Capítulo 17 – O Combate e a Gravação
No jardim da casa do Visconde Swordrick havia uma sala de treino. Quando nos levaram até ela, não pude deixar de arregalar os olhos. Quer dizer, isto aqui, olhe por onde olhar, é um dojô de esgrima japonês.
Um piso de tábuas lustradas, algumas espadas de madeira penduradas na parede. Peraí, tem até um altar xintoísta?
— Este lugar foi projetado pelo Jūbei e construído pelo meu pai. É feito ao estilo de Ishen.
— É muito parecido com o dojô da minha casa. Ah, que saudade.
Saudade pra mim também. Isso só aumenta a vontade de um dia ir, Ishen.
— Escolha a espada de madeira que quiser. Estão em ordem, de cima pra baixo, da empunhadura mais grossa pra mais fina.
Trocado pelo traje de treino, o visconde ajeita a faixa e pega uma espada de madeira. A Yae, por sua vez, pega algumas, experimenta a pegada, faz uns movimentos no ar e, com uma delas, posta-se no meio do dojô diante do visconde.
— Algum de vocês usa magia de cura?
— …Eu e ela usamos.
Às palavras do visconde, levanto a mão e olho pra Lindsey.
— Então não há por que se conter. Venha com tudo.
Pra não atrapalhar o visconde e a Yae, que ele assim desafiava, sentamos na beira do dojô.
Nessa hora, me deu um estalo: tirei o smartphone do bolso. Deixa eu ver, era assim…
— …O que você está fazendo?
Lindsey pergunta, com cara intrigada.
— Só uma coisinha, pra referência depois.
Enquanto eu respondia, a Elsie, que se ofereceu pra arbitrar, fica entre os dois.
Confirmando que ambos estavam prontos, ela ergue a voz.
— Então… começar!
Junto com a voz da Elsie, com velocidade de bala, a Yae parte pra cima do visconde. Ele apara o golpe de frente e, em seguida, desvia com a própria espada de madeira todos os ataques que a Yae emenda em sequência.
A Yae recua de um salto e ajeita devagar a respiração. O visconde não tenta atacar. Só segue os movimentos dela com os olhos.
Frente a frente, descrevendo um círculo passo a passo, ambos giram um em torno do outro. Aos pouquinhos encurtam a distância e, ao cruzar certa linha, as espadas de madeira se cruzam de novo. E recomeça a troca feroz de golpes.
Mas quem ataca sem parar, de forma unilateral, é só a Yae; o visconde escoa, esquiva, apara, e não revida.
— Entendi. Compreendi.
A espada de madeira do visconde se posta em guarda baixa. A Yae mantém a guarda média, ofegando pelos ombros. Está claramente gastando o fôlego.
— A sua espada é uma espada correta. Exemplar, digamos, sem desperdício nos movimentos. É a espada exatamente como aprendi com o Jūbei.
— …E isso é ruim?
— Ruim não é. Mas, a partir daí, você não tem mais pra onde subir.
— O quê…?!
A espada do visconde se ergue em guarda alta, e dele transborda uma aura de combate como nunca. Um ímpeto elétrico chegava até a gente.
— Lá vou eu.
Mal o visconde deu um grande passo à frente, num átimo já tinha invadido a distância da Yae. A espada erguida desce de frente sobre ela. Pra apará-la, a Yae ergueu a espada de madeira sobre a cabeça.
Era pra ser assim.
No instante seguinte, com um baque, a Yae tomba no dojô. Geme, apertando o flanco.
— A-até aqui!
A Elsie declarou o fim do combate. Numa luta de verdade, a Yae teria sido partida ao meio pelo tronco.
— Ugh…
— Melhor não se mexer. Você deve ter quebrado umas costelas. Se mexer à toa, fura o pulmão. Você aí, cure-a.
— Ah, sim.
Estendo a mão sobre o flanco da Yae, contorcida de dor, e lanço magia de cura. Pouco depois, talvez porque a dor passou, o rosto dela também relaxa.
— …Já estou bem.
Depois de me agradecer, a Yae se levanta e baixa a cabeça bem fundo diante do visconde.
— Grata pela lição.
— A sua espada não tem sombra. Misturar o falso e o verdadeiro, recuar e avançar, ser branda e ser feroz. Só com a espada correta não se passa do nível de esgrima de dojô. Não digo que isso seja ruim. Força é coisa que muda conforme cada um.
O olhar penetrante do visconde atravessa a Yae.
— O que você busca na espada?
A Yae não respondeu nada. Calada, apenas fita a espada de madeira.
— Comece por aí. Então o caminho há de se mostrar. Quando se mostrar, volte aqui.
Deixando essas palavras, o visconde saiu do dojô.
— Ah, bom, é o seguinte. Melhor não levar muito a sério! Vitória é sorte do momento; quando é pra perder, faça o que fizer, você perde!
— …Senhora Elsie… isso não está consolando muito, não…
Fuzilada por um olhar de través da Yae, a Elsie devolve um riso seco, ah-ah-ah.
A Lindsey conduzia a carruagem e, pra sair da área dos nobres, íamos rumo ao posto de inspeção.
— E então, Yae, o que você vai fazer? A gente vai voltar pra cidade de Reflet.
— O que este servo vai fazer, é……
Ah, ela está meio pra baixo… Tem ares de funcionário relegado a um canto do escritório. Apoia o queixo na borda do compartimento e fica olhando o céu lá longe.
— Se você não tem pra onde ir, vem pra Reflet também, Yae! Aí você entra na guilda, forma grupo com a gente e, de quebra, treina!
"De quebra", ela diz. Bom, dá pra entender o que a Elsie quer dizer. A gente ficou amigo; seria meio triste a despedida agora.
— Talvez isso também não seja má ideia…
— Boa! Então está decidido!
— Que insistência…
Diante da decisão atropelada da Elsie, não consigo evitar um sorriso amarelo. Aproveitando que a Yae está desanimada… não, do jeito dela, ela está é preocupada, isto sim.
Enquanto eu pensava nisso, a carruagem chegou ao posto. Aos soldados que faziam a inspeção, a Lindsey, meio acanhada, mostrou a medalha que ganhamos da casa ducal, e eles nos liberaram na hora. Oh, que coisa, a casa ducal.
— Mesmo assim, o mundo é vasto… Existir alguém tão forte assim. Este servo ainda tem muito que andar…
Murmura a Yae, compenetrada. Ainda nisso… Deve ter pesado fundo.
— Em especial aquele último golpe. O que terá acontecido… Este servo de fato julgou ter aparado a espada que desceu sobre a cabeça… mas a espada veio de lado…
— Foi impressionante, né. Eu estava bem do lado e não vi nada. Quando vi, a Yae estava caída.
A Yae analisando, a Elsie empolgada, ambas relatam o que houve.
— Que pena. Se eu pudesse ver mais uma vez aquele traço de lâmina…
— Dá pra ver, sim.
— …Hã?
À minha resposta tranquila, a Yae piscou os olhos com cara de paisagem.
Tiro o smartphone do bolso e mostro à Yae o combate que gravei agora há pouco.
— Q-que é isto?! Ah! E-este servo, este servo está aí?! E o senhor visconde! E a senhora Elsie também!
— Uaa, que é isso?! Está se mexendo sozinho! Eu estou aqui, mas! Hã, não sou eu, é a Lindsey?! Não, a Lindsey também está aqui?! Como é que é?!
— Calma aí.
— Aii! — as duas.
Aplico um golpe de mão na cabeça das duas em pânico. Atrapalhadas demais. Foi meio engraçado, confesso.
— Isto é uma magia minha de atributo nulo… mais ou menos isso, que registra o que aconteceu e permite ver de novo. Gravei o combate de agora.
— Que coisa incrível! Essa magia!
— Que magia é essa?
— Ah… smartphone?
— Smáa-tofon… nunca ouvi falar dessa magia. Bom, se é de nulo, fazer o quê.
A Elsie cruza os braços e torce o pescoço. Nesse meio-tempo, a Yae apertava o smartphone, fitando a tela como quem devora. Logo chega à cena em que é derrubada.
— É aqui!
A espada que deveria ter descido de frente sobre a Yae, veja só, fora desferida desde o começo mirando o tronco. Ué? Eu tinha certeza de que ela tinha vindo na direção da cabeça dela.
— Como assim?
— Sei lá…?
Pergunto à Elsie, que via a tela ao meu lado, mas ela também balança a cabeça, sem entender.
— T-Touya! Dá pra ver isto mais uma vez?!
— Dá. Quantas vezes quiser. Do começo? Ou de antes de ser derrubada?
— De antes de ser derrubada!
Mexo rapidinho e entrego à Yae. O visconde avança sobre ela e desfere o golpe no tronco. Pois é, ele não tinha erguido a espada coisa nenhuma. Mas, naquela hora, eu tinha certeza…
— A espada das sombras…
— Espada das sombras?
Murmura a Yae.
— É uma técnica que transforma em espada a aura de combate elevada. Por ser ilusão, não tem corpo. Mas, por ser feita de aura, tem presença. Por isso a pessoa acaba percebendo, sem querer, essa existência. Provavelmente o senhor visconde dividiu: a espada das sombras pra cima, a espada real pro lado. Quem se move sentindo a aura encontra a espada das sombras. A espada real, sem aura, vem de lado. Este servo caiu direitinho na armadilha…
Foi-lhe mostrada uma ilusão… é isso? Pensei que ela ia se abater de novo ao ver a realidade, mas a Yae esboçava um leve sorriso. Não é sorriso de resignação… ela agarrou alguma coisa. Embora me dê um certo receio ela ali murmurando sozinha.
— A minha espada não tem sombra… é. Com razão. Não esperar a brecha do adversário, mas fazer o adversário criar a brecha… isso também é…
— Ô, Yae? Você está bem?
— …Estou bem. Sou-lhe grata, Touya. Você me salvou.
Recebendo o smartphone da Yae, de rosto radiante, eu o guardo no bolso. Bom, se serviu de deixa pra ela se reerguer, que ótimo.
— Este servo vai treinar muito, muito mais e ficar forte. Junto com todos vocês.
— É assim que se fala!
Yae e Elsie batem as mãos no ar, rindo juntas. Que legal, isso é juventude.
— Me incluam também, vai…
Da boleia, uma voz magoada. Ah. Não que eu tivesse esquecido, viu? Desculpa, Lindsey.