Capítulo 241 – Onze Anos, Jill
Onze anos, Jill.
Por algum motivo, sou eu quem está mais tenso.
O vovô caminhava pelo palácio real com passos firmes e seguros, sem hesitar nem um pouco. A expressão dele quase não mudou desde que saímos do vilarejo da pobreza até chegar aqui.
Quando saiu do vilarejo e encontrou o Duke, ele só disse "quanto tempo" e apertou a mão dele rapidamente, terminando por aí. Achei que fosse ficar mais emocionado, já que estava vendo o sol depois de mais de uma década.
Dentro da carruagem, no caminho até aqui, também quase não conversamos. O vovô só ficou em silêncio, observando a paisagem lá fora.
Será que ele não sente alegria nenhuma por finalmente estar de volta ao mundo exterior?
Nos olhos dele, olhando pra paisagem, não dava pra ver nenhum sinal de felicidade.
Talvez ele esteja se preparando mentalmente, tenso, pra encontrar o rei. Mas o rosto do vovô também parece transmitir uma certa tranquilidade…
Não cruzamos com nenhum dos criados do castelo. Deve ter sido coisa do Duke, que mexeu os pauzinhos por trás.
Como será que o Duke está se sentindo? O que será que ele está pensando, afinal? O Duke nunca revelou completamente o que se passa na cabeça dele. Sempre mantém em segredo o que está tramando.
— Antigamente, uma vez, corri em disparada por aqui e levei uma bronca do meu pai.
De repente, o vovô abriu a boca. Caminhando por um corredor sem uma partícula de poeira sequer, ouvi atentamente aquelas palavras.
O pai do vovô é o antigo rei, né.
— Eu sempre achei que o vovô fosse uma pessoa calma e tranquila desde sempre.
Olhando pra ele agora, é difícil imaginar aquela figura correndo a toda velocidade.
O vovô riu de leve diante das minhas palavras.
— Meu tutor particular sempre dizia, lamentando, que eu era incontrolável.
— Espera, o que você fazia…
— Decorava de cabo a rabo os livros que meu tutor escrevia, e depois debochava do conteúdo bem na cara dele. Também fazia de propósito notas ruins nas provas que eu prestava atenção nas aulas, e tirava nota máxima nas provas de aulas em que eu dormia o tempo todo.
— Não acredito.
Fiquei surpreso. Sempre achei que o vovô fosse um aluno exemplar e sério desde criança.
— Mais do que travesso, eu era um moleque pentelho mesmo.
Ele fez uma expressão que eu nunca tinha visto antes. Um sorriso inocente de garoto.
— Adoraria ter conhecido o vovô daquela época.
— Eu também envelheci, hein.
No exato instante em que o vovô disse isso, chegamos em frente àquela mesma porta grande e imponente de antes.
O lugar da audiência com o rei. Pro vovô, é o primeiro reencontro em décadas. E, ainda por cima, com um irmão de quem se separou da pior forma possível.
…Nunca vi a mãe do rei até hoje. Talvez, hoje, ela esteja do outro lado dessa porta.
Só agora comecei a sentir um certo arrependimento. Talvez não devesse ter trazido o vovô até aqui com tanta facilidade assim. Talvez fosse melhor ter agido com mais cautela.
— Vovô, eu não sou tão forte assim, mas, mesmo assim, vou te proteger.
— …Obrigado.
O vovô deu um sorriso suave e afagou minha cabeça, me olhando com olhos gentis.
Eu adoro essa mão grande, um pouco áspera.
— Aqui não tem ninguém que vá atrapalhar a conversa entre meu tio e meu pai.
Duke disse isso olhando diretamente pro vovô.
Foi a primeira vez que ouvi ele usar tratamento formal. De alguma forma, isso soou meio novidade.
— Meu sobrinho não deixa brecha nenhuma, hein.
— O senhor também não.
— Perco pra uma criança que, assim que soube que a Alicia tinha contado sobre o vilarejo da pobreza na frente das cinco grandes famílias quando ainda era pequena, me mandou uma carta na mesma hora.
…O QUÊÊ!?
— Isso era pra ser um segredo levado pro túmulo, não era?
Duke disse isso com um ar levemente incomodado.
Eu ainda não conseguia acompanhar a conversa dos dois.
— E-espera um pouco. Duke, você já sabia que a Alicia ia até o vilarejo da pobreza?
— Sabendo como ela é curiosa, eu tinha certeza de que, assim que descobrisse o vilarejo, ela iria até lá.
Ele disse isso como se fosse óbvio.
Então era isso — ele fez tudo aquilo pra garantir que a Alicia pudesse se mover livremente, mas sem correr perigo. Duke, torço de coração pra que esse esforço todo seu seja recompensado logo.
Mas, sendo a pessoa em questão a Alicia, imagino que não deve ser nada fácil.
— Como foi que você mandou a carta? Ou melhor, vocês dois ficaram calados sobre isso até agora?
— Não achei que fosse necessário contar. E, além disso, o próprio vovô me pediu segredo.
— Só existe uma pessoa em quem se pode confiar naquele vilarejo.
— Se não fosse pela carta do Duke, eu não teria saído lá fora justo naquele dia em que a Alicia chegou.
De fato, pensando bem, a sorte da Alicia foi grande demais. O vovô estava, propositalmente, do lado de fora, justo naquela noite. E, ainda por cima, bem perto da parede entre o vilarejo da pobreza e o mundo externo.
Mais do que a conversa entre o vovô e o rei, agora minha curiosidade se volta pra essa relação estranha entre o vovô e o Duke.
— Como você leu a carta?
— É algo parecido com um feitiço de palavras. Assim que abri a carta, ouvi a voz de um garoto.
Ah, é verdade, a Alicia foi até o vovô com oito anos. Isso significa que o Duke tinha treze anos na época. Justo a idade em que se começa a usar magia. E, além disso, o poder mágico do Duke não é normal, mesmo pros padrões comuns.
— Como a carta conseguiu chegar até o vovô, afinal?
— Fiz um pássaro beber algumas gotas do meu sangue, junto com Abel.
…Está tudo tão absurdo que nem consigo mais achar palavras.
Talvez, neste mundo, a única pessoa normal seja eu mesmo.