Capítulo 93 – A Pulseira Suga-Magia e a Pulseira de Barreira
Pela parede arrebentada, dava pra ver uma cabeça de bode, asas de morcego, um tronco superior de homem bem definido, e uma parte inferior parecida com a de uma coruja.
Que negócio é aquele… Será que também é um tipo de besta de invocação? Já que é "[Demon's Lord]", deve ser um demônio, né. De fato, a aparência lembra um demônio.
— Não pode ser… Pra firmar um contrato com um demônio desse porte, quanto de sacrifício seria necessário…? E de onde vem a energia mágica pra manter a existência dele…?
A princesa Lucia murmura isso, tremendo. É verdade. Diferente de um homem-lagarto, um lobo-prateado ou um esqueleto, é um ser daquele porte. Será que aquele general tem tanta energia mágica assim?
— Firmar contrato com demônio é simples. Sacrifício. Ofereci criminosos da capital imperial como sacrifício. O Imperador era contra, claro. Uma vez que se consegue contrato com um demônio de nível superior, dá pra chamar livremente qualquer demônio de nível inferior a ele. Depois é só oferecer sacrifício da mesma forma pra ele que o contrato se completa. Fazendo assim, dá pra invocar um exército de demônios do tamanho que eu quiser. E quanto à energia mágica…
O General Bazur arregaça a própria manga direita e mostra pra gente a pulseira presa no braço. Um brilho prateado fosco, com uma joia vermelha encaixada. Aquilo é… um Artefato!
— Esta "Pulseira Suga-Magia" tem o efeito de sugar energia mágica dos outros. Todo mundo que está aqui está tendo a própria energia sugada aos poucos, e virando alimento pra aquele [Demon's Lord].
Sugar energia mágica? Então foi por isso que meu corpo ficou pesado agorinha… Quer dizer, isso não tá bom, não? Se eu ficar aqui, posso acabar dando energia mágica ainda maior pra ele.
Do meu lado, a princesa Lucia e a Carol-san caem de joelhos no chão. Será que a consciência delas está enfraquecendo por causa da energia sugada?
A minha energia já se recuperou, mas, mesmo se eu quisesse usar [Transfer] pra passar energia pras duas, não tenho folga pra isso nessa situação.
Então só resta eliminar a fonte do problema.
— [Apport]!
Ativo a magia tentando puxar a "Pulseira Suga-Magia" até mim. Só que um som de algo sendo repelido ecoa ao redor do general, e a pulseira não vem; a tentativa fracassa.
— Hm? Você ainda tem energia mágica sobrando? Não sei o que você estava tentando fazer, mas magia não funciona em mim. Pra que você acha que eu fiz contrato com aquele demônio?
O general aponta pro demônio gigantesco flutuando no ar, batendo as asas de morcego lá fora da parede.
— A característica daquele demônio é a "anulação de magia". Ataques mágicos não funcionam nele, e efeitos especiais de magia também não o afetam. E eu, como contratante dele, também tenho a mesma característica.
Anulação de magia? Mais um cara com habilidade complicada! Sendo assim, só resta atacar fisicamente… Saco a Brunhild e recarrego, trocando de bala de paralisia pra bala de verdade. Se magia não funciona, isso deve ser o mais eficaz.
— Hm?
Aperto o gatilho mirando no general negro desconfiado. O tiro estala, e a bala que ia direto nele é repelida bem na frente dele, como se batesse numa parede invisível. O quê?!
— O que foi isso agora? Uma arma de longo alcance? Mas que pena, hein. Deve ter pensado que, se magia não funciona, então ataque direto resolveria, mas não é bem assim.
Dessa vez o general arregaça a manga esquerda, e lá também tinha uma pulseira presa. De novo com uma joia vermelha encaixada.
— Esta é a "Pulseira de Barreira". Conforme a quantidade de energia mágica investida, ela gera uma barreira poderosa que protege meu corpo de qualquer ataque físico. Com a "Pulseira Suga-Magia" eu absorvo energia mágica à vontade, uso essa energia na "Pulseira de Barreira" contra ataques físicos, e o [Demon's Lord] invocado anula ataques mágicos. Esta é a defesa invencível! Ninguém neste mundo consegue me causar um único arranhão!
Sério, isso pode?! Não que eu tenha moral pra falar, mas isso é cheat demais, não é?! E ainda por cima a fonte de energia mágica sou eu?!
Mesmo se eu atacar com peso absurdo usando [Gravity], já que minha própria energia mágica está sendo sugada pro lado dele, a barreira gerada com essa energia deve estar no mesmo nível… Ué? Isso é meio contraditório, não é? Não, espera, não é bem assim. O lado dele tem outras fontes de energia mágica além de mim.
Argh, complicado demais. Se eu conseguisse resolver essa pulseira…
— Não sei quem você é, mas não posso te deixar voltar vivo. Vai morrer como sacrifício pro [Demon's Lord].
— …Vai invocar um exército de demônios pra fazer guerra? Você tem noção de quantos cidadãos do Império vão virar sacrifício pra isso?
— De qualquer forma, se a guerra estourar, eles vão morrer mesmo. É só a diferença entre morrer pra mão inimiga ou virar sacrifício. E além disso, logo o sacrifício vai passar a ser os soldados inimigos capturados.
O general ri, torcendo o canto da boca. Esse aqui não passa de um louco que só quer guerra pelo prazer da coisa.
Até agora eu não sabia se esse golpe era coisa boa ou ruim, mas agora ficou claro. Isto é o mal.
Não existe justificativa pra usar vidas que não têm nada a ver com isso só pra satisfazer o próprio desejo.
— Ngh…
Nessa hora, o Imperador, caído aos pés do general, se mexe um pouco. Será que… ele está vivo?!
Não parece que o general e os outros perceberam. Aqui, o mais importante é recuar por ora e salvar a vida do Imperador. As duas atrás de mim, com a energia sendo sugada, também já devem estar no limite.
— Ativar [Gate]. Alvos: Imperador do Império, princesa Lucia, Carol-san, os três. Destino do teletransporte: o jardim de casa.
— Entendido. Ativando [Gate].
— O quê?!
Um portão de luz surge aos pés dos três, e eles desaparecem, sugados pelo chão.
— Você é um usuário de magia de teletransporte?!
— Certeiro. Mas por hoje eu vou recuar. De jeito nenhum vou deixar as coisas do seu jeito.
Recarrego a Brunhild de novo, trocando pra outro tipo de bala. Aponto o cano na direção do general.
— Idiota, eu já disse que enquanto eu tiver a "Pulseira de Barreira", ninguém consegue me machucar.
— Bom, talvez não dê pra ferir seu corpo mesmo. Mas o seu orgulho, acho que dá.
— …Como?
Sorrio de canto e abaixo o cano, mirando nos pés do general.
— [Slip].
— Uowa!?
Splaft! O general escorrega e cai espetacularmente. Tenta se levantar apoiando as mãos no chão, mas escorrega de novo e cai outra vez. Enquanto ele está caído, disparo no chão as balas de escorregão programadas com [Program] que recarreguei no tambor. A cada movimento, os pés escorregam, as mãos escorregam, e o general segue caindo sem parar. Este é o inferno do escorregão infinito.
— G-General!
Os companheiros correm pra ajudar o general. Idiotas. Essa magia não está agindo sobre o general; o efeito está no chão.
— Uwa!?
— Guê!?
Como era de se esperar, os que foram ajudar também são engolidos pelo inferno do escorregão e ficam caindo sem parar. Coitados, esses aqui não têm barreira de pulseira nenhuma, então o dano deve estar se acumulando.
— Ku ku ku, que caiam pra sempre! Continuem dançando essa dancinha ridícula!
Digo isso pra provocar o general. Bom, se a "Pulseira Suga-Magia" absorver a energia mágica do chão, ou se puxarem alguém de cima do chão com um cabo ou corda, o efeito para. Mas não tenho obrigação nenhuma de contar isso pra eles.
— [Demon's Lord]!
O demônio de cabeça de bode estende a mão gigante na minha direção. Opa, essa é feia. Nele, que está flutuando no ar, [Slip] não funciona.
Por outro lado, ataque físico talvez funcione nele, mas, mesmo que eu derrote esse, ele só vai chamar outro demônio no lugar. Acho que já deu pra hoje.
— Adeus, prezados! Um dia, o martelo de Babylon vai cair sobre vocês! Que lavem o pescoço e esperem! Fuahahahaha!
Droga, acho que vou pegar gosto por isso.
Voltar assim direto também dá uma raiva, então vou criar uma ilusão nojenta com [Mirage]. Deixo de lembrancinha uma cena de um bando de bichos — lagartas, baratas, centopeias — rastejando pelo chão.
— Hiii! Hieee!
— Os bichos! Os bichos, ahhhh!
— Seu desgraçadooo! Vai se lembrar disso!
Bom, não vou chegar ao ponto de dizer "bem-feito, que sensação boa dá vontade de rir lá do fundo do estômago!", mas com certeza descarreguei um bom peso do coração.
Abro um [Gate] no chão, mergulho nele e deixo a capital imperial pra trás.
Ao atravessar o [Gate] e pousar no jardim de casa, encontro a princesa Lucia agarrada ao Imperador caído no chão.
— Papai! Papai!
Droga, preciso tratar ele depressa. Agacho ao lado da princesa Lucia e ergo a mão sobre o Imperador.
— Luz, venha; cura da deusa: [Mega Heal].
A luz da magia de cura avançada envolve o corpo do Imperador. O corte na lateral do corpo, provavelmente de uma facada, vai se fechando. Só isso ainda não é suficiente.
— [Recovery].
Trato também as anomalias de estado, pra não deixar sequelas. Daqui pra frente, é com ele mesmo.
Teletransporto ele direto pra cama do quarto de hóspedes. Peço pro Lime-san chamar o Dr. Raul do palácio real, e levo a princesa Lucia e a Carol-san pro quarto pra onde ele foi movido.
Enquanto o Dr. Raul não chega, explico rapidamente pra todo mundo na sala o que aconteceu no Império.
— …Francamente… por que o Touya vive se metendo em confusão desse jeito, hein.
A Elsie solta um suspiro de quem não aguenta mais. Só que eu não fico me metendo em confusão porque eu quero, viu.
— …Mas mesmo assim, o Império chegar a esse ponto… O que será que aconteceu com o príncipe herdeiro…?
A Lindsey murmura isso, mas, quanto a isso, só resta torcer pra que ele esteja bem. Teria sido bom trazer ele junto no teletransporte, mas, mesmo tentando usar a busca, eu nem conhecia o rosto do príncipe herdeiro.
— Mas isto é um caso e tanto, viu. Se o Império realmente vier atacar Belfast…
— Uma invasão com um exército de demônios, é? Precisamos tomar alguma providência antes disso…
O mais simples, no fim das contas, seria derrotar aquele General Bazur logo de uma vez… Só que, se nem ataque mágico nem ataque físico funcionam nele, não tem muito o que fazer.
Provavelmente, mesmo se eu deixasse ele cair de dez mil metros de altura com [Gate], a "Pulseira de Barreira" ia zerar o dano. Atacar com uma arma fisicamente pesada usando [Gravity] também deve dar no mesmo.
Magia que não tem ele mesmo como alvo, tipo [Slip] ou [Mirage], até funciona… Mas, além disso, minha energia mágica é sugada. Só que os companheiros dele ficaram numa boa. Talvez tenha algum jeito de se proteger disso. Bom, e agora…
Falando nisso, como será que eu conto isso pro Rei? É uma questão de estado; preciso avisar direito sobre o golpe no Império e sobre a possibilidade de um exército de demônios atacar.
Mas será que devo contar sobre o Imperador e a princesa Lucia também? Apesar de ter tratado de não agressão, eles foram inimigos antigamente.
E se pedirem pra entregar eles, o que eu faço? Bom, nessa hora, acho que escondo eles lá na Babylon. Não que eu esteja do lado do Império, mas pelo menos não pretendo entregar um paciente gravemente ferido.
Enquanto penso nisso, o Lime-san traz o Dr. Raul. Bom, daqui pra frente deixo o Imperador com o profissional. Vamos pensar no que fazer com aquele general e o demônio.
Pode ser meio difícil, mas… …Hã? Ué? Será que dá pra resolver mais fácil do que eu esperava…? Precisa de um pouco de preparo, mas… será que dá certo?
Penso bem no plano que me veio à cabeça. Não é muito do meu feitio ficar torturando os outros, mas, bom, não tem jeito. Já consigo imaginar a cara chorosa do general. Ops, comecei a dar aquele sorriso torto.
Com essa cara, todo mundo se afastou de mim, meio incomodado. Ah, qual é.