Capítulo 85 – Coleta de Livros e a Loja
Resolvi tentar começar aquele negócio que tinha me ocorrido. Pra isso, antes de tudo, preciso de capital de giro. Eu poderia ter vendido o mithril, mas aquilo é bem útil como material, então decidi guardar.
Sendo assim, copiei bicicletas na "Oficina" e, pra começar, fabriquei umas cinquenta. Levei até o Olba-san, o comerciante de Mismede, e, quando negociei, ele comprou tudo por um valor bem alto.
Hmm, será que tudo bem receber tanto por um tiquinho de ferro e borracha daqueles? Bom, ele também é comerciante, não vai fechar negócio que dê prejuízo. Provavelmente vai lucrar ainda mais com aquilo. Melhor não fazer cerimônia.
Por ora, o capital tá garantido. Dali mesmo fui à livraria de Mismede e comprei vários exemplares das histórias mais conhecidas deste país. Sendo série, levo a coleção inteira. Só que apenas as já encerradas. As que pararam no meio da continuação eu não quero. É que neste mundo não existe essa de "data prevista de lançamento". Se sai ou não a continuação, depende do autor. E eu não posso ficar esperando uma coisa dessas. Comprei umas 500 no total.
Em seguida fui pra Oedo, em Ishen, e comprei livros aqui também. Por causa do estilo do país, com aquele clima japonês, eu achei que fossem pergaminhos e tal, mas eram livros normais. Aqui também saí comprando principalmente histórias. Os livros de Ishen têm muito conto de fadas, hein. E também causos sobrenaturais? Comprei mais uns 300 e guardei no [Storage].
Peguei emprestada a memória da Yumina, me teletransportei pra Bern, a capital imperial do Reino Sacro de Refreese, e ali, igualmente numa livraria, arrematei umas 400. Foi a primeira vez que vim à capital imperial, mas o passeio fica pra outra hora.
Da mesma forma, recebi da Lapis-san a memória de Galaria, a capital imperial do Império de Regulus, e da Rebecca-san a de Kyurei, a capital real do Reino de Sandra, me teletransportei pra cada um desses países e fui coletando os livros de história de cada um.
Por fim, quando esvaziei a livraria de Belfast, já tinha virado um acervo e tanto.
— …Pra que o senhor quer juntar tanto livro assim?
A Lindsey pergunta, olhando a montanha de livros empilhada em cima da mesa. Deve ter achado algum que despertou seu interesse, porque estava folheando e lendo. Pera aí, isso aqui em princípio é mercadoria, viu.
Por ora, encanto [Protection] em todos os livros que comprei. Assim eles não vão se sujar e, mesmo se molharem na água, não vai dar nada. Com fogo comum também não devem pegar fogo. Com fogo mágico talvez não escape, mas.
Foi então que a Elsie abriu a porta e entrou.
— Procurei um imóvel, como você pediu. Tem um que cai como uma luva. Fica na ponta da avenida central da Zona Sul, mas a localização não é nada má.
— Beleza, então vamos dar uma olhada primeiro e, se parecer bom, a gente compra.
— …Você vai abrir uma livraria?
Quase. Não é bem "livraria".
— Não, livraria não. Formalmente é uma cafeteria. Só que cobra pra entrar. Tem tempo limitado e, durante esse tempo, você pode ler à vontade qualquer livro que estiver lá dentro.
Bom, é o que lá no meu mundo a gente chama de "manga café". Aqui neste mundo os livros de história são bem caros. Dá pra comprar, mas gente comum que tenha um monte deles é raro. Os livros de figuras pra aprender a ler até vendem barato. Neste país não existe biblioteca pública. No palácio tem uma sala de leitura, mas só.
Por isso pensei que seria bom ter um lugar onde dê pra ler esse tipo de coisa sem peso na consciência. E não só os deste país; dá pra ler livros de outros países também. E sem precisar comprar. Um "café de leitura", digamos.
— …Saquei. Poder ler um monte de livros à vontade e ainda comer… Eu, se fosse o caso, acho que ia me enfiar lá e não sairia mais.
A Lindsey murmura isso olhando a pilha de livros.
— E aí, você vai deixar essa cafeteria nas mãos daquelas meninas?
— No começo, sim. Se encontrarem outra coisa que queiram fazer, podem largar. Aí é só contratar outra pessoa.
As meninas que a gente salvou no deserto de Sandra parece que cozinham até que bem, então essa parte deve estar tranquila. O foco não é a comida, então, contanto que não seja algo intragável, acho que não tem problema. Saindo faturamento, dá pra pagar salário com isso e cobrir o custo de vida delas.
— Por ora, vamos dar uma olhada no imóvel.
Levei a Elsie e a Lindsey e me teletransportei pra Zona Sul.
O imóvel em si não era nada mau. Pelo visto era uma antiga hospedaria, então é bem espaçoso. O térreo era tipo uma taverna, mas dá pra reformar, lotar de estantes e deixar a pessoa escolher e ler aqui. O segundo e o terceiro andar dá pra fazer com quartos privativos, pra quem quer ler com calma. É só pôr um preço um pouco mais alto pro uso de quarto privado.
— Não parece ter problema. Tá decidido, é aqui.
Assino o que o corretor que chamei trouxe e compro os direitos. Não foi um valor nada barato, mas, bom, deve dar conta.
Pois então, bora reformar. Vou reformar tudo! Chamo a Wendy e as outras lá de casa (sem chamar, o Will veio junto também) e peço pras seis, fora a Wendy e o Will, fazerem a limpeza dos andares de cima.
Eu, da minha parte, vou transformando móvel atrás de móvel com o [Modeling] e criando sofás fofinhos. O balcão de atendimento fica deste lado, e aqui vai ser onde a gente põe as bebidas. Pros clientes do térreo, faço self-service? Se for só água e um chá simples, pode ser de graça. Já que cobro a entrada mesmo. Plantas ornamentais… essas eu não tenho como fabricar, então depois trago alguns vasos do "Jardim". As estantes ficam aqui, ocupando uma parede inteira, em tamanhos variados.
Vou fazer também umas poltronas reclináveis. Com mesinha acoplada. Hmm, isso tá ficando divertido.
Os livros empilhados que tirei do [Storage] eu mando o Will e a Wendy irem arrumando nas estantes.
— Mestre, eu tenho uma pergunta.
A Wendy me pergunta enquanto arruma os livros na estante. Eu queria que ela parasse com esse "mestre", mas, sei lá por quê, ela não larga esse jeito de me chamar.
— Não vai aparecer cliente que leva o livro escondido pra casa?
— Ah, eu também pensei nisso. Tipo, o cara entra num quarto privado, enfia o livro numa bolsa e sai de cara lavada como se nada fosse. Não vai aparecer um desses? Como é que fica essa parte?
Ou seja, estão preocupados com furto, é. Por aqui livro é coisa valiosa mesmo. Não que eu não entenda. Mas, quanto a isso, eu não dei mole, não.
— Então, Will, faz um teste e tenta roubar. Esconde por baixo da roupa e tal.
— Eu?!
O Will fez uma cara desconfiada, mas, como mandei, escondeu um livro embaixo da roupa e foi tentar sair pela porta. Só que.
— Fugya?!
— Will?!
Soltando um som esquisito, o Will desaba ali na saída. Isso aí, deu certo. Quando se tenta tirar um livro deste prédio, o [Paralyze] lançado no livro dispara. E mais: se a pessoa se afasta uns dez metros do prédio, o livro se teletransporta automaticamente de volta pro balcão. Mesmo que ela bloqueie a paralisia com um amuleto, o livro volta de qualquer jeito. É essa a engenhoca.
Recupero o Will caído com um [Recovery].
— Realmente, assim não tem como roubar.
— Quem roubar, a gente entrega pra guarda. E, claro, fica proibido de entrar pra sempre. Ainda assim, pra qualquer rolo que apareça, eu quero pedir pra Rebecca-san, o Logan-san e o Will fazerem a segurança. Se der, é melhor que seja gente conhecida. Se não rolar de jeito nenhum, aí eu contrato diarista pela guilda.
— Por mim tudo bem. Tô pensando em fazer três dias por semana outros pedidos na guilda e, nos outros três, ficar na segurança daqui.
Saquei. Hã? E o dia que sobra? Folga? Quando perguntei sobre isso, o Will ficou vermelho e os olhos começaram a fugir. A Wendy, do lado, também me pareceu meio corada.
Enquanto eu coçava a cabeça sem entender, pá, alguém me deu um tapa na nuca. Me viro e era a Elsie, parada com cara de exasperada.
— Continua lerdo do mesmo jeito, hein. Saca as coisas, vai. É encontro, encontro. Um dia pra sair junto, passear, todo mundo precisa, oras.
— On-onee-chan, esse tipo de coisa não dá pra falar tão na lata assim…!
A Lindsey tenta repreendê-la, atrapalhada, mas o rosto do Will e da Wendy só vai ficando mais vermelho. Pelo visto acertou na mosca.
Bom, eu entendo o sentimento. Melhor não cutucar muito. Deixo os dois, que voltaram a arrumar os livros caladinhos, e eu vou transformando uma cadeira com o [Modeling] pra fazer uma poltrona reclinável. Sento a Elsie nela e vou ajustando aos poucos até deixar num formato confortável.
— Que bom que o mestre sabe usar magia sem atributo. Eu não tenho atributo nenhum, então fico com inveja…
O Will tinha parado de trabalhar e me olhava. Aliás, você também, para com esse "mestre", por favor.
— O meu falecido avô sabia usar magia sem atributo, sabe. Mas o dom pra magia, no fim, não passa de herança mesmo, né.
O Will suspira e volta a arrumar os livros. Pois é. O dom pra magia, pelo visto, não se herda. A Elsie e a Lindsey são gêmeas univitelinas, então os genes deviam ser iguais, mas a Lindsey tem três atributos e a Elsie tem só um sem atributo.
— Como era a magia sem atributo do seu avô?
Magia sem atributo é magia individual. É raro alguém que use exatamente a mesma. Justamente por isso, é também um baú cheio de magias que não parecem servir pra nada. Tinha até uma que deixava a água ligeiramente salgada. É só usar sal, oras.
Mesmo assim, dá pra ter interesse. Mesmo as que parecem inúteis, dependendo de como se pensa, tem umas que dá pra fazer virar útil.
— A magia sem atributo do meu avô não era grande coisa, viu. Era uma magia que deixava o que ele tocava um pouquinho mais pesado.
— Mais pesado…?
— Fica só um tiquinho mais pesado. Sinceramente, era uma magia sem nenhuma serventia. Chama [Gravity].
…Pera um pouco. Isso aí.
— Will, depois você me ensina essa magia em detalhe?
— ? Pode ser, mas?
Se for o que eu tô pensando, essa magia esconde um potencial absurdo. Se for uma magia que mexe na "gravidade", como o nome indica…
Bom, isso fica pra depois. Termino a poltrona reclinável à minha frente e começo a fazer mais uma.
Preciso pensar no cardápio também, né. É bom que seja coisa leve, de petiscar. Bolo e outros doces também cairiam bem. Quem sabe um parfait, também?