Capítulo 64 – O Círculo de Transporte e o Jardim Suspenso
— Não, vem, de gracinha, comigo, GORÁÁÁ!!
A serpente negra, que seguia rolando, solta um berro de guerra. O tom mudou totalmente do de antes. Então aquilo é mesmo um personagem afetado da boca pra fora, é?
Da boca que se abre num "pá", dispara um projétil de água. Como foi no meio do tombo, voou numa direção completamente errada e bateu na barreira do círculo mágico.
Que perigo. Como todo mundo, fora eu, está fora do círculo, estão seguros, mas, se aquilo acertar alguém, é encrenca.
Mirando os poucos instantes em que fica suspensa no ar ao tombar, desta vez a tartaruga abriu a bocarra.
— Toma isto!
Água comprimida voa como um laser. Bom, esta também foi parar em qualquer lugar menos no alvo.
Aquilo agora é parecido com o [Aqua Cutter] da Lindsey. Que abacaxi.
Com o [Slip], se mexer um milímetro que seja, escorrega; então, depois de cair uma vez, é impossível ficar parado. Mirar e atirar deve ser difícil pra eles, mas também não dá pra garantir que nunca vão acertar.
— Sem jeito. Vou fazer vocês caírem mais um pouco.
— Hã?! — os dois.
Tiro mais duas balas da pochete, lanço [Enchant], carrego no revólver e, desta vez, em vez de no chão, disparo direto nos dois — serpente e tartaruga.
— Nuóóóoooouuh?!
— Uniaeáááaaah?!
Os dois começam a tombar com muito mais força que antes, e pelo visto já não têm folga pra ataque à distância. Como se tivessem sido jogados dentro de uma máquina de lavar, rodopiando, caem, caem, caem, caem, caem sem parar.
— P-pera, o que diabos você fez?!
— Hã? Só disparei magia de aceleração neles.
— Que demônio. — todos.
A magia de nulo [Accel]. É uma magia que aumenta a velocidade do corpo do conjurador, mas, fazendo assim, dá pra aplicar nos outros também. Normalmente ela também ergueria uma barreira mágica, mas eu deixei essa parte certinho desativada. Ué, por que todo mundo me olha desse jeito?
Até o Kohaku, que rolava de rir, agora só esboçava um sorriso amarelo.
…Talvez eu… tenha pego um pouco pesado.
— Uoou… uoêêu… tá ro, tá rodando, o mundo tá rodando…
— Per, perdão, por favor… não quero mais cair… não quero mais escorregar…
Peguei pesado. A serpente negra está com os olhos revirados, balançando a cabeça de um lado pro outro, e a tartaruga não para de chorar faz tempo. Não vai botar ovo, vai.
— Aah, foi mal aí. Peguei pesado. Tô pedindo desculpa.
Os olhares de todo mundo cravando nas minhas costas doem. Como eles admitiram a derrota e disseram que iam fazer o pacto, cancelei o [Slip], mas depois deu um trabalho danado pra acalmá-los.
— Aaah, que sufoco horrível… Até dá pra entender que o Imperador Branco te aceitou como senhor…
Mesmo murmurando isso, a serpente ainda balança a cabeça, zonza. A tartaruga, enfim, parou de chorar e fixou o olhar em mim. Afago a cabeça dela e peço desculpa de novo. A tartaruga baixa os olhos e abaixa o corpo.
— Mochizuki Touya-sama. Vós, digno de ser nosso senhor. Por favor, firme conosco o pacto de senhor e servo.
Dizendo isso, os dois — tartaruga e serpente — baixaram bem fundo a cabeça.
— Deixa ver, tenho que dar um nome, né?
— Issoo. Me dá um nome bonito, meu amo.
— Pra esses dois, "Cobra" e "Tartaruga" já basta.
— Cala essa boca, ô! Quer briga, é?!
Diante da sugestão do Kohaku, a serpente arreganha as presas e o ameaça. Tá vazando o verdadeiro, tá vazando o verdadeiro.
Aliás, na minha cabeça eu também tava chamando de "Cobra" e "Tartaruga". Essa foi por pouco. "Cobrinha" e "Tartaruguinha" deve pegar mal, né…
Genbu… é tipo preto, água.
— Então vai "Kokuyō" e "Sango", vá lá.
— Kokuyō?
— Sango?
Kohaku também é nome de pedra, então combinar tudo fica bom. E remete a preto e água. A serpente é "Kokuyō" (obsidiana); a tartaruga, "Sango" (coral).
— Que tal?
— Aceito de bom grado o nome "Kokuyō", viu~.
— Pois então, de agora em diante eu me chamarei "Sango". Conto com a sua consideração.
Que bom que gostaram. Uma besta de invocação com nome pode sair do círculo mágico. Lentamente, a Sango saiu da barreira do círculo.
— Espera aí, Imperador Negro… ou melhor, Sango. Nós podemos nos manifestar a qualquer tempo pela energia do senhor. Mas, nessa forma, vocês causam transtorno a ele. Mudem de forma.
— …É mesmo?
— O Imperador Branco… é só ficar pequenininha que nem o Kohaku-chan, será? Se é isso, num instante… prontinho!
"Poff", e, num átimo, a Sango e o Kokuyō encolheram de tamanho.
Uma tartaruga de casco preto, de uns 30 centímetros, com uma serpente negra de tamanho normal enrolada nela. Só isso até pareceria normal (?), mas a Sango e o Kokuyō, encolhidos, flutuavam no ar, leves.
— Vocês conseguem flutuar?
— Neste tamanho, mais ou menos. Mas não dá pra me mover rápido…
A Sango nada pelo ar, "fuu, fuu". De fato, não é nada rápido. Mais ou menos a velocidade de uma caminhada. Mas uma tartaruga terrestre nadando é uma cena surreal.
Bom, neste tamanho dá pra levar comigo, então tudo certo.
— Conto com vocês, Sango, Kokuyō.
Afago de leve, com a ponta do dedo, as cabeças da Sango e do Kokuyō, que se apoiam e pousam no meu ombro.
— Esta Sango há de lhe ser útil, verá.
— Eu também vou ser útil, viu~.
Então, já de cara, que tal vocês me serem úteis.
— Basta fazer com que o senhor consiga respirar mesmo entrando no mar, é isso?
— Isso, dá?
— Moleza, viu. Em matéria de defesa, não tem ninguém que chegue aos nossos pés.
Mesmo assim, pode haver perigo. Primeiro vou sozinho e ativo todas as pedras mágicas. Eu, sozinho, consigo ativar todos os atributos. Aí, se o círculo mágico me teletransportar pra algum lugar, é só trazer todo mundo de [Gate].
— Qualquer coisa, volta na hora de [Gate], hein.
Recebendo a preocupação da Elsie e companhia, com a Sango e o Kokuyō no ombro, entro no mar de roupa e tudo. Ôo, não molho mesmo. Parece haver uma barreira mágica erguida a cerca de um centímetro do corpo. Então é este o poder da Sango e do Kokuyō.
"Tchaf, tchaf", avanço mais pra dentro do mar. Logo o nível da água passa do pescoço e, enfim, o corpo inteiro fica submerso.
Mas não sufoco. Respiro normalmente. Aliás, nem sinto a pressão da água.
— Isto aqui aguenta até que nível de força?
— Deixa ver. Em ataque físico, nem um golpe de dragão passa; mas, em magia, varia conforme a qualidade do adversário, viu.
O Kokuyō responde balançando a cabeça.
— Por mais que sejamos nós, contra um golpe que ultrapasse o limite da barreira, ou uma magia que apague a própria barreira, não há o que fazer.
Ouço a explicação da Sango junto ao ouvido. Bom, nem tudo ia dar certo o tempo todo, né.
Sigo caminhando pelo fundo do mar. Ué, aliás, isto aqui anula até o empuxo? O corpo não flutua. Mas, se eu remar com as mãos ou bater as pernas, o corpo sobe, então até certo ponto deve haver.
Enquanto eu fazia isso, surgiu à frente o grupo de pedras gigantes. Passo por entre o círculo de pedras e entro pela escada central das ruínas. Acendo uma luz com magia e desço pro subterrâneo escuro.
Logo chego ao grande salão, o cômodo do círculo mágico. Como era de esperar, tal qual vi com o [Long Sense], seis pedestais de pedra mágica cercam o lugar.
Aproximo-me de um deles, o pedestal de pedra vermelha, e tento passar energia do atributo fogo pra pedra mágica nele encaixada.
Na hora, o próprio pedestal onde a pedra está encaixada começou a brilhar num vermelho suave. Dá pra considerar que ativou, né.
Do mesmo jeito, vou ativando os outros pedestais um a um. Cinco luzes renascem e, quando passo energia pra última pedra, a da água, o círculo mágico no centro começa a brilhar, em silêncio.
— Isto quer dizer que o círculo de transporte ativou?
Receoso, subo em cima do círculo mágico. ……Não acontece nada. Ué?
Por quê? Os seis pedestais estão acesos direitinho, então já é tudo… ah.
Será que… é o nulo.
Pensando bem, a [Gate] também é nulo. Se este círculo de transporte imita aquilo…
De pé no centro do círculo, injeto energia do atributo nulo. Do círculo aos meus pés irrompe um clarão explosivo, e fui transportado dali.
Quando, devagar, abro os olhos que tinha fechado de tão ofuscante, lá era um jardim. Flores desabrochando por toda parte, passarinhos voando, e água correndo por canaletas estreitas.
Aos meus pés, estendia-se um círculo mágico igual ao das ruínas submarinas, mas não havia pedestais pra ativar. Pelo visto, é mão única.
— Meu amo… onde será que a gente tá~?
— Sei lá…
Por ora, desço do círculo e, ao olhar o jardim em volta, alguém vem andando na minha direção, de longe. Uma garota… é?
Aos poucos, a figura vai ficando nítida. E, justamente por ficar nítida, eu não tive escolha senão desviar o olhar num átimo!
Cabelo cor de jade, curto e bem aparado, sedoso; pele feito porcelana branca e olhos dourados. Uma garota de ar misterioso. A idade não deve ser muito diferente da da Elsie e companhia. Isso tudo bem.
Uma blusa preta sem mangas, com um grande laço rosa-claro. Meias três-quartos brancas e sapatos pretos de verniz. Até aí, tudo bem.
Até aí, tudo bem. Até aí, tudo bem!
— Prazer em conhecê-lo. Eu sou o terminal que administra este "Jardim Suspenso de Babylon", e me chamo "Francesca".
Jardim Suspenso?! Terminal?! Eu tinha dúvidas de sobra, mas há algo bem mais intrigante bem na minha frente!
— Ã… escuta aqui.
— Sim. Em que posso ajudar?
— Por que… você… não está usando nada embaixo…?
Mesmo desviando o olhar, dizendo a mim mesmo que não podia olhar, a parte de baixo daquela menina, que entrou de relance no meu campo de visão, estava sem saia nem calça.
Ali havia só um pedacinho de pano branco… ou seja, a calcinha estava à mostra, escancarada.
Eu não entendo nada! Que história é essa, afinal?!
…Mas eu agradeço!