Capítulo 73 – O Golem de Mithril e o Picante Infernal
No dia seguinte, levei todo mundo até a guilda. Tinha também a ideia de talvez reencontrar o Ende, mas era porque eu achava que já estava na hora de subir o nosso rangue na guilda.
O rangue atual: a Yumina é verde; o resto de nós, azul. Na escala de subida — preto ▷ roxo ▷ verde ▷ azul ▷ vermelho ▷ prata ▷ ouro —, eu queria chegar pelo menos ao vermelho, o rangue dos chamados aventureiros de primeira.
Pra começar, nós já derrotamos o Dragão Negro; se aquilo tivesse sido o alvo de uma missão de extermínio, equivaleria a rangue vermelho. Ou seja, na prática, a gente já tem essa competência.
De todo jeito, cumprindo missões e subindo de rangue, a recompensa sobe junto. Eu ainda não sei bem o que quero fazer, mas, faça eu o que for, dinheiro vai ser necessário. Embora depender pra isso das minhas noivas seja meio feio.
O Kohaku nos seguir com seus passinhos já é coisa rotineira, mas a tartaruga e a serpente que vêm flutuando atrás — ou seja, a Sango e o Kokuyō — chamavam um bocado de atenção.
— Vocês chamam atenção, então bem que podiam ficar quietos tomando conta da casa.
— Não quero. Aonde o senhor vai, é de praxe nós irmos também.
— Issoo. E o Kohaku também chama atenção que chega, viu.
Como estamos na cidade, os três conversam por telepatia, mas pra mim dá pra ouvir tudo. Aliás, a Sango e o Kokuyō chamam atenção porque flutuam; se eu os carregasse no colo, provavelmente não dariam tanto na vista. Mas, quando propus isso, recusaram categoricamente.
Segundo eles, andar pela cidade sendo carregado é algo que o orgulho não permite, ou sei lá o quê. Bom, se alguém estranhar o fato de flutuarem, vou responder "é magia".
Ao chegar à guilda, corri o olhar pelo salão movimentado e barulhento, mas não havia sinal do Ende. Será que já foi pra outra cidade?
Todo mundo foi pro mural ver os pedidos, mas eu peguei a moça da recepção que atendeu o Ende ontem e perguntei sobre ele.
— Ah, aquele moço do cachecol? Sim, ontem ele cumpriu uma missão de extermínio de lobos-de-um-chifre, recebeu o pagamento e foi embora.
Lobo-de-um-chifre, é. Pra um iniciante de rangue preto, faz sentido. A minha primeira missão também foi extermínio de lobo-de-um-chifre.
— Só que… é que…
— ? Aconteceu alguma coisa?
Com um sorriso amarelo, a moça hesita. Será que o Ende aprontou alguma?
— A missão era exterminar lobos-de-um-chifre, e a quantidade era 5; mas aquele moço acabou caçando bem mais que isso…
— A parte da prova é o chifre, né? Quantos ele trouxe?
— Se não me engano, mais de 50.
— Mais de 50?!
Que número é esse?! Caçou demais!
— Como a missão pedia cinco, o pagamento da missão foi só o valor fixo; mas os chifres restantes nós compramos pelo preço de mercado. Ele ficou muito contente.
Ainda assim, mais de 50 bichos… Isso, e ele não devia estar armado. Será que era um usuário de magia mesmo? Se for, esse número até dá pra entender, mas…
…Bom, não adianta ficar remoendo. E ficar bisbilhotando demais a vida dos outros não é bonito.
Voltei até as quatro, que estavam coladas no mural de missões com gana.
— E aí? Acharam alguma boa?
— Ah, Touya-san. É esta aqui, sabe…
A Yumina aponta pro mural onde estão afixados os pedidos vermelhos. Hã? A gente só pode pegar missões até o azul. Esse mural é um rangue acima do nosso.
De todo jeito, leio o pedido que a Yumina apontou.
— Golem… de Mithril? É um golem feito de mithril? O local é o sopé da Cordilheira de Melicia, recompensa de cinco moedas de platina… pra rangue vermelho, me parece barato…
— É barato, sim, mas o adversário é um Golem de Mithril. O corpo dele é negociado como matéria-prima por um preço fora de série. Dependendo do tamanho, dá pra chegar a uma quantia absurda.
Saquei. A própria existência dele já é meio que um tesouro. Pode ser um prato cheio. Mas, de todo jeito, a gente não pode pegar esta missão… hã?
— "Ademais, para quem possui um título de classe A, esta missão dispensa o rangue"…?
Título é aquilo, o tal "Dragon Slayer" que a gente ganhou outro dia, é? Se não me engano, tem também "Griffon Buster", "Demon Killer" e por aí, né?
— O "Dragon Slayer" corresponde a um título de classe A. Por isso…
— Hã? Então esta missão a gente pode pegar?
Solto o pedido do mural e o levo até a recepção. Nós temos o título "Dragon Slayer", mas a Yumina não. Nesse caso, será que dá pra pegar esta missão?
— Sim. Neste caso, como a maioria do grupo tem o título, não há problema. Deseja ouvir os detalhes?
— Sim, por favor.
O teor da missão: um Golem de Mithril se instalou na pedreira da mina de Stea, no sopé da Cordilheira de Melicia, e a escavação na mina ficou completamente impossível.
Afinal, o adversário não é de uma dureza qualquer. E, pela característica do mithril, pelo visto se move rápido pra um golem. Leve e duro — é isso que é o mithril. Pelo que dizem, alguns mineiros já foram vítimas dele.
Esses bichos não toleram quem invade o próprio território. É justamente por isso que há magos que usam golens como guardiões de tesouros, por exemplo.
— A missão é exterminar esse Golem de Mithril. Aceitam o pedido?
Confirmo de novo com todo mundo e decidimos aceitar a missão. A parte a abater é o núcleo central do golem. Destruindo isso, o golem para de se mexer, pelo que dizem.
— Igual a uma vez, se o Touya puxar o núcleo com [Apport], não é moleza?
A Elsie disse isso ao sairmos da guilda. De fato, se desse pra fazer isso, talvez fosse fácil, mas, no caso do Phrase, o núcleo era visível através do corpo transparente. Com o golem não vai ser assim. A Lindsey parecia pensar o mesmo e negou a ideia da irmã.
— …Além disso, o núcleo de um golem desses deve ter mais ou menos este tamanho. Com [Apport] não dá pra puxar, não é?
Dizendo isso, a Lindsey mostrou com as duas mãos um tamanho de bola de vôlei. De fato. O limite do [Apport] é algo do tamanho que cabe na palma de uma mão. Com aquele tamanho, provavelmente não dá.
Sendo assim, só resta lutar de frente, mas… Claro que vai ser duro. Em dureza, dos adversários até agora, o Phrase era o campeão, mas este aqui provavelmente é ainda mais. Bom, dá pra dizer que o golem é melhor pelo menos por não ter regeneração.
O eficaz aqui seriam os do tipo explosivo, como o [Explosion] e o [Bubble Bomb] da Lindsey, ou os de esmagamento, como o [Rock Crush] de atributo terra da Yumina.
A Elsie, usando a manopla de aumento de força destrutiva da mão direita, talvez consiga causar algum dano. O problema é a Yae. Como ela tem por arma os cortes de katana, contra inimigos duros a combinação é ruim.
— Este servo, desta vez, vai agir como isca.
Quando a gente concluir esta missão, primeiro tenho que mandar forjar uma katana nova pra Yae com aquele bloco de mithril.
— E então, como a gente vai até a Cordilheira de Melicia? Aluga uma carruagem de novo? Ou melhor, compra logo uma?
De fato, como a Elsie diz, ter uma carruagem é mais cômodo, mas desta vez vamos por outro meio. Não dá pra deixar de usar uma coisa que a gente custou a conseguir.
— Pois então, vamos decolar. Por favor, não se levantem dos assentos.
— Mas não tem assento nenhum, oras.
— …É uma questão de clima. Nessas horas, leia o ambiente, mestre.
Valeu a pena ter levado uns dias pra trazer o Jardim Suspenso até a capital de Belfast. Viajando com ele, dá pra chegar ao destino em poucas horas.
No momento, voamos a uma altitude de uns 200 metros. É mais baixo que a Torre de Tóquio, mas, como não há prédios altos nem montanhas, essa altura basta. Graças à função de furtividade, ninguém volta o olhar pra cá. Não entendo o mecanismo, mas o impressionante dessa função é que nem sombra ela projeta. Como é que funciona? Será que isto também é poder da magia antiga?
— Pela previsão, chegamos em cerca de 1 hora.
Diante do dispositivo de controle instalado no centro do Jardim Suspenso, a Shesca disse isso. À primeira vista, esse dispositivo não passa de uma grande placa de pedra preta. Um tal monólito. Nele há uma língua que não consigo ler e um mapa simples. Provavelmente esta luz que se move é o Jardim Suspenso.
Me afasto da Shesca e do monólito e volto até o pessoal, que estendeu uma toalha num canto do jardim e fazia um chá da tarde.
— Ela disse que a gente chega em mais ou menos 1 hora.
Quando me sento entre a Yumina e a Yae, a Yae me passa um sanduíche. Um sanduíche simples de presunto e queijo, mas, ao dar a primeira mordida, inclino a cabeça.
— A-aconteceu algo, este servo pergunta?
— Não… é que o sabor tá diferente do de sempre… mas este também é válido. Tá gostoso.
— É-é mesmo?!
A Yae solta um suspiro de alívio. Pra uma coisa feita pela Claire-san, o tempero tava forte, ou melhor, com sal e pimenta de mais… ah, não me diga.
— Isto aqui foi a Yae que fez?
— S-sim, este servo. Não só a espada: como e-e-esposa do Touya-dono, este servo precisa saber preparar ao menos um prato, e… pedi à Claire-dono que ensinasse…
Sei, é isso. Ainda bem que não soltei nenhuma palavra descuidada. Como o sanduíche em boas garfadas e agradeço à Yae.
— Eu também fiz isto aqui. Experimenta.
— Ah é? A Elsie também? Então, sem cerimônia.
— Ah, isso é…
O que me ofereceram foi um frango frito. A Lindsey ia dizer algo, mas, mais rápido que isso, a minha mão já levava à boca aquilo espetado no garfo.
— Pi…
— E aí? Tá gostoso?
— Picaaa————?! Pi-picante!! Picante, não — dói?! Aaaaii————?!?!
Bebo em goladas a água que a Yumina me estende, mas não dá conta. A Lindsey, com magia, faz surgir um gelo do tamanho de uma bola de basquete, e, encostando a língua nele, de algum jeito escapo da crise.
— …Mas que… que coisa foi essa que você me deu pra comer… que coisa…
Sem querer, saiu uma fala digna de um velho comerciante de Kyoto, mas estas lágrimas que escorrem têm outro sentido. Que frango ultrapicante é esse?!
— Ué, tá tão picante assim?
"Hop, nhac, hop, nhac", a Elsie joga os pedaços na boca despreocupada e come numa boa. Por que ela tá tão bem?! Ao lado dela, a Lindsey abre a boca, com ar de quem pede desculpas.
— …A maninha aguenta picante de um jeito anormal. E, quando cozinha, tem a mania de deixar tudo apimentado; lá em casa, a gente nunca deixava ela chegar perto da cozinha.
Bem que eu queria ter ouvido isso antes. Eu não imaginava que, antes de lutar com o golem, eu já ia me sentir derrotado.
De todo jeito, lá em casa também vou proibir a Elsie de cozinhar. Isto aqui carrega o risco de ser uma questão de vida ou morte.
Ugh, minha língua ainda dói…