Capítulo 68 – Um Duelo Inesperado e Magia Proibida
Aonde a Elsie me trouxe foi o terceiro campo de treino do exército do reino. É o lugar onde a Elsie e o General Leon costumam treinar, e a Elsie, que em tese é de fora, já entra na base do "conhecem a cara". Graças a isso, entramos sem dificuldade.
Por ser ainda cedo, talvez, não havia ninguém treinando. Em volta, só se ouvia o canto dos pássaros; tudo em silêncio.
Levado pela Elsie, ao pisar no pátio do campo de treino, vi alguém sentado bem no meio.
— Yae? O que você tá fazendo num lugar desses?
— ………Este servo esperava o Touya-dono.
A Yae, que estava sentada de joelhos no pátio, a katana pousada à sua frente, como em meditação, abriu os olhos devagar, pegou a katana e se levantou.
O clima dela está meio diferente do normal.
— …Ouvi que você vai tomar a Lindsey por esposa.
— Ã… é, foi o que acabou acontecendo…
A Elsie se vira e o olhar dela me trespassa. De novo isso… Ontem também passei por um olhar parecido… Bom, é a irmã dela, então levar a sério é compreensível, né.
— Ou seja, você vai virar meu cunhado, é isso?
— Ã… conto com você daqui pra frente…
Aliás, é, é isso que acontece, né. A Elsie como cunhada… sei lá, não cai a ficha.
— O que você sente pela Lindsey? Gosta dela de verdade?
— …Sendo sincero, sobre isso eu ainda não tenho certeza. Acho que não consigo dizer a ponto de "amar". E com a Yumina é a mesma coisa. Mas que eu gosto é certo, e que quero tratá-la bem é verdade.
— E ela aceitou isso?
— Aceitou.
"Fu", a Elsie solta um suspiro. Será que tá me achando um caso perdido. Coçando a cabeça com força, fica chutando o chão com a ponta do pé, num jeito irritado. Que medo!
— Desde sempre aquela menina é assim… Normalmente é toda medrosa, tremendo, mas, na hora H, é ousada. O total oposto de mim…
— Este servo é parecido. Sou de um feitio que não cria coragem sem algum estopim…
Ã, do que vocês estão falando, hein?
A Elsie equipa nas duas mãos as manoplas que pendiam da cintura e começa a bater os punhos um no outro, "gan, gan". A Yae também enfia a katana na faixa e, "tchac", começa a conferir a posição.
— Touya. A partir de agora, você vai lutar com a gente.
— Hã?!
— Se você vencer, a gente não dá pitaco nenhum na história com a Lindsey. Mas, se a gente vencer, você vai ter que atender a um pedido nosso.
P-pera, que história é essa? Onde foi que isso deu nesse pé?! Não me diga que é algum tipo de castigo?!
Diante de mim, sem entender nada, a Yae saca a katana num movimento fluido.
— Esta katana foi emprestada do Visconde Swordrick, e o fio dela foi cegado. Não dá pra matar cortando, mas quebrar um osso, dá; então tome cuidado, viu?
Muito obrigado pela informação nada tranquilizadora!
— A Brunhild do Touya também: tira o fio com [Modeling], hein.
— Não, antes disso! Por que eu tenho que lutar com vocês duas?!
— Bom, esse tipo de cerimônia é necessário. Pra nós.
Não entendo patavina do que ela diz, mas, pelo visto, não vão desistir. Sem jeito, vou perder de qualquer jeito e…
— Se você não levar a sério, eu nunca te perdoo. E não aceito a história da Lindsey. Não vou entregar minha irmã querida pra um homem relapso desses.
Ugh. Levei o aviso na lata… Pelo visto, ela enxerga bem demais os meus pensamentos rasos.
A contragosto, como mandado, tiro o fio da Brunhild com [Modeling].
Já que é assim, sem jeito; assim que começar, com [Slip] eu…
— Ah, e nada de magia, hein. Eu também não vou usar o [Boost].
Tô dizendo, por que vocês conseguem ler meus pensamentos?! Mulher é assustadora!!
As balas do revólver também ficaram restritas a balas de borracha comuns. Por pouco, só o efeito do [Reload] me foi permitido.
— Então, está preparado?
Como até perguntar "preparado pra quê" dá medo, eu me limito a um pequeno aceno.
No instante seguinte, a Yae e a Elsie se separam pros lados e vêm pra cima de mim, contornando. Um ataque em pinça logo de cara!
— Modo Lâmina!
Estico a lâmina da Brunhild, deixo no estado de espada longa e disparo na direção da Yae. A katana da Yae eu consigo aparar, mas o punho da Elsie não tem como.
Cruzo lâminas com a Yae e, sem perder o embalo, passo raspando pelo lado dela. Ao me virar, saco a New Model Army com a mão esquerda e disparo todas as balas em sequência.
No instante em que achei que todas as balas tinham acertado a Yae, a Elsie salta na frente dela e ergue diante de si a manopla da mão esquerda, que reluz num verde-esmeralda.
E então, todas as balas se desviam delas e voam pra qualquer lugar menos no alvo.
— Em mim, projétil que não seja mágico não funciona.
É mesmo! Aquela manopla verde-esmeralda tem um encantamento de atributo vento que desvia ataques físicos à distância!
— Modo Arma! Reload!
Mesmo assim, pra ao menos contê-las, descarrego os dois revólveres, ergo uma cortina de balas (embora sejam só 12) e recuo.
Mas a Elsie, sem se abalar nem um pouco, avança contra a chuva de balas, desviando-as com a manopla esquerda enquanto encurta a distância.
— Modo Lâmina!
Esquivando de lado do direto de direita zunido da Elsie, golpeio na horizontal a Brunhild, de novo no estado de espada longa. Desta vez a Elsie esquiva, e, na brecha, eu tento tomar distância pra me reposicionar.
— Ingenuidade, este servo lhe diz!
De trás da Elsie, parte uma estocada afiada da Yae. Peraí! Isso aí, mesmo com o fio cegado, espeta!
Esquivo, a muito custo, da ponta que vinha em direção ao meu ombro e varro a perna da Yae ao passarmos.
— Tch?!
— Reload!
Aponto o cano da New Model Army da mão esquerda pra Yae caída.
Mas, antes de puxar o gatilho, veio um chute da Elsie, e, pra desviar, não tive escolha senão saltar pra trás dali.
Pô, isto aqui é totalmente desvantajoso pra mim, né?! Pra começar, dois contra um já é injusto! E ainda por cima magia proibida!
A Yae, de pé de novo, saca o wakizashi da cintura e se põe em guarda com as duas lâminas. O que é isso?
A Yae dispara pra cima de mim numa postura baixa e desfere um corte ascendente com a katana da mão direita. Achei que tinha esquivado com um passo pra trás, mas eis que o wakizashi da mão esquerda dela vem voando na minha direção.
Uoou?! Quem é que joga, normalmente?! A katana não era a alma do samurai?! Ou, por ser wakizashi, não conta, é por essas?!
Torcendo o tronco, consegui esquivar por um triz, mas foi por pouco! Raspou de verdade!
Antes que a Yae, que arremessou o wakizashi, se reequilibre, descarrego todas as balas das duas mãos. Nessa distância não tem como esquivar!
— Gngh!!
Levando as balas de borracha, a Yae desaba. Mesmo assim, ela golpeia a katana na horizontal, mas eu salto de leve pra trás e desvio.
Mas, no caminho desse salto, estava a Elsie à espreita. Essa não, perto demais! Mais rápido que erguer a arma, mirar e atirar é o punho dela!
Um golpe com toda a alma parte da mão direita da Elsie. Tch, já que é assim, é tudo ou nada…!
Desviando o corpo, esquivo o punho por um fio de cabelo, solto o revólver da mão esquerda e agarro a mão direita da Elsie que passou direto. No embalo, giro de costas pra ela, abaixo o corpo, encaixo o cotovelo direito na axila dela e, de uma vez, a arremesso pra cima.
— Quê?!
Junto a um gritinho que ouvi por cima do ombro, projeto a Elsie no chão. Um seoi-nage eu não fazia desde as aulas da escola, mas o corpo parece ter guardado.
— Gfh…!
O meu seoi-nage pela metade, pelo visto, não causou dano suficiente. A Elsie se ergue depressa e tenta se levantar.
Mas, mais rápido que isso, o cano da Brunhild, no Modo Arma, já apontava pra ela. Nessa distância, ela não consegue desviar as balas. Mãos ao alto.
— Reload. Eu venci.
— …Não vai atirar?
— Se você admitir a derrota, eu quero encerrar por aqui.
Sinceramente, atirar numa companheira me dá um aperto. Depois preciso pedir desculpa direitinho pra Yae também.
— Que ingênuo. Com isso você consegue proteger a Lindsey e as outras?
— …Sou eu assim, não tem jeito.
— É. Justamente porque você é assim é que eu e a Yae nos apaixonamos por você.
— …………………Hã?
O que ela disse agora? Por um instante, meu cérebro trava.
E então, a mão direita da Elsie, a manopla vermelha, começava a emitir luz. A habilidade dessa manopla, se não me engano, é aumentar a força destrutiva…!
Tch, se ela não pretende parar, não tem jeito. Pra encerrar a luta de uma vez, puxo o gatilho da Brunhild apontada pra Elsie. …Só que.
— Hã?!
Puxo de novo. Nada dispara. Ou melhor, não tem bala. Estranho. Eu acabei de recarregar com [Reload]… ah.
Só nesse momento, enfim, entendi o ataque da Yae de antes. O wakizashi arremessado. Aquilo não foi pra me atacar, mas pra rasgar a pochete na minha cintura.
Da pochete rasgada, as balas escorreram pra fora, e ela já estava vazia sem eu perceber. O [Reload] não serve pra nada se não houver balas num raio de um metro. …Caí direitinho.
Num avanço como um raio, a Elsie entra na minha guarda e crava o punho no meu peito. Dali em diante, como desmaiei, não me lembro.