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I’ll Become a Villainess That Will Go Down in History – Volume 1 Capítulo 5

Capítulo 5

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Capítulo 5

Desde a primeira vez que fui ao vilarejo da pobreza, já se passaram dois anos num piscar de olhos. Nesse período, nada de muito diferente aconteceu, só a repetição do mesmo todo santo dia. Acordo de manhã, treino de esgrima, depois leitura, e vou ver o senhor Will.

Nesses dois anos, acho que minha habilidade com a espada melhorou muitíssimo. Por isso, eu queria fazer o teste oficial de esgrima. Mas meus irmãos e o Otou-sama se opõem terminantemente. Eu só quero saber em que nível estou, e é injusto que só meus irmãos possam fazer o teste. Que desigualdade.

Por outro lado, aprendi muitíssimo com o senhor Will. Toda vez que eu travo em alguma coisa, ele sempre me dá a solução certa. É bem mais sábio que o meu próprio tutor particular na mansão.

Por isso, sugeri que o senhor Will viesse morar comigo, mas ele disse que não pode sair daqui. Deve ser mesmo por causa daquela parede. Prender um talento tão extraordinário assim dentro de um vilarejo…

Será que, sem eu saber, existem outras pessoas inteligentes no vilarejo da pobreza também? Afinal, este reino, no fundo, sempre privilegia a nobreza. É verdade que só os nobres conseguem usar magia, mas isso é uma coisa completamente diferente de ser inteligente. …Que mundo mais estranho, sério.

A única coisa que mudou de verdade ao meu redor foi o Albert-nii-sama começar a frequentar a academia de magia. O senhor Gale, o senhor Curtis e o senhor Duke também entraram na academia.

A academia de magia aceita alunos a partir dos quinze anos. Claro, só quem consegue usar magia.

E, como é clássico em todo otome game, também vai aparecer aquela personagem plebeia com a habilidade trapaceira de conseguir usar magia mesmo sendo do povo, o que lhe dá o direito de entrar na academia. Sim, finalmente a heroína vai aparecer. Adeus, senhor Duke. Com quinze anos, o senhor Duke ficou com um charme ainda maior, uma espécie de tranquilidade adulta… De qualquer forma, se ele tratar alguém com essa gentileza, até a heroína vai se apaixonar num piscar de olhos.

Ele também é extremamente gentil comigo, mas eu não vou me apaixonar pelo senhor Duke. Sabendo que ele vai acabar junto da heroína, seria tolice demais deixar meu coração se apegar a ele de propósito. No instante em que a heroína aparecer, vou implicar com ela e…

Aliás, a partir daqui, meus irmãos, o senhor Eric, o senhor Finn, o senhor Gale, o senhor Curtis — todos vão passar a me odiar cada vez mais… Não tem jeito. Afinal, eu sou a vilã.

E, pensando bem, a heroína é cinco anos mais velha que eu, não é? Tratar alguém mais velho com desrespeito… isso sim é ser vilã de verdade! Ah, como eu queria encontrar logo a heroína.

Enquanto eu treinava esgrima no jardim, como sempre, o senhor Eric veio até mim. Ah, o que será que ele quer? Os gêmeos, do mesmo ano dele, já estão na academia, mas ele ainda não, então continua vindo brincar aqui em casa com frequência. Parei o golpe de treino e olhei pra ele.

— A Alicia já tem dez anos, não é? Que tal irmos até a cidade?

Pensando bem, apesar de eu ir ao vilarejo da pobreza praticamente todo dia, nunca fui à cidade nem uma vez.

— Quero ir!

Ao ouvir isso, o rosto do senhor Eric se iluminou.

— Eric, o que você está fazendo?

O Henry-nii-sama veio caminhando em nossa direção. Ah, será que o Henry-nii-sama não sabia que o senhor Eric tinha vindo?

— A gente vai pra cidade agora.

Assim que eu disse isso, o rosto do Henry-nii-sama ficou tenso. Ele lançou um olhar de esguelha pro senhor Eric.

Será que ele ficou bravo por ter sido deixado de fora?

— Eu também vou.

O Henry-nii-sama disse isso sorrindo. Ah, então ele também queria ir. Mas, de alguma forma, aquele sorriso tinha algo por trás. Parecia muito com a expressão que o Albert-nii-sama costuma fazer.

— E o Alan-nii-sama?

— O Alan está estudando com o tutor agora.

Então os gêmeos também fazem coisas separadas às vezes.

— De qualquer forma, vamos de carruagem.

O senhor Eric disse isso com um leve tique no rosto. Se der, eu preferia ir a cavalo do que de carruagem. Afinal, já consigo montar direitinho.

— Que tal irmos a cavalo?

Diante da minha sugestão, os dois congelaram.

— Ou seja, a Alicia quer montar com um de nós dois?

— Não, Nii-sama, eu quero montar sozinha.

— Mas, Ali, você é uma menina, não é?

— É proibido menina montar a cavalo?

— Não, não é isso, mas geralmente…

— Ainda assim, eu vou montar. O Henry-nii-sama e o senhor Eric podem ir de carruagem, bem juntinhos.

Diante das minhas palavras, os dois ficaram atônitos.

Impor minha própria vontade assim, isso sim é ser vilã de verdade. O resultado de três anos de treino está aparecendo. Falas como essa já saem naturalmente. Já não posso me considerar uma vilã de respeito?

O Henry-nii-sama soltou um suspiro enorme. Ah, cuidado, a felicidade pode fugir com um suspiro desses.

— Tá bom. Nós também vamos a cavalo.

Consegui! De alguma forma, senti que ganhei. Contra o Henry-nii-sama sozinho eu consigo vencer, é isso.

— É verdade. Seria estranho a gente ir de carruagem e a Alicia sozinha a cavalo.

O senhor Eric disse isso também, sorrindo. O poder destrutivo do sorriso de um rapaz bonito é mesmo absurdo. Uma pessoa normal desmaiaria na hora. Bom, no meu caso, já estou acostumada por causa dos meus irmãos…

Fomos a cavalo até a cidade. Nossa, a cidade é tão animada assim? Comparando com a vida passada, parece uma cidade medieval europeia! Floriculturas, padarias, tabernas, lojas de roupa lado a lado, transbordando de vitalidade. Música tocando não sei de onde, gente dançando… Uma cidade envolta em sorrisos sob a luz do sol.

Em contraste, segundo o senhor Will, no vilarejo da pobreza a luz do sol não chega nem de dia. …As crianças nascidas naquele vilarejo morrem sem nunca conhecer a luz do sol, não é. Sendo o mesmo reino, por que existe uma diferença tão grande assim?

— Tem algum lugar que você queira ver?

O senhor Eric me perguntou. Deixa eu ver… Olhei ao redor. Quero ir à padaria, e também quero espiar aquela confeitaria. Tem lugar demais que eu quero visitar. Estou em dúvida.

Ah, aquela placa ali…

— Ei, senhor Eric, o que é aquela loja ali?

O senhor Eric seguiu com o olhar pra onde eu apontava.

— Ah, aquela é uma loja de plantas raras.

Plantas raras!? Será que ali têm as mesmas plantas do primeiro livro que eu li?

— Eu quero ir lá.

Falando isso, puxei as mãos do senhor Eric e do Henry-nii-sama.

— Eric, para de fazer essa cara feliz.

Ouvi a voz do Henry-nii-sama vindo de trás. Ah, será que o senhor Eric também queria muito ir à loja de plantas? Fui espiando o interior enquanto abria devagar a porta e entrava.

O que é isso aqui… o ar aqui é completamente diferente de fora. Parece que meu coração está sendo purificado, tão fresco. Que lugar agradável.

E, além disso, tantas plantas, como se estivessem dançando. Ah, uma planta voadora! Sério!? Poder ver de verdade… Se bem me lembro, o nome era Wing.

— Bem-vindos.

Do fundo, saiu um homem de meia-idade, cabelo castanho-avermelhado, usando óculos redondos. O avental combina muito bem com ele.

Que estranho… assim que ele apareceu, senti como se as plantas tivessem ficado alegres. Será que ele consegue usar magia verde…?

— Eric, Henry! Quanto tempo, hein!

O homem levantou a mão sorrindo, cumprimentando o senhor Eric e o senhor Henry. Eles se conhecem?

— Paul! Quanto tempo mesmo. Como você tem passado?

O Henry-nii-sama respondeu sorrindo. Enquanto eu ficava parada sem entender nada, o homem se abaixou pra ficar na minha altura.

— Muito prazer. Eu sou o Paul, o dono daqui. Você, por acaso, é a Alicia?

Ele disse isso com um cumprimento sorridente.

— Muito prazer. Sou a Alicia. Como o senhor sabe meu nome?

— Ah, é que seus irmãos falam de você o tempo todo.

Fico muito curiosa pra saber o que exatamente eles andam contando. Deve ser sobre a minha respeitável vilania.

— O senhor é bem próximo dos meus irmãos.

— Eu também sou nobre, apesar de tudo isso aqui.

O senhor Paul disse isso com um sorriso amarelo. Nobre? Então é por isso que usa magia verde… ah! Esse é o senhor Paul, o dono da loja de plantas que apareceu por um instante no jogo! Achei que já tinha visto em algum lugar. É isso, ele aparece na cena em que a heroína vai à loja de plantas pra fazer remédios.

— É meio excêntrico abrir uma loja na cidade sendo nobre, hein.

O senhor Eric disse isso rindo pro senhor Paul.

— Por que o senhor decidiu abrir uma loja de plantas?

— As plantas têm o poder de curar doenças das pessoas, e também de curar o coração das pessoas. Por isso, eu também quis me envolver num trabalho que ajuda as pessoas. Além disso, sou de baixa nobreza mesmo, então é bem tranquilo.

Dizendo isso com um sorriso caloroso, o senhor Paul parecia brilhar de verdade.

— O senhor tem um trabalho muito bonito.

Acabei falando o que realmente pensava.

— Obrigado.

O senhor Paul disse isso com um sorriso radiante. Mesmo com a diferença de idade, um sorriso desses aperta o coração.

— Aqui realmente tem muitas plantas raras. Por exemplo, esta aqui…

O senhor Paul tirou um vidrinho com uma plantinha pequena dentro, guardado no fundo da loja.

— "Chad"

Minha voz e a do senhor Paul se sobrepuseram. Ele arregalou os olhos. Quantas vezes já vi essa reação em outras pessoas?

— Você conhece?

O senhor Paul perguntou ainda surpreso.

— S-sim.

— Você também sabe as propriedades dela?

— Dizem que o Chad estimula a liberação de serotonina, que traz sensação de felicidade. Ou seja, costuma ser recomendado pra pessoas com o coração pesado ou com problemas mentais.

Quando expliquei de forma resumida, o senhor Paul abriu os olhos tão grandes quanto os próprios óculos redondos. Se abrir demais assim, os olhos vão saltar pra fora, viu. E, senhor Eric, por favor, não fique com a boca escancarada desse jeito. …Está com uma cara de bobo.

De fato, saber não só o nome do Chad, mas também suas propriedades, é coisa de fã raro. Mas, bem, é que eu só li isso por acaso, já que ainda não achei o livro de magia que procuro tanto — esse é o problema.

— Alicia, quantos anos você tem mesmo?

O senhor Paul me perguntou sorrindo.

— Dez anos.

Diante disso, o senhor Paul fez uma cara séria e murmurou "dez anos". Será que falei algo tão estranho assim? Não é motivo pra franzir tanto a testa.

— Você gosta de plantas?

— Não.

— Então por que sabe tanto assim?

Ah, essa pergunta é complicada. Não quero dizer que li num livro. Mas, se eu disser que ouvi de alguém, com certeza o senhor Paul vai perguntar de quem. É melhor agir como uma vilã aqui…

— Isso é só senso comum. Não saber isso é falta de estudo, eu diria.

Essa é a fala que uma vilã joga na heroína! Disse isso sorrindo radiante. Realmente é fácil deixar uma impressão ruim. O senhor Paul, o senhor Eric e o Henry-nii-sama ficaram todos paralisados. É natural, né, uma menina de dez anos acabou de zombar deles.

Mas, mesmo devendo ficar com cara feia, o senhor Paul de repente começou a rir.

— É mesmo, senso comum. Eu também preciso estudar mais.

As palavras do senhor Paul, ditas rindo, não tinham nem sombra de ironia. Que pessoa de coração generoso. Fico até triste com o quanto o meu próprio coração é pequeno.

Contagiados pelo riso do senhor Paul, o senhor Eric e o Henry-nii-sama também relaxaram o rosto. Eles me olhavam com olhos cheios de carinho. Ser olhada assim é coisa que só vai durar até agora… Enquanto eu pensava nisso, o senhor Eric soltou algo absurdo.

— Ei, Henry, não dá pra você me dar a Alicia como esposa?

— Nem que a vaca tussa, minha irmã querida não vai ser sua.

Senhor Eric, tenho a impressão de que um dia o senhor vai se arrepender dessa fala…

Envolta naquele ambiente tão acolhedor, fiz esse comentário mentalmente, sem dizer em voz alta.

— Onde vocês estavam?

Assim que cheguei em casa, o Alan-nii-sama foi o primeiro a me perguntar. No fundo, dava pra ver também o senhor Finn, o senhor Gale, o senhor Curtis e o senhor Duke. Devem ter vindo direto da academia — nossa, são mesmo muito próximos…

— Fomos à cidade.

— E ainda por cima, a cavalo.

O Henry-nii-sama e o senhor Eric responderam no meu lugar.

Por algum motivo, o senhor Duke parecia estar encarando o senhor Eric e o Henry-nii-sama com os olhos semicerrados. Será que ele também queria ir à cidade?

— Será que algum de vocês dois foi a cavalo junto com a Ali-chan?

Ali-chan!? Primeira vez que me chamam assim. Como esperado do senhor Curtis, ele parece estar bem acostumado a lidar com garotas.

— Não, a Alicia foi montada sozinha.

O Henry-nii-sama respondeu isso rindo. Diante disso, a expressão do senhor Duke suavizou um pouco.

— Eu também queria ter tido um encontro com a Alicia.

O senhor Finn disse isso fazendo bico. Todas as mães-corujas do país, olhem pra esse rosto. Com certeza iriam desmaiar. Espera, isso não foi um encontro, viu. Fomos os três juntos.

— Ei, Ali-chan, da próxima vez, sai comigo. Eu te levo aonde você quiser.

Diante da pergunta do senhor Curtis, pensei um pouco. Aonde eu quero ir mesmo…

— Eu quero ir fazer o teste de esgrima.

Isso mesmo, eu quero testar o resultado do meu treino, mas nem o Otou-sama nem meus irmãos me deixam fazer o teste. Ao dizer meu desejo, não foi o senhor Curtis, mas sim o Albert-nii-sama quem respondeu.

— Não.

Isso não é decisão instantânea demais? Fiquei um pouquinho irritada.

— Por que meus irmãos podem ir e eu não posso?

— Porque a Ali é uma menina.

…Que motivo é esse? É extremamente injusto.

— É estranho dizer que não posso fazer isso só por ser mulher.

— Mesmo assim, não pode, e ponto final.

— Então me dê um motivo que faça sentido.

O Albert-nii-sama ficou em silêncio. O clima de até agora mudou completamente num instante. É isso que chamam de clima tenso. No quarto silencioso, só a minha voz ecoava.

— Eu estou aprendendo esgrima justamente pra ficar mais forte. Acho que preciso saber em que nível estou agora!

— Ainda assim, não posso permitir.

— Isso é um absurdo!

— Alicia!! Já chega!!

Foi a primeira vez na vida que o Albert-nii-sama gritou comigo. Ele já me repreendeu com calma antes, mas nunca tinha gritado assim.

— …Me desculpa, Alicia, foi errado eu levantar a voz.

Dizendo isso, o Albert-nii-sama se recompôs e tentou colocar a mão na minha cabeça. Mas, antes disso, afastei a mão dele com um tapa.

— Eu não vou recuar de jeito nenhum.

Albert-nii-sama, eu sou uma vilã, sabe… Sem desviar o olhar nem um instante, encarei o Albert-nii-sama e disse isso.

Saí do quarto em silêncio. No instante em que saí, soltei um suspiro fundo.

Sinto muito pelo Albert-nii-sama e por todo mundo, mas, na verdade, estou completamente satisfeita.

Porque, agora mesmo, fui uma vilã perfeita! Foi tão impressionante que poderia servir de modelo. Fui pro meu quarto pulando levemente.

Na manhã seguinte, quando saí do quarto pra ir treinar esgrima, ouvi vozes conversando no corredor. Essa voz… é o Albert-nii-sama e o Otou-sama?

— Deixei a Ali com raiva.

— Será que já não está na hora de contar o motivo verdadeiro?

Motivo verdadeiro? O que é isso, quero saber.

— Otou-sama, pelo bem da Ali, acho melhor não fazer isso.

Ah, sério!? Fiquei extremamente curiosa!

— Me contem, por favor.

Entre a culpa por ter escutado escondida e a impaciência de querer saber o motivo, acabei aparecendo na frente dos dois sem querer.

— Ali…

O Albert-nii-sama fez uma cara sem graça. Fique tranquilo, Nii-sama, já não estou mais brava com o que aconteceu ontem. …Mas eu sou uma vilã, não vou perdoar tão fácil assim.

— Alicia, você estava ouvindo a nossa conversa?

— Sim, Otou-sama. Qual é o motivo verdadeiro?

O Otou-sama fechou a boca. Eu tenho o direito de saber, com certeza.

— Otou-sama?

— Alicia, vou te contar quando você tiver quinze anos e for pra academia de magia. Pode ser assim?

Faltam mais cinco anos inteiros pra academia de magia. Será que é algo que não pode ser contado antes disso?

Mas, se eu insistir aqui, ele não vai contar mesmo, então não tenho escolha a não ser aceitar.

— …Entendido, Otou-sama.

Assim que eu disse isso, meio a contragosto, o Otou-sama disse "boa menina" e acariciou minha cabeça. Queria que parassem de me tratar como criança, mas, bem, dez anos ainda é criança mesmo.

— Ali, por que você de repente ficou tão madura assim? Você pode continuar sendo mimada comigo, sabia?

O Albert-nii-sama disse isso com uma expressão um pouco triste. Olhando nos olhos dele, dá pra perceber claramente o quanto ele me valoriza.

É verdade que, agora, não tenho mais aquele jeitinho infantil de antes… Mas não tem jeito. Minha decisão está firme. Não posso mais voltar a ser quem eu era.

— Senhor Albert, já está quase na hora.

Enquanto eu pensava nisso, uma criada veio chamar o Albert-nii-sama, e a conversa terminou sem nenhuma resolução clara.

Não queria ser tratada como criança só por ser criança.

Talvez por causa do que aconteceu de manhã com o Otou-sama e o Albert-nii-sama, esse sentimento me dominou. Normalmente eu ia escondida à noite, temendo ser descoberta saindo às escondidas, mas hoje eu já não estava mais me importando com isso. Decidi ir ao vilarejo da pobreza em plena luz do dia.

A floresta, sob a luz do sol, não dá nenhum medo. Puxei o capuz bem fundo e atravessei a névoa. Realmente, mesmo de dia, não se vê o sol ali. Parece um lugar abandonado pelo mundo inteiro… Um contraste enorme com a cidade.

Depois de dois anos vindo aqui sem parar, até esse cheiro eu já me acostumei. Entrei no vilarejo e fui avançando passo a passo.

Mas, diferente da noite, a visão um pouco mais clara do vilarejo da pobreza me fez tremer de horror.

Casas em ruínas, impossíveis de imaginar que alguém more ali; vozes de gente brigando ecoando por todo lado, talvez por não ter pra onde ir. E os moradores estavam cobertos de feridas por todo o corpo. À noite eu não conseguia ver, mas agora dava pra notar respingos de sangue espalhados pelo chão em vários pontos.

Meu corpo tremeu de medo. As roupas dos moradores estavam praticamente rasgadas por completo. Pelo próprio cheiro corporal deles, dava pra saber que a condição sanitária ali era péssima. Afinal, a única água que já vi ali era a água suja daquela fonte.

De repente, ouvi o choro alto de uma criança. Olhei em direção à voz e vi um garotinho pequeno caído no chão, sangrando pela cabeça. No campo de visão dele, estava um homem enorme segurando uma barra de ferro. A barra estava coberta de sangue.

Aquele sangue… é do garotinho? Por que aquele homenzarrão está rindo?

O homem, escancarando a boca numa risada alta, tinha só um dente na frente. Arrastando devagar a barra de ferro, foi se aproximando do garotinho. Meu corpo não parava de tremer.

— Alicia, por que você está aqui a essa hora?

A voz do senhor Will veio de trás de mim. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me empurrou de volta em direção à névoa.

— Volte pra casa hoje. Nunca mais venha aqui nesse horário de novo.

Fui empurrada, atordoada, pra fora da névoa. Depois, caminhei devagar pela floresta. Ainda não conseguia processar o que tinha acabado de acontecer. Aquilo ali… era o verdadeiro vilarejo da pobreza.

— Senhora Alicia! Onde a senhora estava?

A Rosetta veio em minha direção.

Fiquei olhando pra Rosetta, ainda atordoada.

— Senhora Alicia? Aconteceu alguma coisa?

A Rosetta espiou meu rosto de perto. O que será que aconteceu com aquele garotinho… Eu não consegui fazer nada. Só fiquei parada, olhando, sem agir. Fiquei paralisada de medo.

— Senhora Alicia?

Não consegui estender a mão…

Nunca senti tanta frustração assim na vida. Como eu sou fraca. Como eu tenho coragem de dizer que quero ser uma vilã. Uma raiva enorme de mim mesma foi subindo.

— A senhora está bem?

A Rosetta sacudiu meu ombro, olhando pra mim com preocupação.

— Vou pra biblioteca…

Só murmurei isso e fui em direção à biblioteca. Preciso ficar mais forte… e, pra isso, primeiro preciso descobrir como o vilarejo da pobreza chegou a esse ponto.

Fiquei procurando, sem parar, livros sobre o vilarejo da pobreza. Subi numa banqueta e vasculhei cuidadosamente desde a prateleira mais alta.

…Ah, isso não é um livro sobre magia?

E foi assim que, por acaso, o livro que eu peguei era sobre os tipos de magia. Por que, justo quando eu procurava tanto, não achava, e agora, sem procurar, encontro logo!? Olhei os livros ao redor daquele, mas não havia mais nenhum relacionado a magia. Será que alguém colocou só esse aqui por engano?

De qualquer forma, virei as páginas e olhei o índice. Magia da água, magia de luz… achei! Magia das trevas! Abri a página do meu próprio elemento, o das trevas.

Então a magia das trevas também tem níveis. Do nível 1 até onde vai mesmo… Folheei rapidamente até a última página da seção de magia das trevas.

"Nível máximo: desconhecido"

Desconhecido!? …Ah, é isso, lembrei — as magias de trevas, luz, água, vento e fogo têm nível máximo desconhecido. O que está registrado aqui vai só até o nível 100. E as únicas pessoas que, no jogo, aparentemente ultrapassam esse nível são a heroína e o senhor Duke…

Isso quer dizer que, por mais que eu me esforce, jamais vou conseguir ultrapassar o nível 100? …Mentira. Que jogo mais injusto. Ah, quero reclamar com quem administra esse mundo.

…Mas espera, a Alicia é do tipo que, quando tenta, consegue. Talvez, se eu treinar pesado a partir de agora, eu consiga ultrapassar o nível 100. Bom, primeiro preciso conseguir usar magia de nível 1. Por enquanto, vou só ver que tipos de magia existem.

Fui olhando em ordem, a partir do nível 1. Só de dizer "magia das trevas", na prática não existem tantas magias exclusivas assim.

No nível 10, dá pra usar uma magia que limpa coisas sujas!? Isso é útil. Como eu sempre acabo sujando meus vestidos, quero muito aprender essa.

Continuando a leitura, encontrei uma nota de aviso na página do nível 50.

"Só grandes nobres conseguem usar o nível 50."

Ah, então, já que a nossa família é uma das Cinco Grandes Famílias Nobres, eu também consigo, se eu treinar. Pensando bem, a Alicia do jogo nem chegava perto do nível 50… Bom, isso eu deixo de lado por agora.

…Hmm hmm. No nível 50 dá pra fazer paredes!? Ou seja, quem criou aquela parede de névoa no vilarejo da pobreza foi um grande nobre.

Cheia de ânimo repentino, continuei folheando, até parar numa página.

…Magia de transferir as próprias coisas pra outra pessoa?

"Nível 87 — Magia de transferir as próprias coisas pra outra pessoa.
Permite transferir aquilo que se possui — ou seja, órgãos, pele, cabelo, globos oculares — para outra pessoa.
Especialidade: magia das trevas."

Globos oculares…? Dá pra transferir até os olhos!? Então quer dizer que eu poderia transferir meus olhos pro senhor Will. Voltei algumas páginas e li o aviso do nível 80.

"Nível 80 — Tempo de treinamento: três anos."

Virei a página.

"Nível 90 — Tempo de treinamento: cinco anos."

…Demora bastante mesmo. O caminho é difícil, mas não vou desistir. Continuei folheando.

"Nível 100 — Método de aquisição não revelado."

Que explicação mais displicente… Realmente preciso reclamar com quem administra isso.

…Quer dizer que a heroína e o senhor Duke, que já ultrapassaram o nível 100, são verdadeiros monstros. Aliás, é injusto demais uma plebeia conseguir ultrapassar o nível 100. E, se bem me lembro, ela também consegue usar todos os tipos de magia.

…Realmente não consigo gostar dela. Dá até pra entender por que a Alicia sentia vontade de implicar com a heroína.

— Senhora Alicia! Todo mundo está na sala de visitas!

A Rosetta entrou na biblioteca. Como será que ela sabia que eu estava aqui…?

Aaaaah! É verdade, quando voltei do vilarejo da pobreza, sem querer disse que ia pra biblioteca. Naquela hora, meu cérebro não estava funcionando direito. Que droga…

Mas acho que a Rosetta não ficou surpresa quando eu disse que ia pra biblioteca. Por que será…? Três anos atrás, se eu tivesse dito que ia pra biblioteca, ela com certeza teria feito uma cara de espanto.

Pensando distraidamente nisso, guardei o livro e fui pra sala de visitas.

Na sala de visitas estavam meus irmãos, o senhor Gale, o senhor Curtis e o senhor Duke. Será que vieram depois da aula na academia?

— Boa noite.

Quando cumprimentei, o Albert-nii-sama se aproximou de mim. Ao ficar bem na minha frente, estendeu um saquinho cheio de macarons. Meu doce favorito!

— Ali, desculpa por ontem.

O Albert-nii-sama disse isso com uma expressão de arrependimento.

— O senhor está me dando isso?

— Sim.

Dizendo isso, o Albert-nii-sama sorriu. Segurei o saquinho de macarons e fiquei olhando. Que aparência deliciosa. Parecem joias. Coloridos, só de olhar já dá alegria no coração.

— Muito obrigada, Albert-nii-sama.

Sem querer, meu rosto relaxou num sorriso enquanto eu dizia isso. …Ih, eu fiz de novo. Ainda não tinha decidido te perdoar, mas, quando relaxo a guarda, minhas verdadeiras cores sempre acabam vazando.

Cruzei o olhar com o senhor Duke. Não queria ser olhada com esses olhos. Eu sou uma vilã, sabe? Não sou o tipo de alvo pra um príncipe olhar com essa… gentileza toda.

— Senhor Albert, Sua Majestade o rei acaba de chegar.

Hã!? O rei veio até esta mansão? O que será que ele quer? Por que ninguém mais está surpreso? É o rei. Será que já sabiam?

Ouvi um toc toc, e a porta se abriu devagar. Realmente, o rei tem uma aura impressionante.

Fiz uma reverência profunda. Dando uma espiada de canto de olho, vi mais gente atrás do rei.

Serão pessoas importantes? …O Otou-sama também está lá.

— Levantem a cabeça.

A voz grave e cheia de autoridade do rei ecoou pela sala. Ao lado do rei, havia quatro senhores de rosto bonito, com aquele charme que só a idade traz. Provavelmente os chefes das Cinco Grandes Famílias Nobres. Os pais dos rapazes bonitos também são todos bonitos, viu…

— Boa noite. Eu sou Evans Joan.

O homem de cabelo cinza-claro, logo ao lado do rei, disse isso. Evans? Então deve ser o pai do inteligente senhor Gale.

— Eu sou Smith Neville.

O próximo a se apresentar tinha cabelo dourado — já deu pra saber na hora que era o pai do senhor Finn.

— Hudson Derek.

Então altura também é coisa de família. É idêntico ao senhor Eric. E, depois, o Otou-sama não se apresentou… O que será que está acontecendo, todos os pesos-pesados do reino reunidos assim? Será que houve algum incidente?

— Alicia, quero te fazer algumas perguntas.

O rei disse isso, olhando pra mim. …Eu de novo? Vou ser interrogada agora?

— Você gosta deste reino?

Como a pergunta era completamente diferente do que eu imaginava, fiquei paralisada. Será que isso é um teste de patriotismo? Sem hesitar, eu ia responder que sim, mas, no instante em que ia falar, veio à minha cabeça a imagem do vilarejo da pobreza. Se eu respondesse com sinceridade, meu segredo de frequentar o vilarejo poderia vazar.

Enquanto eu ficava em silêncio, sem saber o que fazer, o rei abriu a boca.

— Então, vou mudar a pergunta. O que você acha do jeito como este reino é governado?

Não entendo o que o rei quer de mim. Ainda tenho só dez anos, sabe?

Claro que meu lamento não chegaria ao rei, então respondi o que me veio à cabeça.

— Não gosto do favoritismo em relação à nobreza.

— Não gosta do favoritismo?

— Sim. Odeio.

Todos me olharam com desconfiança.

— E por que isso?

O senhor Joan perguntou, como se estivesse me sondando.

— Porque isso faz com que pessoas incompetentes acabem no comando.

No instante em que eu disse isso, o rosto de todo mundo escureceu. Parece que consegui dar uma resposta bem digna de vilã.

— Está nos insultando?

O senhor Joan disse isso me encarando com raiva. É verdade que dá pra entender a irritação dele, mas eu preferia que ele não olhasse pra mim com tanta hostilidade assim. Uma criança de dez anos normal choraria.

— Não estou dizendo que todos são assim. Só estou dizendo que só porque alguém consegue usar magia, isso não significa que a pessoa mais capaz do reino esteja no topo.

— O que você quer dizer com isso?

— Cuidado com as palavras.

Seguindo o comentário do rei, o senhor Joan falou num tom severo.

— Peço desculpas. Foi um deslize meu.

Diante do olhar intimidador do senhor Joan, decidi me calar por um instante. Foram vocês que perguntaram, que falta de educação.

— Continue.

Mas o rei disse isso. O senhor Joan exclamou "Majestade!?". É natural que fique surpreso, já que estão sendo insultados. …Mas eu não estou dizendo nada de errado. E, além disso, uma vilã não pode recuar aqui. Inspirei levemente e endireitei a postura devagar.

— Pensando em termos de inteligência, existem muitas pessoas mais sábias que a nobreza. O que quero dizer é que ser capaz de usar magia e ser inteligente são coisas completamente diferentes. Ou seja, este reino está numa situação em que talentos verdadeiramente capazes não conseguem exercer seu potencial — um tesouro sendo desperdiçado.

— Então, você aceitaria perder sua posição atual?

O olhar do rei se voltou pra mim, como se estivesse lendo minha mente. Senti minha própria pulsação acelerar.

— Eu apenas tive a sorte de nascer como filha mais velha da família Williams; não me tornei nobre por mérito próprio. Não estou em posição de reclamar mesmo que essa posição me seja tirada.

Diante das minhas palavras, o rei arregalou os olhos. O senhor Duke também estava com uma expressão de descrença, os olhos bem abertos. Será que eu disse algo tão surpreendente assim…?

O senhor Joan me olhou com um olhar avaliador, e por um instante um silêncio caiu sobre o ambiente.

— Alicia, pode voltar pro quarto.

O Otou-sama disse isso, sorrindo pra mim, como se quisesse mudar o clima. O que foi esse momento, afinal…?

Fiz uma reverência profunda e me retirei da sala.

Naquela noite, fui até o vilarejo da pobreza ver o senhor Will. Como dessa vez é à noite, o senhor Will não vai ficar bravo, né.

— Boa noite.

Assim que entrei na casa dizendo isso, vi alguém deitado na cama do senhor Will. Era o garotinho que eu tinha visto de dia. Ainda bem que ele está bem…

Mas dava pra ver que o pano surrado enrolado na cabeça dele estava manchado de sangue. Aqui nem tem faixa direito, né. E esse menino tem hematomas pelo corpo inteiro… Parece estar sofrendo muito.

— Ele está com febre.

O senhor Will disse isso. Me aproximei da cama e coloquei a mão na testa dele. Que febre alta.

Rasguei um pedaço da própria roupa que eu estava vestindo. Tirei o pano enrolado de qualquer jeito na cabeça dele e coloquei, no lugar, o pedaço rasgado da minha roupa. O sangramento tinha parado, mas, se continuasse assim, o ferimento ia infeccionar. …Mas eu não podia fazer mais nada além disso. Só resta observar por um tempo.

— Alicia, venha aqui.

O senhor Will disse isso numa voz gentil. Sentei na cadeira, de frente pra ele, como sempre.

— Foi o senhor Will quem salvou esse garotinho?

O senhor Will balançou a cabeça devagar, com uma expressão triste.

— Depois que aquele homenzarrão foi embora, eu o carreguei até aqui.

— Ninguém mais ajudou?

— Neste vilarejo, todo mundo está desesperado tentando garantir a própria vida de hoje pra amanhã — ninguém tem espaço no coração pra se importar com os outros. Todos estão se agarrando desesperadamente à própria sobrevivência.

O senhor Will disse isso com um sorriso triste.

— Eu não penso em melhorar o mundo nem em ajudar ninguém, mas… eu quero que o senhor Will continue vivo amanhã também.

O senhor Will acariciou minha cabeça com aquela mão grande. A mão do senhor Will, de um jeito estranho, sempre me acalma.

— Alicia, vou dizer de novo: nunca mais venha aqui em plena luz do dia.

— Aquilo que eu vi hoje… é coisa comum por aqui?

O senhor Will assentiu.

— Não existe ninguém que consiga usar magia aqui?

— Tinha um nobre decadente, mas ele já morreu.

— Ah… entendo.

— Aquele menino é muito inteligente. Um gênio.

O senhor Will disse isso olhando na direção do garotinho, que gemia de dor. Vindo do senhor Will, deve ser realmente muito inteligente mesmo. Quero conversar com ele. Pra isso, preciso salvá-lo primeiro…

Saí da casa do senhor Will e corri em direção à mansão. Isso não é caridade nenhuma — é só porque eu quero conversar com ele. É pelo meu próprio interesse. Repetia isso pra mim mesma, enquanto corria.

Enchi uma bolsinha pequena com faixas, pomada, um frasco de água limpa e os macarons que o Albert-nii-sama tinha me dado. Além disso, preciso de algum remédio pra baixar a febre.

Ao olhar o relógio, já passava das duas da manhã.

Já não dá mais pra voltar ao vilarejo hoje. Por enquanto, vou comprar o remédio na cidade amanhã.

Decidida a isso, caí na cama e dormi na hora.

— Senhora Alicia~

Ouço a voz da Rosetta. Que barulho logo de manhã.

— Senhora Alicia~!

Normalmente ela não vem me acordar… Abri os olhos de leve e olhei o relógio. Espera, dez horas?

Acordei completamente, chocada. Em três anos, nunca tinha dormido até tarde assim… O treino de esgrima também já acabou. Podiam ter me acordado mais cedo.

Não, isso é responsabilidade minha, não posso culpar os outros. Me troquei correndo, peguei dinheiro e saí correndo de casa. Gritei "vou pra cidade" pra Rosetta, e, surpreendentemente, ela aceitou sem estranhar. Parece que, ultimamente, a Rosetta já está acostumada com o meu comportamento.

Fui a cavalo até a cidade e abri devagar a porta da loja do senhor Paul. Ah, realmente, as plantas daqui são tão agradáveis. Queria continuar sentindo esse ar fresco e revigorante pra sempre.

— Bem-vindos~

Do fundo, o senhor Paul saiu, e o ambiente inteiro ficou ainda mais gentil.

— Alicia! O que houve?

O senhor Paul parecia surpreso por eu ter vindo sozinha.

— Eu queria pegar um pouco de Josiah.

— Josiah? Alguém está com febre?

…O senhor Paul é próximo dos meus irmãos, né. Seria péssimo se ele descobrisse o motivo. O que eu faço…

Enquanto eu ficava calada sem conseguir dizer nada, o senhor Paul pareceu entender e, com um sorriso gentil, me entregou um saquinho de Josiah, dizendo "aqui está".

— Não vou perguntar o motivo.

— …!

Recebi o saquinho, agradecida, com o coração cheio. O senhor Paul é mesmo um adulto de verdade. E ainda por cima, um adulto realmente maravilhoso. Afinal, mesmo sendo nobre, abriu essa loja de plantas com as próprias forças.

— Er, quanto eu devo…

— Dessa vez não precisa. É uma recompensa por ter acertado sobre o Chad da vez passada.

O senhor Paul disse isso sorrindo. Já decidi que, nesta vida, vou viver como vilã, mas, se eu renascer de novo, quero ser uma pessoa como o senhor Paul.

— Muito obrigada.

Fiz uma reverência profunda e saí da loja do senhor Paul.

Assim que cheguei em casa, me tranquei na biblioteca. Como sempre, procurei livros de magia. Já estava cansada de ser tão impotente. Preciso ficar mais forte.

Fui examinando as estantes com atenção redobrada. Foi então que meus olhos captaram um livro grosso e pesado, claramente diferente dos outros ao redor.

…Será que é… Estendi a mão devagar pra aquele livro. Virei as páginas e conferi o conteúdo.

Não pode ser. Finalmente encontrei. Um livro que explica como usar magia.

— Consegui!

…Não consegui evitar dar um pulinho de alegria. Que perigo. Ainda bem que não tinha ninguém por perto. Se o senhor Duke, por exemplo, tivesse visto essa cena agora, seria um desastre. Preciso tomar mais cuidado daqui pra frente.

Abri a página que explicava como usar a magia das trevas de nível 1 e li rapidamente.

"Nível 1 — Quem tem poder mágico consegue aprender na hora."

Quer dizer que dá pra fazer isso já a partir de agora? Se eu conseguir dominar até o nível 100 antes de entrar na academia de magia, será que nem vou precisar mais ir pra lá? Bom, no meu caso, eu quero ir justamente pra implicar com a heroína, mas…

A academia de magia tem seis anos de duração, se bem me lembro. Então, quando eu entrar, a heroína já estará no último ano. Nossa, a Alicia realmente tinha muita coragem, hein. Implicar com uma aluna do sexto ano sendo eu do primeiro — isso sim é ser vilã de verdade! Mal posso esperar pra entrar.

Nível 1… magia de fazer objetos flutuarem. Por enquanto, vou tentar. De alguma forma, estou nervosa. É a primeira vez que uso magia na vida.

"Imagine o objeto flutuando, e estale os dedos indicador e polegar produzindo um som."

Estalar os dedos é isso mesmo, tipo um estalinho? Travar logo no nível 1 seria uma vergonha pra uma vilã. Vou fazer valer a pena.

Coloquei o livro no chão, fechei os olhos e imaginei o objeto flutuando. Ao mesmo tempo, estalei os dedos.

Ah, saiu um som surpreendentemente bom. Abri as pálpebras devagar. Na minha frente, o livro estava flutuando suavemente no ar. …Consegui?

Consegui! É magia mesmo! Não está pendurado em nenhum fio, é magia de verdade!

Nunca imaginei que fosse tão fácil de usar assim. Achei que fosse bem mais difícil. Mas ainda é só o nível 1… Li de uma vez as páginas do nível 1 ao 5.

Então magia se usa só com intenção e imaginação, né… Certo, já enchi minha cabeça o suficiente com o método, agora só falta praticar.

Fiquei usando magia sem parar. Magia de cortar papel, magia de branquear os dentes, magia de cortar unhas, magia de mover objetos… Desde as que pareciam úteis até as que me deixavam em dúvida se realmente tinham alguma serventia.

Perdi a noção do tempo, totalmente absorta. Em um único dia, consegui dominar até o nível 5. Bom, até esse ponto, deve ser um nível que qualquer um consegue aprender fácil. Ainda tenho muito o que percorrer.

— Senhora Alicia~

Ouvi a voz da Rosetta ao longe. Hora do jantar! Pensando bem, estou faminta.

— Já vou!

Corri, trotando, em direção ao salão de jantar, transbordando de satisfação.

Do lado de fora, soprou uma brisa suave, virando a página do livro de magia que a Alicia estava lendo.

O aviso escrito ali foi iluminado pela luz do luar.

"Só é possível usar magia a partir dos treze anos."

Naquela noite, peguei minhas coisas e fui até a casa do senhor Will. O garotinho estava gemendo, com uma expressão de ainda mais sofrimento que ontem. O senhor Will enxugava o corpo dele com muito cuidado. Me aproximei da cama, tirei o frasco da bolsa e entreguei ao senhor Will.

— O que é isso?

— É água limpa.

O senhor Will murmurou "obrigado" numa voz baixinha.

— E também isto.

Entreguei a erva que o senhor Paul tinha me dado.

— Josiah, é?

Como esperado do senhor Will. É impressionante que ele consiga identificar só pelo toque e pelo cheiro…

O senhor Will colocou o Josiah dentro do frasco. A erva se dissolveu, transformando a água num verde bem clarinho. O senhor Will aproximou o frasco da boca do garotinho, que se debatia, e derramou algumas gotas dentro. Na hora, a condição dele começou a se estabilizar. O efeito do Josiah aparece em poucos segundos, assim que entra na boca.

Peguei o pedaço de pano que eu tinha enrolado na cabeça dele ontem. Apliquei a pomada que eu tinha trazido no ferimento, já quase infeccionando, e enrolei uma faixa nova por cima.

— Alicia, muito obrigado mesmo.

O senhor Will agradeceu de novo.

— Eu… estou fazendo isso só pelo meu próprio interesse, então não precisa agradecer.

Isso mesmo, sou uma mulher que coloca o próprio objetivo acima de tudo. Ajudar esse garotinho também é só porque eu quero conversar com um menino inteligente.

Diante das minhas palavras, o senhor Will fez uma expressão indescritível. Eu não quero ser desprezada pelo senhor Will, mas também não quero mentir.

— Mesmo assim, obrigado.

O senhor Will me disse isso numa voz calorosa.

— Qual é o nome dele?

— Jill.

— Jill… quantos anos ele tem?

— Seis anos.

— E os pais dele…

— Foram mortos por alguém deste vilarejo.

Mortos? Não morreram de doença, foram assassinados?

O senhor Will fez uma expressão triste, e, depois de uma pausa, abriu a boca.

— Alicia, este lugar é assim mesmo. Aqui se reúnem as pessoas que o reino abandonou.

— Isso é um absurdo.

— Sim, eu também acho. Mas não há nada que se possa fazer.

O que a heroína está fazendo? Vá logo resolver isso.

…Espera, por que estou dependendo da heroína? Mas, mesmo que eu melhorasse essa situação, não haveria nenhum benefício pra mim. Ah, chega! Eu sou uma vilã de convicções firmes. Não vou salvar o vilarejo da pobreza. …Mas, mesmo assim, meu coração fica meio incomodado.

— Por hoje, vá pra casa. Você não precisa se preocupar com isso.

O senhor Will disse isso e acariciou minha cabeça.

— Aqui… comam vocês dois, por favor.

Entreguei ao senhor Will o saquinho cheio de macarons coloridos.

Sentindo, talvez, a falta de ânimo na minha voz, o senhor Will acariciou minha cabeça mais uma vez e murmurou "vai ficar tudo bem".

De alguma forma, estou me sentindo mal… Será que peguei alguma bactéria do Jill? Minha garganta dói como se estivesse pegando fogo, sinto náusea, e o suor não para. Será que dá pra pegar algo assim num único dia?

— Alicia, todo mundo veio te ver.

Ouvi a voz do Alan-nii-sama do outro lado da porta.

— Alicia?

Não consigo falar. Minha garganta dói demais. Ah, será que eu vou morrer assim mesmo…

— Alicia, você está aí?

Ouvi o som da porta se abrindo. Com a consciência já meio nublada, olhei em direção ao Alan-nii-sama.

— Alicia!! Você está bem!?

Não estou bem. Por favor, não fale tão alto.

Protestando sem conseguir emitir voz, soltei um gemido pra pedir ajuda ao Alan-nii-sama.

— Alguém!!

Senti várias pessoas correndo em disparada pra dentro do quarto. Até a vibração dos passos me fazia sofrer. Podiam ficar quietos, por favor?

— O que aconteceu?

Ouvi a voz do Albert-nii-sama. Já nem consigo abrir os olhos.

— A Alicia está com uma febre altíssima.

— Aquela Ali-chan, forte que nem um gorila, está assim!?

Senti vontade de matar alguém, senhor Curtis.

— Por enquanto, vamos medir a temperatura dela.

O Albert-nii-sama colocou a mão sobre minha testa.

— Trinta e nove graus…

Espera, como ele mediu isso? Magia? Ah, é verdade, acho que existe uma magia pra medir temperatura corporal. Fiquei pensando que seria bom ter um termômetro, mas parece que, no fim das contas, é bem útil mesmo.

— É uma febre bem alta.

Ouvi a voz do senhor Duke.

— Se bem me lembro, tinha Josiah no depósito, não tinha?

Não acreditei no que ouvi da boca do Albert-nii-sama. O quê? Josiah estava aqui em casa?

O motivo de eu ter ido até a cidade, então…!

…Ah, não aguento mais… minha consciência está ficando nublada. De alguma forma, até respirar está ficando difícil.

— Alan, vá pegar o Josiah no depósito.

— Por enquanto, vamos sair do quarto.

— A gente não pega essa bactéria mesmo, viu~

Já nem sei mais de quem são as vozes. Fico muito grata que estejam saindo do quarto. Falar em voz alta é tão sofrido assim pra quem escuta. Espera, o que foi que disseram agora mesmo? Não pegam a bactéria? Como assim? Por que só eu estou sofrendo tanto com essa bactéria?

Não dá, minha cabeça não funciona mais. Uma vilã não deveria mostrar fraqueza, mas, agora, não tem jeito. Porque eu sinto que estou mesmo prestes a morrer! Nunca me senti tão mal assim na vida. Enquanto pensava nisso, sem perceber, acabei adormecendo.

Acordei com o barulho da porta se abrindo. A dor de cabeça está ainda pior do que antes. Parece que alguém está martelando minha cabeça sem parar. Sinto que ela vai se partir ao meio.

Nem na vida passada eu vivi tanto tempo assim, será que vou morrer aos dez anos agora? Que crueldade.

Não, não posso desistir. Eu vou virar a maior vilã do mundo! Vou ficar registrada na história como a maior vilã de todas! Ainda nem encontrei a heroína direito!

…Mesmo tentando encorajar meu próprio coração assim, a dor não muda em nada.

Ainda assim, quem será que entrou agora mesmo? Abri os olhos, bem de leve.

…Senhor Duke? Vi de relance um leve tom de azul claro nos cabelos dele. Por que o senhor Duke está no meu quarto? Ele deve ter ouvido meus gemidos. Que sensação de ter mostrado meu ponto fraco pra alguém. Meu estado agora é realmente miserável.

— Alicia, beba isto.

O senhor Duke me estendeu um copo. Agora eu nem tenho força pra segurar um copo. Sem conseguir levantar o corpo, como eu vou beber isso?

— Por favor… me deixe… em paz.

Disse só isso, suportando a dor de cabeça.

Me desculpe, senhor Duke. Mas eu realmente estou sofrendo, queria que entendesse.

…Houve um silêncio por um instante. Será que fiz ele ficar bravo? Só dava pra ouvir minha respiração ofegante e meus gemidos. Não sei que expressão o senhor Duke está fazendo agora.

De repente, senti a mão do senhor Duke pousar no meu pescoço, e fui erguida devagar. Sem tempo nem pra ficar surpresa, os lábios do senhor Duke se sobrepuseram aos meus.

Ilustração

…Hã?

Consegui sentir o remédio descendo pela minha garganta. Não conseguia nem pensar direito, entre a falta de raciocínio e o choque.

O que está acontecendo agora?

Engoli o remédio que foi despejado dentro da minha boca, por puro reflexo. Assim que percebeu que eu tinha engolido, o senhor Duke afastou os lábios.

Aos poucos, meu corpo foi ficando mais leve, e minha respiração se acalmou. Seria o Josiah? Realmente, o efeito é rápido mesmo. Sentindo na pele, dá pra entender de verdade o quanto é incrível.

…Espera, isso conta como meu primeiro beijo? Não, foi só socorro médico. E, pensando na idade, eu tenho dez anos. O senhor Duke tem quinze. Cinco anos de diferença — deve ter sido só a gentileza dele salvando uma garotinha pequena mesmo…

Espera, Alicia, pensa com calma. Alguém que trata a outra pessoa com aversão não faria a ponto de dar comida boca a boca só pra ajudar, não é?

Será que, por acaso, o senhor Duke tem algum interesse em mim…? Mas o senhor Duke devia se apaixonar pela heroína, não é essa a história!?

Aliás, a heroína já não deveria estar na academia de magia por essa altura? O senhor Duke já deve tê-la conhecido… Será que os dois ainda não se apaixonaram? Se não fosse assim, ele não faria isso de boca a boca comigo, não é?

As dúvidas foram se acumulando, uma atrás da outra. Preciso pensar em algo extremamente importante, mas minha cabeça ainda está nublada demais pra organizar tudo.

— Se acalmou?

O senhor Duke me puxou pra perto, murmurando isso numa voz gentil, acariciando minha cabeça. Certo, agora vou morrer por outro motivo diferente.

Meu coração parece que vai saltar pra fora. De algum jeito, consegui manter a calma.

…Finalmente lembrei. Os meninos nobres, desde pequenos, tomam pequenas doses de veneno pra criar imunidade e formar anticorpos. É por isso que não pegam bactérias.

Mesmo depois de me deitar, sinto pela presença que o senhor Duke continua ali do meu lado. Quando será que ele vai embora… Não quero muito que ele veja minha cara dormindo. Mas, seja pelo efeito colateral do remédio ou não, o sono começou a me dominar aos poucos. Assim como o efeito é rápido, o efeito colateral também é rápido, hein. E assim, acabei adormecendo de novo.

Em um dia, a febre baixou, e fiquei completamente recuperada. Quando a gente adoece, entende de verdade o valor de estar saudável normalmente. Não vou pensar demais no… socorro médico do senhor Duke ontem.

Mais importante que isso, o problema é que a heroína já está na academia de magia.

Era a coisa mais importante de tudo, e eu tinha esquecido completamente. …Como estará a situação agora? A heroína com certeza já deve estar se aproximando dos alvos de conquista, não é? Mas nunca ouvi o Albert-nii-sama comentar nada sobre a heroína. Será que ela realmente entrou na academia? Uma plebeia capaz de usar todos os tipos de magia deveria virar um boato enorme.

Será que, afinal, por ser plebeia, não conseguiram deixá-la entrar na academia? Mas, pelo que me lembro, a heroína tem status de aluna bolsista especial, então isso não deveria importar… Fico curiosa pra saber como está a situação.

Então só resta uma coisa a fazer: invadir a academia de magia! Assim consigo ver a heroína pessoalmente, e também preciso coletar informação por conta própria.

Ah, finalmente vou conhecer a heroína. Quando se tem uma boa ideia, é melhor agir rápido — e assim corri, trotando, em direção ao estábulo.

Consegui entrar na academia sem problemas, mas… fiquei de boca aberta. Quanto dinheiro será que gastaram pra construir um lugar desses?

Já conhecia a aparência pelo jogo, mas, vendo ao vivo, o impacto é impressionante. Realmente, só ser nobre já explica por que só nobre consegue entrar aqui.

As janelas são de vitral — o que será que fazem se alguém quebrar brincando de bola? Pensando nessas bobagens, fui caminhando devagarzinho.

…Ei, quem administra esse lugar, essa academia não é grande demais? Não precisava ser tão espaçosa assim, não é? Eu devia estar indo em direção ao prédio principal, mas, por que será que agora estou perdida dentro de uma floresta? Aliás, por que tem uma floresta dentro da academia?

— Está perdida?

Sim, exatamente, estou perdida…

— Hã? — solteia sem querer, virando na direção da voz.

— Você está bem?

A dona da voz se aproximou de mim, falando com um tom suave.

Olhos verde-esmeralda, cheios de vida e adoráveis, com o mesmo brilho sedoso de cabelo negro que o meu… Não me diga que é a heroína!? Ter a mesma cor de cabelo que eu… normalmente ninguém escolheria a mesma paleta de cores assim, pra não confundir os personagens!?

— Diga, qual é o seu nome?

Um tratamento completamente infantilizado… Bom, é natural, afinal eu ainda tenho dez anos.

— Não deveria ser a senhorita a se apresentar primeiro?

Diante do que eu disse, a garota que talvez fosse a heroína arregalou os olhos. Deve não ter imaginado que, depois de se preocupar e puxar assunto, receberia uma resposta tão atrevida assim.

— Ah, desculpa. Meu nome é Liz. Kate Liz. Prazer em te conhecer.

— Eu sou Williams Alicia. Nunca ouvi falar da família Kate.

— É que eu não sou nobre.

— !!

Confirmado. Kate Liz é, sem dúvida nenhuma, a heroína deste mundo!

Finalmente a conheci! Como eu queria tanto encontrá-la.

— E então, Alicia-chan, aonde você quer ir?

Alicia-chan…? Que intimidade repentina. Gostaria que ela soubesse seu lugar.

É o que eu queria dizer, mas, infelizmente, eu não me tornei nobre pelo meu próprio esforço. Não posso dizer isso pra alguém como a senhorita Liz, que conquistou por conta própria a vaga de bolsista especial da academia de magia.

— Eu…

Aonde eu quero ir, ela pergunta… Na verdade, meu objetivo de hoje já foi cumprido. Afinal, consegui conhecer a heroína, a senhorita Liz. …Mas, já que vim até aqui, que tal explorar a academia de magia?

— Quero que me leve até o prédio principal.

— Ah, então é por aqui.

A senhorita Liz disse isso com um sorriso angelical. Deve ser um sorriso adorado por todo mundo, mas eu não sou muito fã desse sorriso… É pura inocência demais.

— Aqui está.

A senhorita Liz me guiou até a porta de entrada do prédio principal. …Que descuido meu. Fiquei devendo um favor pra heroína.

— Você veio encontrar alguém?

Os olhos verde-esmeralda dela espiaram dentro dos meus. Que cor tão bonita… Fiquei hipnotizada por um instante, sem querer.

— Alicia-chan?

— Ah? Er… Muito obrigada por me acompanhar até aqui. Bem, com licença.

Falei só isso e fugi correndo pra dentro do prédio. Não posso dizer que vim até aqui pra ver a senhorita Liz. Isso ia parecer que eu sou fã dela.

Que prédio bonito de verdade. Não tem nem uma partícula de poeira. Será que limpam tudo com magia? Nesse horário, provavelmente estão todos em aula, porque não encontro ninguém pelo caminho.

Daqui a cinco anos, eu vou ser aluna daqui. Não custa nada dar uma olhadinha antecipada, não é?

Segui reto pelo corredor extremamente largo. A voz dos professores vazava de cada sala de aula.

Só conteúdo interessante. Queria continuar ouvindo, mas não quero diminuir a diversão de daqui a cinco anos. Vou me segurar.

Quando cheguei bem na pontinha do corredor, encontrei uma pequena porta de madeira. Parece uma porta saída de um conto de fadas.

O que será que tem do outro lado dessa porta? Minha curiosidade está sendo provocada. Ah, quero entrar agora mesmo. Se esse lugar for proibido de entrar… entrar aqui faria de mim uma vilã perfeita? Que maravilha.

Empurrei a porta com força. Ué? Não abre. Será que está trancada? Fiquei tentando de todo jeito, empurrando e puxando a maçaneta com toda a força…

Um estrondo ecoou pelo corredor, e caí sentada no chão.

…Abriu. Era de puxar, então.

Me levantei e sacudi levemente a poeira do vestido. Sinto um leve cheiro de livro… Será que isso é uma biblioteca? Fui avançando. No instante em que entrei, aquele cheiro característico de livro me envolveu.

Que lugar maravilhoso! Parece um ambiente feito especialmente pra dar sossego aos livros. A luz do sol entrando pela janela grande. Mesas e cadeiras de madeira. Livros dispostos meio desorganizados. Respirei fundo. Ah, que sensação de calma. Quero ficar aqui pra sempre.

Fui mais pro fundo da biblioteca. …Um quadro-negro? De perto, é maior que o dobro do meu tamanho. Como será que fizeram um quadro-negro tão grande assim? Enquanto eu observava por um momento, percebi que havia algo escrito lá em cima.

"Como colocar o Reino de Lavarre sob nosso domínio — qualquer um pode escrever livremente sua ideia aqui."

Reino de Lavarre… colocar sob domínio… Girei minha cabeça em altíssima velocidade. Coloquei uma cadeira que estava por perto na frente do quadro, subi nela, e, ao mesmo tempo, comecei a deslizar o giz sobre a lousa.


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