Capítulo 4
— Alicia, a gente vai até a casa dos Smith agora, quer vir junto? O Henry e o Al-nii também vão.
O Alan-nii-sama, um dos gêmeos, veio até onde eu estava no jardim balançando a espada e disse isso. Casa dos Smith… é a família do senhor Finn, que usa magia de luz, não é? Quero muito ir!
— Vou! Já vou me arrumar agora mesmo.
Corri pro meu quarto e troquei de roupa pra um vestido de saída. Antigamente a Rosetta me ajudava a trocar, mas, desde que recuperei as memórias da vida passada, passei a cuidar de tudo sozinha.
Antes de me lembrar da vida passada, eu gostava de vestidos chamativos, mas agora prefiro algo mais simples. Uma menina de oito anos usando um vestido simples com elegância — não é bem impressionante?
Escolhi um vestido chiffon amarelo levemente claro, com brincos de pedra na mesma cor. A Alicia tem um rosto tão bem-feito que qualquer coisa cai bem nela. O cabelo ainda não está comprido o suficiente pra prender, então deixei solto mesmo.
Esse cabelo negro liso e sedoso, a Alicia do jogo sempre se orgulhava dele. Bom, dá até pra entender. Realmente é incrivelmente sedoso.
Coloquei o cabelo do lado direito atrás da orelha. De alguma forma, não pareço ter oito anos. Pareço bem mais adulta do que devia. Exatamente o clima de uma vilã.
Fiquei olhando pra mim mesma no espelho, encantada. Só de trocar de roupa, dá pra parecer tão vilã assim? A partir de agora, vou investir também em moda.
— Alicia~
Ouvi a voz do Alan-nii-sama me chamando e corri até a entrada.
O deslocamento até a casa dos Smith é de carruagem. Sinceramente, não sou muito fã de carruagem. Ficar sentada tanto tempo dói a bunda. Ah, é isso, eu devia andar a cavalo! Quando voltar, vou tentar praticar equitação. …Ainda assim, a paisagem deste reino é digna de quadro pra onde quer que se olhe. Ah, como eu queria ter uma câmera neste mundo. Se tivesse câmera, eu poderia registrar meu lado vilanesco pra posteridade.
— Ali? O que foi?
O Albert-nii-sama espiou meu rosto, preocupado. Eu, hein, fiquei tão absorta na fantasia que devo ter feito uma cara de boba. Isso não é nada de vilã. É isso, momentos assim eu deveria soltar alguma fala cruel e impactante. …Hmm, não consigo pensar em nada. Ainda tenho um longo caminho pela frente rumo à vilania. Resolvi disfarçar com um sorriso qualquer. Sorriso ambíguo é bem prático.
— A Ali realmente mudou, hein.
O Alan-nii-sama disse isso, me olhando fixamente.
— Mudei em quê?
— "Sim, bastante."
As vozes do Alan-nii-sama e do Henry-nii-sama se sobrepuseram perfeitamente. Será que eu mudei tanto assim? Bom, é verdade que a Alicia de antes de eu recuperar as memórias da vida passada devia ser bem terrível. Sendo a vilã, mas sem fazer esforço nenhum pra se tornar uma vilã de verdade. Fico imaginando o que teria acontecido se as memórias da vida passada nunca tivessem voltado. Só de pensar, já dá medo.
O Albert-nii-sama me olhou com um rosto um pouco sério.
— Já que estamos falando disso… por que você ficou tão… responsável de repente?
— Responsável?
Inclinei a cabeça. Eu, responsável? Vista de fora, será que passo essa impressão!? Quando foi que dei essa impressão a alguém?
— Deve ser brincadeira. Só estou fazendo o mínimo que preciso fazer.
Pra desfazer o mal-entendido, forcei um sorriso radiante e disse isso. O Albert-nii-sama ficou um pouco surpreso, mas depois murmurou "ah, é" e sorriu gentilmente.
Assim que descemos da carruagem, uma quantidade absurda de luz ofuscante entrou nos meus olhos. Essa é a mansão do senhor Finn!?
Como esperado da magia de luz, nunca vi uma mansão brilhando tanto assim. Meus olhos estão piscando sem parar. Eu queria óculos escuros, mas isso não deve existir neste mundo, né.
— Al, Henry, Alan! Sejam bem-vindos!!
Um garoto sorridente veio correndo até nós.
— Alicia, obrigado por vir! Eu quis conversar com você, então pedi pro Alan e os outros te trazerem.
O senhor Finn disse isso com um sorriso radiante. Ah, é com esse sorriso que ele conquista todo o país de mães-corujas. Que sorriso adorável.
— Muito obrigada pelo convite.
Segurei levemente a saia e fiz uma reverência. O senhor Finn me disse pra não ficar tão formal, mas uma vilã nunca baixa a guarda, seja qual for o momento.
Fomos levados até a sala de visitas.
— Por favor.
O senhor Finn abriu ele mesmo a grande porta. Agradeci e entrei na sala. Lá dentro, o senhor Curtis, o senhor Eric, o senhor Gale e o senhor Duke estavam sentados num sofá grande.
Ando encontrando esse pessoal demais ultimamente, o que é incômodo. Uma vilã não deveria se misturar tanto com as pessoas.
Ah, tem um mapa na mesa em frente ao sofá. Por que um mapa? Será que eu já vou ser banida do país? Final repentino já? Será que fiz algo tão grave assim? Ah, mas, se eu andei fazendo algo mau sem nem perceber, isso já faz de mim uma vilã de respeito. Foi um caminho surpreendentemente curto, mas.
De repente, ouvi alguém batendo na porta, toc toc. A porta se abriu devagar, e, ao ver quem entrou, senti um arrepio gelado subir pela espinha.
…Por que o rei está aqui?
Não pode ser um impostor. Com certeza é o de verdade mesmo. Afinal, a presença dele é impressionante demais.
Meus irmãos abaixaram a cabeça. Eu também, com um pouco de atraso, abaixei a cabeça. Espera, será que eu cometi algum crime grave o bastante pra merecer a presença pessoal do rei?
— Levantem a cabeça.
Uma voz cheia de autoridade ecoou pela sala. Levantamos a cabeça. Mesmo com a idade, ele continua bonito. Os olhos dele são um tom um pouco mais escuro que o azul do senhor Duke.
— Então você é a Alicia.
Enquanto eu o observava fixamente, o rei deu um sorrisinho e disse isso. O sorriso de um adulto tem sempre uma certa tranquilidade elegante.
— Boa tarde, Sua Majestade.
Fiz uma reverência pro rei, do mesmo jeito que tinha feito há pouco pro senhor Finn.
— Já ouvi falar de você.
— Ouviu falar de mim…!?
Minha voz saiu meio rouca de tanta surpresa.
— Posso te fazer algumas perguntas?
Sem entender do que se tratava, respondi que sim. O rei se sentou no sofá, e meus irmãos se sentaram também. Ah, só eu ficando de fora? Fiquei em pé mesmo, observando a cena.
O rei olhou o mapa por um instante e depois virou o rosto pra mim. Aqueles olhos cheios de inteligência pareciam estar me testando — será que é só impressão minha?
O rei abriu a boca, devagar.
— Alicia, como você enxerga a posição deste reino — o Reino de Dulkis — no mundo?
A pergunta repentina não deixa minha cabeça acompanhar. Espera, o que ele disse mesmo agora? A posição de Dulkis no mundo? Por que ele está me perguntando isso? Não tem como eu conseguir responder algo assim. Sou uma menina de oito anos, sabe? …Deixando de lado o conteúdo por dentro.
Será que isso é algum tipo de desafio enviado por Deus pra testar se eu sou digna de ser vilã? Deve ser isso mesmo, senão não faria sentido o rei aparecer do nada e me lançar uma pergunta dessas.
Dei uma olhada no mapa em cima da mesa. A posição deste reino — Dulkis — no mundo…
Assim como qualquer outro reino, ele deve carregar bastante problema. Foi algo que li recentemente num livro.
Ah, é isso, não é? Posso simplesmente dizer isso! Afinal, seria dizer, na frente do próprio rei, que este reino não é bom. Um retrato perfeito de vilã.
— Com todo respeito, este reino é uma grande potência, mas não pode ser chamado de um bom reino.
Falei isso mantendo a postura ereta, olhando nos olhos do rei. O rosto dele ficou sombrio.
Claro que ficaria, né. Afinal, uma criança de oito anos acabou de rebaixar o próprio reino dele. Ah, senhor Duke? Por que o senhor está com essa cara tão animada? O senhor é filho do rei, não é?
— Em que ponto ele não é bom?
Hã? Ser cercada de rapazes bonitos mais velhos que eu e ainda receber uma saraivada de perguntas do próprio rei — que tipo de tortura é essa? Mas é justamente resistindo a essa pressão toda que se prova a verdadeira vilã. Conectei em altíssima velocidade, dentro da minha cabeça, o conhecimento que li com meus próprios pensamentos.
— À primeira vista, parece que a economia está próspera, mas isso é só aparência — se olharmos mais a fundo, acredito que a disparidade entre ricos e pobres é enorme. O lugar chamado vilarejo da pobreza, dentro deste reino, está numa situação particularmente insustentável. Considerando a possibilidade de eles um dia se rebelarem, é preciso dar muito mais peso à política financeira.
O rei arregalou os olhos. Murmurou "hum" enquanto tocava a barba.
— Então, como solução pra isso, o que você acha que existe?
Vai continuar perguntando!? Uma pergunta tão difícil dessas, não tem como uma simples criança responder.
…Será que, com essa pergunta, ele está tentando enxergar minha aptidão pra vilania? É isso, uma vilã de verdade com certeza traria uma resposta implacável pra essa solução.
— Que tal apoiar a independência do Reino de Carvela, atualmente sob domínio do Reino de Lavarre?
O rosto de todo mundo ficou paralisado. Já vi essa expressão inúmeras vezes desde que reencarnei. Já cansei disso — será que, da próxima vez que ficarem surpresos, dá pra fazer uma cara engraçada em vez dessa?
— Mesmo apoiando a independência do Reino de Carvela, isso não colocaria ele sob nosso domínio.
O senhor Gale, de óculos e olhar racional, disse isso arregalando os olhos pra mim. Obrigada, senhor Gale, eu estava esperando exatamente essa deixa.
— É isso mesmo. Não vai ficar sob nosso domínio.
— Então, o que fazer?
O rei aumentou um pouco a voz.
Certo, é aqui que a vilã mostra do que é capaz de verdade. Endireitei a postura mais uma vez e olhei diretamente nos olhos do rei.
— A gente vende um favor.
— Vender um favor…?
O senhor Eric, de cabelo vermelho como fogo e ar impetuoso, murmurou isso com uma cara de quem não entendeu o significado das minhas palavras. Já o Albert-nii-sama, o senhor Gale, o senhor Duke e o rei pareceram compreender o que eu quis dizer.
— A fonte de recursos do Reino de Carvela é o ouro mineral. Se eles quiserem se libertar do domínio do Reino de Lavarre, um comércio… ou melhor, "comércio" soa mais elegante… com o nosso reino seria interessante. Assim, vendemos ao Reino de Carvela um favor em forma de comércio, e ajudamos na independência deles. Com esse ouro, nosso reino enriquece a economia, e conseguimos reduzir a disparidade entre ricos e pobres.
A ideia de que vender um favor nos coloca em vantagem é algo que jamais passaria pela cabeça da heroína "boazinha". Se seguir assim, com certeza vai surgir atrito entre mim e a heroína. Agora mesmo, estou perfeitamente no rumo de me tornar a maior vilã de todas.
— Entendo.
O rei me olhava, por algum motivo, com olhos cheios de expectativa. O que é esse olhar?
— Então quer dizer que estamos usando o Reino de Carvela.
— Exatamente isso.
Sorri radiante e declarei com firmeza, num tom animado. Usar qualquer reino que não seja o nosso é exatamente o que uma vilã faria.
— Alicia, foi muito bom conversar com você.
O rei disse isso com um sorriso gentil e se levantou.
— Eu também gostei muito de poder conversar com Sua Majestade.
Fiz uma leve reverência. Não devia me gabar, mas confio bastante nas minhas reverências. Se meus gestos não forem elegantes, vão me achar ridícula. Pra uma vilã, até o menor gesto pode ser fatal.
Depois que o rei saiu da sala, dei um suspiro de alívio. Ah, isso foi terrível pro coração. Mas acho que passei da nota mínima de vilania com folga, não foi?
— Ficou tensa?
O senhor Duke me perguntou isso numa voz tranquila. Realmente são pai e filho — tem os traços do rei nele. Que família bonita. Se bem me lembro, no jogo a Alicia era bastante odiada pelo senhor Duke. Todas as palavras gentis, toda a expressão gentil dele, sempre voltadas pra heroína. Nunca imaginei que um dia eu veria uma expressão dessas no senhor Duke… Será que, dependendo de como as coisas se desenrolam daqui pra frente, esse tipo de mudança também pode acontecer?
Ainda assim, parece que o rei só veio mesmo ouvir uma opinião. Por que justo de uma garotinha… e ainda por cima, veio de propósito até a mansão do senhor Finn. Bom, acho que não preciso me preocupar demais com isso.
— Você deve estar cansada~ Tem um chá da tarde acontecendo no jardim dos fundos, vamos lá agora!
O senhor Finn puxou minha mão com um sorriso brilhante. Fui levada por ele até o jardim dos fundos.
…Mentira. Tem uma quantidade enorme dos meus doces favoritos ali dispostos!! O cheiro doce está me chamando. Isso quer dizer que posso comer?
O senhor Finn, com um sorriso que parecia ler meu coração, disse pra eu comer à vontade. Enchi meu prato de biscoitos e bolos.
…É delicioso a ponto de derreter a bochecha. Consigo comer sem parar. Mesmo sabendo que é falta de educação, não dá pra resistir à tentação da comida.
Sem me importar com o que os outros pensavam, fui enfiando doce na boca sem parar. É a felicidade suprema.
Então o ponto alto de hoje era isso, né! A conversa com o rei foi só um bônus, não foi?
Talvez estejam achando que eu pareço uma mulher completamente dominada pela gula, devorando doces desse jeito. Bom, se for assim, uma vilã tem que agir seguindo o próprio desejo mesmo. Chá da tarde é o máximo! Dois coelhos com uma cajadada só, é bem isso que se diz.
E assim, sem eu perceber, meus lábios ficaram relaxados num sorriso o tempo todo.
…Sem saber que o senhor Duke estava me observando atentamente o tempo inteiro.
Falei com o rei mesmo, mas, na prática, como será que está a situação real do vilarejo da pobreza? Falar sem saber a real situação é meio arriscado. Ver com os próprios olhos vale mais do que ouvir cem vezes. Acho que vou lá dar uma olhada.
Mas o Otou-sama com certeza nunca vai permitir. Nem a Okaa-sama, gentil como é, nem meus irmãos, que são tão bonzinhos comigo, vão aceitar de jeito nenhum. É um lugar sem nenhuma conexão com a nobreza, e, toda vez que saio, sempre tem alguém me acompanhando…
Nesse caso, só resta ir escondida, sem ninguém perceber!
Comecei a planejar com cuidado. O vilarejo da pobreza fica na floresta, além da cidade. Fica longe demais.
Estendi o mapa em cima da mesa. …Hã? A floresta atrás desta mansão leva direto até o vilarejo da pobreza. Parece que dá pra fazer um belo atalho por aqui. Não parece ter um caminho formal, mas não é impossível chegar.
Mas, se bem me lembro, o vilarejo tem uma parede feita de magia, e não dá pra entrar. Li num livro que é pra impedir que os moradores saiam de lá — e essa parede só pode ser atravessada por quem tem poder mágico, não é?
…Não sei ao certo. Não posso perguntar pra ninguém, e não consigo achar nenhum livro de magia. Que futuro incerto!?
Bom, não custa tentar. Se não conseguir passar, procuro outro caminho. Fingir que estou dormindo às nove da noite, sair escondida a partir daí… deve dar uns dez quilômetros, então, com minha condição física atual, consigo chegar correndo em cerca de uma hora — vou ter bastante tempo pra ficar no vilarejo da pobreza.
Assim que terminei o jantar, comecei a me preparar pra ir até o vilarejo da pobreza. Só que…
— Ali~! O Duke veio te ver!
Hã? Achei que tinha ouvido o Albert-nii-sama dizer alguma coisa, mas com certeza foi só impressão, não é?
— Ali~!
…Parece que não foi impressão minha. Saí do quarto e fui até a sala de visitas.
O senhor Duke vindo me ver — o que será isso? E ainda por cima, não faço a menor ideia do motivo dele vir num horário desses.
Ao entrar na sala de visitas, o Albert-nii-sama e o senhor Duke estavam me esperando.
— Parece que ele tem algo pra te entregar.
Sem quase se dar ao trabalho de um cumprimento, o Albert-nii-sama disse isso. Enquanto eu ficava sem entender nada, o senhor Duke se aproximou de mim com uma expressão gentil. Essa pessoa realmente é perigosa. Se ele se aproxima com esse rosto, meu coração quase pula pra fora. Consigo sentir minha própria pulsação acelerando.
— Está um pouco atrasado, mas… feliz aniversário.
Dizendo isso, o senhor Duke me entregou uma caixinha.
Fiquei completamente paralisada diante de um acontecimento tão inesperado. Nunca imaginei que o senhor Duke fosse me dar um presente de aniversário.
No jogo, não existia evento nenhum de presente pra Alicia.
Por isso, por um instante, cheguei a pensar que talvez ele tivesse algum interesse em mim — mas, pensando bem, eu e o senhor Duke temos cinco anos de diferença. Digamos que eu seria mais como uma irmã mais nova pra ele. Mas também não faz muito sentido ganhar presente de alguém com quem mal troquei palavras.
— Muito obrigada…?
Agradeci com um ponto de interrogação pairando na cabeça, e recebi a caixinha.
— Posso abrir pra ver?
— Pode.
Com a permissão do senhor Duke, abri a caixa com cuidado, mas o choque foi tão grande que fechei de novo na hora. Aquilo agora… foi impressão minha?
— Não gostou?
— N-não, é que isso…
Sem acreditar no que tinha visto, acabei confirmando com o senhor Duke.
— É um pingente.
— Isso eu entendi, mas a pedra no meio dele é…
— Ah, é um diamante.
Era isso mesmo… Mesmo sendo filho do rei, não é caro demais pra dar de presente a uma menina de oito anos?
Por enquanto, fiz uma reverência profunda e agradeci de novo. Uma vilã não deveria se abalar por causa de uma simples pedra preciosa, mas confesso que isso pegou até eu de surpresa.
— Já que o assunto foi resolvido, por hoje é isso.
Dizendo isso, o senhor Duke saiu da sala rapidinho.
Sério que ele veio só pra me entregar o presente…!? Ele nem vai conversar com o Albert-nii-sama? Fiquei tão surpresa que esqueci até de acompanhá-lo até a saída.
Abri a caixa de novo pra conferir o conteúdo. Realmente é um diamante. O valor de um diamante neste reino é incomparavelmente maior do que na minha vida passada, sabia? E dar algo assim de presente… ainda por cima pra uma criança de oito anos…
Eu ainda não conseguia processar direito o que tinha acabado de acontecer bem na minha frente. Só que, de alguma forma, o brilho do diamante me pareceu muito parecido com o tom azul-claro dos olhos do senhor Duke.
No fim, aconteceu tanta coisa naquele dia que acabei desistindo de ir ao vilarejo da pobreza. Fiquei na cama olhando pro pingente que o senhor Duke tinha me dado. É realmente lindo, dá até pra ficar hipnotizada.
…O senhor Duke vai se apaixonar pela heroína, e eu vou implicar com essa mesma heroína, não é? Nessa hora, se ele mandar eu devolver o pingente, o que eu faço?
Mas, se eu for uma vilã de verdade, jamais devolveria algo que já ganhei.
Levantei, fiquei em pé na frente do espelho e experimentei colocar o pingente no pescoço. Não parece atrapalhar nem durante o treino de esgrima, então dá pra usar o dia inteiro.
E assim, ainda usando o pingente que o senhor Duke tinha me dado, acabei adormecendo.
Hoje, finalmente, vou até o vilarejo da pobreza.
Executando o plano sem contratempos, cheguei até a beira da floresta atrás da mansão. Consegui escapar da mansão surpreendentemente fácil, o que até me deu uma sensação estranha de decepção. Ainda assim, a floresta à noite é bem assustadora.
Mas mulher é forte. Não posso ficar com medo de uma simples floresta como essa.
Firmei meu corpo tremendo e dei o primeiro passo dentro da floresta.
Está mesmo completamente escuro. Ainda bem que trouxe uma lanterna.
De alguma forma, as árvores parecem monstros gigantes e assustadores.
Mas eu não vou perder. Decidi que ia até o vilarejo da pobreza. As árvores não vão me atacar de verdade. É só árvore mesmo… repetindo isso pra mim mesma, corri floresta adentro.
Confiando no meu instinto, sem saber se estava indo na direção certa, continuei correndo em direção ao vilarejo.
Depois de mais ou menos uma hora correndo, vi uma névoa. Por que só ali estava coberto de névoa daquele jeito? …Será que aquilo é a parede? Será que eu consegui chegar mesmo? Incrível, eu! Já que ninguém mais está aqui pra me elogiar, vou me elogiar sozinha.
O que importa mesmo é se vou conseguir atravessar aquela parede… Mesmo sem conseguir usar magia, sou nobre, então tenho poder mágico — de qualquer forma, vou me aproximar.
Não dá pra ver nada do outro lado. O outro lado dessa névoa deve ser o vilarejo da pobreza. Por enquanto, preciso entrar. Dava pra ouvir minha própria pulsação, batendo cada vez mais forte. Respirei fundo e caminhei em direção à névoa.
No instante em que atravessei a névoa, um cheiro intenso me atacou. Um odor podre que atingia o fundo do nariz. Vozes de sofrimento ecoavam sem parar. Achei que fosse desmaiar.
Simplesmente fiquei sem palavras.
…Nunca, em toda a minha vida, tinha visto uma situação tão miserável quanto aquela. Puxei o capuz da minha capa bem fundo e apaguei a lanterna. Se descobrissem que sou nobre aqui, com certeza eu seria atacada.
Meu corpo tremia de medo. Eu já tinha uma noção mais ou menos do que se passava aqui, pelos livros que li, mas nunca imaginei que fosse a esse ponto…
No jogo, o que a heroína fazia nesse lugar mesmo? O cheiro forte interrompia meus pensamentos.
…Nem consigo imaginar tentando melhorar essa situação. Eu não tenho misericórdia nenhuma. Só me importa o que é bom pra mim mesma. Isso é ser vilã.
Mas… por algum motivo, meus pés continuavam me levando pra frente. Com a pouca luz que havia, não dava pra enxergar bem, mas parecia que havia gente caída pelo chão em vários lugares.
Cheguei a um lugar que parecia ser uma praça. No centro havia uma fonte, mas não jorrava água nenhuma. Só tinha água suja acumulada. Ali também, várias pessoas estavam deitadas no chão. Será que existe gente sem casa em quantidade assim? E, além disso, a única iluminação do vilarejo eram velas. Não tinha lampiões nas ruas, nem a lua era visível. O céu estava coberto de nuvens, e até o ar parecia estagnado.
— Senhorita.
Uma voz repentina fez minha espinha gelar. Será que isso é comigo? Será que descobriram que eu sou estranha aqui? Treinei bastante esgrima, mas agora não estou com nenhuma espada comigo… Será que, se eu correr com tudo, consigo fugir? Não quero morrer num lugar desses.
— Senhorita.
Ouvi de novo, e senti uma mão pousar de leve no meu ombro. Uma vilã provavelmente não choraria, mas, nessa situação, não tinha jeito. Com os olhos marejados, olhei pra mão que estava no meu ombro.
Uma mão grande, com algumas rugas… Virei devagar.
Dona da voz era um senhor de cabelos brancos. Ou melhor, ele só parecia idoso por causa do cabelo branco. Provavelmente é bem mais novo do que eu imaginei… Parece que ele estava se fazendo parecer velho de propósito.
Lábios finos, nariz alto, um rosto bonito… Ah, por que será que ele está de olhos fechados? Será que… ele não enxerga?
O medo de antes desapareceu de repente. O ar calmo e acolhedor que ele emanava me fez sentir isso na hora. Mesmo com a idade, dava pra perceber claramente que ele tinha traços muito bonitos.
— Você não é desta vila, não é?
O senhor à minha frente disse isso numa voz gentil. Mesmo sem enxergar, como será que ele sabia? Respondi baixinho que sim.
— É perigoso aqui, é melhor voltar logo pra casa.
— …!
— Venha comigo.
Dizendo isso, o senhor começou a caminhar devagar. "Não siga estranhos" é um clichê válido em qualquer mundo, eu sei, mas senti que esse senhor era diferente. Bom, esse tipo de sensação é justamente o que mais perigo esconde. Quanto mais bondosa a pessoa parece, mais medo dá. Mesmo assim, sinto que esse homem está tudo bem…
Quando percebi, o senhor já estava bem à minha frente, andando. Mesmo sem enxergar, não tropeçava em nada, seguia em frente com firmeza. Será que ele consegue ver, no fim das contas? Depois de um instante de hesitação, decidi segui-lo.
Uma pessoa assim não existia no jogo, não é?
…Ah, é isso, lembrei agora! O vilarejo da pobreza é conhecido como uma área tão perigosa que, uma vez que se entra, dizem que não se consegue sair — foi exatamente por isso que a heroína nunca chegou a pôr os pés ali. E eu, entrando num lugar desses por conta própria… será que vou conseguir voltar viva? Quem sabe até acabo sendo devorada.
Mas esse senhor disse pra eu voltar logo pra casa, então… deve estar tudo bem, não é?
Ainda assim, é impressionante que exista um lugar onde se ouve gemidos de dor o tempo todo, sem parar.
Meu corpo tremia. Existem centenas de pessoas neste vilarejo. E, mesmo assim, vivem num lugar onde nem a luz da lua chega. Será que… nunca chegaram a conhecer nem a luz do sol? Pensando bem, acho que a heroína, no jogo, tinha proposto alguma coisa relacionada a isso… …Ah, não, não consigo me lembrar de nada.
— É aqui.
O senhor disse isso e entrou numa cabana que parecia prestes a desmoronar. Hesitei por um instante, mas acabei entrando também. Por dentro, era mais normal do que eu imaginava. "Normal", mas só no sentido de ter uma cama toda gasta, uma mesinha de madeira pequena com duas cadeiras, e uma lareira que não sei se ainda funciona.
— É um espaço pequeno, mas seja bem-vinda.
Dizendo isso, ele puxou a cadeira de leve pra eu sentar. Cada movimento desse senhor parecia gentilmente cavalheiresco. Ele se sentou na cadeira à frente. Eu também me sentei.
— Desculpe não ter nenhum chá pra oferecer.
— Não se preocupe, por favor.
— E então, senhorita, por que veio a um lugar tão perigoso como este? Você deve ser filha de uma família de status elevado, não é?
Levei um susto. Como ele sabia que eu era de família nobre, mesmo de olhos fechados? E, além disso, eu estava usando capa e capuz… Ah, é falta de educação continuar de capuz mesmo depois de entrar numa casa. Tirei o capuz depressa. …Espera, antes de status elevado, como ele sabia que eu era uma "senhorita" pra começo de conversa?

— O senhor consegue enxergar?
Acabei fazendo essa pergunta antes mesmo de responder à dele. Foi um gesto bem falta de educação. E, ainda por cima, eu nem tinha me apresentado ainda.
Mesmo assim, o senhor sorriu gentilmente pra mim.
— Não consigo enxergar.
— Então, como o senhor sabe…
— Mesmo sem enxergar, dá pra sentir. Perdi só a visão, entre os cinco sentidos — os outros continuam intactos.
Mesmo assim, a quantidade de informação que entra pelos olhos deveria ser absurda. Só com olfato e audição, não deveria dar pra saber que eu sou uma senhorita de família nobre…
— Mesmo com a visão completamente escura, dá pra sentir o ar. A respiração, o ritmo dos passos, o som das roupas se roçando, o perfume — tudo em você era diferente deste lugar.
O senhor respondeu como se tivesse lido meus pensamentos.
— O senhor nasceu sem enxergar?
Diante da minha pergunta, o rosto dele ficou sombrio.
— Não, foi tirado de mim quando eu tinha uns vinte e poucos anos.
Tirado… dele? Os olhos!? Como assim…?
— Eu trabalhava no palácio real, antigamente.
Dizendo isso, ele abriu um sorriso sereno, mas era um sorriso com uma pontinha de tristeza.
— No palácio real…?
Uma pessoa assim, por que estaria no vilarejo da pobreza…
— Discordei de uma opinião e acabei contrariando alguém importante, que ficou furioso. Meus olhos foram tirados, e fui simplesmente jogado aqui.
— Que ti… tipo de contra-argumento o senhor fez?
Percebi minha própria voz tremendo.
— Qual é o seu nome?
— Alicia.
— Entendo, Alicia… que belo nome. Eu sou Will. Só Will.
Dizendo isso, ele acariciou minha cabeça de leve. Será que ele sabia que expressão eu estava fazendo? De alguma forma, aquilo me acalmou profundamente.
— Alicia, talvez você ainda não entenda isso, mas preservar a tradição nem sempre é a coisa certa a se fazer. Você sabe o que significa olhar pra trás, pra história?
— …
— Olhar pra história não existe pra confirmar que o passado era melhor. Existe pra conhecer os erros do passado e criar um futuro melhor, gerar um novo desenvolvimento.
O senhor Will disse isso num tom grave e sereno. As palavras dele entraram no meu coração com uma naturalidade impressionante.
— Também é importante acumular conhecimento pra gerar sabedoria, mas, se você não consegue usar esse conhecimento, ele não tem sentido nenhum.
— !!
Essas palavras ecoaram fundo em mim, que busco todo santo dia me tornar uma vilã que ficará registrada na história.
Como será que uma pessoa com tanto talento acabou expulsa do palácio real?
— …O senhor odeia a nobreza?
Diante da minha pergunta, o rosto do senhor Will ficou paralisado.
— Seria mentira dizer que não odeio. Até hoje, às vezes, procuro nos sonhos os traços de quem eu costumava ser. Isso, de vez em quando, aperta meu coração. Mas acredito que, um dia, alguém vai entender o que eu fiz.
Fiquei com vergonha de mim mesma. Percebi o quanto o ambiente em que eu vivia era privilegiado. As lágrimas vieram naturalmente. Sabia que era feio chorar assim, mas não consegui me segurar.
A raiva contra a nobreza que tirou os olhos do senhor Will, a tristeza dele — todos esses sentimentos se misturaram e eu não consegui me controlar. O senhor Will me abraçou gentilmente. Aquele calor, eu nunca vou esquecer enquanto viver.
Decidi contar tudo, sem esconder nada, sobre meu desejo de me tornar uma vilã. E também contei o motivo de eu ter vindo até aqui…
O senhor Will ouviu em silêncio até o fim. Quando terminei de falar, ele sorriu gentilmente e acariciou minha cabeça de novo.
— Você é uma criança muito inteligente.
A voz do senhor Will, dizendo isso, era incrivelmente suave e serena.
Me despedi do senhor Will e voltei em direção à parede de névoa. O medo que senti na ida não existia mais na volta; corri com todas as forças pela floresta, pensando no vilarejo da pobreza.
Se eu tivesse que resumir aquele vilarejo numa palavra, seria uma área de decadência absurda. …Mas eu vou voltar lá de novo. Porque quero conversar mais com o senhor Will.
Porque acho que ele é a pessoa mais sábia que já conheci.