Capítulo 15 – A Capital Real e a Mansão do Duque
— Ooh! Já dá pra ver! É a Capital Real!
Debruçada na janela, a Sue grita. Quando eu também olho ao longe pela janela, vejo, erguendo-se com uma grande cachoeira ao fundo, um castelo branco e altas muralhas.
Capital Real Alephis. Às margens do lago Palet, alimentado pela cachoeira, fica a capital deste país. Também chamada de "a cidade do lago".
Situado a oeste do continente de Europa, este Reino de Belfast é relativamente pacífico, graças a um clima agradável e a um rei que governa bem.
A principal indústria é a têxtil; a seda produzida na região de Kilua, no Reino de Belfast, é tida como artigo do mais alto luxo neste mundo. Leve e macia, resistente e bela. Usada pela nobreza e até por casas reais de outros países, é a indústria de orgulho deste país e, pelo visto, uma fonte importante de renda.
À medida que a gente se aproxima da capital, me espanto de novo com a extensão da muralha. Até onde vai esse muro? Uma defesa de aço que não deixa o inimigo entrar, digamos. Não é de aço, mas.
No portão da cidade, alguns soldados faziam a inspeção pra entrar na capital. Mas nós passamos ao lado, sem checagem nenhuma, bastando que vissem o rosto da Sue e do Leim. Passe livre. Deve ser também o poder do brasão da casa ducal pintado na carruagem.
A carruagem seguiu direto rumo ao castelo e cruzou uma longa ponte de pedra sobre um grande rio. No meio da ponte havia outro posto de inspeção, mas, como de praxe, passamos direto.
— Depois desta ponte ficam as residências dos nobres.
À explicação do Leim, faço que sim. Então é dividido: área plebeia, área nobre.
Atravessando a rua ladeada de mansões bonitas e imponentes, a carruagem enfim parou diante de uma grande residência. O muro do terreno é, de novo, comprido. Quando finalmente chegamos ao portão, cinco ou seis porteiros abrem devagar, pros lados, os portões de aparência pesada. Só agora reparo que o brasão pintado no portão é o mesmo da carruagem. Então é aqui a mansão do duque.
Enorme. Do jardim à casa, tudo enorme. Que tamanho mais desnecessário é esse.
A carruagem para diante da entrada e a Sue abre a porta com tudo.
— Bem-vinda de volta, senhorita!
— Sim!
Enfileiradas, as criadas baixam a cabeça todas de uma vez. Boquiaberto dentro da carruagem, eu desço, incentivado pelo Leim. Será que… eu não vim parar num lugar absurdamente fora do meu lugar?
Ao cruzar a entrada, de uma grande escadaria forrada de tapete vermelho, bem à frente, um homem desceu correndo.
— Sue!
— Pai!
A Sue corre em linha reta até o homem e se atira com força no peito dele.
— Que bom. Que bom mesmo…!
— Tranquilo, eu não tenho nada. Não foi o que eu escrevi na carta que mandei pelo cavalo expresso?
— Quando a carta chegou, eu fiquei sem chão…
O pai da Sue. Então este é o duque Ortlinde, o irmão do rei. Cabelos de um louro vivo, um corpo robusto e de aparência forte exalavam vigor. Em contraste, o rosto tinha um quê brando, que passava bondade.
O duque logo se afasta da Sue e vem em nossa direção.
— …São vocês os aventureiros que salvaram a minha filha? Preciso lhes agradecer. Sou muito grato, obrigado.
Me surpreendi. Ao dizer isso, o duque baixou a cabeça pra nós quatro. O irmão do rei, veja só.
— Por favor, levante a cabeça. A gente só fez o que era óbvio.
— É mesmo. Obrigado. Você é humilde, hein.
Dizendo isso, o duque apertou a minha mão.
— Deixe-me me apresentar de novo. Alfred Ernes Ortlinde.
— Mochizuki Touya. Ah, Touya é o nome, Mochizuki é o sobrenome.
— Ora, nasceu em Ishen?
…Quantas vezes já, essa frase.
— Saquei, então vocês vieram à Capital por um pedido da guilda, pra entregar uma carta.
Num terraço do segundo andar voltado pro jardim, estávamos sentados diante do duque, tomando chá.
"Tomando" só eu e o duque, na verdade; os outros três estavam duros de tensão. A Sue saiu da mesa e não está aqui. Aonde será que ela foi.
— Se vocês não tivessem aceitado esse pedido, a Sue teria sido sequestrada, ou talvez morta. Tenho que agradecer a quem fez o pedido.
— O senhor não faz ideia de quem foi que atacou?
— Não dá pra dizer que não… Pela minha posição, há nobres que me veem como um estorvo. Pode ser que alguém tenha pensado em sequestrar a minha filha, me chantagear e me manipular como bem quisesse.
O duque levou o chá à boca com cara amarga. O mundo dos nobres também tem cada uma.
— Pai. Desculpe a demora.
A Sue chegou ao terraço. Um vestido de babados rosa-claro e, prendendo os cabelos louros, uma tiara com uma rosa também rosa-claro. Combina muito com ela.
— Conseguiu falar com a Ellen?
— Sim. Pra não preocupá-la, fiquei calada sobre o ataque.
A Sue se senta de leve ao lado do duque. Sem demora, o Leim traz o chá.
— Ellen?
— Ah, minha esposa. Desculpe, ela é a salva da minha filha e nem apareceu… Minha esposa não enxerga.
— Não enxerga? — pergunta a Yae, compungida.
— Há cinco anos, por uma doença… escapou por pouco, mas perdeu a visão.
Com ar pesaroso, o duque baixa os olhos. Vendo aquilo, a Sue pôs a própria mão sobre a dele. Deve estar tentando confortar o pai. Que menina gentil.
— …Não tentaram tratamento com magia?
— Chamei todos os usuários de magia de cura do país… mas não deu. Dá pra reparar o corpo até certo ponto, em ferimentos e tal. Mas, contra sequelas de doença e afins, parece que não há efeito.
À pergunta da Lindsey, o duque responde sem forças. Sei… então nem a magia de cura resolve… Pensei que dava pra curar com [Cure Heal], mas… A impotência nessas horas dói fundo.
— Se o vovô estivesse vivo…
Murmura a Sue, com pesar. Talvez tenha notado o meu olhar intrigado; o duque tomou a palavra.
— O pai da minha esposa… o avô da Sue, meu sogro, era usuário de uma magia especial. Conseguia remover anomalias do corpo. A Sue saiu em viagem desta vez justamente pra ver se conseguia, de algum jeito, decifrar e aprender a magia do sogro.
— Com a magia do vovô, os olhos da mamãe se curam. Mesmo sem decifrar, se aparecer alguém que a use…
Com pesar, a Sue cerra os punhos.
— Eu já disse que a chance disso é muito baixa, Sue. As magias de atributo nulo são quase todas individuais. Praticamente não existe quem use a mesma magia. Mas há de existir alguém com efeito parecido. Eu hei de encontrar, com certeza…
— AAAAH—!!! — em coro.
De repente, os três sentados ao lado se levantam e soltam um gritão. Uoouá, que susto! Que foi, que foi, que foi?!
— Touya!
— É o Touya-san!
— É o senhor Touya!
— O quê?!
Os três me apontam um atrás do outro; sem entender nada, me encolho. Que medo. Os três não estão com a empolgação lá no talo, não?
O duque e a filha, igualmente assustados, também recuam um pouco. Tá vendo.
— Se for você, talvez consiga usar essa magia!
— As de nulo são individuais… outra pessoa, em geral, não consegue. Mas!
— O senhor Touya não usa todas as de nulo?!
— Hã? …Aaah—! É isso!
Enfim entendi! É isso, é isso, se for de nulo!
— Como… assim? Será que…
— Você consegue curar a mamãe?! Touya?!
O duque, com ar de quem não acredita; e a Sue, agarrando o meu braço como quem morde a isca.
— Pra ser sincero, é uma magia que eu nunca usei. Mas, quem sabe… Me digam direitinho o nome próprio e o efeito dessa magia.
— Ah, temos visita?
A dama sentada na beira da cama era muito parecida com a Sue. Dava pra prever o futuro: ela vai ser assim quando crescer. Só a cor do cabelo, castanho-claro, diferia da filha.
Blusa branca e saia azul-pastel davam uma imagem das mais delicadas. Comparada a uma flor, mais que a uma rosa ou um lírio, era uma mulher como uma mosquitinho. Jovem, devia estar na casa dos vinte ainda.
Mas essa juventude, ao contrário, fazia ressaltar os olhos que não viam. As pupilas estavam abertas, mas sem foco fixo; não dava pra saber pra onde olhava — esse era o estado dela.
— Chamo-me Mochizuki Touya. Muito prazer, senhora Ellen.
— Muito prazer. Querido, quem é este moço?
— Ah, é uma pessoa que ajudou muito a Sue quando se conheceram… Ouvindo a sua história, ele se dispôs a examinar os seus olhos.
— Os olhos…?
— Mãe, relaxe um pouco.
Em silêncio, estendo a mão diante dos olhos da senhora Ellen. Concentro a atenção e ativo a magia que acabei de aprender. Vai que dá certo, por favor.
— [Recovery].
Uma luz suave flui da palma da minha mão pros olhos da senhora Ellen. Quando a luz se apaga devagar, eu afasto a mão.
O olhar, que por um tempo vagou pelo ar, vai aos poucos se aquietando. Depois de piscar algumas vezes, ela virou o rosto, calma, na direção do duque e da Sue.
— …Estou vendo… Estou vendo. Estou enxergando, meu querido!
Lágrimas rolam, grossas, dos olhos da senhora Ellen.
— Ellen…!
— Mãe!!
Os três se abraçaram e começaram a chorar. À filha e ao marido, que via depois de cinco anos, chorando e rindo, a senhora Ellen continuava a olhar. O rosto da filha amada, o rosto do marido. Com os olhos molhados de lágrimas, sem parar.
Ao lado, o Leim, que acompanhava tudo, também ergueu o rosto e chorava.
— Que bom… snif.
— Que bom mesmo…
— Que bom, viu…
Até vocês chorando?! Ué? Isso aqui não está fazendo eu, que não estou chorando, parecer um sujeito horrível?
Eu estou emocionado, viu? É só que, como tinha a pressão de "e se der errado", o alívio veio primeiro… …Bom, deixa pra lá.
A gente ficava, com carinho, contemplando pai, mãe e filha que choravam de alegria sem parar.