Capítulo 78 – Mirage e a Sessão de Cinema
— Hmm, no fim não vira uma imagem tridimensional, é?
Olhando a imagem projetada, coço a cabeça. Se eu ativar direto, é tridimensional, mas…
A magia de nulo que aprendi há pouco, [Mirage]. Em poucas palavras, é uma magia que cria ilusões.
De teste, criei o Kohaku em ilusão, e, de qualquer ângulo — frente, costas, lados —, era o próprio Kohaku. Dá pra movê-lo à vontade, mas, por ser ilusão, ele não toca nas coisas. Criar a ilusão de um fantasma daria numa coisa bem assustadora. Se surgisse da parede, "fuu", o susto seria e tanto.
Pensei que, imbuindo este [Mirage] no app de reprodução de vídeo do smartphone, talvez virasse imagem tridimensional, e tentei.
— Olhando de frente, até que não tem problema, mas…
Bem de frente, no quarto, um anime projetado do smartphone passa numa telona. Mas, contornando pro lado, é uma imagem chapada de uma camada só. Não passa de funcionar como um projetor. Bom, só de poder projetar no ar já é impressionante.
— Hmm… no fim, com imagem de dados não dá pra cobrir tudo, é. No fim, só dá pra usar como projetor mesmo, né.
Enquanto eu pensava nisso, ouvi uma batida na porta, "toc, toc".
— Mano Touya, o almoço tá… uáá, o que é isso?!
A Rene, que entrou no quarto, arregala os olhos pro anime projetado no ar. O Kohaku, que entrou junto, também se espantava com a imagem. Bom, aqui não existe esse tipo de entretenimento, né.
— Ei, ei, mano Touya, o que é isto?!
— Hmm, é tipo um teatro de papel em movimento. Eu projeto com magia.
— Nossaa.
De olhos brilhando, a Rene fica grudada na imagem. O conteúdo do anime é uns bichos brincando de pega-pega, um anime estrangeiro bem antigo. Quase não tem fala, e o conteúdo é simples, então é fácil de entender.
A Rene se senta na cadeira e assiste, absorta. Essa daí não vai sair do lugar, hein. É curta-metragem, acaba em menos de 10 minutos, então tudo bem. Quando me dou conta, o Kohaku também assiste, absorto. Que tigre estranho. Mas, mesmo aparecendo coisas que o pessoal daqui provavelmente não conhece, tipo aspirador e geladeira, ele assiste sem se importar. Talvez entenda tudo na categoria "objeto mágico".
Logo, na hora em que o desfecho ia chegar, de novo ouvi uma batida na porta, "toc, toc". Ah, mau pressentimento.
— Patrão~? A Rene-chan veio pra cá… uáá, o que é isso~?! Isto aqui~!
A Cecile-san, que abriu a porta, vê a imagem e entra correndo. É um rumo perigoso, este. Como esperado, a Cecile-san também se senta ao lado da Rene e começa a assistir ao anime.
Quando o episódio acaba, não só as duas, mas até o Kohaku me fazem uma cara de "e o próximo?", então, sem jeito, deixo no modo de reprodução contínua e saio do quarto pra almoçar. Mesmo deixando o smartphone lá, ele está "programado", então, se eu chamar, volta pra minha mão a qualquer momento. É a combinação de [Apport] e [Gate]. Por via das dúvidas, contra roubo.
No terraço, todo mundo já tinha começado a comer. O almoço de hoje é sanduíche clube, sopa de cebola, salada de legumes e queijo.
Ao me sentar, junto as mãos e digo "itadakimasu", pego o sanduíche clube e dou uma bocada. É, gostoso. A suculência do frango com o tomate é irresistível.
— Onde será que se meteram a Rene e a Cecile?
Enchendo o meu copo com suco de fruta, a Lapis-san franze o cenho pras duas, que não aparecem de jeito nenhum. Do jeito que está, as duas vão acabar levando bronca, então vou fazer a Lapis-san virar farinha do mesmo saco.
— É que elas estão me ajudando numa magia. A Lapis-san pode deixar aqui e ir dar uma olhada no meu quarto.
— Hã…?
Com cara de quem não entende nada, a Lapis-san volta do terraço pra dentro. Quando vir aquilo, não vai conseguir sair do lugar por um tempo.
— Touya, o que você vai fazer de tarde?
Bebendo o chá pós-refeição, a Elsie puxa o assunto.
— Hoje a katana da Yae fica pronta, então vou a Ishen buscar. Aliás, quando será que eu devo ir me apresentar ao Jūbei-san e à Nanae-san. Ah, e preciso ir também à casa do tio da Elsie e da Lindsey.
— A nossa pode ficar pra depois, por mim. Se souberem que a gente vai se casar pro mesmo lugar que a princesa de Belfast, o tio e a tia são capazes de desmaiar.
A Elsie e a Lindsey são originárias do Reino Sacro de Refreese, vizinho daqui, do Reino de Belfast, fazendo fronteira a oeste. As duas foram criadas, no leste desse país, num lugar o mais próximo possível de Belfast, na pequena cidade de Collette, por um casal de tios que tinha um sítio. Pelo visto, os pais delas morreram os dois de doença quando elas eram pequenas…
— Mesmo assim, a gente tem que ir visitar. Precisa dar a notícia no túmulo dos pais de vocês também, né?
— …Muito obrigada, Touya-san.
Sentada à minha frente, a Lindsey sorri toda contente.
— Bom, vou dar uma olhada em como estão as maids.
Terminada a refeição, entro no meu quarto acompanhado de todo mundo e, como previsto, as três assistiam ao anime, absortas. O Kohaku também, no colo da Rene, olhava a imagem como que empolgado.
A Elsie e as outras também ficam grudadas na imagem, e, quando todos terminamos de ver um episódio, encerrei o app. Não, senão não acaba nunca.
Pra todo mundo, reclamando a torto e a direito, "buu, buu", prometo exibir de novo depois do jantar e, de algum jeito, consigo dispersá-los.
Como sempre, tenho a impressão de que o pessoal deste mundo é faminto por entretenimento. Será que, depois de adultos, eles não "brincam" muito.
Bom, num mundo desses, tem coisa demais pra fazer pra sobreviver, então talvez não haja essa folga.
Levando a Yae, me teletransporto até o forjador de katanas de Ishen a quem encomendei a fabricação.
— Com licença, vim buscar a katana.
— Ô, chegou. Como combinado, tá pronta.
Do fundo da loja, trazendo duas lâminas, uma grande e uma pequena, embainhadas em bainhas de laca vermelha, o mestre surge na frente da loja.
A Yae, que recebeu a katana, a saca ali mesmo num movimento fluido e confere a lâmina. O fio prateado reluzia de forma ofuscante, deixando ver um belo hamon.
— Que leve. É o mithril mesmo.
"Hyun, hyun", brandindo duas, três vezes pra conferir, a Yae embainha. Enfia na cintura junto com o wakizashi, abaixa o centro de gravidade e saca de novo, como num iai. Rápida.
— Sem nenhum problema. É uma boa katana.
— Valeu.
Diante do elogio da Yae, o mestre abre um sorriso de canto. Pelo visto, que ele é de boa mão era verdade mesmo.
Abro o [Storage] e tiro o mithril do pagamento. É o dobro do mithril que deixei quando encomendei a katana. Quando o entrego, o mestre me olha, surpreso.
— Ei, ei, isso aqui não é receber demais, não?
— Tudo bem. Posso encomendar mais alguma coisa, e, nessa hora, fica o "conto com você".
— …Saquei. Bom, sendo assim, eu aceito.
Com o bloco de mithril na mão, o mestre ri. Isto é tipo um investimento antecipado. Com uma mão dessas, deve haver muita coisa daqui pra frente em que eu vou recorrer à ajuda dele.
Nos despedimos do mestre e deixamos a ferraria.
Quando o jantar acaba, todo mundo me apressa, "rápido, rápido", e, com a promessa de só três horas, ativo o app de reprodução de vídeo.
Numa sala com as luzes apagadas pra facilitar a visão, projeto uma telona. É o mesmo anime de antes, mas desta vez é de longa-metragem, dura cerca de uma hora. O conteúdo também não é drama contemporâneo, mas uma história de fantasia, então deve ser fácil de o pessoal deste mundo aceitar.
No quarto estavam a Elsie, a Lindsey, a Yae e a Yumina, as maids Lapis-san, Cecile-san, Rene e Shesca, o casal Fullio-san e Claire-san, e até o Lime-san. O trio de bestas de invocação, Kohaku, Sango e Kokuyō, também está. É praticamente um cinema. Como tem o trabalho de guarda, só o Huck-san ficar de fora é uma judiação.
Mas como todos assistem com afinco, hein. Eu já achava que neste mundo havia pouco entretenimento, mas será que esportes como beisebol ou futebol também quase não existem? Games, mangás, peças de teatro e coisas do tipo também. Aliás, romances eu também nunca vi por aqui. Acho que biografias e tal existem.
Ué? Pensando que esporte quase não existe, será que gincana esportiva também não existe por aqui? "Corridinha" as crianças da cidade faziam, então isso deve existir, mas e as outras provas? Tipo cabo de guerra montado, corrida do pão pendurado, corrida de obstáculos. Ah, e revezamento também. Se fizessem uma envolvendo a cidade toda, não seria divertido? Dividindo em time vermelho e branco.
Pensando nessas coisas, eu observava todo mundo, absorto na tela do anime.