Capítulo 380
Escalávamos a rocha com cuidado, colocando os pés com atenção. Numa situação em que não se pode relaxar nem um segundo. A disputa era ver até onde a concentração e a resistência física aguentariam.
O príncipe ia à frente, eu logo atrás, e o Leon vinha por último.
Segurei firme a rocha pra não escorregar com o suor das mãos. Quanto mais nervosa eu ficava, mais o suor aumentava.
…Preciso me acalmar o máximo possível.
— Aqui é pra ir de uma vez.
O Victor disse isso e, com um movimento rápido, chutou levemente a rocha e escalou vários metros de uma vez. Deve não haver nenhum ponto de apoio no meio do caminho. Fiquei impressionada com aquele movimento tão sem desperdício algum.
Que bom que foi o Victor quem ficou na liderança. Seus reflexos atléticos são fora do comum mesmo.
Com a minha altura, eu precisaria chutar com ainda mais força pra conseguir subir. Firmei ainda mais o ânimo.
Só preciso seguir os mesmos pontos de apoio que o Victor pisou antes. Se eu fizer isso, deve dar tudo certo.
Repetindo isso pra mim mesma, dei um passo à frente. Chegar até a rocha seguinte exigiu mais força nas pernas do que eu esperava. Segui o ritmo, saltando de rocha em rocha.
Um pequeno atraso pode custar a vida. Chutei com toda força a última rocha, segurei numa pedra cerca de um metro acima da minha cabeça, e encaixei o pé entre duas rochas.
Naquele instante, meu pé escorregou, "zzzip". Reflexivamente, apertei com força as pontas dos dedos e consegui aguentar. Meu coração disparou num instante.
— Ei! Você está bem!?
— Você está bem!?
As vozes do Victor e do Leon soaram ao mesmo tempo. Acalmando o coração, coloquei o pé com firmeza numa saliência de rocha.
Ainda com a expressão tensa, respondi "estou bem". Soltei um suspiro de alívio.
…Foi por pouco. Achei que tinha visto, por um instante, o rio que separa o mundo dos vivos e dos mortos.
Meu coração ainda batia forte. Baixei o olhar devagar. Dizem que, numa hora dessas, é melhor não olhar pra baixo, mas não resisti à curiosidade.
Percebi o quanto já tínhamos subido. Os dois cavalos e o Rai pareciam minúsculos lá embaixo.
Desde que cheguei ao reino de Lavarre, só faço coisa de aventureira. Estou até começando a duvidar se realmente já fui uma senhorita nobre no reino de Dulkis.
Pensando nisso, continuei atrás do Victor. O Leon superava aquele trecho difícil com movimentos leves e ágeis.
Ter esse tipo de habilidade prova bem que ele realmente foi treinado como assassino.
— Existe mesmo uma diferença entre homens e mulheres, hein.
— Está arranjando desculpa?
O Victor reagiu ao meu murmúrio.
— Não é isso. É só que…
Fiquei sem palavras.
É verdade que existe diferença de força física e constituição entre homens e mulheres, mas, dizer isso agora, só soa como desculpa. Talvez, sem perceber, eu estivesse me sentindo frustrada por o Leon se mover com tanta naturalidade, enquanto eu não.
— Se você morrer aqui, é só falta de capacidade sua mesmo.
O Victor acertou bem no ponto sensível, e não consegui rebater nada. É sempre mais irritante ouvir algo que a gente já sabe que é verdade.
Percebi, mais uma vez, que ainda sou imatura e preciso crescer muito mais.
…Com certeza, um dia vou fazer ele engolir essas palavras!
— O senhor não tem consideração nenhuma por mulheres, hein. Ninguém te ensinou como tratar uma dama?
A voz gelada do Leon.
…Leon, o Victor nem me considera mulher. Aliás, nem consigo imaginar o Victor tratando alguém com gentileza e doçura.
— E você consegue tratar essa aí como uma dama?
"Sim", o Leon respondeu na hora.
— Aprendi isso perfeitamente pra virar assassino.
— Você foi aprender isso?
Dessa vez foi o Victor quem interpelou, no meu lugar.
— Isso não passa de mentira, então.
O Victor completou aquilo com um tom resignado. Talvez levemente incomodado com o comentário do Victor, o Leon franziu as sobrancelhas e respondeu.
— Mesmo sendo mentira, é melhor do que machucar alguém.
Mas, se depois disso você acaba matando a pessoa mesmo assim, não faz muita diferença, não é…?
Não falei isso em voz alta, só pensei baixinho, dentro de mim.