Capítulo 18 – Fazendo Compras e um Produto com História
Já que viemos à Capital, não custa nada não ir embora logo. A gente tem bastante dinheiro, então vamos às compras, ficou decidido. Ou melhor, decidiram. Como é que eu ia contrariar as três moças.
Deixamos a carruagem guardada na pousada (cobraram pela guarda, já que não vamos pernoitar) e combinamos de nos reencontrar aqui em três horas.
As três vão andar juntas, mas eu resolvi ir por conta própria. Carregar sacola, nem morto. E eu também tinha umas coisas pra comprar.
Bom, deixa eu ver o lugar no mapa… nossa… que enorme. É a Capital, né. Será que dá pra buscar? Loja… de armaduras…
Quando busco, caem alguns alfinetes no mapa, indicando as lojas de armadura. Hmm, a mais perto é… bem na minha frente?
Levanto a cabeça e havia uma loja de armaduras com a placa de escudo. Nem precisava ter buscado…
— Bem-vindo!
Lá dentro havia escudos, armaduras, manoplas, elmos, de tudo. No balcão dos fundos, um dono de cara simpática sorria.
— Com licença, posso dar uma olhada?
— Fique à vontade. Pode pegar pra ver.
Depois de pedir licença ao dono, examino com calma as armaduras. Arma eu comprei a katana no primeiro pedido da guilda, mas a armadura eu fui empurrando com a barriga. É uma boa oportunidade, vou comprar de uma vez. Já que estou na Capital, queria, se der, comprar uma coisa boa.
Mas, o que fazer… Como eu priorizo mobilidade, sinto que armadura de metal não combina comigo. Armadura completa parece bem difícil de mexer.
Sendo assim, sobra armadura de couro, esse tipo leve…
— Com licença, qual é a melhor armadura daqui? Ah, fora as de metal.
— Fora as de metal? Então esta armadura de rinoceronte-malhado é a melhor.
— Rinoceronte-malhado?
— Como o nome diz, é um rinoceronte de padrão malhado. Esta armadura, feita do couro dele, é mais dura e resistente que a de couro comum.
Bato de leve, toc-toc; de fato parece dura.
— Mesmo assim é inferior à de metal?
— Ora, bom… se não tiver algum encantamento mágico, em geral, sim.
Encantamento mágico. Se não me engano, é um item com efeito mágico adicionado. São pouquíssimos; vêm de ruínas antigas, ou são heranças que nobres falidos largaram. Só assim se consegue.
— Vocês têm armadura com encantamento mágico?
— Aqui a gente não trabalha com isso. Esse tipo de coisa é bem caro. Na loja de armaduras "Berkut", na rua leste, deve ter, mas aquela ali é fornecedora de nobres.
O dono responde com cara de aperto. Fornecedora de nobres, é. Vai ser meio difícil. Peraí?
— Será que com isto aqui eu entro nessa loja?
— O que é isto…? I-isto é da casa ducal?! O senhor é ligado à casa ducal?!
Quando mostro a tal medalha que ganhei da casa ducal, o dono muda de cor.
— Se é assim, acho que tudo bem. Se a casa ducal garante a sua identidade, não deve haver problema.
Como desculpa pelo trabalho que dei, pago uma gorjeta em prata e saio. Sigo pra "Berkut" olhando o mapa.
Andando pela Capital, deu pra ver, e me espanta de novo, que há vários povos além dos humanos. Os chamados semi-humanos têm raças com características variadas, mas o que mais me surpreendeu foi a existência dos ferinos.
Em Reflet eu não vi nenhum, mas aqui vejo ferinos aqui e ali. E ferino não é tipo corpo de gente com cabeça de animal, sabe, um minotauro.
Por exemplo, aquela garota ferina-raposa que vem andando na minha direção. Fora as orelhas e a cauda, não tem nada de diferente de um humano normal. Sobre os longos cabelos louros, espetam orelhas da mesma cor, só com a ponta preta; já a cauda grande e fofa tinha a ponta branca.
Além das orelhas no alto da cabeça, ela tinha orelhas também no lugar das nossas. A Lindsey tinha dito que dá pra alternar entre a principal e a secundária, mas não sei direito.
Ué? Aquela menina-raposa está olhando pra todo lado, parece procurar algo… será que está perdida? Está com uma cara super aflita. E ninguém ajuda? Cidade grande é fria neste mundo também, hein.
…Certo, deixa eu falar com ela.
— Com licença, aconteceu alguma coisa?
— Á-ái! O que f-foi?!
Ah, tropeçou na língua. Está me olhando de olhos arregalados. Calma, eu não sou nenhum suspeito. …Não sou suspeito, né, acho. Se ela se assusta tanto eu perco a confiança.
— Não, é que você parecia em apuros. Fiquei pensando o que tinha acontecido.
— A-ah, é que eu, eu me perdi da pessoa que veio comigo…
Perdida mesmo.
— Pra-pra caso a gente se separasse, a gente até combinou um ponto de encontro, mas eu não sei onde fica esse lugar…
Murmura a raposinha, a voz sumindo, cabisbaixa. As orelhas e a cauda também parecem caídas, meio sem força.
— Qual é o ponto de encontro?
— É… acho que é a loja de magia "Luca".
Loja de magia "Luca", é. Tiro o smartphone e busco no mapa. Achei, achei. É uma loja no caminho pra "Berkut", caiu bem.
— Essa loja eu te levo. Eu ia justamente pro mesmo lado.
— É sério?! Muito obrigadu!
Ah, tropeçou de novo. Que menina mais fofa. Deve ser mais nova que a Elsie e companhia. Uns 12, 13.
Caminhando juntos pela rua, conforme o mapa. O nome dela é Alma, pelo visto.
— O Touya-san veio passear na Capital?
— Não, a trabalho. Já terminou, mas. E você, Alma?
— Eu também vim a trabalho da minha irmã, peguei carona. Queria conhecer a Capital.
Sorri risonha, a Alma. Parece mentira a cara de agora há pouco.
Conversando bobagens, pouco depois a loja de magia apareceu. E, parada diante dela, uma mulher ferina. Ao nos notar, veio depressa na nossa direção.
— Alma!
— Ah, mana!
Tac-tac-tac, a Alma corre e se atira no peito da que parecia ser a irmã. A mulher também a abraça forte. Óbvio, mas a irmã também é ferina-raposa. Mais velha e mais madura que a Alma. O ar firme dela passa um quê de militar.
— Fiquei preocupada! Some assim de repente…!
— Desculpa… Mas o Touya-san me trouxe até aqui, então deu tudo certo.
Só então notando a minha presença, ela me fez uma reverência profunda.
— Obrigada por cuidar da minha irmã. Sou grata.
— Que isso, que bom que se encontraram.
Insistiram em me agradecer, mas recusei dizendo que tinha o que fazer. Foi só isso, não é pra tanto. Mal me despeço e saio dali. A Alma ficou acenando sem parar.
Deixadas as duas, conforme me aproximo de "Berkut", sinto que os prédios e lojas em volta vão ficando mais finos e chiques. Pouco depois a tal loja apareceu.
— Uau, parece cara…
A fachada de tijolo, de ares pomposos, me dá um certo receio. Cara de loja de grife.
Será que estou fora do meu lugar? Vai que me barram na porta. Bom, porteiro não tem. Fazer o quê, não dá pra ficar aqui pra sempre, vou entrar.
Abro a porta suntuosa e entro; na hora uma jovem atendente me aborda.
— Bem-vindo à Berkut. É a primeira vez do senhor na nossa loja?
— Ah, sim. Primeira vez.
— Nesse caso, o senhor traz algo que comprove a sua condição, ou uma carta de apresentação de alguém?
Saquei, não atendem qualquer um. Precisa de indicação. Tiro do bolso a medalha da casa ducal e mostro à atendente. Ela, ao contrário do dono da loja de armaduras de antes, não se abala; faz uma reverência profunda.
— Confirmado. Muito obrigada. E em que posso ajudá-lo hoje?
— Eu queria ver armaduras com encantamento mágico.
— Pois não. Por aqui.
Guiado pela atendente, chego a uma seção nos fundos, onde havia desde armaduras de brilho deslumbrante até uma luva de couro de aparência banal e barata.
— Tudo isto tem encantamento mágico?
— Sim. Por exemplo, este "Escudo Espelho de Prata" tem o encantamento de refletir magia de ataque; e esta "Manopla da Força Bruta", o de aumentar a força.
…De fato, sinto uma certa magia. Ué? Desde quando eu passei a sentir magia? Bom, deve ser efeito-Deus.
— E o senhor deseja que tipo de item?
— Ah, algo que não seja de metal… ou melhor, que não seja pesado, e ainda assim resistente.
— Deixa eu ver… então que tal esta jaqueta de couro? Tem encantamento de resistência a corte, fogo e raio.
Hmm, não é ruim, mas… o design… Com fios de glitter, acho meio chamativo. E o dragão bordado nas costas é, sinceramente, vergonhoso.
De repente, meu olhar para num sobretudo branco pendurado num canto. Um casaco comprido com pele na gola e nos punhos.
— E este?
— Este tem resistência a corte, calor, frio e impacto, e ainda uma resistência mágica altíssima contra magia de ataque; só que há um probleminha…
— Probleminha?
— O efeito de resistência mágica só funciona conforme a aptidão de quem o veste. Pior: o dano de um atributo que a pessoa não tem, ele dobra…
…Ou seja, pra quem tem atributo de fogo, ele dá ótima resistência ao calor; mas, se essa pessoa não tem aptidão pra vento, não só não resiste a raio como ainda leva dano dobrado… é isso?
Faca de dois gumes. Contra um inimigo de um atributo só, tipo um monstro de fogo, seria vantajoso; mas, contra um de vários atributos, o risco é grande demais.
Bom, comigo não tem essa! Tenho aptidão pra todos os atributos.
— Posso experimentar?
— Por favor.
Pego o sobretudo, confiro a textura e, enfim, visto. É, em tamanho não tem problema. Me mexo de leve; não atrapalha o movimento, nem incomoda. Gostei.
— Quanto custa?
— Este está um pouco mais barato, sai por oito moedas de ouro.
Uns oitocentos mil ienes. E é "mais barato"? Caro, hein. Mas, pensando no efeito, talvez por esse valor valha a pena. Meu senso de dinheiro está se desvirtuando.
— Então, vou levar. O pagamento é com isto.
— Moeda de platina, é. Um momento, por favor.
A atendente volta ao balcão e traz, numa bandeja de prata, duas moedas de ouro de troco. Pego, ponho na carteira e vou pra saída.
— Muito obrigada. Esperamos o seu retorno.
Acompanhado pela reverência da atendente, deixo a "Berkut". Consegui uma boa armadura. Foi meio cara, mas…