Capítulo 96 – Onda de Contratos e a Declaração de Guerra
— Buscar. Príncipe herdeiro do Império.
— Entendido. …Busca concluída. Exibindo.
Splat! Um alfinete verde cai num canto da capital imperial. Parece estar se mexendo aos pouquinhos, então, ao que tudo indica, está vivo. Que bom…
— Parece que está vivo, sim… Mas onde é esse lugar?
— É a mansão do General Romero, comandante do Exército Ocidental do Império… Entendo, então o príncipe herdeiro está a salvo.
Tá bem mesmo, estando na casa de um militar? Como se tivesse lido meu pensamento, o Imperador responde sorrindo.
— Nem todos os soldados da capital imperial seguem o Bazur. O General Romero era contra o plano de invadir outros países com invocação de demônios. Provavelmente o príncipe herdeiro percebeu isso e se refugiou lá.
Entendi. Então nem todos os soldados na capital seguem o Bazur cegamente. Parece que ele está bem escondido, mas não deve sobrar muito tempo.
— Então vou entrar na capital imperial logo de manhã amanhã.
— Espera, espera! Agora que a coisa é séria, você tem certeza mesmo?! O inimigo é um exército de mais de dez mil soldados, mais um exército de demônios invocados! Sozinho…!
Sua Majestade tenta me deter, apavorado. Bom, normalmente isso nem seria páreo mesmo. Mas eu não sinto nem um pingo de chance de perder. Foi assim em Ishen também; será que já estou ficando acostumado com esse tipo de coisa?
— Vai dar certo. Eu tenho meus companheiros comigo.
Viro o olhar pra Yumina, e ela balança a cabeça com firmeza.
— ………Amanhã de manhã, será que você poderia me levar junto pra capital imperial?
— Não é perigoso? Melhor esperar aqui…
— Não. Quero testemunhar o desfecho disto com meus próprios olhos. É o mínimo que devo fazer como Imperador.
Hmm, o que eu faço, hein… Não dá pra deixar Sua Majestade sozinho lá atrás, mas também não dá pra levar ele junto pra linha de frente…
— Vou destacar a Ordem de Cavaleiros de Belfast pra escoltar o Imperador. Eu mesmo também quero ver o Touya-dono em ação.
Já que o Rei sugeriu isso, aceito por enquanto. Assim, acho que dá pra resolver.
Fica decidido que, amanhã de manhã, vamos entrar na capital imperial junto com alguns membros da Ordem de Cavaleiros.
Levo o Rei de volta ao palácio real com [Gate] e saio do quarto do Imperador.
Saio pro terraço, chamo o Kohaku, o Kokuyō e o Sango, e pergunto sobre magia de invocação.
— Então, basicamente, o alvo chamado pela magia de invocação é aleatório, mas, se você tem contrato com uma espécie superior, dá pra chamar livremente os subordinados e espécies inferiores dela, é isso?
— Sim. Já que o senhor tem contrato comigo, consegue invocar quase todas as espécies de bestas mágicas.
— E, como tem contrato com a gente também, dá pra chamar as espécies de casco e escama também, viu.
Juntando o que o Kohaku e o Kokuyō disseram, parece que dá pra chamar livremente bestas mágicas do tipo mamífero quadrúpede ou réptil com escamas.
— Ainda assim, é preciso firmar contrato espécie por espécie, viu. Se der um nome pro líder de cada espécie, ela vira braço e perna do senhor, e servirá lealmente. Demônio não é páreo pra nós.
O Sango diz isso rindo. Bom, não pretendo explorar ninguém, viu.
— Bom, vamos ver, então. Ééé… o que tem disponível?
— Vejamos, o Cérbero, por exemplo, tem bastante poder de combate.
Ah, esse eu conheço. O guardião do inferno. Um cão gigante preto de três cabeças, não é? Então, vamos começar por ele.
Naquele dia, até tarde da noite, fico invocando bestas mágicas e dando nome, invocando e dando nome, e, no fim, os nomes acabaram ficando meio aleatórios — perdoem-me por isso. Não tenho tanto estoque de nome assim…
Bom, hora de dormir, pra me preparar pra amanhã.
Na manhã seguinte, estávamos no telhado de um prédio alto, num canto da capital imperial.
Tiro o smartphone do bolso pra checar a hora: pouco depois das oito. Cheguei a pensar em pular direto pro castelo imperial, mas havia uma barreira erguida. Claro, depois de descobrir que eu uso magia de teletransporte, era de se esperar que tomassem alguma medida.
Do nosso lado, além de mim, estavam a Elsie, a Lindsey, a Yae, a Yumina, o Kohaku, o Sango e o Kokuyō. E também Sua Majestade o Imperador de Regulus, o Rei de Belfast, o General Leon, o vice-comandante Neil, o Lion-san, e dez membros de cada, do Exército e da Ordem de Cavaleiros de Belfast. E, apesar de eu não querer trazer, a Lu e a escolta dela, a Carol-san.
Por enquanto, faço todo mundo que não é da nossa turma da guilda esperar aqui. Deixei um [Gate] aberto e fixo neste lugar, pra caso precise fugir pra Belfast. Também deixei programado com [Program] pra fechar um minuto depois de alguém passar por aqui, então não tem perigo de sermos invadidos por lá. Bom, também não vou deixar isso acontecer de jeito nenhum.
— Bom, primeiro vamos com a declaração de guerra. Ééé, reproduzir vídeo número 1 no céu, sobre o centro da capital imperial.
— Entendido. Reproduzindo.
Vum! Uma tela enorme se espalha pelo céu da capital imperial. Uns duzentos metros de tamanho devem bastar. Assim dá pra ver até de longe. De perto, talvez não dê muito pra entender, mas tudo bem.
Em seguida, uma música começa a tocar em altíssimo volume. Isso deve fazer todos os moradores da capital prestarem atenção. O que está tocando é "A Cavalgada das Valquírias", de Wagner. Aos poucos o volume vai baixando, e Sua Majestade aparece na tela. É uma gravação feita de madrugada.
— Aos moradores da capital imperial. Eu sou Zephyrus Roa Regulus, Imperador do Império de Regulus. Este tumulto teve origem em uma parte do Exército que se descontrolou. Peço profundas desculpas pelo transtorno causado a todos. Mas ele será debelado em breve. Fiquem tranquilos. A partir de agora, vamos iniciar a retomada da capital imperial. Peço encarecidamente que ninguém saia de casa em hipótese alguma.
— Será que minha voz é assim mesmo?
O Imperador de verdade pergunta isso pra filha ao lado, inclinando a cabeça. É mesmo, ouvir a própria voz gravada pela primeira vez dá aquela sensação estranha.
— E, aos soldados que se rebelaram: talvez eu também tenha falhado em algo, mas não posso deixar isto passar impune. Contudo, aceitarei a rendição. Se, no tempo em que eu contar até dez a partir de agora, vocês tirarem o uniforme militar e se submeterem a mim, não haverá punição; mas, quando eu terminar de contar até dez, quem ainda estiver de uniforme militar não terá clemência alguma. Pensem bem e ajam. Um… dois…
Ao nosso lado, um monitor secundário exibe o mapa da capital imperial, cheio de pontos vermelhos representando os militares, mas eles vão sumindo aos poucos. Devem estar tirando o uniforme, obedecendo à voz do Imperador.
— Vou atacar quem ainda estiver alistado depois de contar até dez, tudo bem?
— Não há outra saída. Só peço que evite tirar vidas o máximo possível.
— Entendidooo.
O Imperador na tela vai contando devagar. Os pontos vermelhos também vão sumindo aos poucos, mas mesmo assim dois terços continuam vermelhos.
— Nove… dez. A concessão termina aqui. A partir de agora, vamos retomar a capital imperial pela força.
Assim que o Imperador sai de cena e desaparece da tela, uma fanfarra de trompetes ecoa de novo em altíssimo volume. Dessa vez, é a "Cavalaria Ligeira", de Suppé. Certo, vamos começar.
— Travar alvo em quem ainda estiver alistado. Ativar [Paralyze].
— Entendido. …Alvos capturados. Ativando [Paralyze].
Gritinhos e sons de quedas ecoam por toda a capital imperial. Olho pra tela, e os pontos vermelhos não diminuíram nem um pouco. Ué? Ah, preciso exibir separado quem está incapacitado de lutar. Paralisado ou não, soldado é soldado, né.
— Mostrar em amarelo quem está alistado e incapacitado de lutar.
— Entendido.
Pá-pá-pá-pá! Cerca de metade vira amarelo. Hm, sobrou bastante gente. Devem ter amuleto, ou então alta resistência mágica.
— Touya-dono! Olhe aquilo!
Olho na direção que a Yae aponta, pro castelo imperial, e lá estava o tal demônio gigante, o [Demon's Lord]. Junto com ele, vários subordinados demoníacos surgem no céu e no chão. Bastante gente, hein. Checando na tela, parece que são uns cinquenta.
— Bom, então vamos invocar os nossos também.
Concentro energia mágica e desenho um círculo mágico no chão.
— Trevas, venha; o que busco é o guardião do inferno: [Cerberus].
Uma névoa negra surge do círculo mágico desenhado no chão, e aparece o cão mágico de três cabeças. É um pouco maior que um leão. Em seguida, invoco, um atrás do outro, os bichos com quem firmei contrato ontem.
Esquadrão de homens-lagarto, esquadrão de grifos, esquadrão de tartarugas blindadas, leão de fogo, urso de força, cavaleiro-lagarto…
— Travar alvo nos demônios. Ativar [Shining Javelin].
— Entendido. Ativando [Shining Javelin].
Um círculo mágico brilhante surge no céu, e lanças de luz despencam. Mas nenhum demônio cai.
— Foi repelido por uma barreira invisível. Sem efeito.
Como eu esperava. A proteção daquele [Demon's Lord] deve estar se estendendo aos subordinados. Então, é na força mesmo.
— Bestas invocadas, sigam o Kohaku, o Sango e o Kokuyō e cuidem principalmente dos demônios. Elsie e Yae, cuidem dos soldados que sobraram no chão. Yumina, Lindsey e o Cérbero, esperem aqui dando cobertura com magia e tiro. Eu vou atacar o [Demon's Lord] e o general.
Pum! Uma fumaça sobe, e o Kohaku e os outros voltam à forma original. Modo besta divina, depois de um tempo.
— Bom, então já volto.
— ………Conto com você.
Viro pra trás, digo isso pro Imperador, e saímos correndo pelos telhados da capital imperial rumo ao acampamento inimigo.
A Elsie, a Yae, o Sango e o Kokuyō descem, levando as tropas terrestres, pro centro da cidade. Eu, o Kohaku e o esquadrão de grifos enfrentamos os demônios que vinham voando na nossa direção.
— Escuta bem, não precisa forçar pra derrotar. Mirem nas asas dos demônios. Se derrubar eles, a tropa terrestre dá um jeito.
Dou essa ordem pros grifos voando ao redor. Os demônios sem asa vão em direção à tropa terrestre, mas os voadores vêm na nossa direção. Antes de mais nada, preciso derrubar esses aqui.
— Ééé, você é o John… não, o Paul… também não, deve ser o George. Vocês vão pro lado esquerdo, e, ééé, Ringo? Intercepta os demônios do lado direito.
Quaaa! Gritam alguns dos grifos, se dividindo pra esquerda e direita. Sinceramente, o rosto de grifo parece tudo igual pra mim… Um dia desses vou pedir pra fazer uns colares de cor diferente pra cada um…
Correndo de telhado em telhado, tiro do [Storage] uma espadona de 40 centímetros de largura e mais de dois metros de lâmina. Segurando com uma mão só aquela lâmina de mithril, ainda mais leve graças a [Gravity], avanço na direção de um demônio que se aproxima.
Uso [Boost] e salto de uma vez do telhado até acima da cabeça do demônio. No exato momento em que desço a espada, aperto o gatilho perto do punho: [Gravity] se ativa, e o peso da espada dobra com a magia de super peso.
Com tanto peso e fio afiado, o demônio é cortado ao meio de um só golpe. O embalo me faz dar uma cambalhota no ar, mas aperto o gatilho de novo, volto o peso ao normal e pouso no telhado.
Nada mal, pra uma coisa feita às pressas. O demônio que ataca pela direita também derrubo com um golpe horizontal, do mesmo jeito. Hmm, se errar o timing no golpe horizontal, sobrecarrega o braço. Mas parece que dá pra pegar o jeito com a prática. Aliás, mesmo sem usar [Gravity], já corta bem, então tá tranquilo.
Bem ao lado, o Kohaku ataca um demônio no ar, rasgando as asas dele com as garras.
— Kohaku! Deixo isso com você!
— Às ordens. Boa sorte.
Ativo [Boost] e [Accel] e sigo direto rumo ao castelo imperial. Se eu resolver o general, os demônios devem sumir. Com o mesmo impulso de quem quase furava os telhados de tanta força, salto por cima da muralha do castelo.