Capítulo 67 – A Ira da Esposa Principal e a Segunda
Depois da confissão da Lindsey. Dali em diante, sem entender direito, voltamos pra mansão levando a Shesca.
Com a cabeça em pânico, deixei a Shesca a cargo do Lime-san, voltei depressa pro quarto e desabei na cama, segurando a cabeça. O que diabos está acontecendo.
A Lindsey gosta de mim? Isso é "gostar" de amar, e não só de simpatia?
Hmmm… Não, será que não é caso pra ficar remoendo?
A Lindsey é fofa, sem dúvida. É recatada, quieta, uma menina que se importa com os outros. Tem uma timidez com gente, mas é esforçada. Pra namorada, é uma menina sem nenhum defeito a apontar.
Mas, em tese, eu estou na posição de noivo da Yumina.
A Yumina, por sua vez, também é fofa; tem uma serenidade que não condiz com a idade e é de confiança. E os gestos e atitudes próprios da idade que a Yumina deixa escapar de vez em quando ultimamente me dão uns sobressaltos. É isso que chamam de "moe de contraste"? Hã? Mas, se é próprio da idade, que contraste?
Aah, o que é que eu faço…
Enquanto eu afundava o rosto no travesseiro e suspirava, "toc, toc", ouvi uma batida na porta do quarto.
— Touya-san, é a Yumina…
— Hã?!
Quando abro a porta, lá está a Yumina, trocada em roupas comuns. Um clima meio constrangedor. Não que eu esteja fazendo algo errado, mas. Será que é assim que se sente o marido pego pela esposa numa traição? Não, antes de "esposa", nem casado eu sou, e nem foi traição!
A Yumina entra no quarto e se senta no sofá do centro. Sem pensar, me sento de frente pra ela, mas, sei lá por quê, fico desviando o olhar — será porque tenho algum peso na consciência?
Encara──ndo……
Encara────ndo……
Encara───────ndo……
Encara──────────ndo……
Ugh. Faz tempo que eu não levava esse ataque visual dos olhos de duas cores. Isso é psicologicamente pesado, viu…
— Touya-san.
— S-sim.
— Eu estou brava, viu?
Ã, mesmo que você diga isso… Bom, do ponto de vista da Yumina, que afinal está na posição de noiva, não deve ser nada agradável eu receber uma confissão de outra menina.
Ela ali na minha frente, de cenho franzido e bochechas infladas, é, de certo modo, fofa à sua maneira — mas, nesta situação, não tem como eu relaxar.
— Sendo que nem eu ainda ganhei um beijo, e duas me passam na frente e roubam!
— É por aí?!
Bom, vá lá, de certo modo pode até ser justo! Mas aquilo foi feito em mim, não fui eu que fiz! Soa a desculpa, mas eu queria que entendesse esse ponto.
— Você não tá brava com a confissão da Lindsey?
— Por quê? Que a Lindsey-san gosta de você dá pra ver de longe, oras.
Desculpa, mesmo vendo eu não tinha percebido… Fico um pouco pra baixo.
— Já que estamos nisso, vou deixar dito: se você arranjar dez concubinas, vinte concubinas, eu não reclamo, contanto que não faça nenhuma delas infeliz. Acho que isso também faz parte do valor de um homem.
…É mesmo? Disseram que neste mundo poligamia não é incomum, mas ser autorizado a esse ponto, pelo contrário, dá até medo…
— Mas! Mas, sim! Sendo que eu, a esposa principal, ainda não ganhei, deixar que te beijem é descuido demais! Você fica todo aberto! Tem que se defender disso! Tem que fazer defesa total!
— Ã, mas é que…
— Proibido dar desculpa!
— Sim…
Acho que o ponto pelo qual ela está brava é meio deslocado, mas, pelo visto, na cabeça dela isso é bem importante.
— Então, supondo que a Yumina tivesse sido beijada primeiro, isso de hoje não teria sido problema?
— Bom, um ciuminho eu sentiria. Mas não seria proibido. Contanto que você cuide direitinho de mim também.
Será que essa menina tem 12 anos mesmo. Não é sabedoria de mais pra idade? Ou talvez ela não goste tanto assim de mim…
— …Você pensou uma grosseria agora, não foi?
— Ugh.
Por que será que à minha volta só tem mulher de faro afiado. A Yumina contorna a mesa com passos firmes e, do assento da frente, vem sentar ao meu lado no sofá.
— Touya-san. Eu já estou decidida a tê-lo como marido pela vida toda e a viver como sua esposa. Isso porque eu gosto de você. Porque gosto de você tanto quanto a Lindsey-san, sem ficar atrás. Disso, ao menos, eu não quero que duvide.
— …Desculpa.
As palavras de desculpa saíram com sinceridade. Duvidar disso seria desrespeitar o sentimento dela. O errado aqui sou eu, que não consigo decidir nada.
— …Desculpa mesmo.
— …Se você me abraçar e me der um beijo, eu te perdoo.
P-pera! Isso não é um nível de dificuldade alto demais, Yumina-san?!
Ainda assim, o clima não permite uma retirada daqui. Timidamente, estendo a mão até o ombro dela e puxo o corpinho. Num jeito em que a cabeça dela fica embaixo do meu queixo, abraço-a com firmeza. Com o corpo macio e o perfume do cabelo, meu coração não para de disparar.
Aah, que coisa, só me resta admitir, né, o que eu sinto.
A Yumina se ergue um pouco dos meus braços, vira o rosto pra cima e fecha os olhos, em silêncio. Fechou os olhos, gente! Não tem mais como fugir?! Não tem, né?! Eu já sabia!!
Tomando coragem, beijo os lábios pequenos da Yumina. Um beijo singelo, só de um leve toque.
Quando afasto os lábios, ela abre os olhos, sorri toda contente e me abraça forte de novo.
— Eheheh. Ganhei! Eu fui a primeira que você beijou por iniciativa própria, né?!
— Hã? Aah… é mesmo, é por aí…
De fato, beijado eu fui duas vezes, mas por iniciativa própria foi a primeira. …Não me diga que era esse o objetivo?! Comecei a achar que tudo isso é calculado, mas, como pensar nisso dá medo, melhor não me aprofundar.
Socialmente falando, um rapaz de 16 beijar uma menina de 12, como é que fica isso… Neste mundo eu não sei, mas, no mundo de onde vim, seria um aluno do primeiro ano do ensino médio com uma menina do sexto ano… cheira a crime, com certeza. Em idade, é só uma diferença de quatro anos, mas.
— E você, Touya-san, o que pensa da Lindsey-san?
— O que eu penso… Acho ela fofa, e, sendo sincero, fiquei feliz com a confissão. Mas, sem nem ter resolvido a questão da Yumina, quando penso em incluir a Lindsey, fico sem saber o que fazer. É uma coisa vergonhosa de admitir.
— Se for entre gostar e não gostar?
— Claro que gosto. Disso não há dúvida. É uma menina querida.
A Yumina, nos meus braços, abre um sorriso largo. O que é? Esse sorriso de "saiu como planejado"?
— É o que ele diz, viu, Lindsey-san.
— Hã?!
A Yumina dirige a voz pra um canto do quarto. E então, vagamente, surge a figura da Lindsey, de rosto vermelho e cabeça baixa. P-pera, como assim?!
— Pedi pra Leen-san lançar a magia de invisibilidade. Sem fazer isso, a Lindsey-san não pareceria ficar convencida.
O [Invisible]! Não me diga que ela esteve no quarto esse tempo todo?! Se ouviu toda a conversa de agora há pouco… ai, que vergonha!
— A culpa é sua, viu? Você se trancou no quarto sem dar resposta nenhuma. A Lindsey-san ficou chorando esse tempo todo, achando que tinha sido rejeitada. Faltou pouco pra Elsie-san ir te dar um soco.
— Aah… disso eu queria me poupar…
Sei, eu estava tão preocupado comigo mesmo que não me liguei nisso. Sou um desastre.
— A-ah, escuta, desculpa por aquela hora. Quando vi o beijo da Shesca, pensei que não podia perder… e, quando me dei conta, já tinha feito aquilo… sem nem pensar no que você sentia, me… desculpa…
Dizendo isso, agarrando a saia, a Lindsey deixava as lágrimas rolarem; eu me aproximo e, com cuidado, tomo a sua mão.
— Ah…
— Você deve ter ouvido agora há pouco, mas eu não tenho nada contra a Lindsey. Acho você fofa, e acho que gosto de você. Não sei o que fazer, mas quero te tratar bem.
— Touya-san…
A Lindsey deu um sorrisinho. É, esta menina combina muito mais quando está sorrindo. Eu, que a fiz chorar, não posso reclamar nem se a Elsie me der um soco.
— Agora que os sentimentos dos dois estão esclarecidos, que tal? Tomar a Lindsey-san como esposa também?
— Hã?!
A Yumina solta, com naturalidade, uma coisa absurda. Esposa… a Lindsey? Quando olho pra Lindsey, lá está ela de novo, de rosto vermelho, remexendo-se de cabeça baixa.
— Pra realeza, nobreza, grandes comerciantes e tal, segunda, terceira esposa é coisa normal. O resto depende só do seu valor, Touya-san. Se conseguir sustentar a gente direitinho, ninguém vai reclamar. A Lindsey-san não tem problema, né?
— E-eu também… quero ser… esposa do Touya-san…
Sério? Não, feliz eu fico, fico, mas, antes disso, um monte de inseguranças vêm me assolando.
— …Não… pode?
A Lindsey fica com uma cara de quem vai chorar a qualquer instante. Não, não — eu quero mesmo é que esta menina fique com aquele sorriso de antes. Fazê-la chorar é impensável. Ah, que se dane, seja o que tiver que ser!
— Segunda esposa e tal, você topa, Lindsey? Tudo bem assim?
— …Eu acho que vou me dar bem com a Yumina. Gostar da mesma pessoa e poder ser feliz junto com ela — não há felicidade maior que essa.
— …Entendi. Se a Yumina e a Lindsey dizem que tá tudo bem assim. Vou fazer como vocês desejam.
Na hora, um sorriso transborda da Lindsey, e ela me abraça com força. Levar isso de uma Lindsey normalmente tão quietinha, sinceramente, me deixa atrapalhado. Até a Yumina se levanta e se joga em mim do mesmo jeito. P-pera, isso aqui é meio constrangedor!
— Então, com isso, a Lindsey-san também fica como noiva, igual a mim.
A Yumina fala toda sorridente, feliz. A Lindsey ainda está de rosto vermelho, mas assentia, contente, com vários acenos.
Como já era tarde da noite, quando pedi pras duas voltarem pros quartos, fui pressionado por um beijo de boa-noite. Coragem pra tanto eu ainda não tinha, então, depois de muito implorar (o que também me parece estranho), me safei com um beijo na testa. A Yumina ficou contente; a Lindsey, envergonhada.
Quando fiquei sozinho no quarto, soltei um longo suspiro. Aconteceu coisa demais hoje. Quero organizar os sentimentos. Desabo de novo na cama.
Por ora, o que eu faço… Dinheiro pra sustentar as duas eu tenho, e casa já existe. Quer dizer que não tem problema nenhum? Ah, será que eu também vou ter que ir me apresentar à família da Lindsey…
O resto é só a minha determinação, né. A determinação de viver a vida inteira com essas duas. Tenho que pensar de forma positiva, o máximo possível. E eu quero fazer as duas felizes… é…
Pensando nessas coisas, fui caindo no sono.
"Bábam!", um som como o de uma porta sendo arrombada, e eu, num susto, pulo da cama. O que foi, o que foi?!
O quarto já estava claro, era de manhã. Quando, com os olhos sonolentos, corro o olhar em volta, banhada pela luz do sol da manhã em contraluz, havia uma silhueta ao lado da cama, de braços cruzados, me encarando de cima.
— Eu preciso ter uma conversinha com você.
Quem estava ali era a irmã mais velha, de rosto idêntico ao da segunda menina que ontem disse que ia ser minha esposa.
Iluminadas pelo sol da manhã, as manoplas penduradas na cintura dela brilham, vívidas.
Ué, tô sentindo um clima meio perigoso. Não me diga que, logo de manhã, já tô numa enrascada?