Capítulo 76 – O Ventilador e a Briga
— O que é isso, patrão?
Olhando "aquilo" que eu construí com [Modeling], a Lapis-san pergunta, intrigada.
Dentro de uma grade de proteção, uma hélice de três pás. Ela está montada num poste que sobe de uma base de pedestal.
O símbolo do verão: um ventilador. Infelizmente não deu pra fazer de plástico. Mas, como é feito de mithril, é relativamente leve e dá pra manusear do mesmo jeito.
— Iniciar programa / Condição de ativação: acionamento por estágios via interruptor / Conteúdo: girar a hélice com a intensidade de cada estágio / Encerrar programa.
Aperto o interruptor "fraco" montado na base. As pás do ventilador giram devagar, e um vento corre suave pelo cômodo.
— Um aparelho que manda vento, é? Que impressionante.
— Hmm…
A Lapis-san está admirada, mas, por dentro, eu sentia uma insatisfação, ou melhor, uma sensação de que faltava algo.
Pra começar, no início eu pensei "será que não dá pra fazer um carro?". Mas o motor é complexo demais, e eu não consegui fazer. Se eu tivesse o objeto real na frente, vá lá, mas, por fotos e ilustrações da internet, eu não conseguia entender direito a estrutura.
Quer dizer, o ciclo de admissão, compressão, explosão e escape eu entendo, mas, nas fotos, que papel cada pecinha cumpre, eu não faço a menor ideia. Enfim, dava trabalho demais, então desisti. Aliás, máquina, em si, não é a minha praia. Eu era totalmente de humanas.
Como também não havia gasolina e tal, cheguei a pensar numa máquina a vapor, mas no fim larguei mão.
A coisa seguinte que me veio à cabeça foi um motor elétrico. Aquele não é tão complexo quanto um motor a combustão, e me deu a sensação de que dava pra fazer. Mas aí, de repente, me liguei: usando o [Program], não dá pra fazer fácil?
Então, de teste, fiz um ventilador só por fora, oco por dentro, e "programei"… E tá girando, né… É versátil demais, esse [Program].
Será que a ciência é impotente diante da magia.
Isto não é algo que "qualquer um pode fazer". Mas é algo que "qualquer um pode usar". Não tem problema nenhum, mas… que vazio é esse, sei lá.
Claro que o [Program] não tem força pra mover, com gente em cima, uma coisa que é só uma carroceria com rodas. Mas, combinando com [Enchant] e tal, dá a sensação de que daria. Uma espécie de carrinho de brinquedo, oco por dentro, sem ronco de motor nem vibração de motor elétrico.
Bom, como acabei perdendo a vontade, paro por aqui, no ventilador. Não é que eu precise mesmo de um carro.
Deixei o ventilador que fiz com a Lapis-san, pra ela usar à vontade. Ah, pôr um ventilador de teto lá dentro também pode ser uma boa.
— Touya-san, não está na hora de irmos?
Quando saio do terraço pro jardim, a Yumina me chama dizendo isso. Ah, já é essa hora.
Agora vamos ver o Rei e a Rainha pra comunicar a intenção de casar com a Yumina. Já é algo reconhecido, mas, enfim, por via das formalidades, né.
Mas, em menos de um ano desde que a Yumina apareceu sem ser chamada, a coisa chegar a esse ponto… eu fui ingênuo na previsão, hein. Embora eu não me arrependa.
— Eu até criei coragem pra aceitar o casamento com a Yumina… mas, do jeito que vai, eu vou acabar virando rei?
— Hmm, na situação atual é o mais provável. Se eu ganhar um irmão, ou se nascer um menino na casa do meu tio, aí já muda; mas…
— E se a Sue arranjar um marido, e esse cara virar rei?
Dos métodos possíveis, é mais ou menos só isso, né. Se casarem com alguém de sangue real, esse padrão também seria válido. Soa como empurrar um abacaxi pro coitado, mas.
— De fato, esse método também é possível. Mas eu acho que não vai rolar.
— Por quê?
— É que a Sue também adora o Touya-san. Candidata número cinco, né.
— Hã?
Diante do que ela disse com naturalidade, travo sem querer. Número cinco… não, isso não, né. Não, né?
— Bom, por ora ela ainda não parece nutrir um sentimento tão forte. Mas, daqui a uns 3, 4 anos… talvez antes, então é melhor já se preparar.
— Não, é viagem sua. A Sue não tem irmãos, então acho que ela só se apega a mim num sentido de irmão mais velho, viu?
— ………Eu também vou ter muito trabalho daqui pra frente, pelo visto.
"Fu", a Yumina suspira e solta uma voz exasperada. Hã, por que essa reação?
— Fora isso, se o meu filho for menino, ele é que seria o próximo rei, então… também…
A Yumina começa a falar e fecha a boca. Quando olha pra mim, o rosto dela vai ficando vermelho aos poucos. Essa não. Eu também tô ficando vermelho. É porque ela falou em filho!
— V-vamos indo!
— Ah, é, vamos.
Numa conversa desajeitada, saímos pro jardim, e eu abri a [Gate].
— Ora, ora, é mesmo, é mesmo! Então a Yumina enfim fisgou o Touya-dono?! Isso é motivo de festa!
O Rei, de ótimo humor, se inclina pra frente e ri. A Rainha Yuel também toma a mão da Yumina e sorri pra filha.
— Muito bem, Yumina. Daqui pra frente, dedique-se ainda mais ao Touya-san e o ampare como esposa, viu?
— Sim, mãe!
O Rei se levanta da cadeira, dá tapinhas no meu ombro e abre um sorriso radiante. Que animação alta, hein.
— Agora eu só quero é ver a cara de um neto o quanto antes! Casar com quatro talvez seja meio puxado, mas capricha aí, hein?
Caprichar no quê. Não me pressiona desse jeito, vai.
— Não, casar eu vou casar com certeza, mas agora mesmo, não… No mínimo, fica pra quando eu fizer 18.
— Casar pode ser depois, mas fazer filho dá, não? A Yumina já teve a primeira mens—, gbuéé?!
Num átimo, o punho da Yumina, que avançou, acertou em cheio a boca do estômago de Sua Majestade. Ela usou [Accel] agora, né…
— O pai não tem o menor tato!
Aos pés da Yumina, que ofegava de rosto vermelho, o homem mais importante deste país se encolhe, de cara verde. Bom, foi merecido. Mesmo sendo a filha, comentário com cara de assédio não passa.
— Me desculpe, viu, esse homem está descontrolado de tanta felicidade.
A Rainha Yuel sorri pra mim, sem jeito. Ver eles felizes não me faz mal, mas tenho a impressão de que a direção está um tanto errada.
— Mas, e agora. Bastante gente já sabe, mas anunciar oficialmente o Touya-san como noivo da Yumina pode dar uma série de complicações.
— Como assim?
— Primeiro, você vai virar alvo dos nobres que pretendiam casar com a Yumina. Por outro lado, vão surgir os que tentam puxar o seu saco. E também vai haver teimosos que não vão reconhecer o Touya-san como par da Yumina enquanto ele não mostrar algum feito.
Saquei, isso parece um abacaxi. Casamento com uma princesa dá trabalho mesmo, hein.
Mas, "algum feito", né… É algo do tipo "traga um grande benefício pro país"?
— Bom, por mais um tempo vamos manter em segredo. Em vez de anunciar cedo e atrair encrenca, talvez seja melhor depois emendar tudo de uma vez: noivado, casamento.
Essa parte vou deixar a cargo deles. Até lá, eu também preciso conseguir ser reconhecido como noivo da Yumina.
Deixando a Yumina com o Rei e a Rainha, fui em direção ao campo de treino. Achei que talvez a Elsie estivesse lá, mas errei o palpite; ela não estava em lugar nenhum.
Por todo o campo de treino rolavam combates simulados, e só de assistir já era bem divertido. Dava a sensação de estar assistindo a uma partida de esporte. Hoje tem muito cavaleiro.
— Ei, você aí, o que está fazendo aqui?
Ao ser interpelado, me viro, e uns dez jovens cavaleiros me observavam. A idade não deve ser muito diferente da minha. Um ou dois anos mais velhos, talvez. Seriam cavaleiros novatos, vá lá.
— Cara que eu não reconheço. É serviçal de alguém? Este não é lugar pra um tipo como você vir!
— Ah, não, é que achei que tinha um conhecido meu aqui. Só estava dando uma olhada.
O jovem cavaleiro de cabelo loiro bem curto, à frente, me dispara isso. O jeito meio de desdém me irritou um pouco, mas não há por que criar caso. Vou responder qualquer coisa e bater em retirada.
— Conhecido?
— Ei, não é aquela ali? A lutadora que o General Leon anda levando ultimamente.
À reação desconfiada do loiro, o ruivo atrás responde. Se é "General Leon" e "lutadora", nove em cada dez é a Elsie.
— Ah, aquela mulher. Hahá, e você também tá a fim de puxar o saco do general por tabela, é? Francamente, gentinha baixa não tem escrúpulo nenhum.
Quem reagiu à fala do ruivo não foi o loiro, mas o de cabelo castanho ao lado. No rosto, um sorriso safado grudado.
— Esse aí também deve estar querendo entrar no exército. Pela ponte daquela mulher.
— O exército precisa de número pra fazer figura, né. Plebeus já são melhores que nada. Diferente de nós, da ordem de cavaleiros: poucos e seletos, gente honrada e escolhida.
Diante dos cavaleiros, que caíram numa gargalhada — não sei do que —, eu já estava de saco cheio, então dei meia-volta pra ir embora.
— Ei, você, por acaso é o homem daquela mulher?
— …E se for?
Respondo, irritado, ao castanho que me chamou pra me deter. Aquele risinho besta me dava nos nervos pra valer.
— Se você procura aquela mulher, procura na cama do general. A essa altura ela já deve estar soltando uns gemidos gosto— gbuéé?!
Sem esperar ele terminar a frase, cravei o punho na cara do castanho. Com os dentes quebrados, soltando sangue do nariz, ele rola no chão, e eu dou um chute de reforço nas costelas dele.
— Ogué! Q-que ideia é essa?!
— A ideia é te arrebentar. Precisa explicar?
Disse, olhando de cima o castanho que, encolhido a meus pés, segurava a barriga e gemia. Dou mais um chute.
Se fosse comigo, ainda dava pra perdoar. Mas eu não sou pacifista a ponto de ficar calado vendo zombarem de alguém querido pra mim. O vovô me ensinou que, na hora de bater, é pra bater sem hesitar.
— Seu desgraçado! Esse é o segundo filho da casa do Visconde Barrow! Acha que bater nele vai sair de graça…
— Cala a boca. Que importa de que família é. Não é que vocês mesmos sejam grande coisa… Filhinho de papai típico, que só tem o sobrenome?
— O que você disse?!
Os cavaleiros novatos me cercam. Sacam as espadas, se põem em guarda, e dá pra sentir a sede de sangue voltada pra mim.
— Tendo sacado a espada contra alguém, vocês têm a determinação de aceitar ser mortos, certo? Vocês têm noção disso?
— Cala a boca!
Um deles parte pra cima com um corte, mas é um lixo total. Dá pra achar que é um exemplo de esgrima de espada cega.
— Modo Seguro.
Ao meu comando, a lâmina da espada-arma Brunhild, que saquei, se estica. Mas sem fio. Esta é a nova terceira forma que imbuí faz pouco: o "Modo Seguro". Se eu baixar de verdade, quebra um osso fácil, então se é "seguro" ou não, aí já é discutível.
Com a Brunhild, golpeio de raspão o tronco do espadachim sem-vergonha.
— Guéf!
O sujeito cambaleia e tomba no chão sem dificuldade. Aberto até demais.
Achando, talvez, que o colega foi cortado, os outros recuaram amarelando. Que gente patética.
— Ataquem todos juntos! Ataquem ao mesmo tempo!
O loiro grita. Pelo visto, ele é o líder. Mas é burro demais. Gritar o conteúdo do plano, como é que pode.
Antes de eles agirem, eu é que avanço. Esquivo dos golpes de trajetória escancarada, acerto na barriga, no ombro, no peito, e neutralizo três.
Só com isso os outros já se abalam e os movimentos ficam lentos. Não dá nem pra discutir.
Daí em diante, só de balançar a espada, eles vão caindo um após o outro. Só restou o loiro.
— Ng, uaaaahh!
Soltando um berro, o loiro disparou em fuga. Abandonar os companheiros e desertar diante do inimigo — "gente honrada e escolhida", é de rir.
— Modo Arma.
Volto pra forma de arma e, "dom", puxo o gatilho.
— Hogá?!
Como ir atrás dava trabalho, disparei uma bala de paralisia. O loiro tomba de uma vez e para de se mexer. Bom.
— Hii?!
O único que ainda estava consciente era o castanho em quem bati primeiro. Esse, que insultou a Elsie, não dá pra perdoar.
— Pode parar por aí?
Ao me virar pra voz que veio de repente, dois cavaleiros estavam de pé. Um era um cavaleiro de cabelo prateado, lá pelos quarenta; o outro, uma pessoa que eu conhecia.
— Lion-san…
— Olá, Touya-dono. Quanto tempo.
O rapaz loiro ergue de leve a mão, sorrindo. É o Lion-san, filho do General Leon, que viajou conosco até Mismede.
— V-vice-comandante! E-este aqui, este aqui, do nada…!
O castanho me aponta e apela ao cavaleiro de cabelo prateado ao lado do Lion-san. Vice-comandante?
— …Vocês acham que eu não sei que andam por aí praticando violência e desordem contra os cidadãos, causando transtorno?
A voz baixa e fria é dirigida ao castanho. Ele enrijece o corpo num sobressalto e se cala. Pelo visto, esses caras agem assim no dia a dia. Devem ter feito o que bem entendiam. Que gente inconveniente.
— Até agora a família de vocês andava abafando direitinho, mas desta vez não vai ser assim. Atacar em bando um sujeito sozinho e, no fim, levar a virada. E, vergonhosamente, um abandona os companheiros e foge. Não dá pra chamar isso de cavaleiro.
O Lion-san também solta palavras duras. De fato, esses caras serem cavaleiros deste país é a coisa mais lamentável do mundo.
— A punição de vocês será comunicada em seguida. Avisem os que estão caídos também. E olha: é melhor nem pensar em vingança. Se puserem a mão nele, não só vocês, mas a família de vocês pode ser dissolvida. Isso não é brincadeira nenhuma.
Ignorando o castanho de olhos arregalados, o vice-comandante volta o olhar pra mim e baixa a cabeça bem fundo.
— Desculpe, causamos transtorno. Quero que entenda que nem todos da ordem de cavaleiros são assim.
— …Não, eu também peguei pesado. Por favor, não se preocupe.
Já mais calmo, de fato peguei pesado. Não precisava ter arrebentado. Tinha um monte de jeito de só neutralizar. Quando falaram da Elsie, o sangue subiu à cabeça. Ainda me falta muito treino…
— Fico aliviado de você dizer isso. Vice-comandante da ordem de cavaleiros do reino, Neil Sleiman.
— Mochizuki Touya. Prazer.
— Eu sei. Você é uma celebridade conhecida de quem é do meio, né.
Apertei de leve, com sentimentos confusos, a mão que ele me estendeu sorrindo.