Capítulo 23 – As Ruínas Subterrâneas e o Monstro de Cristal
— Luz, venha; pequena luminária: [Light].
Guiados pela luz que a Lindsey criou no ar, pisamos firme na escada de pedra e avançamos rumo ao subterrâneo.
A escada desce em espiral, num ângulo suave, sem fim. Enquanto a gente andava, brotou uma inquietação boba, como se aquilo fosse dar no próprio inferno.
Por fim, ao término da longa escada, surgiu um amplo corredor de pedra.
Reto pra frente, o fim some na escuridão; não dá pra ver o que há. Uma umidade grudenta pairava, criando um clima dos mais sinistros.
— Q-que… que coisa mais arrepiante… parece que vai aparecer fantasma…
— O-o que é que a senhora está dizendo, Elsie?! Que nada, f-fantasma não vai aparecer coisa nenhuma! ……Né?
Ao murmúrio que a Elsie soltou baixinho, a Yae reage exagerada. Não que importe, mas vocês duas parem de puxar o meu casaco… que assim eu não ando direito…
A Lindsey, por sua vez, avança numa boa pelo corredor de pedra. Que coragem.
À frente, a Lindsey ilumina o corredor com a luz mágica, e a gente vem atrás. A cada passo, o teto vai ficando mais alto, e logo desembocamos num grande salão.
— O que é isto…?
O que havia ali era, ocupando toda a parede da frente, algo que parecia uma espécie de escrita. Numa parede de quatro metros de altura por dez de largura, escrita densa, em várias fileiras seguidas.
Olhando bem, mais que escrita, parece pictograma. Lembrava os caracteres antigos dos incas, astecas, daquela região.
— Lindsey… dá pra ler o que está escrito?
— Não… não entendo nada. Não parece nem língua mágica antiga…
A Lindsey, sem nem virar pra mim, fita atônita a parede à frente.
De fato, isto deve ser uma relíquia histórica. Até eu, leigo, percebo isso. Só que, se me perguntarem se é tesouro, sinceramente acho que não. Dá pra entender a reação do [Search].
Ah, é mesmo, melhor tirar uma foto, por garantia. Empunho o smartphone e, ao apertar o botão de disparo da câmera, dispara um flash ofuscante.
— Uá?! O que é isto?!
Diante do clarão repentino, a Yae e as outras se assustam. Faço sinal de que está tudo bem e mostro o smartphone na mão; todas soltam um suspiro de alívio. Aos poucos elas vão se acostumando com as minhas excentricidades. Não, não é pra eu mesmo chamar de excentricidade.
Tiro várias fotos pra registrar o mural todo. Mas, afinal, por que uma coisa dessas num lugar destes……
— Ei, vem cá! Pessoal, vem cá rapidinho!
A Elsie, que explorava o salão, de repente ergue a voz. Na parede direita do salão, parada diante dela, apontava pra um trecho.
— Aqui, tem alguma coisa incrustada.
Num ponto da parede, bem na altura dos olhos, estava embutida uma pedra losangular, transparente e meio amarronzada. De uns dois centímetros. Joia… é meio suja demais e de qualidade ruim pra isso.
— Isto… é uma pedra mágica. Pedra mágica de atributo Terra. Provavelmente, passando energia mágica, aciona algum mecanismo.
— Algum mecanismo… tipo armadilha?
— Não dá pra descartar… mas armadilha tão na cara assim, normalmente, não existe.
A explicação da Lindsey convence, mas… o que será essa inquietação. Se tem um botão, dá vontade de apertar. E se for uma armadilha que usa justamente esse impulso… Será que estou pensando demais.
— Então, Touya, passa a energia mágica.
— Eu?!
Diante da fala tranquila da Elsie, viro com tudo, sem querer. Pode ser armadilha!
— Ora, o único que tem atributo Terra é você.
Hmm, é verdade. A Lindsey tem fogo e água, e luz; a Elsie, nulo; a Yae não tem atributo. E eu, todos. Bom, fazer o quê… ué…
— …Por que todo mundo se afasta?
— Bom, por via das dúvidas… — os três.
Fuzilo com o olhar todo mundo que se afasta de mim disfarçando com um riso. Solto um suspiro e passo energia mágica pra pedra.
Zzzzzz…… um tremor começou a ressoar e, de repente, a parede à frente toda virou areia e escorreu, abrindo um buraco. Uma porta de abrir bem espalhafatosa.
— Isto… o que é?
Quando espio o fundo da parede que desmoronou, um objeto coberto de poeira e areia estava posto no centro de um cômodo.
Como descrever aquilo… A primeira coisa que me veio foi um inseto. Um grilo. Parece aquilo. De um troço em forma de amêndoa, que dava pra tomar por cabeça, saíam seis pernas finas e compridas. Algumas estavam quebradas.
Do tamanho de um carro compacto, talvez. Lembrava um grilo morto, de pernas arrancadas.
Mas a forma é simples, aerodinâmica; mais que ser vivo, parece máquina.
— O que é isto? Será que é uma estátua?
A Elsie espia de vários ângulos. Olhando bem, no fundo da parte que parecia a cabeça, transparecia, de leve, um objeto vermelho do tamanho de uma bola de beisebol.
Quando tiro a poeira e a areia da superfície, dá pra ver que esse objeto misterioso é feito de um material semitransparente. …Vidro, será? Está escuro, não dá pra ver direito… hm?
— Lindsey… a magia [Light] tinha a duração tão curta assim?
— Hã? É verdade que eu não sou boa em Luz… mas mesmo assim a [Light] dura umas duas horas.
Como quem se sente injustiçada, a Lindsey enche as bochechas, mas, ao olhar a esfera de luz que paira no ar, inclina a cabeça.
— Ué? A luz parece estar enfraquecendo…
— Parece, nada. Está enfraquecendo, com certeza. Isto…
— Touya!
Ao grito da Yae, viro o olhar de volta; a bola vermelha no fundo da cabeça do grilo tinha começado a brilhar. O corpo do grilo vibra miudinho.
— Touya-san! A energia mágica da [Light] está sendo absorvida por aquilo!
A luz enfraqueceu por isso! O brilho da bola só aumenta, e o grilo começa a mover o corpo aos poucos. Não me diga… isto está vivo?! As pernas quebradas, sem eu perceber, estão se regenerando. Absorveu energia mágica e voltou a se ativar?!
Kiiiiiiiin!
Kiiiiiiiin!
Kiiiiiiiin!
— Ugh… isto…!
Um som agudo, como um zumbido no ouvido, ecoou ao redor. Refletindo pelo cômodo, um impacto que fazia o corpo todo tremer. As paredes começam a rachar, criic. Essa não! Assim a gente vai ser soterrado!
— [Gate]!
Faço surgir à frente um portal de luz e mando todos, um a um, pra superfície. Por último, quando eu ia cruzar o portal, o grilo se ergueu e esticou uma das pernas na minha direção, com uma velocidade absurda. De uns cinco metros de distância, ela se esticou até mim de verdade, feito uma lança.
Rolo pra fora da [Gate] e saio na superfície. A [Gate] se fecha na hora, e diante de mim se abrem as ruínas. Pelo visto não fomos soterrados.
— O que era aquilo?
— Nunca vi um monstro assim…
Enquanto a Elsie e a Yae, fitando a entrada do subterrâneo, conversavam tensas, gogogogo… de novo um tremor de terra ressoou.
No fundo das ruínas, junto com um estrondo, sobe uma nuvem de poeira. Provavelmente o salão subterrâneo desabou. Aquele monstro-grilo também não teria escapatória, esmagado no meio… é o que eu acho.
Todos prendem a respiração, e o silêncio domina o lugar.
…Kiiiin….
Esse som… não me diga…
Kiiiiiiin…
Vem aí…!
Kiiiiiiiin!
Dóca! Rompendo o chão, aquilo surgiu na superfície.
Cabeça em forma de amêndoa, dela seis pernas finas e compridas. Sob o sol, o corpo de cristal reluz. Aquela criatura semitransparente seria uma forma de vida cristalina?
O grilo de novo estica uma perna e a varre de lado. A parede de ruína que estava atrás de mim, que me agachei e esquivei, é cortada como se fosse tofu. Que poder de corte.
— Fogo, venha; rajada rubra: [Fire Arrow]!
A Lindsey dispara flechas de fogo em sequência contra o grilo. Mas o grilo, sem nem esquivar, recebe tudo numa boa. As flechas de fogo somem uma a uma, como se sugadas pra dentro dele.
— A magia foi absorvida?!
— Tch… então!
A Yae desembainha e desfere um golpe na cabeça do grilo. Mas tudo o que conseguiu foi um arranhãozinho.
— Que dureza!
— Seu… maldito!
Em seguida, a Elsie desfere um soco reto no flanco do grilo. Balançou de leve, mas, de novo, não consegue fazer um estrago de verdade.
Mirando a Elsie, a perna do grilo se estica. A um triz de ser espetada, ela esquiva.
— O que a gente faz com isto?!
Magia é absorvida, lâmina não passa. O que fazer…! …Peraí, mesmo que magia de ataque não funcione nele, de forma indireta talvez… Vou tentar.
— [Slip]!
No instante em que zerei o atrito sob os pés do grilo, ele tomba espetacularmente. Boa!
— Lindsey! Magia direta nele não funciona, mas indireta tem efeito!
— Saquei… entendi! Gelo, venha; grande bloco de gelo: [Ice Rock]!
A Lindsey recita a magia de gelo. Sobre a cabeça do grilo surge um bloco enorme de gelo, que despenca e o esmaga. Boa! Ataque direto de energia mágica é absorvido, mas o objeto que a energia mágica cria, ele não consegue absorver.
— Giii!
Com um rangido de porta enferrujada, o grilo vacila. Mas, mesmo com ataque por objeto criado por magia, aquela dureza só sofre dano leve.
Contra o monstro imobilizado, a Elsie se lança feito bala.
— [Boost]… no máaaximo!
Usando o [Boost], a magia de nulo que aumenta a capacidade física, ela desfere um chute com toda a força contra a perna fina e comprida do grilo.
No instante seguinte, com um som de vidro estilhaçando, uma das pernas dele se parte.
— Consegui!
Não é que não dê pra ferir. Se a gente consegue causar algum dano, uma hora dá pra derrotar!
— Gi… giiiii!
De repente, o grilo solta um rugido e a bola vermelha da cabeça brilha. Como em resposta, a perna que tinha se partido vai se regenerando. Ô, não pode ser…
— Regenerou…
Sobre a Elsie, atônita, a perna regenerada parte pra cima. Num instante de brecha, ela erra o momento de esquivar, e a perna se crava fundo no ombro direito dela.
— Ugh…!
— Maninha!
A Elsie pula pra trás na hora e foge do ataque seguinte. Do ombro, o sangue jorra, sujando a roupa da parte de cima. Suando frio, ela enfim cai de joelhos.
— Yae! Lindsey! Segurem ele!
As duas assentem; a Yae confunde o monstro com a velocidade, e a Lindsey volta a derrubar blocos de gelo. Na brecha em que a atenção do grilo se volta pras duas, eu corro até a Elsie e lanço magia de cura. Envolvido por uma luz suave, o ferimento do ombro vai se fechando aos poucos, e logo o sangue para.
— Obrigada… já estou bem…
Bem é que ela não está. Mesmo fechada a ferida, o dano não deve ter sumido.
Capacidade de regeneração, absorção de magia, dureza anormal… como derrotar isso…? Não tem algum ponto fraco?
— Por mais que a gente quebre o corpo dele, se regenera, não tem jeito…!
— …Pensando bem… quando a gente achou ele, o corpo estava quebrado o tempo todo. Por quê……?
Deixa eu ver… ele absorveu a magia da Lindsey e aí se regenerou… Pra regenerar precisa de energia mágica. Aliás, naquela hora também a esfera da cabeça brilhava. Será que aquela bola vermelha da cabeça é o núcleo……?
— Elsie, vem cá um pouco…
Conto pra Elsie o que me ocorreu.
— Hã? Dá pra fazer isso?!
— Não sei… Mas vale a pena tentar.
— …Tá bom.
Soltando o ar, fffu, concentro a energia mágica no grilo e imagino aquele objeto. Como o corpo é transparente, dá pra ver bem!
— [Apport]!
Na minha mão surge um cristal vermelho de brilho baço. Boa, deu certo!
— Elsie!
— [Boost]!
Mirando a bola que arremessei, o punho reforçado da Elsie desce com tudo. Prensado entre o chão e o punho, o objeto se estilhaça em mil pedaços com um paquímm.
— Com isto… e agora?!
Sem o núcleo, o grilo para de se mexer. Logo o corpo todo racha e desmorona, gararrá. Reluzindo ao sol, o monstro de cristal enfim tomba.
Por um tempo a gente ficou atento, achando que ele ia se regenerar de novo, mas, por mais que esperássemos, o monstro de cristal não ressuscitou.
— Ufa……
Solta a tensão que me apertava, eu sento no chão. Foi um chute, mas ainda bem que deu certo. Quando olho pro lado, a Elsie e a Yae também estavam sentadas.
A Lindsey pegava um fragmento do monstro quebrado e examinava alguma coisa.
— Quem sabe isto seja um material parecido com a pedra mágica…
— Com a pedra mágica?
— A característica da pedra mágica é amplificar, acumular e liberar energia mágica. Este monstro absorvia a energia mágica dos outros e a usava na própria regeneração… não, talvez também naquela capacidade de defesa… Absorver, acumular, liberar… é parecido com a característica da pedra mágica.
Será que ele não consegue produzir energia mágica sozinho…? Por isso, dentro das ruínas, ficava inativo…? É um enigma atrás do outro.
— Será que a gente devia reportar isto à guilda…?
— Não, ruínas subterrâneas e tal… pensando que aqui era a antiga Capital, melhor avisar um órgão do Estado. Vamos falar com o duque.
Faz sentido. Melhor assim.
Vamos logo até a casa ducal.
— [Gate].
— Sei, ruínas dessas na antiga Capital…
O duque cruza os braços, pensativo, e se recosta na cadeira. A Sue e a senhora Ellen pareciam ter saído; pra nossa pena, não estavam. Fomos levados à sala de visitas e contamos ao duque o ocorrido.
— Entendi. Isto pode ter a ver com a Casa Real. Vou mandar do Estado uma equipe de investigação, pra examinar. E o monstro também, claro.
— Ah… o subterrâneo desmoronou, então investigar pode ser difícil…
— Quê? Ah, sei… eu estava curioso pra saber o que estava escrito naquele mural…
O duque baixa os ombros, decepcionado. Acabei fazendo uma coisa ruim… Não, quem destruiu as ruínas não fomos nós, mas.
— Ah, mas, se for foto do mural, eu tenho, então talvez dê pra dar um jeito.
— "Foto"?
Abro a galeria no aplicativo de câmera do smartphone e mostro ao duque.
— Q-que é isto?!
— É uma magia minha de atributo nulo que registra imagens.
— O-ora… como sempre, você é impressionante…
Numa lábia descarada, o duque cai fácil na mentira. Foi mal, desculpa. É que explicar é complicado.
— Se o senhor me der um tempo, eu copio e entrego.
— Por favor. Quem sabe ali esteja registrado o mistério da transferência de mil anos atrás.
Ah, então nem o Estado sabe por que houve a transferência. Normalmente esse tipo de coisa o Estado registra, eu acho. Não, talvez, como o duque diz, aquele mural registre a causa da transferência. E sobre o monstro de cristal também pode estar escrito algo.
O ponto fraco daquele monstro a gente já sabe. Se voltarmos a enfrentar um, acho que provavelmente vencemos.
Mas tem algo que me incomoda. Não consigo tirar da cabeça a sensação de que o motivo de a antiga Capital ter virado aquela ruína toda esteja ligado àquele monstro.
Carregando essa inquietação difusa, deixamos o resto a cargo do duque e nos despedimos da mansão.