Capítulo 19 – Teletransporte e Retorno
Depois de comprar o sobretudo, entro num restaurante perto, como algo leve, volto e passo na loja de magia "Luca". A Alma e a irmã já não estavam lá, mas.
Garimpo a loja e compro um livro relacionado a nulo que me chamou a atenção. No caso dos seis atributos, a pessoa compra um grimório nessas lojas, decora o encantamento, treina e faz a magia sua; mas magia de nulo é individual. Grimório desse tipo praticamente não existe.
Porém, existe uma espécie de "dicionário curioso de magias" que reúne as magias raras já surgidas no mundo. E isso, naturalmente, é quase tudo magia de nulo. Pra mim, é uma mina de ouro.
E ainda por cima o preço não é lá tão alto. Claro, não é um livro pra aprender magia. É só um livro de entretenimento.
Depois resolvi comprar um pacote de biscoitos de lembrança pra Mika-san da pousada e voltar pro ponto de encontro. O sol já está se pondo.
— Ah, enfim chegou. De-mo-rou!
— Ué? Vocês cedo, hein? Ainda nem é a hora.
Diante da carruagem da pousada, com um bocado de bagagem no compartimento, as três esperavam. Quanta coisa vocês compraram.
— Ora-ora? Que isso, Touya, todo de casaco novo?
Em tom de provocação, a Elsie me examina de cima a baixo.
— Ah, é um sobretudo com encantamento mágico. Reduz magia de ataque de todos os atributos. Tem também resistência a corte, calor, frio e impacto.
— Reduzir todos os atributos é impressionante… Custou quanto?
— Oito moedas de ouro.
— Caro! …Mas, pensando no efeito, será que é caro mesmo…
Pelo visto a Elsie também está perdendo o senso de dinheiro.
Com todos reunidos, embarcamos na carruagem pra partir. A Yae segura as rédeas, e eu, como o compartimento estava apertado com as compras das moças, sento na boleia ao lado dela.
Daqui dava pra usar a [Gate] e voltar pra Reflet na hora, mas quero evitar dar na vista. Combinamos de só nos teletransportar depois de sair da Capital.
Ao sair da Capital, passamos fácil, sem nem mostrar a medalha. Seguimos um tempo de carruagem e, quando nos afastamos a ponto de a Capital parecer pequena, mando a Yae parar.
— Num lugar destes, o que vamos fazer?
A Yae, que não sabe da [Gate], pergunta intrigada.
— Melhor a gente sair na estrada um pouco antes da cidade, do que no meio dela, né?
— É, acho melhor assim.
Ouvindo a Elsie, concentro a energia mágica imaginando o ponto de saída.
— [Gate].
Diante de nós surge um portal de luz. Faço-o grande o bastante pra carruagem passar.
— O-o que é isto?!
— Pronto, anda, anda.
Apresso a Yae, atônita, e faço a carruagem avançar. Ao cruzar o portal, um grande sol poente justamente descia atrás das montanhas a oeste de Reflet.
— É prática mesmo, essa magia, né.
— Cinco dias de carruagem num instante.
— Mas só dá pra ir pra onde já se foi, esse é o problema.
— Mas, afinal, o quê, como é que isto funciona?!
Ignorando a Yae, que ainda não captou a situação, a gente se enchia daquele alívio de quem voltou pra casa.
Enfim, como já estava escurecendo, combinamos de deixar o relatório pro Zanack-san pra amanhã.
Paramos a carruagem diante da "Lua de Prata" e entramos pra avisar a Mika-san que voltamos. Óbvio, a "Lua de Prata" estava igualzinha a quando partimos. Claro, em cinco, seis dias não muda nada. Mas, ao abrir a porta, havia algo diferente do de sempre na pousada.
— Bem-vindo. Vai se hospedar?
Quem nos recebeu lá do fundo do balcão foi um homem ruivo, barbudo e de corpo robusto.
…Hã? Quem?
— …É… a gente está hospedado aqui… e voltou do trabalho…
— Ah, são os hóspedes. Desculpa, é que eu nunca tinha visto vocês.
— Ã, e a Mika-san?
— Ué? Todo mundo voltou? Bem rápido, hein.
Da cozinha, ainda de avental, surge a Mika-san.
— Mika-san, quem é ele?
— Ah, vocês não tinham se visto. É o meu pai. Voltou de uma compra longe, bem na troca com a saída de vocês.
— Sou o Dran. Prazer.
— Tá…
Aperto, por reflexo, a mão estendida. De fato, a cor do cabelo e tal é parecida. O temperamento também deve ser. Os dois têm cara de quem não liga pra detalhes. Ainda bem que não puxaram um ao outro no rosto.
O Dran-san tinha ido ao sul comprar temperos e tal. Por aqui não se produz muito sal nem pimenta, então ele compra de uma vez, em grande quantidade, até pra outros lojistas.
— Ah, então, Dran-san, cuida do quarto desta menina, por favor.
— Pode deixar.
Empurro as costas da Yae pro balcão. Enquanto ela faz o registro, levamos a bagagem pros quartos. A Elsie saiu pra devolver a carruagem.
— Ah, Mika-san, isto é uma lembrancinha.
— Ah, obrigada. Como foi a Capital?
— Grande. E cheia de gente.
Entregando os biscoitos, respondo rindo e curto à pergunta da Mika-san.
Sinceramente, a gente voltou logo, né. Nem um dia ficou. Como dá pra ir de novo a qualquer hora pela [Gate], na próxima vez a gente passeia com calma.
Pra comemorar a volta em segurança, a Mika-san caprichou no jantar. A gente comeu bastante das várias comidas, mas a Yae comeu umas vezes mais. Que menina de consumo alto, francamente. A Mika-san e o Dran-san ficaram pasmos também.
Depois disso, só pra Yae acrescentaram o custo da comida à diária. Compreensível.