Capítulo 9 – Atributo e Magia de Movimento
— Ã… então, vamos começar.
Meio nervosa, talvez, Lindsey anuncia hesitante. Ela tem mesmo um quê de tímida, ou melhor, uma impressão de ser quieta demais. Espelhar-se na irmã… também é meio complicado, né? Desde que a gente se conheceu, acho que ela já se soltou bastante, mas ainda tem um certo distanciamento.
Hoje folgamos dos pedidos da guilda pra ela abrir o meu curso de magia. No quintal dos fundos da pousada, sento numa mesa e cadeiras velhas — provavelmente já aposentadas do uso da casa — de frente pra Lindsey.
Ah, a Elsie, dizendo que não tinha o que fazer, saiu de manhã pra guilda pegar um trabalho de coleta que dá pra fazer sozinha.
— Então, Lindsey-sensei, conto com você.
— S-sensei?! Au…
A "sensei" fica vermelha feito pimentão e abaixa a cabeça. Caramba, que fofa.
— E aí, por onde a gente começa?
— Ah, sim. Primeiro pelo básico… A magia tem vários "atributos".
— Atributos?
— Fogo, água, esse tipo de coisa. É… no total são sete atributos: fogo, água, terra, vento, luz, trevas e nulo. Pelo menos um deles, o de água, a gente descobriu ontem que você tem.
Ah, a história da pedra de ontem. Como eu consegui gerar água, o atributo de água é certeza.
— Ontem, como já no primeiro, na água, deu pra ver a aptidão, não teve problema; mas, se não desse, eu ia testar com as pedras dos outros atributos também.
— Mesmo podendo usar magia, depende da pessoa quais atributos ela tem… é isso?
— Isso. Eu, por exemplo, uso três: fogo, água e luz; mas os outros quatro, nem a magia mais básica eu consigo. E, mesmo dos três que uso, fogo eu mando bem, mas luz eu tenho dificuldade.
Isto aqui também é coisa de nascença, então. Não dá pra escolher. É tudo nas mãos de Deus. Coitado de Deus, deve dar trabalho.
— Aliás, fogo e água mais ou menos eu imagino, mas luz, trevas e nulo, o que são?
— Luz também é chamada de magia sagrada, é a magia que usa a luz como meio. A magia de cura entra aqui. Trevas é a magia de invocação… dá pra comandar feras e monstros com quem se fez um contrato. E nulo é uma magia especial que não se encaixa nas outras seis; na maioria dos casos, são magias de uma pessoa só. O fortalecimento corporal da maninha também é desse atributo.
Entendi. Esse poder parece útil.
— Tirando a magia de atributo nulo, a magia só ativa quando se juntam energia mágica, atributo e encantamento. Sem saber o atributo, não tem o que fazer, então vamos primeiro descobrir isso.
E Lindsey tira as pedras mágicas da bolsinha e as enfileira na mesa. Sete no total. Vermelha, azul, marrom, verde, amarela, roxa e uma incolor transparente.
— São as pedras de fogo, água, terra, vento, luz, trevas e nulo, respectivamente. Vamos conferir uma por uma.
Primeiro pego a pedra vermelha e concentro a atenção. E pronuncio as palavras que a Lindsey me ensinou.
— Venha, fogo.
Vfom! A pedra pega fogo com tudo. Solto a pedra às pressas e o fogo logo apaga. Essa foi por pouco!
— Tá tudo bem, o fogo gerado pela energia mágica não queima a própria pessoa. Mas, se pegar na roupa e tal, você sente a queimadura, então cuidado.
— É mesmo?
Pego a pedra de novo e tento o encantamento. O fogo acende outra vez e, de fato, não queima. Então, se isto pegar em algo, mesmo o conjurador se queima. O fogo que se alastra já não é mais fogo mágico, deve ser isso… Mas, fala sério, essa chama não está grande demais?
— É que a energia mágica é grande demais… Com a prática acho que você vai conseguir controlar direito, mas, por enquanto, não se concentre tanto; ao contrário, tentando se distrair, talvez dê pra conter um pouco…
Que conselho estranho, mas vou tentar. Em seguida, como a pedra azul já estava confirmada, pego a marrom. Desta vez, sem me concentrar nada na pedra, solto as palavras numa boa.
— Venha, terra.
Da pedra, areia fina despencou na mesa, xáá. Aaah, está tudo cheio de areia. Vou ter que limpar depois…
Em seguida, a pedra verde.
— Venha, vento.
Desta vez, de repente, uma rajada sopra e varre a areia de cima da mesa. Não preciso mais limpar, mas a pedra também rolou pra longe. Aff, francamente.
— Venha, luz.
Que ofuscante! A pedra soltou um clarão na minha frente, feito um flash de estúdio disparado.
— Venha, trevas.
Esta é a mais difícil de entender. Uma espécie de névoa preta começou a pairar em volta da pedra. Que sinistro.
Ao terminar de conferir os seis atributos, percebi que a Lindsey estava estranha. Até agora pouco ela vibrava junto comigo, mas foi falando cada vez menos e ficou com uma cara séria.
— …O que foi?
— Ah, não, é que foi a primeira vez que vi alguém que usa seis atributos… Eu uso três, e mesmo assim já sou das mais raras. E você… é incrível.
Por isso, então. Hmm, deve ser efeito-Deus também, mas bate uma sensação de estar trapaceando. Tem gente que quer usar magia e não consegue. Me sinto meio mal.
Bom, não adianta ficar remoendo. Pego a última, a pedra incolor.
— …Ué? Esta aqui ativa como?
Até agora era "Venha, tal", mas "Venha, nulo" está certo? Soa estranho.
— A magia de nulo é especial, não tem um encantamento definido. Ela ativa só com a concentração da energia mágica e o nome da magia.
Ah, é assim. Que prático, magia de nulo.
— Por exemplo, o fortalecimento corporal da maninha: dizendo [Boost], ativa. Além desse, tem o [Power Rise], que aumenta a força, e, mais raro, o [Gate], que dá pra se mover pra um lugar distante.
Magia útil que não se encaixa nos seis atributos é a de atributo nulo, então.
— …Mas como é que a pessoa sabe quais magias de nulo ela consegue usar?
— Segundo a maninha, em algum momento a pessoa simplesmente sabe o nome da magia. As de nulo também são chamadas de magias individuais; é raríssimo duas pessoas usarem a mesma.
Quê, é mesmo? Que inconveniente, magia de nulo.
— Então não dá pra saber agora mesmo se eu tenho aptidão pra nulo…
— Dá, sim. Basta segurar a pedra e tentar usar alguma magia de nulo. Mesmo que a magia não ative, a pedra brilha um pouco, ou treme de leve — deve haver alguma alteração.
— E se não houver alteração?
— …Aí, infelizmente, você não tem aptidão pra nulo.
Bom, por ora vou testar alguma coisa…
Se eu conseguir usar uma magia de mover pra longe, seria prático. Não precisaria ir andando até a floresta feito ontem.
Pronto. Seguro a pedra incolor e murmuro.
— [Gate].
De repente, a pedra solta uma luz e, ao nosso lado, surge uma parede semitransparente que emite um brilho suave. Do tamanho de uma porta. Pensei "parede", mas não tem nem um centímetro de espessura. Mais pra uma placa, talvez.
— Funcionou.
— …Funcionou.
Lindsey responde, atônita com a minha fala.
Com cuidado, toco a placa. Quando a ponta do dedo encosta, dali se espalham ondas. Como se houvesse uma película de água esticada. Enfio o braço nessa película, puxo de volta, confirmo que não tem problema e, decidido, enfio a cara.
O que saltou pra minha vista em seguida foi uma floresta se estendendo e a Elsie, caída de bunda no chão, de olhos arregalados.
— …O que você está fazendo, Elsie?
— Q-q-que isso… Touya?! O que é isso aqui?!
Recolho a cara por um instante, pego a mão da Lindsey e nos movo juntos pra dentro da floresta.
— A Lindsey também?! Ã, ã, que isso, de onde vocês saíram?!
Pra Elsie em pânico, a Lindsey explica resumidamente. Pelo visto, aqui é a floresta a leste, onde a gente foi ontem. A Elsie estava colhendo uma erva aromática que serve pra doença quando, de repente, surgiu a parede de luz, e um braço saía e voltava, e ela caiu sentada de susto. Bom, é de se esperar.
— A magia [Gate], pelo visto, leva a qualquer lugar onde o conjurador já tenha estado. Provavelmente, quando o Touya-san usou a magia, ele imaginou este lugar…
Ah, é mesmo. Pensei "assim não preciso andar feito ontem".
— Affe, mas usar todos os atributos… Você é meio estranho mesmo.
Elsie murmura, perplexa. Bom, eu entendo o lado dela.
— Nunca ouvi falar de alguém que usa todos os atributos. Você é incrível, Touya-san.
Ao contrário da Elsie, a Lindsey só fazia se admirar. A isso eu só pude responder com um sorriso amarelo.
A coleta da Elsie já tinha terminado, então, como quem acha um barco bem na hora de atravessar, passamos juntos pela [Gate] e voltamos pro quintal dos fundos da pousada.
— Na ida a gente levou duas horas, e na volta foi num instante. Prática, essa magia.
Dito isso, a Elsie foi pra guilda concluir o pedido.
Por ora, a aula de magia de hoje fica até aqui; voltamos pra dentro da pousada. Já está quase na hora do almoço. O que será o cardápio de hoje. Aah, que fome.