Capítulo 237
— Como o senhor descobriu que eu era mulher?
— …Pelo contrário, o estranho é imaginar que não seria descoberta. Homem e mulher têm estruturas ósseas bem diferentes. Não importa quanto pano você enrole com força no peito, não faz diferença nenhuma.
Kate disse isso rapidamente, com um ar de puro desânimo. Todos os outros ao redor concordaram, balançando a cabeça.
— O pessoal do batalhão nunca percebeu.
Diante do meu murmúrio baixo, Mark reagiu.
— Aqueles ali pensam que força é mais importante que cérebro. Mesmo que se espalhasse que você é mulher, você provavelmente conseguiria calar a boca deles pela força mesmo assim.
— Adoraria ver a cara deles ao descobrir que perderam pra uma mulher.
Victor deu um sorriso maroto, com uma expressão animada de líder de gangue infantil.
— Essa aí é bem competente. Ou melhor, nunca vi um pirralho desses antes.
— Vocês estão falando "pirralha, pirralha" o tempo todo, que irritante. Hoje eu faço dezesseis anos, viu.
Diante das minhas palavras, todos ficaram paralisados.
Ah, será que eu disse algo tão estranho assim? Eu também sou gente, é natural envelhecer.
— Hoje é seu aniversário?
Victor abriu a boca, ainda de olhos arregalados.
— É isso mesmo. …Espera, tem algum problema com isso?
— Já dá pra beber, então.
— Espera, isso não é ilegal?
Sempre me disseram que bebida e cigarro só a partir dos vinte anos, viu. Ou melhor, normalmente, quando alguém fala do próprio aniversário, o mínimo que se diz, mesmo sem sinceridade, é "parabéns", não é?
…Não devia esperar normalidade nenhuma vindo do Victor.
— No reino de Lavarre isso é legal. Não sei como é no seu reino de origem.
— Que reino de origem seria esse, afinal?
Respondi de imediato, mas, no fundo, fiquei extremamente nervosa.
Desde quando será que ele descobriu que eu não sou deste reino?
…Será que foi por causa dos meus olhos? Mas eu falei a língua antiga de Lavarre direitinho. Achei que tinha interpretado perfeitamente uma pessoa deste reino, sem falha nenhuma.
— Então, a mocinha não é deste reino. Que interessante.
Kate demonstrou interesse imediato em mim. O jeito como ele me olhava era como quem descobriu uma nova espécie de flor.
— Na verdade, eu também não sou daqui.
Já sabia disso.
— A partir de hoje, esses três aqui serão seus tutores.
…O quê?
Diante da proposta do Victor, minha boca se abriu sem querer.
Até os avôs pareciam surpresos, ouvindo isso pela primeira vez, mas mantiveram a expressão contida.
— Por que o senhor pediria justamente ao cérebro deste reino que cuidasse da minha educação?
Victor não respondeu nada. Continuei falando.
— Como o próprio príncipe disse, é possível que eu não seja deste reino. Talvez eu até me rebele algum dia. Mesmo assim, o senhor quer me fazer crescer… o que exatamente o senhor quer com isso?
— …Você está pensando demais. É só uma oportunidade de aprendizado que estou dando a um subordinado. Aceite como presente de aniversário.
— De fato, conhecimento é o presente mais bem-vindo que existe, mas…
— É a primeira vez que uma mulher diz uma coisa dessas.
— Não faz sentido você fazer isso, sem nenhum benefício, por um mero subordinado. Com certeza tem algo por trás disso.
— O que você acha que tem por trás disso?
Por que ele está me fazendo dizer isso, afinal? Caí direitinho na pergunta do Victor.
— O senhor está superestimando muito minha capacidade. Não sou uma pessoa tão impressionante assim. O príncipe deve pensar que eu sou excepcional em estudo e combate, mas não sou útil o suficiente pra servir de verdade a você.
Diante das minhas palavras, ele respondeu depois de uma pequena pausa.
— É porque você não é deste reino? Ou existe alguém mais a quem você quer servir de verdade?
Não importa qual eu responda, ele vai descobrir que não sou deste reino. …Bom, isso já deve ter sido descoberto mesmo.
Não existe ninguém que trabalhe sob as ordens de um príncipe sem jurar lealdade a ele.
Enquanto eu ficava calada, o príncipe soltou um suspiro pequeno.
— Tudo bem. Eu também não esperava tanto de você mesmo. …Já pode ir.
Será que ele já se cansou de mim? Faz sentido, não precisa de subordinado que não obedece.
— Então, com licença.
Falei isso, virei as costas pro príncipe e tentei sair do local.
No instante em que saí do quarto, ouvi a voz do príncipe atrás de mim.
— Bom, se você vai aprender alguma coisa com esses três aí depende inteiramente da sua própria capacidade.
…Ou seja, a menos que eles reconheçam meu valor, não vou aprender absolutamente nada. Se eu não tiver capacidade, sou descartada.
A escolha não está nas minhas mãos, está nas deles.
Adoro esse tipo de situação. Isso sim me acende de vontade.