Capítulo 32 – Sentimento de Culpa e a Magia Antiga
Depois de voltar com a Yae pra "Lua de Prata", resolvi testar um pouco no meu quarto.
Deu pra imbuir magia num aplicativo. Talvez dê pra fazer mais coisas.
Por exemplo, a magia de nulo [Long Sense], que manda os cinco sentidos pra um lugar distante. Se eu imbuir isto no aplicativo de câmera…
— [Enchant]: [Long Sense].
Por ora, testei. Aí, o que entrava no meu campo de visão aparecia na tela do aplicativo de câmera. Com a sensação de usar [Long Sense], mando a visão. Atravesso a parede do quarto e vejo, dois quartos adiante, o interior do quarto da Lindsey. A Lindsey não está. Parece fora. É mesmo, ela tinha dito que ia às compras com a Elsie.
Olho a tela do smartphone e, igualmente, aparece o interior do quarto da Lindsey. Sensação estranha. O campo de visão na minha cabeça se divide em tela de cima e tela de baixo. A visão real dos olhos e a visão pelo [Long Sense].
Nesse estado, aperto o disparador do smartphone… e. Tirou. Deu certo. Na foto aparece o quarto da Lindsey.
Com isto dá pra fotografar a longa distância. E mais, dá pra entrar e fotografar até um quarto fechado. Provavelmente, do mesmo jeito, dá pra fazer vídeo também, deve dar.
Aí ouço o som da porta abrindo e, quando ergo o olhar (mental), a Lindsey estava no quarto. Ah, voltou. Será que a Elsie também.
Enquanto eu pensava nisso, a Lindsey tira o casaco e começa a soltar os botões da blusa. Uma pele branca e ofuscante salta aos meus olhos. Uoouá?!
Essa não! Vacilei, mas isto aqui, sem dúvida, é espiar! Às pressas, desativo o [Long Sense].
Foi por pouco… Mais um pouco e eu via tudo… ué? …Foi por pouco… mesmo…?
Não! Não, não! Se descobrissem, eu perderia a confiança de todos. Isso não pode! Recuperar a confiança perdida dá um trabalhão. A minha decisão não está errada! …Acho. Não, mesmo que eu continuasse vendo, acho que não descobririam… acho, mas… tch.
— …Touya-san. Posso?
— A-ahhi?! Q-que foi?!
Aos meus ouvidos, que começavam a se atormentar, chegam batidas na porta e a voz da menina que eu via agora há pouco. Às pressas escondo o smartphone no bolso. Logo a porta abre e a Lindsey, já trocada, aparece.
— …? Aconteceu algo?
— Nada! Não foi nada! E-e aí, prethisa de alguma coisa?
Tropecei na língua. Calma, eu!
— …Hoje, na loja de antiguidades, achei e comprei isto……
A Lindsey me estende algo parecido com um rolo. Num tubo de madeira, enrolado um troço como pergaminho. Olho o conteúdo, e estava todo escrito com letras que eu não entendo.
— O que é isto?
— Acho que é um pergaminho mágico. Só que está escrito em língua mágica antiga, então eu só leio uma parte…
Saquei. Por isso veio a mim. Pego logo uma taça que estava na mesa, tiro uma moeda de prata da carteira e, com [Modeling], faço um óculos. E, no óculos pronto, com [Enchant], imbuo o [Reading]: pronto o óculos de tradução.
É diferente do que dei à Charlotte-san — língua espiritual antiga e língua mágica antiga são coisas distintas. A diferença entre as línguas eu não faço a menor ideia.
Entrego o pronto a ela. Ao pôr o óculos, a Lindsey ficou parecendo uma estudiosa, combinou bastante. Uma Lindsey assim também é fofa.
De óculos, ela voltou os olhos pro pergaminho mágico aberto.
— …! Que incrível. Eu tinha ouvido falar, mas leio com fluência.
A Lindsey, acompanhando o pergaminho com os olhos, solta uma exclamação de espanto.
— O que está escrito?
— Uma magia antiga. Parece magia do atributo de água… [Bubble Bomb]… será uma magia de ataque?
A Lindsey segue lendo o pergaminho, concentrada. Pelo visto consegui ser útil. Eu tinha o peso na consciência de ter espiado, mas senti que paguei um pouquinho.
A Lindsey quis testar na hora, mas já não dava tempo; combinamos pra amanhã e, por hoje, ela deixou pra lá.
Depois que ela saiu do quarto, apaguei na hora as fotos do quarto dela. Apagar provas nunca é demais. Não quero o título de tarado bisbilhoteiro.
Mas, é o seguinte…… [Apport] pra furtar, [Long Sense] pra espiar, [Gate] pra invadir casa. Câmera + [Long Sense] pra fotografar escondido… Sinto que as minhas habilidades de criminoso só aumentam……
Jurei a mim mesmo evitar atitudes que levantem suspeita.
No dia seguinte, fui com a Lindsey à floresta a leste. Como já estive aqui, dá pra vir fácil pela [Gate], e tem uma clareira no meio da mata, ótima pra praticar magia. Claro, fora magia de fogo, que causa incêndio.
Avançamos pela mata e saímos na clareira. A Lindsey tira logo o pergaminho de ontem, põe o óculos de tradução, lê várias vezes com atenção e, empunhando a varinha de prata, concentra a energia mágica.
— Água, venha; espuma de impacto: [Bubble Bomb].
Em volta da varinha que a Lindsey empunha, pequenos aglomerados de água começam a se juntar, mas logo estouram e caem no chão. Falhou, deve ter.
Ela empunha a varinha de novo e concentra a energia mágica.
— Água, venha; espuma de impacto: [Bubble Bomb].
De novo nascem bolas de água em volta da varinha e, como antes, estouram e caem. Falhou de novo. Bom, é "magia antiga", não deve ser fácil de dominar.
A Lindsey relê o pergaminho mais uma vez e empunha a varinha. E falha de novo.
Depois disso tentou ativar várias vezes, mas tudo, ao se afastar um pouco da varinha, estourava e caía no chão. Falha atrás de falha.
Passadas umas dez tentativas, a Lindsey cambaleia, cai de joelhos e desaba. Corro às pressas e a amparo nos braços.
— Lindsey?! Você está bem?!
— …E-estou… é só esgotamento de energia… mágica… Ficando em repouso… um tempo… passa……
De olhos vagos, sem forças, a Lindsey responde. Então é este o estado de esgotamento de energia mágica. Mas não dá pra deixar assim.
— …Ah…? T-Touya, san…?!
Com a Lindsey de consciência turva, a tomo no colo e abro a [Gate]. Nos meus braços, a Lindsey, talvez sentindo dor em algum lugar, enrijecia o corpo e ficava com o rosto vermelho, mas pedi que aguentasse um pouco.
Saio no quintal dos fundos da "Lua de Prata", entro, subo a escada e abro a porta do quarto dela. Deito a Lindsey com cuidado na cama no canto do quarto. O rosto ainda está vermelho, será que está tudo bem? Ponho a mão na testa pra medir a febre.
— …H-hauu…!
— Não tem febre. Espera, vou chamar a Elsie.
Chamo a Elsie do quarto ao lado e peço pra ela tirar o equipamento da Lindsey. Não dá pra eu ficar tocando o corpo dela pra tirar.
Por ora, deixo o resto com a Elsie e saio do quarto. Treinar até esgotar a energia mágica… séria, ou esforçada. Igual à Charlotte-san; será que mago é gente desse tipo, de índole reta. Persistente, deve ser.
No dia seguinte, a Lindsey estava totalmente recuperada. Esgotamento de energia mágica, com repouso, recupera em cerca de um dia, pelo visto.
— …Ontem, eu, d-dei trabalho, me desculpe!
A Lindsey me pediu mil desculpas pelo de ontem, mas acho que ela não fez nada que me devesse desculpa.
Hoje fomos de novo à floresta a leste e treinamos como ontem.
A Lindsey falha e recomeça, falha e recomeça. Eu fiquei o tempo todo ao lado vendo, mas, quando ela falhou pela nona vez, mandei parar. Mais que isso e ela desaba de novo, como ontem.
— Vamos descansar um pouco, Lindsey.
— …Sim.
Entrego o cantil de chá que tinha trazido.
— Conseguiu pegar alguma coisa?
— …Não, nada. A ativação da magia depende muito do conhecimento dela, então magia que a gente nunca viu é difícil mesmo…
Saquei. Como ela nunca viu que tipo de magia é, não consegue formar uma imagem clara.
Depois disso descansamos uma hora, mas a energia mágica não recuperou muito, e, depois de umas duas falhas, a Lindsey vacilou, então encerramos o dia ali.
No dia seguinte e no outro, a Lindsey seguiu treinando. Todo dia, até o limite da energia mágica. Como em uma hora de treino a energia dela acaba, depois é só repouso. Sinceramente, não me parecia muito eficiente.
— Mas você se esforça mesmo, Lindsey. Falha tantas vezes e não desiste.
— …Eu sou desajeitada… Repetindo a mesma coisa muitas e muitas vezes… é que enfim consigo aprender uma magia. Sempre foi assim. Então, não é nada de mais.
Dizendo isso, a Lindsey sorri. Que força a desta menina. Persistência é poder. Ela entende bem que não desistir é o mais importante pro próprio crescimento.
Mas, de fato, a ineficiência é real. Se ela pudesse treinar mais vezes…… Hmm… vou consultar a Charlotte-san. Dizem que é a maior maga do país.
Antes de a energia mágica acabar, paramos o treino, voltamos pra pousada e eu, com a Yumina, saltei pela [Gate] até a Charlotte-san, no castelo. Sem a Yumina, andar pelo castelo é difícil… Sou um sujeito totalmente suspeito…
A Charlotte-san estava na torre de pesquisa do castelo, mas, por algum motivo, com olheiras. Anda dormindo pouco. Ainda assim me atendeu e indicou uma solução. Depois, me fez prometer colaborar na pesquisa dela, mas…
No dia seguinte, de novo na floresta a leste com a Lindsey. Hoje o mesmo treino, falha atrás de falha. Quando chega ao ponto de a energia mágica esgotar, a Lindsey ela mesma encerra o treino. Daqui é a minha vez.
— Lindsey, vem aqui.
— …? Que foi?
Pego firme as duas mãos da Lindsey, que veio à minha frente.
— F-fuá?! Q-que ihso?!
— Calma. Relaxa.
— R-relaxa?!
— É… afrouxa o corpo.
Acalmo a Lindsey atrapalhada, concentro a energia mágica e ativo a magia de nulo cuja existência e efeito a Charlotte-san me ensinou. As minhas duas mãos brilham de leve.
— [Transfer].
— Hã?!
Uma luz suave passa das minhas mãos pra Lindsey, e ela, ao recebê-la, solta um grito de espanto. Pelo visto deu certo.
— A energia mágica… recuperou. Como assim… num instante?
A magia de nulo [Transfer]. Uma magia que transfere a própria energia mágica pra outra pessoa. Há alguns usuários desta magia, pelo visto, e o mestre que ensinou magia à Charlotte-san também usava.
Pelo que disse, ela era obrigada a usar magia até desabar, depois recuperavam a energia dela, e de novo usar magia até desabar — esse era o treino. Um carrasco, esse cara.
Mas eu faço o mesmo com a Lindsey. Sem ser forçado, como o mestre da Charlotte-san fazia.
Só agora me dei conta: transferi energia mágica suficiente pra recuperar totalmente a Lindsey, e mesmo assim é menos do que a energia que se gasta pra manter a existência do Kohaku. Ou seja, está dentro da minha recuperação natural. E a energia mágica da Lindsey não é nem um pouco baixa, dizem. Quanta energia eu tenho, afinal……
Enfim, com isto a Lindsey pode treinar magia sem se preocupar com esgotamento.
— Água, venha; espuma de impacto: [Bubble Bomb].
A partir daí a Lindsey treinou a magia por horas a fio, sem parar. Que concentração. Mas, deste jeito, mesmo a energia mágica dando conta, o corpo é que não aguenta.
Por ora, faço ela descansar.
— É difícil mesmo… Não consigo, de jeito nenhum, pegar a ideia geral desta magia……
— Sei……
É difícil mesmo, magia antiga. Bom, é magia que quase ninguém usa, então não tem modelo. Sem firmar a própria imagem, não tem como avançar.
— …Se ao menos eu soubesse o que "[Bubble Bomb]" significa, já ajudava um pouco……
— ………………Como?
À fala da Lindsey, soltei uma voz de pateta. Hã? Como assim?
— O significado de "[Bubble Bomb]"?
— …? Sim. O nome próprio de uma magia tem um significado, dizem. Por exemplo, o "fire" de "[Fire Storm]" é fogo……
— Não, não, não, não, não é isso.
Ué? Inglês… e tal não é traduzido pra eles? O significado não chega direto, só o som?
Pego o pergaminho com a Lindsey e leio com o [Reading]. ………Dá pra ler "Bubble Bomb" em katakana. Ah, então é isso……
Saber a palavra "[Fire Ball]" não significa entender o sentido dela, é. Eles parecem ter sacado que "fire", de "[Fire Ball]", "[Fire Arrow]", "[Fire Storm]", é uma palavra que indica fogo, só isso.
Hã, então todo mundo gritava nomes de magia sem nem saber o significado? Que coisa estranha… não dá pra entender. Outras pessoas também não usavam palavras em inglês? "Ice" = gelo, alguém falou, eu acho. Deus, a sua função de tradução está com defeito. ……Será que só "bubble" e "bomb" saem errados. As duas pouco se usam na conversa do dia a dia…
— …? O que foi?
— Ah, nada… "Bubble" é bolha, "bomb" é bomba.
— Bomba?
— É… uma coisa que explode. Tipo a magia [Explosion] que você usa.
Quando expliquei, a Lindsey ficou um tempo calada, pensativa, e, ao erguer o rosto, empunhou de novo a varinha e começou a ativar a magia.
— Água, venha; espuma de impacto: [Bubble Bomb].
Em volta da varinha surge um aglomerado de água… não, uma bola tipo bolha de sabão, e começa a flutuar suave.
A bola tem uns 20 centímetros de diâmetro. Dá pra movê-la pela vontade da Lindsey; por um tempo ela a deixou flutuar livre no ar e, depois, lançou a bola contra uma árvore.
No instante, um estrondo absurdo ecoa, e a árvore atingida voa em mil pedaços.
A gente olhava a cena, pasmo, e a Lindsey enfim murmurou baixinho.
— …Consegui……
Então é esta a magia antiga [Bubble Bomb]. Que poder absurdo……
Em seguida a Lindsey usa o [Bubble Bomb] de novo. Desta vez surgem cinco, seis bolas de uma vez, que voam em linha reta pra mata. Ao tocarem as árvores, explosões em cadeia estouram e, num golpe, as árvores são derrubadas.
Que poder absurdo…… A Lindsey corre até mim e baixa a cabeça.
— Consegui completar graças ao Touya-san. Muito obrigada.
— Que nada, foi o esforço da Lindsey que deu fruto. Eu só ajudei um pouco.
Receber agradecimento de novo me dá vergonha. E acho que a Lindsey, que tentou e tentou sem desistir, é que é incrível. Uma esforçada que cresce de forma sólida, do que consegue, um passo de cada vez. É essa a essência desta menina.
Que bom que pude conhecer um novo lado da Lindsey. Pensando nisso, abri a [Gate] de volta pra "Lua de Prata".