Capítulo 448
Voltamos pra casa e dormimos bastante.
Talvez seja um tabu pra uma filha de uma das cinco grandes famílias nobres, mas dormimos de mãos dadas na minha cama grande.
Acho que fazia tempo que eu não dormia tão profundamente assim. Senti como se todo o cansaço acumulado tivesse desaparecido de uma vez.
Antes de ser exilada, depois de ter sido exilada, e depois de ter voltado — os dias sempre foram corridos, sem parar.
Abri os olhos devagar e confirmei que já era de manhã.
…Há quanto tempo eu não dormia tão profundamente assim, como se estivesse morta.
Voltei o olhar em direção ao Jill, que ainda dormia ao meu lado.
É raro ver ele dormindo assim, tão relaxado e confiante.
Ele deve ter ficado tenso o tempo todo. Criar o remédio contra a doença das manchas não é façanha de gente comum.
…E, depois disso, ainda teve a morte do tio Will. Não dá pra imaginar que ele tenha conseguido dormir direito nesse período todo.
Soltei devagar a mão que estava entrelaçada com a do Jill e saí da cama.
Fui até a janela e observei a paisagem lá fora. Ainda estava um pouco escuro, e dava pra sentir o frescor do início da manhã.
……………Aquele ali é o Albert-nii-sama?
No jardim, o Albert-nii-sama estava treinando esgrima.
Senti como se estivesse olhando pra mim mesma, de um tempo atrás. Aliás, o Albert-nii-sama normalmente não treinaria esgrima tão cedo assim, de manhã.
Será que é por causa daquilo que eu disse, "recupere sua dignidade"?
Ao ver a expressão séria do meu irmão, senti que eu também precisava fazer alguma coisa.
Ainda tenho coisas a resolver no reino de Dulkis, mas também preciso voltar de novo pro reino de Lavarre.
Preciso cumprir a promessa que fiz com a Kushana, e, mais do que tudo, quero saber se a doença das manchas do Rio foi curada com segurança.
Deixei o Jill dormindo, troquei de roupa pra roupa de treino, peguei minha espada e saí do quarto.
Enfim, quando eu precisar organizar os pensamentos, nada como fazer alguns golpes de treino!
Não adianta ficar remoendo pensamentos confusos. Se tenho tempo pra pensar, é melhor usar esse tempo pra treinar!
Corri até o jardim e chamei: "Nii-sama!"
O Albert-nii-sama percebeu minha presença na hora e parou os movimentos.
— Ali.
Ele chamou meu nome, um pouco ofegante.
Havia suor na testa dele, dando pra ver que já estava treinando fazia um bom tempo.
O Nii-sama é mesmo esforçado… Acho que é o mais sério entre os irmãos, e também o mais gentil. O típico filho mais velho.
— Bom dia.
— Bom dia. Conseguiu dormir bem?
— Sim, muito bem.
— Que bom. Talvez não tenha sido só você que forcei demais, mas também o Jill.
O Nii-sama disse isso franzindo levemente a testa, e respondi depois de uma pequena pausa.
— Acho que não precisa se preocupar com isso. O Jill só estava agindo por satisfação própria, mesmo…
— Você continua durona como sempre.
O Albert-nii-sama soltou uma risada, "haha".
Acho que, num curto período sem nos ver, ele amadureceu bastante. Não só o Nii-sama — todo mundo amadureceu, na verdade.
— Ações egoístas às vezes acabam servindo pro bem de todos, depois. …Por isso, o Jill não tem perfil pra ser o vilão.
Murmurei essa última frase baixinho, como se fosse pra mim mesma.
Com certeza o Albert-nii-sama deve ter ouvido. Ele arregalou os olhos e me encarou.
— Alicia tem perfil pra ser vilã?
— Pelo contrário, você já teve algum momento, olhando pra mim até hoje, em que achou que eu era uma pessoa boa?
Fiz uma expressão irônica, quase sarcástica.
Desde pequena, já treino minha expressão de vilã, então consigo fazer uma cara má a qualquer momento, não importa quando.
Devia escrever isso no meu currículo. Habilidade especial: fazer expressão maligna a qualquer hora do dia.