Capítulo 82 – A Manta e o Reencontro
Enorme. No instante em que vi aquele Phrase, foi o que pensei. O tipo grilo que enfrentamos antes era do tamanho de um carro compacto, mas este aqui parecia ter o tamanho de quatro ônibus grandes.
Na cabeça… ou melhor, na parte da frente do corpo, havia, como sempre, duas espécies de cabeça em forma de amêndoa lado a lado, e dentro delas dava pra ver algo como um núcleo que brilhava em laranja.
Acompanhando o tamanho do corpo, talvez: o núcleo do tipo grilo de antes era do tamanho de uma bola de beisebol, mas o deste aqui tem o tamanho de uma bola de basquete. Com aquilo, puxar com [Apport] deve ser impossível.
— O que a gente faz?
A Leen se vira pra mim e pede uma decisão. Não lutar e fugir também é uma opção. Sinceramente, eu não devo favor nem obrigação nenhuma a este país.
Mas, e se aquilo atravessar o deserto, atravessar o Grande Mar de Árvores e chegar a Mismede? E se chegar até Belfast, mais adiante? Pode haver um monte de vítimas. E, entre elas, talvez estejam conhecidos nossos, pessoas a quem a gente deve.
— Vamos fazer. Não dá pra deixar aquilo à solta.
Aqui mesmo a gente para aquilo.
Por sorte, em volta é deserto, sem nada. Não preciso me preocupar com danos.
— Mas como? Se aquilo tiver a mesma habilidade de antes, a magia é absorvida, e ele deve ser durésimo, né? E ainda por cima este voa.
De fato, é como a Elsie diz. A katana da Yae passou a ser de mithril, mas não sei até onde ela vai funcionar. Pra começar, contra um inimigo que voa, como atacar?
— Só resta atacar com magia que não seja ataque direto. Acertando um [Ice Rock] ou um [Rock Crush], algo assim.
Diante das palavras da Leen, a Lindsey e a Yumina assentem. De algum jeito, derrubar ele no chão com esse ataque, e eu, a Elsie e a Yae partimos pro ataque direto no corpo. Só resta ir por esse método.
— Beleza, vamos!
Abro uma [Gate] e me lanço pro deserto, no solo. Lá no alto, com movimentos lentos, a manta de cristal reluzia, refletindo a luz do sol.
Vendo diretamente com os próprios olhos, dá pra sentir ainda mais o tamanho. Por estar sendo olhado de cima, talvez, a sensação de ameaça também é redobrada.
Saco a Brunhild e puxo o gatilho. "Gakyun, gakyun", as balas escorregam e ricocheteiam no corpo da manta de cristal.
— Bala comum não faz efeito, é…
Além de ser bem duro, o corpo aerodinâmico deve desviar o impacto.
— Venha, gelo; grande bloco de gelo: [Ice Rock]!
Quando a Lindsey ativa a magia, sobre a manta surge um bloco de gelo gigantesco, que despenca.
O bloco de gelo se choca contra o corpo da manta, mas, contra um objeto que flutua no ar, não consegue exercer grande impacto e cai direto no deserto. "Empurrar um noren" — foi a expressão que me veio à cabeça. Esforço à toa.
É como atirar pedra numa placa de isopor boiando na água. Assim não tem como derrubar aquilo no chão.
A manta de cristal se volta devagar pra cá. Entre os dois corpos de cristal, à direita e à esquerda, onde estão os núcleos, a luz se concentrava. Não sei o que é, mas tenho um mau pressentimento!
— Pessoal, dispersem!
Todos reagem na hora às minhas palavras e disparam dali. No instante seguinte, da manta um projétil de luz é disparado e estoura no lugar onde estávamos. Junto a um estrondo colossal, ergue-se uma coluna de areia gigantesca, que conta bem o poder de destruição.
— Tá de brincadeira… se levar uma daquelas, não sobra nada da gente…
Pra disparar, pelo visto, precisa de uns segundos de carga; isso é a única salvação. Assim, dá pra desviar de algum jeito.
Como que zombando do meu raciocínio, desta vez a cauda da manta se estica e a ponta se curva pra baixo da barriga. E da ponta dela algo dispara como uma metralhadora e nos ataca de novo.
— Tch?!
Desviando do algo disparado e me reequilibrando, confiro aquilo que se cravou no deserto.
Eram flechas de cristal translúcido — não, melhor dizer espigões de cristal, como shuriken-bastões. De um jeito ou de outro, perigosíssimos.
Olho em volta pra conferir que todos estão bem, e a Lindsey estava caída, segurando a perna.
— Lindsey!
— Tá tudo bem. Só raspou, é só isso…
A Lindsey, curando a perna ferida com magia de cura, se levanta com firmeza. E, contra ela, a ponta da cauda se voltou de novo. Essa não!
— [Accel]!
Usando a habilidade do anel que eu dei, a Elsie se desloca acelerada até a irmã. Contra a chuva de espigões que despenca, ergue a manopla da mão esquerda. Pelo efeito de vento imbuído na manopla, os projéteis de cristal se desviam todos das gêmeas.
— Touya-dono! Me leve de [Gate] pra cima da cabeça dele!
— Tch…! Entendi!
Hesitei por um instante diante da proposta da Yae, mas, como mandado, abro uma [Gate] sob os pés dela e a teletransporto a uns metros acima da manta.
— Prepare-seee!!
A lâmina de mithril que a Yae baixou se crava nas costas da manta. Mas está longe de ser um dano fatal.
A Yae chuta as costas da manta e se afasta. Ei, ei, por mais que embaixo seja deserto, cair daquela altura…!
— Touya-dono! A [Gate]!
! Tch, saquei!
Ativo uma [Gate] no ar bem sob os pés da Yae, e a saída abro ao meu lado, a um metro do solo. Ela some na [Gate] no ar e pousa, leve, ao meu lado. Ufa.
— Não me faz passar por coisas que fazem mal ao coração, vai…
— Foi mal, este servo.
Mas, mesmo com a katana de mithril da Yae, o efeito é fraco, é. Como é que se causa dano nesse troço?!
Igual ao tipo grilo da outra vez, no fim só resta despedaçar o núcleo, mas, além de o [Apport] não dar, os núcleos são dois.
A ponta da cauda se volta pra cá. Tch, de novo!
— Vento, redemoinha; muralha da tempestade: [Cyclone Wall]!
O encantamento que a Yumina teceu criou uma muralha de defesa de vento à minha volta e à da Yae. As flechas disparadas pela manta são engolidas por esse turbilhão e somem rumo ao alto. Fomos salvos.
Mas, quando o turbilhão de areia some, o que salta diante dos meus olhos é a figura daquele troço, justo prestes a disparar um globo de luz na nossa direção.
— Tch, [Accel]!
Pego a Yae no colo e, com a magia de aceleração, escapo dali. Por trás, um estrondo ensurdecedor me alcança. Essa foi por pouco! Aquele troço, surpreendentemente, também é esperto.
— Venha, rocha; pulverização da rocha colossal: [Rock Crush]!
A magia da Leen arremessa uma rocha gigantesca sobre a manta de cristal, mas, igual à da Lindsey de antes, pelo visto não consegue gerar grande efeito.
Do jeito que está, a coisa tá feia… a gente não tem o golpe decisivo. Que cedo ou tarde a gente vai ser encurralado, dá pra ver. E, quando isso acontecer, há a possibilidade de alguém ser sacrificado… Senti um suor frio escorrer pelas costas.
— Tch, só resta recuar de [Gate] por ora…?
— Ué? Eu me perguntava quem era, e é o Touya?
— Hã?
Diante da voz fora de lugar, ainda com a Yae no colo, me viro sem querer.
Quem estava ali, apesar deste calor escaldante, era o garoto de cabelo branco, com o longo cachecol branco.
— Ende…?
— Olá.
O garoto monocromático que conheci na cidade tempos atrás ergue a mão, sorrindo. Por que o Ende está num lugar destes? Não, antes disso, como ele chegou aqui? Até agora há pouco não tinha ninguém. Num lugar destes, deserto a perder de vista, dava pra ver de onde quer que ele viesse.
— Quanto tempo. Senti a presença de um Phrase e vim ver, e quem diria que eu ia encontrar o Touya.
— Ende… você conhece os Phrase?
— Conheço, sim. Bom, é uma longa história. Ainda assim, até "espécie intermediária" já está vindo pra cá, hein. A tal "barreira" também parece já estar no limite.
Espécie intermediária? Barreira? O que diabos esse garoto sabe?
— Bom, espera um pouquinho. Primeiro eu vou dar um jeito naquilo.
— Hã?
Dizendo isso, rindo, o Ende caminha rumo à manta-Phrase. Contra ele, as flechas de cristal despencam sem dó, mas, no instante seguinte, a figura do Ende some dali.
— Hã?!
Olho em volta, mas a figura do Ende não está em lugar nenhum. Magia de invisibilidade? Não, aquela magia só engana a visão, não é uma magia que apaga a existência.
— Ali!
Nos meus braços, a Yae aponta pro Phrase. Nas costas do Phrase que paira no ar, o Ende estava de pé. Quando foi que…?!
— Lá vai.
Com um gesto despreocupado, o Ende desfere um chute nas costas do Phrase. Um chute lento, só de erguer o pé direito e baixá-lo. Só com isso, uma rachadura surge no Phrase e percorre o corpo inteiro num piscar de olhos.
Logo, um grande estrondo, "pakíín!", como o de um vidro se quebrando, e o Phrase começa a se desmoronar, "garagara".
O que foi?! O que ele fez?!
Junto ao cristal que desaba reluzindo, o Ende pousa na areia. Dos destroços do Phrase estilhaçado, ele apanha os dois núcleos do tamanho de bola de basquete, segura um em cada mão e os bate um no outro, destruindo-os em mil pedacinhos.
Em seguida, batendo as mãos, "pá, pá", ele vem na nossa direção.
— O que diabos você fez?
Joguei pro Ende a dúvida que eu tinha.
— Nada? Eu só apliquei nele, com magia, a mesma frequência natural dele e destruí, só isso.
Frequência natural? É aquilo, o fenômeno da ressonância? Por ser magia, talvez não seja a mesma coisa, mas…
— Ende… você falou em "barreira" agora há pouco, né? Do que se trata?
— É tipo uma rede que impede os Phrase de entrarem neste mundo. Mas parece que há um rasgo nela. Este aqui também deve ter passado por aí. Embora, por enquanto, só os desse nível, no máximo, consigam vir pra cá.
Olhando os cacos de cristal espalhados pelo deserto, o Ende murmura.
— Esses aí são só uns peões que se movem pra cumprir um objetivo, nada além disso. Não são grande coisa.
— Objetivo?
— Procurar o "Rei" dos Phrase, que dorme. O mesmo objetivo que o meu.
…Como é que é?
— Opa, já tenho que ir. É que tenho um compromisso. Então, Touya, tomara que a gente se encontre de novo.
— P-pera…!
O Ende abre um sorriso e, ignorando a mim, que tentava retê-lo, some dali. Que magia diabos é essa? É teletransporte instantâneo?
— O "Rei" dos Phrase…?
Quebrando a cabeça com o enigma que o Ende deixou pra trás, eu apenas observava, pasmo, todo mundo vindo correndo na minha direção.