Capítulo 14 – A Jovem Senhorita e o Pedido de Escolta
Ajudamos também a enterrar, numa floresta próxima, os corpos dos sete soldados mortos. Não dava pra deixá-los ali nem pra levá-los junto.
Dos três soldados sobreviventes, o mais jovem cavava as covas em silêncio, sem parar. Entre os mortos parecia estar o irmão dele; ao terminarmos as covas, ele nos fez uma reverência profunda.
Ao lado dele, o velho de cabelos brancos também baixa a cabeça.
— Os senhores nos salvaram de verdade. Não sei como agradecer…
— Que isso, não se preocupe. Mais importante: mesmo curada a ferida, o sangue que se perdeu não volta, então não force demais.
Ao velho que insistia em agradecer, eu me apresso em dizer. Como já tinha acontecido com Deus, eu tenho um fraco por idosos.
— Sou-te grato, Touya, ou lá como te chamas! Tu salvaste a vida do vovô — não, não só dele, da minha também!
Em palavras pomposas, a menina loura solta o agradecimento. Com um sorriso amarelo, penso que esta menina deve ser, com certeza, filha de algum nobre.
Carruagem muito mais luxuosa que a do Zanack-san, um monte de soldados de escolta, um velho com cara de mordomo e uma garota de ares arrogantes — juntando tudo, quase não tem erro.
— Perdoem a apresentação tardia. Eu sirvo como intendente da casa ducal Ortlinde; chamo-me Leim. E esta aqui é a filha do duque, a senhorita Sushie Ernea Ortlinde.
— Sou Sushie Ernea Ortlinde! Prazer!

Duque? Então é mesmo filha de nobre. Com razão.
Enquanto eu assentia, conformado, ao meu lado as gêmeas e a samurai estavam petrificadas.
— …O que foi?
— Como o que foi… por que você está tão tranquilo?! É casa ducal, ducal!
— …Duque é o título de nobreza mais alto… diferente dos outros, em via de regra só é concedido à família real…
Família real… Hã?
— Por certo. Meu pai, o duque Alfred Ernes Ortlinde, é irmão de Sua Majestade o Rei.
— Quer dizer que você é sobrinha do rei. Que coisa.
— …O Touya não se assusta muito, hein. És figura e tanto.
Hã? Quando olho pra trás, as gêmeas e a samurai estavam de joelhos, cabeça baixa. Ué, prostradas? Precisa tudo isso?
— É… senhorita Sue…? Eu também devo fazer aquilo… será?
— Pode me chamar de Sue. Não é ocasião oficial, não precisa. Nem formalidade. Como eu disse, vocês salvaram a minha vida. Na verdade, quem devia baixar a cabeça era eu. Vocês também, levantem.
Ao dizer isso a Sue, os três ergueram a cabeça e se levantaram. A tensão pareceu afrouxar um pouco, mas ainda dava pra ver rigidez nos rostos.
— Mas por que uma filha de duque está num lugar desses?
— Volto da casa da vovó… a mãe da minha mãe. Tinha uma coisa a pesquisar. Fiquei cerca de um mês e estava a caminho de volta à Capital.
— E foi atacada nesse trecho… Não foram simples bandidos, né.
Bandidos atacarem usando até magia de invocação é difícil de imaginar. E os Lizardmen eram muitos, mas, na prática, era um homem de túnica preta só. Faz mais sentido pensar num ataque mirado na filha do duque. O objetivo seria assassinato, ou sequestro, algo assim.
— Como o agressor morreu, quem era e se agia por ordem de alguém, agora tudo isto é treva.
— Perdão por isto……
A Yae abaixa a cabeça, abatida. Aah, quem decepou a cabeça dele foi a Yae. De fato, se tivéssemos capturado e feito ele falar, talvez desse pra saber mais sobre a conspiração por trás.
— Não te aflijas. A ti eu agradeço. Por tê-lo derrotado tão bem.
— Palavras gentis… Sou-vos grato.
A Yae baixa a cabeça de novo, bem fundo.
— E então? O que a Sue vai fazer agora?
— Quanto a isto…
O Leim, que aguardava ao lado, abriu a boca com ar de pesar.
— Mais da metade dos soldados de escolta tombou; assim, num novo ataque do mesmo tipo, não poderemos proteger a senhorita. Por isso, queremos contratar os senhores para a escolta. A recompensa pagaremos assim que chegarmos à Capital; será que poderíamos lhes pedir isto?
— Escolta, é…
Bom, o destino é o mesmo, e deixar tudo como está também me incomoda. Por mim tudo bem, mas e o pessoal?
— Por que não? A gente vai pra Capital de qualquer jeito.
— …Por mim também.
— Este servo está de carona, então deixo a decisão ao senhor Touya.
Pelo visto não há objeções.
— Entendido. Aceitamos. Até a Capital, contem conosco.
— Ótimo! Conto com vocês!
Dizendo isso, a Sue abriu um sorriso radiante.
As duas carruagens seguem em fila. À frente a da casa ducal, atrás a nossa. E, à frente da carruagem ducal, três soldados a cavalo, sozinhos, abrem caminho.
Eu entrei na carruagem ducal pra escoltar a Sue diretamente. Como uso magia e espada, concluíram que assim era melhor.
Sentado no estofado fino a que não estou acostumado, à minha frente a Sue, e ao lado dela o Leim.
— …E assim, o cavaleiro Momotarō derrotou brilhantemente o ogro malvado, conseguiu muitos tesouros e voltou pra vila.
— Ooh! Que bom!
A Sue batia palmas, contente. Será que servia uma coisa dessas. Como pediram que eu contasse alguma história, fiz passar por lenda de herói da minha terra e contei o Momotarō. Fiquei inseguro se ia agradar, mas pelo visto ela gostou.
— Não me contas outra história?
— Deixa eu ver… Esta também é de era uma vez… Numa cidade ao pé do castelo de certo reino, havia uma moça chamada Cinderela…
Num mundo onde magia é comum, eu não esperava acabar contando uma história com uma fada-madrinha. Mas ela parece feliz, então tudo bem.
Depois disso contei todos os contos de fadas que eu sabia e acabei tendo que contar, com cenários trocados, até mangás famosos e animes de bilheteria de lá.
Quando ela soltou um "Vou procurar o castelo no céu!", confesso que me apavorei, mas o Leim a acalmou.
Pelo visto, esta senhorita gosta de histórias de aventura. Que figura.
Levando a gente, a carruagem segue rumo à Capital Real, sempre ao norte.