Capítulo 239
— Bom, não é que morre com certeza, viu.
Talvez tivesse ouvido minha conversa com o Keres, o Vice-capitão Neel interveio de lado.
— É só uma lenda mesmo, né.
— Mais do que "morre", é mais correto dizer que ninguém que entrou lá voltou.
— Ou seja, é tipo um caso de desaparecimento…
— Existe essa possibilidade também.
— Nunca teve ninguém que voltou de lá?
— Teve, sim, gente que voltou, mas nunca ouvi ninguém contar histórias sobre a "Chaleira".
…Que droga, o Keres e o Vice-capitão Neel estavam tendo uma conversa séria, e eu quase caí na risada por causa do apelido "Chaleira".
Deve ser justamente por ter sido escolhido pra expedição que, mesmo ouvindo esses boatos sobre a "Chaleira", o Keres não fraquejou nem um pouco. Muito pelo contrário, ele apertou o rosto, decidido, se preparando mentalmente.
— Será que a gente também não vai conseguir voltar?
— O quê, ficou com medo do nada?
— Não, é que não acho que o príncipe entraria de propósito num plano sem nenhuma chance de sucesso.
A primeira pessoa a reagir às minhas palavras foi o meu avô. Ele deu um sorriso leve.
Ah, então ele estava mesmo prestando atenção no que eu dizia.
— Bom, é verdade mesmo. Sua Alteza é perspicaz.
O Vice-capitão Neel olhou pro Victor com um olhar de respeito.
Um pouco tirano, mas com carisma e capacidade de ação. Mesmo contrariada, tenho que admitir que ele tem, sim, um temperamento de rei.
Mesmo sem saber quem eu sou de verdade, ele me colocou no batalhão só por eu ser útil, e ainda me apresentou aos meus avôs. Se eu não tivesse capacidade, seria completamente descartada, mas eu não odeio esse tipo de mundo.
Não depender de um sistema hereditário e tentar construir um reino com as próprias mãos — esse tipo de ambição merece reconhecimento. …Bom, e aqui, ele é reconhecido mesmo.
— A—
— Já estamos quase chegando ao destino.
No exato instante em que eu ia perguntar algo pro Vice-capitão Neel, a voz grossa do Capitão Marius ecoou nos meus ouvidos.
Ia perguntar se existia algum tipo de oposição ao Victor, mas não seria uma boa ideia perguntar isso justo pro Vice-capitão Neel, que admira tanto o príncipe.
— Ooh.
Um dos soldados, Gerald, finalmente soltou um som.
Arregalei os olhos diante do enorme lago cinza, lamacento, de profundidade desconhecida, bem à nossa frente.
…Nunca vi um lago tão sujo assim antes. Parece uma fonte termal de lama. E, ainda por cima, exalava um mau cheiro absurdo.
Faz uns quinze minutos, mais ou menos, desde que entramos na "Chaleira" a cavalo. Sinto que não passou tanto tempo assim. Essa floresta é escura desde o momento em que entramos, então é difícil ter noção de quanto tempo se passou.
— Difícil dizer, mesmo com boa vontade, que isso é bonito.
— É que o lago inteiro é veneno.
Victor desceu do cavalo, aproximou o rosto do lago que borbulhava pequenas bolhas, e respondeu ao meu comentário solto.
— Que tipo de veneno, exatamente?
— Quer experimentar bebendo?
— Passo, obrigada.
Por que será que uso tratamento formal com o Capitão Marius e o Vice-capitão Neel, mas com o príncipe eu falo de forma mais informal?
— O veneno muda de efeito dependendo da pessoa. Se beber, pode morrer, pode vomitar sangue, ou, se for leve, só dá dor de barriga e dor de cabeça. Também tem gente que fica com o corpo todo coçando, ou que perde o equilíbrio emocional.
— Quer dizer, enlouquece?
— Isso mesmo.
— Você já conheceu alguém assim…
Diante das minhas palavras, a expressão do Victor ficou um pouco tensa.
Sem tocar mais no assunto das pessoas afetadas pelo veneno, fomos direto ao ponto principal.
— Então, o que a gente faz com esse lago sujo?