Capítulo 83 – A Análise e o Sangue no Nariz
— Suspeito demais.
A Leen, de braços cruzados, enuncia a conclusão. Bom, eu também acho.
Depois daquilo, voltamos pro "Jardim", e contei a todos a conversa com o Ende.
— Tem moedas de 5.000 anos atrás, derrubou com um golpe um monstro contra o qual a gente não pôde fazer nada. Ainda por cima entende do tal monstro e usa cachecol nesse calor absurdo. É uma explosão de suspeita, oras.
A última parte me parece meio irrelevante, mas, bom, suspeito ele continua sendo. Quem diabos será aquele cara…
— Aquele monstro de cristal… Phrase, era assim? No fim das contas, o que é aquilo?
A Elsie coloca a dúvida fundamental. De fato, não deve ser um monstro qualquer. Afinal, são os caras que, há 5.000 anos, quase destruíram o mundo. Quem sabe disso somos só eu e a Shesca, mas eu ainda estava em dúvida se devia contar a todos.
Eu estava calado por achar meio ruim deixar todo mundo ansioso à toa, mas, chegando a este ponto, pelo contrário, fica difícil de soltar.
Encara──────ndo……
Ugh. Faz tempo que eu não levava o ataque visual da Yumina. Sem querer, o olhar foge. Essa não. Tenho a impressão de que, depois de casar, mentir pra Yumina vai ser impossível.
— Touya-san, você sabe de alguma coisa, não é?
— Ugh.
A Yumina desmascara na lata o meu jeito suspeito, e acabei confessando a todos a mensagem da doutora.
— Por que você ficou calado sobre uma coisa tão importante?!
— Não, eu pensava em contar uma hora, mas…
Pressionado pela Leen, solto umas palavras que soam a desculpa.
— A invasão de dezenas de milhares de Phrase… Era essa a causa da queda da civilização antiga. Mas, sendo que há 5.000 anos havia tantos assim, hoje quase não há relatos de aparição… E só agora começaram a surgir. O que diabos será isso…
— …Sobreviventes, ou, será que saiu algum que estava selado?
Pra Leen, que começava a remoer, a Lindsey expõe o que pensa. De fato, o tipo grilo que encontramos pela primeira vez parecia estar em estado de morte aparente. Essa hipótese também é válida, mas…
— A tal "barreira" que aquele garoto, o Ende, mencionou é o que me incomoda… A Phrase-cobra que eu encontrei surgiu de um espaço rachado, pelo visto. Será que os Phrase estão selados em alguma outra dimensão…
— E alguém está tentando rompê-la… é isso, este servo pergunta?
— Não tenho certeza, mas.
Aos pés da Leen, a Paula assente, "uhum, uhum", de braços cruzados. Será que essa daí entende mesmo?
Mais do que isso, o que me preocupa é o fato de não termos como enfrentar esses Phrase. O Ende chamou aquele de "espécie intermediária". Ou seja, deve haver "espécie inferior" e "espécie superior".
Provavelmente os Phrase do tipo grilo e do tipo cobra são "espécie inferior". Nem mesmo um Phrase de "espécie intermediária" a gente conseguiu dar conta. Se surgir um de "espécie superior"…
Pelo visto, talvez eu tenha mesmo que procurar "Babylon" pra valer.
— Shesca. Há 5.000 anos, os Phrase e a humanidade não lutaram?
A Shesca, parada diante do monólito, volta o rosto pras minhas palavras.
— Não, lutaram, sim. Embora o quadro da guerra fosse bastante ruim. A doutora também desenvolveu uma arma decisiva contra os Phrase, mas, quando ela ficou pronta, os Phrase já tinham sumido até o último.
— Arma decisiva?
— Uma arma de combate humanoide e pilotável, criada pela doutora. Chama-se Frame Gear.
Arma de combate humanoide e pilotável?! Isso quer dizer um robô gigante?! Ela construiu até uma coisa dessas, aquela doutora!
De fato, se ela consegue fazer uma robozinha como a Shesca, não é de espantar que tenha construído robôs gigantes também, mas…
— E o que aconteceu com isso depois?
— Se não me engano, estavam guardados no "Hangar" de Babylon.
A Shesca responde assim à pergunta da Elsie. Ou seja, se o destino do transporte das ruínas pra onde estamos indo for o "Hangar", dá pra obter aquilo, então.
Caramba. Comecei a ficar empolgado. Pô, é robô. Robô de subir dentro e pilotar. Se for menino, entende esse sentimento, né?! Embora aqui só tenha menina.
— Senhor, parece que chegamos ao destino.
— Mas parece que não tem nada, né~?
— Parece estar enterrado debaixo da areia.
Olhando a tela do monólito, o Kohaku e os outros me avisam. As coordenadas batem certinho, mas ali, como sempre, só se estende deserto, e não dá pra ver nada.
— Por ora, vou descer pra ver.
Pro caso de acontecer algo, deixo o Kokuyō e a Sango no "Jardim" e me teletransporto pro solo com a [Gate]. Deserto a perder de vista, e nada mais. Tiro o smartphone e busco "ruínas"; na tela, um alfinete cai neste exato lugar.
— É aqui mesmo. Embaixo disto, então…
Bom, e agora. Cavar a areia, vá lá. Mas, cavando com uma pá, sabe-se lá quanto tempo leva.
— Eu sopro a areia pra longe com magia de vento. Afasta um pouco.
Diante de mim, que pensava em como cavar, a Leen dá um passo à frente. Sem contrariar, me afasto um pouco dali, como mandado.
— Vento, redemoinha; vendaval da tempestade: [Cyclone Storm].
O tornado que se ergue suga a areia cada vez mais e a faz voar pro alto. A areia é arremessada pra sotavento, longe de onde estamos, e uma parte do deserto à frente vai virando uma cratera em forma de funil.
Logo começou a surgir uma ruína em forma de meia-esfera. "Aquilo" em forma de cúpula, do tamanho de uma casa, era feito de um material que não dá pra saber se é pedra ou concreto. Numa parte há uma porta, como uma entrada. Não é porta de duas folhas, é de uma folha só.
Quando o tornado para, descemos pra dentro da cratera. Na porta não há nada que pareça uma maçaneta. Porta automática? Fico em pé diante dela. Nenhuma reação. Não tem nada parecido com sensor; como é que se abre isto?
Quando, sem pensar, toco a porta, não há resistência, e atravesso direto pro outro lado.
— Uou?!
— Touya-san?!
Quase caindo, dou um passo pra frente e acabo entrando no interior das ruínas. Numa luz fraca e difusa, há seis pilares de pedra e um círculo de transporte.
Toco a porta de novo, mas desta vez vem de volta um toque frio e duro. Tentei sair de [Gate], mas a magia não ativa. Ué? Fiquei trancado?
— Senhor?! O senhor está bem?!
— Kohaku? Ah, tô bem. Sem problema. Tinha um círculo de transporte aqui dentro. Vou dar uma olhada, então avisa a todo mundo que não tem com o que se preocupar.
— Pois não. Tome cuidado.
Provavelmente, pra que o círculo de transporte não fosse destruído, devia haver algum truque na porta. Tipo "só quem tem todos os atributos passa". Não entendo o porquê de não conseguir sair. Dá uma sensação de que aquela doutora está implicitamente dizendo "não vou te deixar escapar", e isso me dá uma certa moleza.
Sem jeito. De todo jeito, sem me mover pelo círculo de transporte eu não saio, então é ativá-lo logo.
Vou passando, em ordem, a energia de cada atributo. Quando termino de passar as seis energias, fico de pé no centro do círculo de transporte reluzente. Pensando "tomara que seja o Hangar", no instante em que passo a energia do atributo nulo, fui transportado.
Quando o turbilhão deslumbrante e multicor se acalma, diante dos meus olhos se estendia uma paisagem parecida com a do "Jardim". A única diferença é que à frente se vê uma grande construção. Um prédio cúbico, branquíssimo, feito um dado.
Quando eu ia começar a andar pelo caminho que leva àquele prédio, de repente, como que pra barrar a passagem, uma garota saltou na minha frente.
— Pare aí mesmo, senhor!
Erguendo a mão direita, tenta me deter ali. A garota tinha o cabelo laranja preso em coques dos dois lados, com redes de coque com laços. A pele branca e os olhos dourados pareciam indicar que ela é da mesma laia da Shesca. Provavelmente, é ela a administradora daqui. Aparenta ser mais nova que a Shesca. Será por ser mais baixa.
— Sejam bem-vindos à "Oficina" de Babylon. Este soldado é o terminal que administra este lugar, Hi-Rosetta, senhor. Ficaria grata se me chamasse de Rosetta, senhor.
Era o que eu pensava. Mas "este soldado" não era jeito de homem se referir a si mesmo? É menina, né? Tá de saia. …Né?! Não pode ser, conhecendo aquela doutora! Não dá pra confiar! Não é um "menino-menina", né?!
— Ã… Rosetta? Você é menina… né?
— ? Não entendo a intenção da pergunta, mas sim, senhor.
Né?! Que alívio. Aliás, a Shesca também disse que "modelo masculino não foi feito".
Mas, a "Oficina", é. Não era a "Biblioteca" que a Leen queria, nem o "Hangar" que eu queria.
— Daqui pra frente é o núcleo da "Oficina", senhor. No momento, é proibida a entrada a quem não seja o "Compatível", senhor!
— Bom, eu fui reconhecido como "Compatível" pela Shesca, mas…
Solto o nome da robozinha lá de casa, que provavelmente é irmã dela.
— Shesca… Francesca, senhor? Saquei, então o senhor já obteve o "Jardim Suspenso". Sendo assim, fica mais fácil. Este soldado vai testar se o senhor tem ou não a qualificação de "Compatível", senhor.
Testar…? O que diabos de mim ela vai testar.
— Sem dar um passo daí, adivinhe a cor da calcinha deste soldado, senhor!
— Tá maluca────────?!!
Não tem jeito mesmo, essa gente! Foram feitas por aquela doutora, então pudera! Com certeza ela tá dando aquele sorrisinho! Aquela mulher!
Inventar um teste idiota desses. É pra eu levantar a saia, é?!
— A resposta é uma só. Tempo limite: cinco minutos. Então, que cor, senhor?!
Tch! Por que essa menina tá tão empolgada?! Enquanto eu remoo o que fazer, o tempo corre. Ah, que se dane, me incomoda dançar conforme a música dela, mas eu vou nessa!
— Vento, sopra; vendaval que se ergue: [Whirlwind]!
Dos pés da Rosetta, o vento se ergue e faz dançar no ar o laço do peito e a franja. Mas a saia não balança nem um pouco. O quê?!
— Esta saia não aceita magia de vento, senhor.
A Rosetta abre um sorriso de canto. Hmm. Não vai ser tão fácil, é. Então eu apago a própria saia!
— Chama, queima; sopro incinerante: [Fire Breath]!
Ativo a magia de atributo fogo pra incinerar só a saia, mas o fogo não pega na saia. Quê?!
— Assim como o vento, magia de fogo também ela não aceita, senhor.
Que saia suprema é essa?! De um alto desempenho à toa!
Tch, não se anima. Se me fizer ir a sério, eu espio uma calcinha quando quiser! …Peraí, tem algo errado. Por que é que eu tenho que me esforçar tanto pra isto.
Chega. Vou espiar direto. É só mandar a visão pra dentro da saia e dar uma olhadinha, e isso aí até que pode, né. Olha, é porque não tem outro jeito mesmo. É por falta de opção.
…Por que será que eu tô me justificando, eu…
— [Long Sense].
Mando só a visão pra dentro da saia e abro os olhos. Está meio escuro, mas dá pra ver com nitidez… só que…
…………………………………Pfft.
Eu me encolhi ali mesmo, segurando com a mão o líquido vermelho de gosto de ferro que escorria do nariz, tremendo. Aquilo pode?! Pode mesmo?!
— Então, que cor, senhor?!
— …………Incolor…………transparente………
— Correto, senhor! Reconheço o senhor como Compatível e, a partir de agora, a unidade número 27, de nome individual "Hi-Rosetta", é transferida ao senhor. Conto com o senhor por longos anos, senhor!
A Rosetta diz isso e faz, "zaps", uma pose de continência militar, mas, sinceramente, eu não tava nem aí. Não era "transparente" nem nada nesse nível — uma calcinha que parecia feita de filme plástico de cozinha… bem na minha frente… Pra essa gente a palavra "pudor" não existe?! Aquilo tão transparente…
"Pinga-pinga-pinga"… Ué? O sangue do nariz não para de jeito nenhum…