Capítulo 6 – Por Favor, Não Se Esqueça do Seu Familiar
— Senhorita Everett.
— ……………………………..S-Shim…
Quando a esposa de Louis, Rosalie, a chamou, Monica levou uns vinte segundos para responder.
Não estava acostumada a ser chamada de “Senhorita Everett”, o que atrasou sua resposta, e quando percebeu que já estava atrasada, não conseguiu mais achar o momento certo para responder, mas, como Rosalie continuava esperando em silêncio, ela achou que precisava dizer algo, então reuniu toda a coragem que tinha, e o resultado foi apenas aquilo. Era tão vergonhoso que ela só queria morrer.
Porém, Rosalie não zombou da atitude de Monica, e disse com calma:
— Com licença, mas posso perguntar quantos anos a senhorita tem?
— Er, hum… e-eu tenho dezessete anos. A senhora é… mais velha que eu… então… não precisa… colocar “Senhorita” para me chamar…
Enquanto isso, Rosalie observava Monica, que resmungava.
O jeito como ela olhava para Monica era mais como quem examina algo do que quem olha com desdém para uma garota maltrapilha. Em seguida, ela afastou a franja desalinhada de Monica.
— Vou aceitar sua palavra com prazer… Bem, então, com licença, Srta. Everett.
Rosalie então puxou abruptamente as pálpebras inferiores de Monica para baixo.
Monica piscou, surpresa, mas uma voz calma dizendo “não se mexa” a instou a ficar parada.
Além disso, Rosalie instruiu-a a abrir a boca para examinar sua cavidade oral, e inspecionou seu corpo inteiro, incluindo as mãos e as unhas.
— Nenhuma anormalidade no movimento ocular, nenhum sangramento gengival. Porém, a parte interna das suas pálpebras inferiores está branca, e suas unhas também estão brancas. Há outros sintomas, incluindo pele seca, peso corporal baixo demais para a idade… A senhorita apresenta sintomas de desnutrição e anemia. Quantas horas a senhorita dorme por dia?
Diante da pergunta de Rosalie, Monica se remexeu, torcendo os dedos.
Vivendo na cabana e fazendo muitos cálculos, Monica nunca tivera um horário fixo para dormir.
Como os Sete Sábios tinham uma boa renda e não precisavam economizar velas nem óleo de lamparina, ela costumava passar a maior parte do tempo debruçada sobre os números, até que o corpo atingisse o limite e perdesse a consciência.
— Hum… meu horário de dormir… é sempre aleatório…
— Quantas vezes a senhorita come por dia? Que quantidade de comida costuma comer?
— Eu como umas nozes quando estou com fome… às vezes como uns biscoitos…
De qualquer forma, ela só ia dormir ou comer quando o corpo avisava que havia chegado ao limite.
Ela sempre comia apenas o mínimo necessário para saciar a fome, porque ficava com sono quando estava satisfeita.
Quando Rosalie descobriu a situação atual de Monica, passou a perguntar se ela já tivera alguma doença grave no passado ou se tinha alguma alergia alimentar.
Depois de várias repetições das respostas enroladas de Monica e das perguntas repetidas de Rosalie, esta encerrou o interrogatório e chamou Lynn.
O espírito de alto escalão vestido de empregada apareceu rapidamente ao chamado de Rosalie. Foi muito mais ágil do que quando estava diante de seu mestre, Louis.
— A senhora me chamou, Senhora Rosalie?
— Temos uma panela de sopa no forno. Pode esquentá-la para mim, por favor? Além disso, preciso que você deixe um pedaço de pão de molho em leite morno, em fogo baixo.
— Sim, senhora.
Enquanto Lynn fazia uma reverência e se afastava, Rosalie se voltou para Monica e arregaçou as mangas.
Rosalie empurrou os ombros de Monica e a conduziu até o banheiro, enquanto Monica se apavorava sem saber o que ela ia fazer.
— Para transformá-la de volta num ser humano, tudo que a senhorita precisa agora é comer e dormir o suficiente. Mas primeiro, precisa tomar um banho. Manter o corpo limpo é fundamental para manter a saúde.
Rosalie então despiu Monica sem dó, a jogou no banheiro, e a esfregou dos pés à cabeça.
Ela também aparou o cabelo de Monica, que vinha deixando crescer sem cuidado, dizendo: “Se deixar o cabelo cair nos olhos, pode causar doenças oculares.” Não havia hesitação nem reserva em seus movimentos.
Quando Monica já havia trocado de roupa, vestindo roupas velhas de Rosalie, Louis, que estivera ausente por um bom tempo, apareceu.
— Ora, você não está com uma aparência bem mais humana agora?
Que comentário, hein.
Enquanto Monica ficava boquiaberta, Rosalie, que penteava o cabelo dela, lançou um olhar fulminante para Louis.
Apesar de ser mulher, seus olhos eram afiados e carregados de uma intensidade incomum.
— Não acredito que você teve a audácia de trazer uma paciente destas até mim, Louis Miller. De jeito nenhum vou deixar uma garotinha necessitada como essa ir embora desse jeito.
Quando Rosalie mencionou a palavra “paciente”, Monica insistiu com voz abafada: “Eu sou saudável…”
Porém, Rosalie afirmou com firmeza:
— Qualquer um que olhar para a senhorita agora vai considerá-la uma pessoa doente.
O marido tinha seu jeito de falar, e o mesmo valia para a esposa. Não eram muito parecidos, mas tinham um modo de falar semelhante.
Enquanto Monica abria e fechava a boca, Louis olhou de relance para ela e disse:
— Rosalie é médica. Então é melhor você ouvir o que ela diz, minha colega.
De fato, o jeito como ela olhava para Monica era como o de uma médica examinando o estado de uma paciente.
Rosalie era uma mulher quieta, mas tinha a teimosia de uma médica que não deixava um paciente lhe dizer não. E agora, Monica havia sido identificada por ela como paciente.
— A melhor forma de tratá-la é melhorar sua alimentação e seu horário de sono.
Bem nesse momento, Lynn trouxe a comida para os três e a colocou sobre a mesa.
Era uma refeição simples de pão, salada, pato assado e sopa, mas, na porção de Monica, o pão estava embebido em leite e a carne cortada em pedacinhos.
— Não force a si mesma a comer tudo. Está tudo bem em comer pouco de cada vez, só certifique-se de comer de forma equilibrada.
— S-Sim…
Tanto a sopa quanto o pão embebido em leite tinham um sabor leve, mas deliciosos. Fazia tempo que ela não comia uma refeição quente.
Monica costumava esquecer de comer quando estava absorta em seus cálculos, e o mesmo se aplicava à comida. Quando estava absorta comendo, tendia a esquecer de tudo o mais. De qualquer forma, ela se concentrou em comer até que o prato à sua frente ficasse vazio.
É por isso que eu sempre mantenho as coisas simples.
Quando ela esvaziou o prato com voracidade, Rosalie disse “Muito bem”, e colocou um pequeno prato de sobremesa diante de Monica. Era uma torta de cereja.
Mas não havia nenhuma para Louis.
— Rosalie, cadê a minha?
Olhando de relance para Monica, absorta em sua torta de cereja, Louis expressou seu descontentamento.
Rosalie o repreendeu enquanto colocava uma xícara de chá pós-jantar diante de Louis.
— Você tem consumido açúcar demais. Aposto que põe bastante geleia e açúcar no seu chá quando está fora. Pelo menos aqui em casa, precisa reduzir o açúcar.
Dizendo isso, Rosalie afastou o pote de açúcar de perto de Louis.
Louis balançou a cabeça com tristeza e tirou um pequeno frasco do bolso. O rótulo do frasco dizia ser bebida alcoólica.
Quando Louis estava prestes a despejar a bebida forte na xícara de chá, Rosalie tomou o frasco de sua mão rapidamente.
— E nada mais de álcool para você.
— Nossa, você tirou meu açúcar e agora minha bebida também, o que mais vai me sobrar para aproveitar na vida?
— Sou sua esposa e também médica. Então é melhor você ouvir o que eu digo, querido.
Louis, ouvindo exatamente o que ele mesmo dissera a Monica pouco antes, ficou em silêncio e bebeu o chá sem açúcar com uma expressão amuada.
Era raro ver o arrogante Louis sendo colocado em seu lugar, mas Monica, absorta em sua torta, nem percebeu a cena.
Como nota à parte, a ideia de que Nero pudesse estar passando fome dentro da bolsa nunca sequer passou pela cabeça de Monica.