Capítulo 91 – O Império e a Cavaleira
— Ultimamente anda estranho o movimento do Império, viu.
Depois de cumprir um pedido da guilda com a Yae, topei por acaso com o Logan-san numa cafeteria, e foi ele quem soltou essa.
— Estranho como assim?
— É meio difícil de explicar… mas tem algo esquisito. O Império, que nem Belfast, se divide em Exército e Ordem de Cavaleiros. O Exército cuida de invasão e defesa contra outros países, e a Ordem de Cavaleiros protege a capital imperial e o palácio. Parece que ultimamente o Exército anda reforçando as forças de um jeito chamativo, mas, até onde eu sei, o Império não tem nenhum inimigo declarado no momento.
— Será que não estão de olho em invadir algum país?
A Yae, sentada ao meu lado, perguntou isso pro Logan-san, mas quem respondeu não foi ele, e sim a Rebecca-san, que estava junto.
— Isso não rola. Dizem que o Imperador do Império está de cama, doente. E o príncipe herdeiro, o próximo imperador, mal passou dos vinte anos; sinceramente, ainda não tem força pra carregar o Império nas costas. Não tem vantagem nenhuma em começar uma guerra agora.
Então o Imperador está doente. Com bagunça interna desse jeito, invadir outro país mesmo tá fora de cogitação.
Pelo menos pro nosso lado acho que não vem. Belfast tem aliança com o Reino Sacro de Refreese a oeste e o Reino de Mismede ao sul. Do jeito que o Império está agora, não parece ter força pra enfrentar três países de uma vez.
— Será que temem, após o falecimento do Imperador, serem invadidos por outros países…?
Belfast não tem intenção nenhuma disso, mas foi um inimigo de guerra de uns vinte anos atrás. Não é estranho que desconfiem.
Além disso, a leste do Império também tem a Federação de Lodmea e a Teocracia de Ramish, países que não são lá muito amigos do Império.

— Do jeito que as coisas estão agora, acho que nenhum país ganha nada arrumando briga com o Império. Bom, se Belfast, Refreese, Mismede, Lodmea e Ramish invadissem o Império todos juntos, aí talvez fosse fácil vencer.
— Mas acho que depois ia dar uma baita briga pra decidir como dividir o território do Império, né.
Respondo ao Logan-san rindo. Bom, se alguma faísca vier pro nosso lado, é só apagar na hora.
Me despeço dos dois e, quando passo pelo "Tsukuyomi", tinha chegado um pedido de reposição. Fiquei em guarda achando que era mais daquele tipo de livro, mas dessa vez eram uns bons romances de mistério e aventura. Só que o fato de os dois serem publicações do Império me deixa meio incomodado. Ainda mais depois de ouvir aquela conversa.
— Bom, não é como se fossem fazer alguma coisa comigo, então acho que vou lá rapidinho comprar. Yae, você vem?
— Parece que a Lindsey-dono está no segundo andar; este servo vai chamá-la pra voltarmos pra casa juntas. Já deve estar quase na hora do lanche.
Ultimamente, quando tem folga, a Lindsey vem ler aqui. Bom, parece que recentemente ela também anda lendo livros de história e tal.
Se deixar quieta, é capaz de ficar o dia inteiro grudada lá, então pedi pra Yae levá-la pra casa.
Bom, então vou até a capital imperial.
Na sombra da loja, abro um [Gate] e me teletransporto pra Capital Imperial Galaria.
— Q-que diabos é isso…?
O que salta aos olhos é um casario em chamas e fagulhas voando pra todo lado. Por um instante achei que fosse incêndio, mas parece que não é bem isso. O fogo está subindo por toda a capital imperial, e as pessoas correm apavoradas de um lado pro outro. O quê?! O que está acontecendo?!
Uso [Gravity] pra deixar meu próprio corpo mais leve e depois aplico [Boost] pra reforçar o corpo. Daí salto de uma vez e pouso em cima do telhado de um prédio.
— Ah, qual é…
Dali dava pra ver civis fugindo, e soldados de uniforme militar preto que ignoravam tudo isso e avançavam rumo ao castelo. E cavaleiros de armadura preta se pondo no caminho pra tentar detê-los. Em vários pontos já tinha começado troca de golpes. Pera aí, isso é…
Um grito ecoa perto. Corro pelos telhados até o local, e vejo dois soldados de uniforme preto encurralando um cavaleiro negro. O cavaleiro sangrava pelo ombro, e o braço esquerdo já parecia inútil.
Não entendo bem o que está rolando, mas de qualquer jeito vou parar aqueles dois. Não posso ficar parado vendo alguém ser morto.
Pouso atrás dos soldados e, quando os dois se viram assustados, disparo balas de paralisia neles.
— Guh!?
— Guff!?
Os soldados desabam sem resistência. Vendo aquilo, o cavaleiro ferido também desmorona, caindo de joelhos.
— Você está bem?!
Uso magia de cura pra tratar o ferimento dele. O corte fecha, mas a consciência dele parece meio nublada. Os olhos não focam em nada. Deve ter perdido sangue demais.
— O que diabos aconteceu aqui?!
— O Exército… se rebelou contra o Imperador…
Dizendo isso, o cavaleiro desmaiou de vez.
O Exército se rebelando contra o Imperador… Ah, qual é, isso é um golpe de Estado?!
De qualquer jeito, carrego o cavaleiro nas costas e levo pra uma casa perto dali. Não tinha ninguém dentro; devem ter fugido. Deito ele no chão e aplico mais um pouco de magia de cura. Acho que assim ele não morre.
Saio da casa e subo de novo pro telhado. Antes de mais nada, preciso avaliar a situação.
— Buscar. Ééé, mostrar soldados e cavaleiros em cores diferentes.
— …Busca concluída. Exibindo. Vermelho, 12.654 soldados; azul, 1.165 cavaleiros.
Quase dez vezes mais… Isso nem é discussão, é? No mapa que aparece à minha frente, o vermelho mostra os soldados e o azul mostra os cavaleiros. A tela está tingida de vermelho quase por inteiro.
Bom, e agora? Afinal, isso é assunto de outro país; não preciso me meter. Dava pra simplesmente voltar pra Belfast e só fazer o relatório, encerrando o assunto por aí…
— Mas não dá pra fazer assim, né…
Nesse tipo de situação, qual seria o objetivo de quem armou o golpe? Já que é uma rebelião contra o Imperador, deve ser a cabeça dele mesmo, né.
— Acho que vou até o castelo. Se o Imperador estiver lá, dá até pra levar ele pro exílio em Belfast.
Só que, se não me engano, o Imperador está doente, né? Bom, se for preciso, é só teletransportar ele com cama e tudo.
Corro quase voando pelos telhados. Conforme me aproximo do castelo, cavaleiros e soldados vão ficando mais visíveis, e há combates acontecendo por toda parte. Desvio de tudo isso e sigo correndo rumo ao castelo.
Eu não conheço os detalhes internos deste país. Pode muito bem ser que seja o esquema de soldados justos se levantando contra um Imperador mau. Sinceramente, não tenho como julgar se o melhor é parar esse golpe ou deixar como está.
De qualquer forma, se o Imperador sumir de cena, os combates talvez se acalmem, e depois ainda dá pra negociar com quem armou o golpe. Por enquanto, só me resta pensar assim.
— Opa. Aquele ali deve ser o portão do castelo.
O portão do castelo já tinha sido derrubado, e o Exército já tinha conseguido invadir. Melhor eu me apressar?
Enquanto penso nisso, uma parte do castelo explode. O quê?!
Do ponto da explosão saem várias bolas de fogo. Magia, é? As coisas estão ficando cada vez mais perigosas.
Salto por cima do portão do castelo e pulo até a sacada do segundo andar. Da sacada, entro sorrateiro pro interior do castelo.
— Bom, não faço ideia de qual é o quarto do Imperador, mas…
Nem adianta tentar buscar… Sem eu mesmo conseguir identificar que aquele é o quarto do Imperador, a busca não serve pra nada. Se fosse "trono", aí sim provavelmente pegaria.
Não adianta ficar remoendo. De qualquer jeito, vou sair desse quarto.
Digno de um castelo imperial, o quarto era luxuoso; assim que puxo a porta num canto dele pra abrir, uma pessoa rola pra dentro do cômodo.
— Uoah?!
Quem rolou pra dentro foi uma mulher-cavaleiro. Parece que ela estava encostada na porta. Estava largada, sem se mexer, mas os olhos dela tinham uma vontade firme, e ela me encarava com um olhar de "quem é você?".
Não parecia ferida em lugar nenhum, mas, escondida sob o cabelo loiro semilongo, havia algo tipo uma agulha cravada no pescoço. Quando puxo com cuidado e ergo diante dos olhos, dá pra ver que tinha alguma coisa passada nela. Será veneno? Droga, preciso curar ela.
— Vou te curar agora, mas eu não sou inimigo, então não vai sacar a espada em cima de mim, tá?
Deixo esse aviso por precaução e concentro a magia.
— [Recovery].
Uma luz suave envolve a cavaleira. Depois de um instante ela se levanta, abre e fecha as mãos pra testar os movimentos, mas de repente se põe de pé, saca as duas espadas da cintura e ergue uma delas contra mim. Peraí! Não era isso que a gente tinha combinado!
— [Gravity]!
— Guhuh!?
Segurei o braço dela na hora e ativei a magia de peso, mas, com a pressa, acabei errando a dosagem: a cavaleira desabou e ficou esparramada no chão, sem conseguir mexer nem um dedo. Alivio um pouco o peso e, agachado do jeito que estou, falo com ela.
— Eu falei que não sou inimigo, por que você vem pra cima de mim com a espada?
— Quem é você?! Se não é da Ordem de Cavaleiros, só pode ser do Exército! E se for do Exército, agora é meu inimigo! Por isso, eu corto!
Hã? Será que essa mulher não é meio dura de cabeça? Não tá adiantando conversar.
— Antes de mais nada, eu não sou do Exército. Nem estou de uniforme militar, olha só. Além do mais, se eu fosse do Exército, não teria motivo nenhum pra te salvar.
— Pensando bem…
— E, mais que isso, eu nem sou do Império. Sou Mochizuki Touya, aventureiro de Belfast; vim à capital imperial por acaso e dei de cara com essa confusão. E o motivo de eu ter entrado escondido no castelo é que eu uso magia de teletransporte, então pensei que talvez desse pra tirar Sua Majestade o Imperador e outras pessoas importantes do país daqui.
Ao ouvir a explicação, a expressão da cavaleira muda. Da desconfiança pra esperança.
— Magia de teletransporte… Isso é verdade mesmo? Se for verdade, eu imploro, me empresta sua força!
— Tudo bem, mas não vem mais pra cima de mim, viu?
— Entendido. Juro pelas minhas duas espadas.
Quando desfaço [Gravity], ela se levanta e vai se mexendo, dando uns pulinhos leves pra testar o corpo. Guarda as duas espadas e se vira pra mim.
— Touya-san, não é? Eu sou Caroline Liet. Pode me chamar de Carol. Sou cavaleira da Terceira Ordem de Cavaleiros do Império, de segunda classe.
Não faço muita ideia do que significa "segunda classe", mas de qualquer forma balanço a cabeça que sim. Nessa hora, reparo de repente no brasão desenhado no pomo da espada dela. Grifo e escudo, duas espadas e um ramo de louro… Opa? Isso eu já vi em algum lugar…?
Sem tempo pra confirmar isso, sigo correndo pelo castelo guiado pela Carol-san. Espalhados por todo lado, corpos de cavaleiros e soldados; o cheiro de sangue toma conta do ambiente inteiro.
Isso não tá nada bom, hein… Se já invadiram até aqui dentro, a chance de Sua Majestade o Imperador estar bem é baixa.
Seguindo a Carol-san, que ia na frente, eu já imaginava o pior cenário possível.