Capítulo 77 – A Situação da Ordem de Cavaleiros e o Ataque Noturno
Depois de receber as desculpas do vice-comandante Neil, o Lion-san me contou a situação atual da ordem de cavaleiros. A ordem cuida principalmente da defesa da capital, e tem por missão a segurança da cidade, a proteção da família real, a escolta de figuras importantes e afins. Quase todos são filhos de nobres, mas, pelo visto, há muitos segundos e terceiros filhos, não os primogênitos que devem herdar a casa. Por essa posição, há também aqueles sujeitos sem senso de responsabilidade, que só se gabam da linhagem, egoístas como aqueles ali.
— Diga-se de passagem, eu também sou segundo filho, hein. Bom, lá em casa, diferente das outras famílias, se a gente faz algo errado que cause transtorno aos outros, o que espera é uma punição a punho de ferro, então…
Com um sorriso amarelo, o Lion-san conta isso. Aah, é aquele paizão dele, né… Dá pra imaginar. Não parece haver nenhum espaço pra mimo.
— Em número pequeno, mas ainda há quem se agarre à linhagem e tal: um recruta de casa condal que se recusa a obedecer a um capitão de casa baronial, ou, ao contrário, um capitão que bajula o recruta. Uma história totalmente sem noção.
O Neil-san fala com amargura. Em qualquer lugar tem gente que arruma problema, né.
— Bom, desta vez foi a oportunidade que caiu do céu. Aqueles ali podiam virar um câncer dentro da ordem de cavaleiros. Até agora escapavam pelas manobras da família, mas desta vez não vai dar. Afinal, eles puseram a mão no noivo da princesa. Que agradeçam por ainda estarem com a cabeça no pescoço.
Esse cara estava vendo desde o começo a confusão entre mim e aqueles caras. Fez de propósito. Bom, eu, que entrei no jogo, também não fico atrás.
— Mais importante que isso. Eu vi agora há pouco, mas essa arma… o que é aquilo?
Com ar de interesse, o Neil-san observa a espada-arma Brunhild pendurada na minha cintura.
— Esta? É uma arma exclusiva minha. Só eu uso, e só eu consigo fazer. Serve tanto pra longa quanto pra curta distância. Transforma-se em adaga e em espada longa, e também dá pra paralisar o adversário.
— Hmm. Que arma incrível. Você não faria uma pra mim também?
— Desculpe, isso é meio…
Quanto à arma de fogo, não tenho como não ser cauteloso. É algo que mata uma pessoa com facilidade. Pra ceder a outra pessoa, teria de ser alguém em quem eu confiasse muitíssimo.
— Sei… que pena.
— Ah, mas uma arma que se transforma, ou com o poder de paralisar imbuído, isso eu posso fazer, viu? Se você vai conseguir usar bem, eu não sei.
— É sério?! Então eu peço, por favor!
Acatando a resposta do Neil-san, tiro um lingote de aço do [Storage]. O mithril tem mais dureza, mas, na verdade, mithril não é muito adequado pra arma. É leve demais. Pra aproveitá-lo, acho que combina mais uma arma de estocada como um estoque, que usa a leveza e a dureza, ou uma katana especializada em "cortar".
— Neil-san, com que tipo de arma o senhor é bom?
— Deixa ver, no fim, lança. Claro que espada eu também sei usar.
Então essas duas… não, somando a adaga, vou pôr três funções de transformação.
Com [Modeling], primeiro formo uma lança de uns dois metros. O design é de uma lança de estilo ocidental que vi num game antigo, mas a ponta tem a forma de uma adaga. Em poucas palavras, é uma adaga com o cabo bem comprido.
Esse cabo é oco, e, na transformação, a massa é deslocada pra dentro dele pra encurtar o cabo. Aí ele vira o estado de adaga.
E também, igual à Brunhild, afinando a lâmina grossa da adaga e tornando o cabo oco de novo, ele se transforma numa espada longa de uns um metro… é, mais ou menos assim. Com [Enchant], imbuo o [Modeling]. E aí o acabamento.
— Iniciar programa / Condição de ativação: o portador dizer "Modo Lança", "Modo Espada" ou "Modo Adaga" / Conteúdo: transformação rápida, via [Modeling], da lâmina e do cabo para as formas de lança, espada longa ou adaga / Encerrar programa.
Ah, preciso acrescentar o efeito de paralisia também. De novo, com [Enchant], imbuo o [Paralyze].
— Iniciar programa / Condição de ativação: o portador dizer "Modo Lâmina" ou "Modo Atordoante" / Conteúdo: no Modo Atordoante, a transformação da lâmina e a aplicação do efeito de paralisia via [Paralyze] / Encerrar programa.
— Pronto, com isto está mais ou menos terminado.
Giro a lança num rodopio. É, igual à que fiz em Ishen, o equilíbrio continua ruim. Sem costume, pode ser difícil.
— Modo Adaga.
Num átimo, o cabo encurta, e a lança se transforma numa adaga de uns 40 centímetros de lâmina. Brando-a um pouco, mas não parece haver problema. Deixá-la nessa forma no dia a dia deve ser prático pra carregar.
— Modo Espada.
Desta vez a lâmina se estica e fica no estado de espada longa de uns um metro. O cabo se estica o suficiente pra empunhar com as duas mãos. Ponho em guarda à frente e baixo. É, nada mau.
— Modo Lança.
Volta ao estado de lança inicial. Beleza, a função de transformação tá sem problema. Agora falta…
— Modo Atordoante.
— Hã?
Abrindo um sorriso maroto, toco de leve o ombro do Lion-san com a lança. No instante seguinte, o Lion-san desaba ali mesmo.
— Hauu?!
— Efeito de paralisia também sem problema, e pronto.
— Ei, ei…
O Neil-san solta uma voz de exasperação. Hã, mas é que sem testar não dá pra saber. Né?
No Modo Atordoante, o fio some e não corta mais. Bom, dá pra espetar com a lança, mas. O efeito de paralisia eu configurei fraco, mas, mesmo assim, leva uma hora pra passar, então lanço [Recovery] no Lion-san caído e desfaço a paralisia.
— Tenha dó, vai!
— Desculpe, é que sem testar eu não tinha como saber.
Pedindo desculpa ao Lion-san, que descarregava a insatisfação, entrego ao Neil-san a lança, que voltei do "Modo Atordoante" pro "Modo Lâmina".
— Como é feita à mão, o equilíbrio é bem ruim, então acho que vai precisar de costume.
O Neil-san, que recebeu a lança, a põe em guarda e a maneja com movimentos limpos e fluidos: estocada, giro, varredura. É o vice-comandante mesmo.
Transformando-a em adaga e em espada longa, ele confere um a um os movimentos do mesmo jeito. Por fim, transforma de novo no Modo Lança e volta o rosto pro Lion-san.
— Modo Atordoante.
— Peraí, espera aí!
— É brincadeira.
Olhando o Lion-san em pânico, o Neil-san, rindo, volta a lança pro estado de adaga. Pelo visto, não há problema pra ele usá-la bem.
— O efeito de paralisia do Modo Atordoante não funciona se o adversário se proteger com amuleto e tal, então tome cuidado. E, uma vez paralisado, normalmente o efeito não passa por uma hora, então cuidado pra não paralisar um aliado.
— Entendi, anotado.
Dizendo isso, o Neil-san contempla a adaga, contente. Que bom que ele gostou.
— Que inveja, só o vice-comandante.
— Calma, claro que eu faço uma pro Lion-san também, viu?
— É o Touya-dono mesmo! Assim que se faz!
Faço outra do mesmo jeito e a entrego ao Lion-san. Ele também, contente, brandia a lança e a transformava, curtindo a sensação.
— Olha, ganhar uma coisa dessas me dá um certo peso na consciência. Quem dera eu pudesse retribuir de algum jeito…
— Não se preocupe. Bom, se der algum problema com aqueles caras de agora há pouco, é só intermediar.
— Entendido. Eu prometo.
Rindo, o Neil-san assumiu o compromisso. Bom, eu acho que aqueles caras também não são burros a esse ponto.
— …E essa conversa foi ontem, viu.
Quem diria que eram burros a esse ponto.
No jardim da minha casa, sob a noite de luar, jaziam uns 50 invasores. No meio deles, o loiro, o castanho e o ruivo daquela hora, os burros. Fora isso, homens robustos. Esses devem ser uma tropa particular, ou mercenários contratados.
Tendo recebido da Lapis-san a informação de que um grupo suspeito vinha pra cá, mandei de propósito o guarda Tom-san fingir que cochilava.
E então, como disse a Lapis-san, que é membro do esquadrão de inteligência sob comando direto do Rei, a "Espion", o grupo suspeito invadiu o jardim, encoberto pela noite escura.
Todos pareceram se espantar comigo, à espera no jardim, mas, ao perceberem que eu estava sozinho, avançaram todos de uma vez.
Daí em diante, foi pura rajada de 50 tiros. Sinceramente, foi anticlimático. Um lobo-de-um-chifre se move melhor que eles.
— Será que… eles não entenderam o que o Neil-san disse?
Caminho até o loiro e os outros caídos e me agacho, dando tapinhas no ombro deles com a Brunhild.
Mesmo paralisados e sem conseguir se mexer, eles continuam conscientes, então devem estar ouvindo a minha voz. Prova disso é que me olham com olhos apavorados.
— Vocês têm noção do que fizeram? Pendurados de espada, machado e tudo. Isto é um ataque, né? Tentativa de roubo, de agressão, ou será de homicídio? Bom, tanto faz.
— Já resolveu, Touya-san?
Vendo a Yumina, que apareceu no terraço, os olhos do loiro se arregalam. Hã. Até um burro desses conhece a Yumina, é. Então fica mais fácil.
— Sim, já. O que vocês fizeram é traição à família real, conspiração, rebelião. Infelizmente, por culpa de vocês, a casa será dissolvida, e vocês ganham, felizes da vida, a pena de decapitação. Bom trabalho.
Ao ouvir as minhas palavras, o loiro revira os olhos e desmaia. Pô, eu só dei uma pequena ameaçada, e, sendo assim, ainda tiveram coragem de pensar em atacar.
Pedi pro Tom-san ir de bicicleta até a ordem de cavaleiros e transmitir o resumo do ocorrido.
— E essa gente, o que vai fazer com eles?
— Bom, como não houve dano, vou pedir pra não rolar pena de morte. Mas a culpa deve recair também sobre a família deles. Talvez sejam destituídos do título de nobreza. De um jeito ou de outro, nunca mais vão poder andar de cabeça erguida.
Mas foi merecido, né. Afinal, os pais sabiam das maldades deles e os encobriam. Ignorar o aviso do Neil-san quer dizer que eles consideraram que ia dar nisso… não, não consideraram, né. São burros.
"Fazer um ataque noturno, empurrar pela quantidade e a gente se vira. Depois é só fazer parecer que foi um assalto"… deve ter sido um roteiro baratinho desse tipo.
É comportamento de criança que não pensa nas consequências. Será que a educação dos pais não prestava? Não prestava, né. Se prestasse, não dava pra crescer um burro desses.
Logo, todos foram levados pela ordem de cavaleiros que o Tom-san chamou. Não devo encontrá-los nunca mais.
Dias depois, dizem que sobre algumas casas baixou a palavra de Sua Majestade: a destituição do título de nobreza.
A ordem de cavaleiros tomou isso como vergonha, passou a zelar por uma disciplina ainda maior e, daí em diante, a distinção por linhagem passou a ser tida como sem valor dentro da ordem, pelo que dizem.