Capítulo 65 – O Compatível e Babylon
— "Por quê", o senhor pergunta… Obrigação?
A garota que se apresentou como Francesca inclina a cabecinha de um jeito fofo. Que é isso, aqui tem alguma regra de que não se pode usar saia ou calça?! Chama o responsável aqui! Que eu vou é elogiar!
Dito isso, esta situação não faz bem pra saúde mental. Preciso dar um jeito.
— Ã… Francesca, né?
— Sim. Pode me chamar de Shesca.
Se é Francesca, o apelido não seria "Fran", pensei, mas, neste momento, isso é o de menos.
— Por ora, dá pra você ir vestir alguma coisa? É que… eu não sei pra onde olhar…
— Mas eu estou de calcinha.
Tá de calcinha, sim! Não é isso!
Tch… calma, calma. É só pensar que aquilo é um maiô. Aquilo é um maiô, aquilo é um maiô…
Espio.
Não é maiô! É calcinha! É calcinha sem sombra de dúvida!
— O senhor deu uma espiada agorinha, não foi?
— Desculpa!
Fui pego.
— Bom, se o senhor insiste tanto, eu visto.
Sei lá de onde tirou, a Shesca começou a vestir uma saia preta de babados brancos. Se tinha, era só ter vestido desde o começo!
— …O senhor não vai fazer nada?
— Não vou. Não vou, então veste logo isso.
— Pode dar uma apalpadinha de leve, se quiser.
— Deixa pra lá! Veste logo!
Comecei a ter vontade de chorar. A Shesca veste a saia e, enfim, dá pra conversar em paz. Apesar de eu já estar exausto.
— Ã, eu tenho um monte de coisa pra perguntar, tudo bem?
— Sim, fique à vontade.
— Que lugar é este, afinal?
— É o "Jardim Suspenso" de Babylon. Tem gente que chama de "Niraikanai".
Jardim Suspenso? Olhando em volta, é de fato um jardim, mas, na imagem que dá, é mais um jardim botânico. Olhando pra cima, dá pra ver o céu através de uma cúpula de vidro. Seguindo a Shesca, ao fim do jardim, surgiu uma parede de vidro.
Além dela, estende-se um mar de nuvens. Não há dúvida. Isto aqui está flutuando no céu. …Saquei, jardim suspenso mesmo.
— Que lugar é este, no fim das contas? Uma instalação pra quê?
— Aqui é o "Jardim" que a doutora construiu por hobby.
— A doutora?
— A doutora Regina Babylon. Nossa criadora.
Criadora? Que jeito esquisito de falar. Como se ela mesma fosse algo construído… não me diga que?
— Senhor. Esta criatura não é humana. Não sinto nela o fluxo da vida.
— Q-quê…!
A Sango disse, antes de mim, o que eu estava pensando, e o "então é isso mesmo" e o "não pode ser" se digladiam dentro de mim.
— Eu fui construída pela doutora como terminal de administração deste "Jardim". Isso foi há 5.092 anos.
— Cin…!!
Se até a Leen tem 612 anos (segundo ela mesma), esta aqui é 4.480 anos mais velha que ela!
Aliás, "construída"… quer dizer que ela é um robô. Androide… nesse caso, chama ginoide, né?
— Então a Shesca é uma máquina?
— Não sou inteiramente máquina. Como uso componentes biológicos criados por magia e um reator de mana e tal, sou… digamos, uma fusão entre forma de vida mágica e máquina.
Golem, ser humano artificial, homúnculo — será que é próximo disso? De fato, ela parece humana e nada mais. Olhe por onde olhar, é uma garota…
— …Filhos eu não posso ter, mas o ato em si eu consigo fazer, viu?
— Já disse que não tô perguntando isso! P-pera, não levanta a saia!

Será que essa menina não tem pudor nenhum programado?! A doutora que fez ela é burra, é?!
— E olha que sou nova em folha.
— Já disse que não tô perguntando isso!
Insatisfeita, a Shesca abaixa a saia. Tenho a sensação de começar a entender a personalidade da doutora que a fez. É maluca.
— Que menininha mais estranha, viu~.
O Kokuyō, balançando a cabeça, olha pra Shesca e murmura isso. Eu também acho.
— Ainda assim, mais de 5.000 anos funcionando, hein… Tanto você quanto este próprio Jardim Suspenso, não se deterioraram nem quebraram?
— Este "Jardim" é reforçado por magia em toda parte. E, mesmo eu falando em 5.000 anos, eu entrava em modo de hibernação pra manutenção e ficava em espera, fora situações de emergência. A administração do "Jardim" ficava no automático.
…Pera aí. Se a Shesca está em funcionamento, então agora é uma situação de emergência? Quando pergunto isso, a Shesca assente de leve.
— Emergência, é uma emergência, sim. Afinal, é o primeiro visitante em 5.070 anos. Aliás, qual é o seu nome?
— Ah, Touya. Mochizuki Touya.
— Touya-sama. O senhor foi reconhecido como digno de ser o Compatível. De agora em diante, a unidade número 23, de nome individual "Francesca", é transferida ao senhor. Conto com a sua consideração por longos anos.
— Hã?
O que é "Compatível"? Não, antes disso, "transferida"?
A Shesca aponta pro círculo mágico de onde eu fui transportado e começa a explicar.
— Aquele círculo mágico não é ativado por uma pessoa comum. Ele foi feito pra não aceitar a energia de várias pessoas combinadas. Ou seja, quem consegue ativar aquele círculo de transporte é só quem possui todos os atributos… só quem tem a mesma característica da doutora.
Então a doutora que fez a Shesca também tinha todos os atributos. Existia alguém assim há mais de 5.000 anos. Sem esse dom, ninguém conseguiria chegar aqui, então.
— E, antes de morrer, a doutora decidiu transferir a nós, que ficaríamos pra trás, ao Compatível que atravessasse este círculo de transporte. Isso foi há 5.070 anos.
— Então "Compatível" quer dizer ter todos os atributos…
— ? Não é isso.
— Hã? Não é?!
Negado na lata. Ter todos os atributos não é a condição pra ser o Compatível? Então, qual diabos é a condição?
— O senhor, mesmo vendo a minha calcinha, pelo contrário, mandou eu me cobrir, então é o Compatível.
— É por aí?! Compatível com o quê?! Não faz sentido!
— É uma coisa importante, viu? Se o senhor, levado pelo desejo, tivesse se atirado em cima de mim, eu o teria arremessado lá pra baixo, no chão. E, se o senhor não fizesse nada e me deixasse à toa, de calcinha à mostra, isso também seria um incompatível, e eu, gentilmente, o convidaria a voltar pro solo.
Hã, sério? Aquela calcinha à mostra tinha esse significado todo? Tô extremamente desconfiado.
— A gentileza de se importar com o próximo: sem isso, não dava pra confiar a nós e a Babylon a alguém, e por isso a doutora bolou este método.
— É, ela é doida, essa doutora.
— Não vou negar.
Não vai negar, é. Doida mesmo.
— No fim, ela dizia deixar a critério de cada um. Mais do que um conquistador acostumado com mulheres, todo gentil de um jeito esquisito, posando de feminista, o ideal — o mais seguro — seria um tarado disfarçado, que dá uma espiada mas se contém e finge não ter interesse.
O Compatível é escolhido por um motivo desses…? Aliás, como assim "tarado disfarçado"! Que falta de respeito. E esse "o mais seguro" também me incomoda um pouco!
— Sendo assim, eu me tornei propriedade do senhor. De agora em diante, conto com o senhor, mestre.
— Aham…
Tenho a impressão de ter sido arrastado pra uma encrenca gigantesca. Quase dá pra ver a cara de "consegui!" daquela doutora que eu nunca nem conheci.
Por ora, vou trazer todo mundo pra cá. Melhor conversar uma vez. Explico a situação pra Shesca e abro uma [Gate] pro solo.
— Jardim Suspenso… é. Dá pra dizer que é um legado da civilização antiga Parteno.
Olhando em volta, a Leen mergulhava na emoção.
A civilização antiga Parteno. Uma supercivilização que gerou diversas magias e, a partir delas, criou utensílios, os Artefatos.
Babylon também é um dos legados criados por essa civilização, e dá pra dizer que ela própria é um Artefato. Sendo assim, talvez a Shesca também seja um Artefato.
Todo mundo anda olhando o jardim. Segundo a Shesca, o tamanho deste jardim equivale a quatro Domos de Parteno. …Pra começar, eu não sei o tamanho de um Domo de Parteno. Enfim, que é grande, é certo.
Tem áreas estilo jardim botânico, chafarizes, pedras de passagem, canteiros, lagos — um jardim que faria qualquer jardineiro se jogar de cabeça.
Como um jardim é justamente algo pra se contemplar passeando, dá pra entender a animação geral. O Fullio-san ia adorar se eu mostrasse a ele.
Num canto, num caramanchão de descanso montado à beira de um lago, eu, a Leen e a Shesca relaxávamos.
— E então, o que você queria conseguir, Leen, está aqui?
— Sei lá. Eu pensava em descobrir umas magias antigas, no máximo, mas acabei encontrando algo muito além disso, né.
Saquei, dá pra dizer que a própria Babylon é a cristalização da magia antiga. Um jardim que não parece nada capaz de durar 5.000 anos, plantas que não murcham, uma barreira que a torna invisível pra inimigos externos — um desfile de maravilhas, sem nem se saber que magia antiga foi usada.
A pessoa chamada Regina Babylon, que construiu este lugar, sem dúvida foi um gênio. Embora seja uma tarada que obriga a criança que ela mesma fez a ficar de calcinha à mostra.
— Shesca, este lugar tem mais alguma coisa além de jardim?
— Não, nada. Diferente das outras, é só um jardim particular flutuando no céu. Não há tesouros nem armas dignas de nota. É um lindo jardim voador.
— Bom, a própria existência disto já é meio que um tesouro, né.
— Muito obrigada. Mas este Jardim Suspenso de Babylon já é propriedade do mestre.
Quêêê? Como assim?
— Quem controla e administra esta Babylon sou eu. E eu sou do mestre. A minha Babylon também é do mestre.
— …É mesmo?
— Exato. É o meu enxoval.
Que enxoval gigante. Aliás, eu não pretendo te tomar por esposa. Já tenho trabalho de sobra com isso até com uma só.
— Ei, Shesca. Uma coisa me deixou intrigada. Você disse agora há pouco "diferente das outras", só um jardim particular flutuando no céu. O que isso quer dizer?
A Leen lança um olhar afiado pra Shesca. Pensando bem… "diferente das outras" quer dizer que existem "outras"?
— Babylon está dividida em várias áreas, espalhadas, flutuando pelo céu. Além do "Jardim" que eu administro, há o "Laboratório", o "Hangar", a "Biblioteca" e outras, controladas e administradas pelas minhas irmãs. Tudo junto é "Babylon".
…Como é que é?