Capítulo 95 – A Cúpula e as Doze Espadas do Império
Então o Imperador recobrou a consciência. Foi bem rápido, hein. Pergunto pra Carol-san, e parece que o estado físico dele já está bem estável; dá pra conversar sem problema.
Levo a Carol-san junto e entro no quarto que reservei pra Sua Majestade. Lá dentro, o Imperador conversava tranquilamente com a filha. Parece mesmo que está tudo bem.
— Touya-sama! Meu pai acordou!
— …Então você é o tal Mochizuki Touya-dono?
A Lu se vira toda feliz, e o Imperador do Império me observa com uma expressão serena. Com a barba longa e branca e o rosto magro, ele passa uma impressão meio de eremita sábio.
— Antes de mais nada, preciso lhe agradecer. Não há gratidão que baste por ter salvado a minha vida e a da Lucia…
Sua Majestade curva a cabeça. Isso me deixa meio sem graça.
— Não se preocupe. Eu só estava por acaso na capital imperial fazendo compras naquela hora.
Foi pura coincidência, no fim das contas. Um dia antes ou um dia depois, com certeza eu não teria feito nada.
— Fico aliviado de ouvir isso. Este tumulto é fruto da minha própria falta de virtude. É mesmo lamentável…
— E o que pretende fazer daqui pra frente? Ainda não avisei Belfast, então, se tiver algum lugar pra onde ir, posso levá-lo com [Gate].
Ao dizer isso, o Imperador arregala os olhos, surpreso, e fica me examinando de cima a baixo. O quê?
— Não… o Touya-dono não é súdito de Belfast?
— No sentido de morar lá, sou morador de Belfast, sim. Mas não sirvo ao país propriamente. Sou próximo do Rei, mas questões entre países são outra história.
Se tiver algum destino, acho melhor buscar exílio lá mesmo. Tipo o país pra onde a primeira princesa se casou, ou o país aliado onde a segunda princesa está estudando.
O Imperador fica um tempo mergulhado em pensamentos, mas então:
— Não, gostaria que me apresentasse ao Rei de Belfast. Se possível, gostaria de conversar em sigilo. Seria possível?
— Acho que deve dar, sim… Tem certeza?
— É a hora certa. Quero conversar sobre o que aconteceu até agora e sobre o que vem pela frente.
Hmm, a noite ainda está no começo, então acho que o Rei deve ter tempo agora. Por enquanto, vou pedir pra Yumina vir junto. Saio do quarto do Imperador e vou até onde está a Yumina.
— …Perdão, pode repetir isso mais uma vez?
— Ah… Na verdade, estou abrigando em casa Sua Majestade o Imperador de Regulus e a terceira princesa imperial. Desculpa aí.
O Rei parece ter levado um choque com o que eu disse, e põe as mãos na cabeça. Meio engraçado, isso.
— O Imperador de Regulus está na minha capital?! Francamente, hoje é um dia de sustos atrás de sustos… O que está acontecendo, afinal?!
Bom, mesmo que você me pergunte isso… Tirando a gravidez da Rainha, que não tem nada a ver, o resto é bem capaz de ser culpa minha… Não, é culpa minha mesmo.
— E aí, Sua Majestade o Imperador quer um encontro sigiloso com o senhor, o que faz?
— O Imperador?
O Rei solta um suspiro, se recosta fundo na cadeira e entrelaça os dedos sobre a barriga. Fica pensando um tempo, mas então se levanta, decidido.
— Não dá pra fugir dessa agora. Vou aceitar essa conversa.
— Então vou teletransportar direto pra casa.
Abro um [Gate] e teletransporto o Rei e a Yumina direto pro quarto onde está o Imperador.
O Imperador, deitado na cama, se assusta com o [Gate], mas se levanta e volta o olhar pro Rei de Belfast, que surge à sua frente. Os dois ficam um tempo em silêncio, sem desviar o olhar um do outro, mas logo o Imperador baixa os olhos e curva levemente a cabeça.
— Peço desculpas por recebê-lo neste estado, Rei de Belfast. Parece que este incidente também trouxe transtorno ao vosso país.
— Não, não se culpe tanto, Imperador de Regulus. Já ouvi a situação da boca do Touya-dono.
Dizendo isso, o Rei se senta na cadeira ao lado da cama. Já que é uma cúpula entre chefes de Estado, é melhor um estranho sair da sala. Deixo o Rei de Belfast, o Imperador de Regulus e as respectivas filhas, Yumina e Lu, dentro do quarto, e saio.
No corredor, a Carol-san estava de pé, como se estivesse escoltando o quarto. Ela se surpreende ao me ver sair do quarto sem eu ter entrado, mas logo parece perceber que usei [Gate].
— O Rei de Belfast e o Imperador de Regulus estão em reunião lá dentro, então não pode atrapalhar, tá?
— O quê?! Desde quando isso aconteceu?!
A Carol-san se surpreende de novo. Essa mulher exagera na reação toda vez, hein.
De repente, meu olhar para na espada da Carol-san. Aquele brasão gravado no pomo… Ah!
— Com licença, Carol-san. Sobre esse brasão na sua espada…
— É o brasão da minha família, os Liet. O que tem ele?
Peço pra ver de perto. É mesmo igual. Ao do pingente que a Rene tem.
— Já vi um pingente com esse mesmo brasão gravado.
— !! Era um com uma pedra mágica de vento encaixada?! Onde?! Quem tem?!
A Carol-san avança pra cima de mim, com os olhos mudando de cor de tão séria. Deve ter algum motivo grande por trás disso. Já que ainda não sei os detalhes, vou manter a Rene em segredo por ora.
— Dizem que a dona faleceu. Por doença, ao que parece.
— Ah… entendi…
Com o que eu disse, a força de antes desaparece, e a Carol-san abaixa a cabeça sem ânimo. Devia ser alguém muito importante pra ela.
— A dona daquele pingente é minha irmã. A única irmã que eu tinha; ela fugiu de casa quando eu era pequena, se revoltando contra nosso pai, que era rígido.
Então era a irmã dela. Não é à toa que ficou desesperada assim. Quer dizer que a Rene é sobrinha da Carol-san? Não acho que elas se pareçam muito. A Carol-san tem cabelo loiro, mas o da Rene é louro-claro. Deve ser herança do lado do pai.
— A família Liet é uma nobreza famosa no Império?
— Não sei se famosa, mas, bom, ocupamos o último posto entre As Doze Espadas do Império.
— As Doze Espadas do Império?
— Talvez não seja muito conhecido em Belfast, mas são os doze fiéis vassalos que apoiaram o primeiro Imperador na fundação do Império. Um deles, "Kiel Liet, o das Duas Espadas", é meu ancestral. Bom, hoje em dia, quase todas As Doze Espadas do Império já são nobreza só de nome…
Dizendo isso, a Carol-san sorri, meio triste. Nobreza decadente… mesmo que não chegue a esse ponto, ela provavelmente já não ocupa nenhum posto importante no Império. O Lime-san também disse que não reconhecia o brasão da família.
— Então é isso… minha irmã faleceu… Meu pai, até pouco antes de morrer, se arrependia da briga que teve com ela… Será que os dois já se reconciliaram do outro lado…?
— Ah… éé… quanto à sua irmã, na verdade… ela tem uma filha. E essa menina está morando na minha casa agora…
— ………Ué?
A Carol-san arregala os olhos e fica sem palavras. Deve estar chocada por ouvir de repente que a lembrança viva da irmã falecida está aqui.
Nesse instante, num timing que não sei se é bom ou ruim, a Rene vem correndo pelo corredor.
— Moço Tou… quer dizer, patrão, a comida já está pronta.
— Ah, obrigado, Rene. Como daqui a pouco.
Ela faz uma reverência rápida pra mim e pra Carol-san, que é uma visita, e volta correndo pelo corredor. Os olhos da Carol-san seguem a Rene. Quando a Rene já não é mais visível, ela vira pra mim com um olhar de "será que…".
— É ela mesma. O nome dela é Rene. Antes de vir pra cá, era batedora de carteiras no bairro pobre.
— Não pode ser…!
— Ela não tinha como sobreviver se não fizesse isso. O pai dela era aventureiro e não voltou de um pedido de extermínio de besta mágica. Ela sempre guardou com muito carinho o pingente, lembrança da mãe.
A Carol-san, que estava olhando pro fim do corredor, volta o olhar pra mim.
— …Gostaria de conversar com ela em algum momento. Seria possível?
— Quer que eu chame ela agora?
— Não, com o Império deste jeito agora, por favor mantenha isso em segredo por um tempo. Pelo visto, ela também parece estar vivendo feliz aqui. Só que, algum dia, gostaria de apresentá-la à minha mãe. Aquela menina… a cor do cabelo e dos olhos é diferente, mas ela tem um ar da minha irmã.
A mãe da Carol-san seria a avó da Rene, então. Espero que um dia dê pra apresentar elas direito…
Enquanto penso nisso, a porta atrás se abre e a Yumina espia o rosto pra fora.
— Touya-san, meu pai e Sua Majestade o Imperador estão chamando você.
— A mim?
Que estranho. Eu saí achando que ia atrapalhar a conversa entre os dois países.
Entro e vejo o Imperador na cama, e o Rei sentado na cadeira ao lado. Os dois têm expressões tranquilas. Será que a conversa já terminou?
— Touya-dono, sobre o que você disse hoje mais cedo…
— Hoje mais cedo?
Será que eu disse alguma coisa? Inclino a cabeça diante da fala do Rei de Belfast.
— Disseram que você falou que ia dar um jeito no General Bazur… Você consegue mesmo dar um jeito nisso?
O Imperador continua a fala, como se emendasse a do Rei. Ah, é sobre aquilo.
— Dar um jeito, digamos assim… Acho que consigo derrotar o general. E também dá pra neutralizar os outros soldados. Se me permite dizer, consigo até tomar a capital imperial já amanhã, se for o caso.
— O quê…?!
Os três, exceto a Yumina, ficam paralisados de espanto. A Yumina estufava o peitinho, como quem já esperava por isso. …Ainda em fase de crescimento, viu.
— Só que eu queria perguntar uma coisa: supondo que eu debele isso, o que pretende fazer com os soldados que participaram dessa rebelião? Pena de morte pra todos?
— Não. Pro general e os principais líderes, isso pode até ser inevitável, mas os que só obedeceram ordens, pretendo apenas dispensar do serviço militar e expulsar da capital imperial.
Então o resto todo é demitido. Bom, parece razoável. Dizem que os que estão na capital são cerca de 15% do Exército total; é um golpe duro, mas ainda dentro do que dá pra reconstruir.
— Exibir mapa. Capital imperial do Império de Regulus.
— Entendido. Exibindo mapa.
Vzum! Um mapa da capital imperial surge no centro do quarto.
— Q-que negócio é esse?!
— É um mapa da capital imperial… E tão detalhado assim…
— É a minha magia sem atributo. Prático, né?
Respondo pro Imperador e pra Lu, surpresos, com um tom de "não é grande coisa, viu". O Rei também estava surpreso. Pensando bem, acho que nunca mostrei isso pra ele.
— Buscar. Mostrar membros da Ordem de Cavaleiros em azul e soldados em vermelho.
— Entendido. …Busca concluída. Exibindo.
Puf! Pontos vermelhos se espalham pela capital imperial. Parece que aumentou desde o que vi hoje mais cedo. Será que chamaram reforços de outras cidades? E, num canto do castelo, pontos azuis estavam concentrados.
— Aqui é onde?
— …Deve ser a masmorra. Provavelmente os membros da Ordem de Cavaleiros foram presos. Mas não são todos. São poucos. Os outros devem ter fugido ou sido mortos…
O Imperador cerra o punho, frustrado. Vendo isso, a Lu fala comigo timidamente.
— Ééé, Touya-sama. Seria possível procurar o meu irmão?
— Hmm… não é impossível, mas… o príncipe herdeiro tem alguma característica? Alguma coisa que dê pra reconhecer só de olhar?
Essa busca é baseada em [Search], então o que é encontrado depende de como eu julgo o que vejo. Se dá pra identificar "soldado" pelo uniforme militar, consigo buscar por "soldado".
Por isso, não dá pra buscar alguém que eu nunca vi. Se tivesse algo tipo "cicatriz de espada na bochecha", que nem o irmão da Yae, daria pra reconhecer de cara.
— Característica… é? Ééé, o cabelo é prateado, e… ah? Característica… característica…
A Lu fica pensativa. O Imperador dá um sorriso amarelo vendo isso. Deve ter um rosto bem comum mesmo. Não tem jeito. Vou pegar a memória dela.
— Lu. Estica a mão aí um instante.
— ? Sim…? Ah…
Seguro a mãozinha estendida. O rosto da Lu fica vermelho na hora, mas eu falo com ela mantendo a calma o máximo possível.
— Fecha os olhos e pensa no seu irmão. O mais recente que der.
— S-sim.
Encosto minha testa na testa da Lu, que está de olhos fechados, concentrada. Sinceramente, pra pegar a memória do príncipe herdeiro, o Imperador também serviria, mas, se puder evitar, prefiro não encostar testa em testa com outro homem. Se a princesa-autora de Refreese ficar sabendo, quem sabe o que ela escreve depois.
— Fuwaaa?!
— Se concentra.
— S-sim!
Repreendo de leve a Lu, que se atrapalha toda, e concentro minha própria energia mágica pra ativar a magia.
— [Recall].
Um rosto embaçado surge na minha cabeça e vai, aos poucos, ganhando forma. Cabelo prateado, sem muita característica marcante, mas um rosto de jovem de aparência gentil… Ué?
— Se esse aqui é o príncipe herdeiro… eu já conheci ele…?
— O quê?!
Deixando os quatro surpresos de lado, vasculho a memória. Isso mesmo, sem dúvida. É aquele cavaleiro jovem, encurralado pelos soldados, quando a capital imperial estava sendo atacada. Hã? Aquele era o príncipe herdeiro?! Será que ele estava disfarçado pra fugir?!
…Ops. Eu deixei ele pra trás.