Capítulo 21 – Chuva e o Tabuleiro de Shogi
Duas semanas desde a volta da Capital. Lá fora, chuva. Começou há três dias e continua caindo. Pelo visto, neste mundo também existe uma espécie de estação das chuvas.
Até a chuva parar, os trabalhos da guilda estão suspensos. Por isso, eis-me a estudar magia. Bom, é só ir garimpando, do livro que comprei na Capital, as magias de nulo que parecem úteis.
Já avancei umas 500 páginas… cerca de um terço do total, mas magias aproveitáveis foram só quatro. Como cada página traz umas 50 magias, no total dá 25 mil… e dessas, úteis, 4 em 25 mil, então… 1 em 6.250… é.
As que separei foram:
[Enchant], que imbui um efeito mágico num material;
[Paralyze], que paralisa o alvo e o impede de se mexer;
[Modeling], que remodela a forma de minerais e objetos de madeira;
[Search], que procura aquilo que eu desejo;
essas quatro.
Dessas, [Modeling] e [Search] foram bem úteis. Bom, com vários poréns.
[Modeling] é uma técnica de modelagem que transforma o material naquilo que eu imagino, mas leva um tempão (não é instantâneo) e, se a imagem não estiver bem firme, sai uma coisa esquisita.
De teste, tentei fazer um tabuleiro de shogi, mas o tabuleiro saiu com uma coluna de casas a mais, e as peças saíram grandes demais, transbordando das casas.
Sem imaginar com muito detalhe, é difícil. Olhando o objeto real fica bem melhor, então busquei uma foto de tabuleiro de shogi no smartphone e terminei olhando ela.
O [Search] eu aprendi achando que seria prático pra quando se perde algo, mas, na real, descobri que essa magia também faz buscas bem grosseiras.
Eu achava que neste mundo não havia baunilha, mas, de teste, busquei no mercado e achei na hora.
Não era a baunilha que eu conheço, mas um fruto meio diferente, tipo um tomate-cereja, chamado "Coco". Mas o sabor e o aroma eram a própria baunilha, e dava perfeitamente pra substituir.
Mesmo com nome e forma diferentes, parece que dá hit em algo que eu consiga julgar como "baunilha". Sério, que coisa grosseira.
Só que isto também tem um defeito: o alcance é curto. Uns cinquenta metros de raio. Pra procurar pessoas, parece meio ruim de usar.
— Que fome……
Quando confiro a hora, já tinha passado bem do meio-dia. Com razão.
Guardo o livro, tranco o quarto e desço a escada da pousada. No refeitório, o Dran-san e o dono da "Armas Urso-Oito", o Baral-san, estavam sentados frente a frente. Entre os dois, um tabuleiro de madeira quadriculado.
— Shogi de novo?
— Aham.
Grudado no tabuleiro, respondendo sem nem me olhar, o Dran-san me faz dar um sorriso amarelo, meio exasperado.
O shogi que fiz de teste do [Modeling]… quem mais se interessou por ele foi o Dran-san da pousada. Quando ensinei as regras, ele se viciou na graça da coisa, a ponto de arrastar conhecidos pra jogar. Igualmente, o Baral-san também se viciou, e, em qualquer folga, os dois ficavam ali, pá-pá-pá.
Bom, sinceramente, ainda bem que o Baral-san se viciou. Até então o único adversário era eu, e quantas vezes não fui obrigado a jogar.
Eu sei as regras do shogi, mas não sou lá tão bom. Nunca joguei muito. No começo eu ganhava, mas agora não sou páreo pro Dran-san. "Quem ama de verdade aprende rápido", já dizia o ditado.
Peço o almoço à Mika-san, na cozinha. Sento numa mesa um pouco afastada pra não atrapalhar os dois.
— Baral-san, e a sua loja, tudo bem?
— Com essa chuva não vem muito cliente. Deixei com a patroa. Aliás, Touya-san, me dá mais um jogo de shogi?
— Hã? O seu eu já dei, não dei?
Eu tinha feito e entregado um jogo pro Baral-san outro dia, que queria praticar em casa.
— O Simon, da loja de ferramentas, agora também quer um. Faz aí, vai.
— Bom, tudo bem…
Bastava pedir pra alguém de mãos boas fazer… pensei, mas, pra fazer direito, dá um bom trabalho.
— Ah, valeu. Com isto, então…
— Xeque.
— Nhé?!
Diante das palavras do Dran-san, que de braços cruzados encarava o tabuleiro, agora foi o Baral-san que cruzou os braços e ficou encarando. Sério, que vício. Não imaginava que chegaria a tanto.
Enquanto eu pensava nisso, a Mika-san veio com o meu almoço.
— Pronto, desculpa a demora. Pai, vocês dois já chega, né.
— Foi mal. Só mais esta partida.
Num gesto de súplica, o Dran-san se vira pra Mika-san. Bom, se não chovesse, os dois não jogariam tanto assim em pleno dia. Embora dê pra desconfiar que usam a chuva longa de desculpa.
O almoço que a Mika-san trouxe foi macarrão com vegetais do campo, sopa de tomate e duas fatias de maçã.
— Aliás, Mika-san, cadê o pessoal?
— A Lindsey-chan deve estar no quarto, mas a Elsie-chan e a Yae-chan saíram.
— Nessa chuva toda?
— Foram comprar o doce novo da Parent.
Ah, aquilo. Já que achei a quase-baunilha, conversei com a Ael-san pra ver o que dava pra fazer, e a gente criou um rocambole de baunilha.
Bom, eu só ensinei a receita e o modo de fazer; basicamente só assisti. Mas ficou uma delícia. Animado, mandei fazer também um rocambole de morango.
Quando contei isso pras moças, fui enforcado por não ter trazido nenhum. Que injustiça.
Esse lançamento ia começar a ser vendido hoje. …Mas nem por isso precisava ir debaixo dessa chuva.
A obstinação por doce é assustadora.
— Cheguei! Aah, me molhei toda!
— Cheguei.
Opa, falando no diabo. As duas, de volta. Fecham os guarda-chuvas e os encostam na entrada.
Neste mundo não existe guarda-chuva de plástico. Guarda-chuva existe, mas o material é basicamente tecido. Ainda assim, impregnam com resina de árvore e tal pra aumentar a impermeabilidade, com seus truques.
— Voltaram. Conseguiram?
— Em cheio. Com a chuva, tinha menos gente, até ajudou.
A Elsie ergue a sacola pra mostrar. Que sorriso, francamente.
— Estava uma delícia.
— Né?
Já comeram também? Quanto, hein.
— Toma, a parte da Mika-san.
— Obrigada. Depois eu pago.
A Elsie tira da sacola quatro caixas brancas no total e entrega uma à Mika-san. Esperta, a Mika-san também tinha encomendado.
— E as outras?
— Uma é da Lindsey, outra é da gente. A que sobra, leva pro duque.
— Hã? Eu?
Quer dizer, vocês ainda vão comer?!
— Quem além de você consegue ir até a Capital nessa chuva. Mandar um pedacinho pra quem te ajudou é o básico, não é?
Quando respondi "então vão vocês também", recusaram, dizendo que seria atrevimento demais. Como assim…
Fazer o quê, vou lá. Como é o tipo de coisa que estraga, melhor que comam logo.
Ah, e, pensando bem, quando fui à Capital outro dia, o duque também tinha demonstrado interesse no shogi. Vou levar de lembrança também.
Peço licença ao Dran-san e uso a madeira de descarte empilhada no quintal dos fundos. Aciono o [Modeling] e faço dois jogos de tabuleiro e peças de shogi. Já fiz tantas vezes que é moleza.
Em uns dez minutos fica pronto. Por garantia, confiro. É, está certo. Já cheguei a fazer uma torre a mais, uma vez.
Volto ao refeitório e entrego um jogo ao Baral-san. Ponho na sacola a caixa com o rocambole e as peças, e carrego o tabuleiro debaixo do braço.
— Então, já vou.
Com o guarda-chuva, vou de novo pro quintal pra me mover pela [Gate]. Melhor não dar na vista.
A saída… atrás do portão da mansão serve.
— [Gate].
— Que delíiicia! Isto é uma delícia!
— Que falta de modos, Sue. Mas é gostoso mesmo. Esse tal de rocambole.
A senhora Ellen e a Sue comem o rocambole com a maior alegria. Valeu a pena trazer. O duque também come, soltando uns gemidos de prazer.
— Olha, poder comer isto a qualquer hora… tenho inveja do pessoal de Reflet. Se eu usasse a [Gate] como você, ia comprar todo dia.
— Se o senhor quiser, ensino a receita e o modo de fazer ao cozinheiro da mansão. Não é nenhum segredo.
— É sério, Touya?! Mãe, com isto a gente vai poder comer todo dia!
Quem teve uma reação exagerada às minhas palavras foi a Sue. Ô, está babando, filha do duque.
— Francamente, Sue. Comendo todo dia você engorda. Deixa pra dia sim, dia não.
Rindo gostoso, a duquesa repreende. Dia sim, dia não, acho que não muda muita coisa. Da próxima vez que eu vier, se a Sue estiver superinchada, vou sentir um certo peso na consciência…
— E então, é este o tal shogi?
— Sim. É um jogo pra dois; quer experimentar?
Diante do duque, que examina o tabuleiro e as peças, vou alinhando as minhas no meu lado.
— Pai! Eu também!
— Calma, espere. Primeiro eu.
O duque, me imitando, alinha as peças no lado dele. Ah, a torre e o bispo estão trocados de lugar.
— Primeiro, como mover as peças. Esta aqui é o "peão", representa um soldado. Só anda uma casa pra frente, mas, ao entrar no território inimigo…
— Hmm…
O duque vai decorando o movimento das peças, uma a uma. Aprende rápido. Assim, logo melhora.
Mas não demorou muito pra eu me arrepender disso……
— Mais uma! Só mais uma partida! Esta é a última, prometo!
Essa fala eu já ouvi antes…… Resultado: o duque, igual ao Dran-san, se viciou, e fui arrastado pra partida atrás de partida. Já é noite alta, hein…… A Sue, cansada de esperar, dormiu no sofá.
Reparei de novo: este mundo tem pouco entretenimento. Será que é por isso que dá nisso.
— Que coisa interessante. Quero que o meu irmão jogue também!
Já de madrugada, quando finalmente fui liberado, o duque soltou uma coisa absurda. Não me diga que… até o rei vai se viciar… Largar a política por causa de shogi, isso não, hein…
Ah, a chuva parou.