, achou a maior graça. Até a Paula rolava segurando a barriga. Quanta coisa será que tem "programada" em você, hein… É a cristalização de 200 anos.
— O fim do efeito do [Slip] vira o gatilho pra outro [Slip] ativar. Esse [Slip] acaba e vem outro [Slip]… é um loop eterno, oras. Normalmente, a energia mágica acabaria rapidinho e fim de papo, viu?
Na verdade, eu tive a ideia ontem, vendo a Paula no loop dela na arrebentação, e deu bem certo. Quanto à energia mágica, como a taxa de recuperação supera a de consumo, não tem problema nenhum.
— Agora é só esperar aqui até o pôr do sol. Você trouxe marmita, né, Lindsey?
— A-ah, sim. Trouxe, mas…
A Lindsey, com cara de "será que tá certo?", olha pro «Imperador Negro», que segue caindo. Não estou quebrando regra nenhuma, viu?
— Como hei de dizer… que coisa mais digna de pena…
— Esse lado do Touya eu já vi de tudo até agora, então a essa altura nem ligo, mas acho que você devia pensar um pouquinho mais no outro também. …Lê o ambiente.
Tô com a fama meio ruim, hein. Mas combinado é combinado, não quebrei regra, e, se dá pra vencer com segurança, acho que é o melhor.
— Ugh! — os dois. "Tumm!"
Abro a marmita e dou uma bocada no sanduíche especial da Claire-san. Hum, gostoso. Presunto com queijo é o máximo.
— Fgiu! — os dois. "Tzumm!"
Esta salada de legumes aqui também tá uma delícia. E o molho, então, é divino.
— Bgiuru! — os dois. "Catabumm!"
— Aff, esse chão tremendo toda hora é irritante.
— Que crueldade! — todos.
É?